A inteligência de uma mulher limitada.

Ao encontrar-me no corredor anunciou que precisava falar comigo a respeito de assuntos que certamente eram de meu interesse, tendo em vista o fato de eu ser uma “mulher inteligente”, disse ele.

Eu que não sou daquelas que recusam elogios, muito pelo contrário, deleito-me neles, agradeci a sua generosidade e o encaminhei até a minha sala para conversarmos.

“Ana, tenho duas perguntas para te fazer. Posso?”

Antes, quis minha autorização como se fosse tratar de questões puramente íntimas e cujas respostas eu interiormente ensaiava, pois que não desejava ser mal educada e muito menos revelar meus segredos. Saberia afastá-lo de suas curiosidades a meu respeito com a elegância de quem se recusa às expectativas alheias com um sorriso no rosto.

“Claro que pode” – respondi.

“Primeiro, quero saber o que você acha sobre a Terra ser redonda ou plana.”

“Segundo, você acredita que o homem já foi à Lua?”

Com essas duas perguntas, eu é que fui à Lua e voltei no mesmo segundo, pois por elas não esperava.

Acontece que escrevo sobre o cotidiano de uma vida doméstica e comum e só porque escrevo posso assumir ares de quem possui uma inteligência que, na verdade, falta-me para conceber as coisas mais elevadas.

Sempre achei excêntrico esse negócio de a Terra ser redonda, mas tantas coisas estranho e elas continuam a ser o que são apesar do meu espanto. Quanto ao homem ter ido à Lua, não duvido, pois que tantas vezes eu também lá estive e ninguém ficou sabendo.

Não queria frustrar as esperanças desse homem que me questionava a respeito de coisas tão grandiosas como se eu fosse igualmente grande, mas também não poderia enganá-lo e demonstrar-lhe conhecimentos que não tenho. Deus me livre do pedantismo que vivo muito bem sem ele, obrigada.

Então, disse-lhe que são perguntas sobre as quais não me debruço, uma vez que já aceitei a minha ínfima condição diante do infinito Universo e que estou resignada quanto ao fato de existir coisas que jamais entenderei.

Tentei sair pela tangente ao me apoiar em Shakespeare para citar: “Há muito mais coisas entre o céu e a terra do que pode imaginar vossa vã filosofia”. No entanto, ele estava irredutível em seus questionamentos e retrucou: “Mas eu não quero filosofar.”

Eu bem queria ajudá-lo, mas não pude. Precisei revelar que uma das coisas que me leva a escrever é justamente o fato de não saber e que busco com a leitura dos livros apenas um melhor modo de viver e acertar um pouco o meu passo com o passo do mundo para não ficar totalmente à margem.

Tive que assumir a minha falta de interesse no sentido de buscar entender sobre assuntos para os quais eu teria de possuir uma espécie de razão universal, posto que a razão humana é falha e limitada e não ouso com ela afirmar sobre coisas que estão acima de minhas capacidades.

Eu não sei se a Terra é redonda ou plana e isso pouco me importa. Não sei se é verdade que doze astronautas pisaram na Lua e isso também não faz diferença. Dizem que os dois primeiros chegaram por lá em 1969. Nem vou falar o que pensei porque não gosto de ser pornográfica, mas não há como escapar dos mais de 69 que visitam o grande satélite sem sair do lugar.

Enquanto ele me explicava o porquê de acreditar que a Terra é plana e o porquê de ter quase certeza de que o homem nunca foi à Lua, enquanto ele me falava sobre planetas, hemisférios, temperaturas, bases da NASA e foguetes espaciais, eu pensava em como ajudar alguém a lidar com as suas emoções, com o seu dia a dia num emprego desinteressante, com um casamento fracassado, com as rejeições que havia sofrido e com a recusa em aceitar as próprias limitações e aparência.

Eu já havia me perdido naquele emaranhado de coisas que não consigo entender e estava em busca de outras missões, menores que as astronáuticas, mas não menos importantes.

Enquanto ele falava, eu dava uma volta inteira pelo cosmos, onde quase nenhum homem consegue transitar. Embora ele não quisesse filosofar, busquei em Sócrates o que queria dizer-lhe, mas não disse: “Conhece a ti mesmo”.

Penso que se voltássemos nossa atenção a esse conhecimento pouco importaria o Universo com seus planetas e galáxias ou o sexo dos anjos.

Nada sei sobre a imensidão do mundo e nem quero saber. Sei apenas um pouco de mim mesma, mas ainda há territórios inexplorados apesar de habitá-lo há pouco mais de trinta anos.

Quanto à “mulher inteligente” procurada para resolver questões de grande ordem, em verdade vos digo, ela não mais existe nesse planeta, pois em 69 foi à Lua e por lá mesmo deve ter ficado.

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