Dom Casmurro, de Machado de Assis.

Perguntaram-me: “E aí Ana, Capitu traiu ou não?” De pronto, respondi que não, talvez por intuição, mas logo ponderei: “Deixa eu ler novamente o livro, tentar buscar a verdade nas entrelinhas e, em seguida, falo-te sobre as impressões que tive”.

Já que promessa é dívida, tratei logo de cumpri-la, diferente de Bentinho, que não pagava nem mesmo as ave-marias e os padre-nossos prometidos a Deus.

Casmurro é o Bentinho, o Bento de Sant-Iago, e quer dizer homem calado e metido consigo ou homem de hábitos reclusos.

Sozinho em sua casa, no Engenho Novo, diante da monotonia de sua vida, ele decide escrever um livro, o Dom Casmurro, no qual narra a sua própria história.

Bentinho era filho único de Dona Glória que ficara viúva muito cedo. Ele mal se lembrava da figura paterna, salvo pela fotografia do pai existente à casa da mãe.

A mãe prometera a Deus que caso conseguisse ter um filho mandaria-o ao seminário para se tornar padre.

Mais tarde, Bentinho descobriu que a mãe perdera o fruto da primeira gravidez e, ao clamar a Deus por outro filho, transferiu ao nascituro a responsabilidade pelo pagamento  da promessa, tendo recaído sobre Bentinho. Logo ele, meu Deus, que como me referi de antemão, mal pagava as promessas feitas em prol dele mesmo.

O destino de Bentinho, por decisão da mãe, era tornar-se eclesiástico, quem sabe papa, como aludiu certa vez seu tio Cosme.

Esse destino que quiseram dar a ele era-lhe desconhecido até o momento em que o descobriu por escutar uma conversa entre José Dias, agregado da casa, e sua mãe, onde aquele indagava a Dona Glória quando mandaria o filho ao seminário.

Ao ouvir o que o esperava, Bentinho ficou desesperado. Como abandonar Capitu? Sua vizinha, amiga de infância, amor de sua vida?

Bentinho foi dar a notícia a Capitu que também não a recebeu de bom grado. Capitu o amava e não queria perdê-lo. Então, sugeriu ao amado que tentasse mudar a resolução de Dona Glória por intermédio de José Dias, se possível, empregando de meios sutis para obrigá-lo, pois, não era apenas um agregado?

Bentinho assim o fez. Pediu a José Dias que intercedesse junto à mãe para que não fosse mandado ao seminário. José Dias prometeu ajudá-lo, menos por bondade e mais por vislumbrar a possibilidade de acompanhar Bentinho em seus estudos pela Europa. Esse pensamento, não idealizado pelo próprio Bentinho, causou certa alegria e estímulo em José Dias para mudar os destinos do jovem.

José Dias desconfiara da proximidade de Capitu e Bentinho, tanto que numa conversa com este tratou de insinuar: “Capitu, apesar daqueles olhos que o diabo lhe deu…Você já reparou nos olhos dela? São assim de cigana oblíqua e dissimulada”.

José Dias insinuara que Capitu era ardilosa, maliciosa, ambígua, de caráter pouco reto ou claro, apesar de, mais tarde, admitir que confundira os modos de criança de Capitu com expressões de seu caráter.

Bentinho também adjetivava, e muito, sua amada: “Era minuciosa e atenta”. “Capitu era Capitu, isto é, uma criatura muito particular, mais mulher do que eu era homem”. “Era também mais curiosa. As curiosidades de Capitu dão para um capítulo”. “Gostava de saber tudo”.”Tudo era matéria às curiosidades de Capitu”.

Para Bentinho, os olhos de Capitu eram apenas olhos de ressaca, inconstantes e volúveis.

Certo dia, os enamorados deram o primeiro beijo, não prolongado pela chegada da mãe de Capitu. Bentinho ficara atônito com a presença inesperada de Dona Fortunata, sem saber como agir, mas Capitu disfarçara bem, encontrando imediatamente um assunto para despistar o ocorrido.

A furtividade de Capitu inquietara Bentinho tanto quanto a possibilidade de ser mandado ao seminário. Seu devaneio era tamanho que chegou a imaginar uma cena em que o Imperador do Brasil chegava a casa de sua mãe para pedi-la que não o fizesse seminarista, mas médico.

Ao narrar a sua história, o próprio se reconhece como um intenso imaginador: “A imaginação foi a companheira de toda a minha existência, viva, rápida, inquieta, alguma vez tímida e amiga de empacar, as mais delas capaz de engolir campanhas e campanhas, correndo”.

“A minha imaginação era grande égua ibera; a menor brisa lhe dava um potro”.

Vários episódios há em que Bentinho imagina, inventa, cria e recria. Não se esqueçam disso, leitores, pois são palavras dele mesmo. Não as invento.

Numa conversa que teve com Capitu, antes de entrar para o seminário, Bentinho pediu que a amada lhe prometesse duas coisas:

A primeira: que ela somente se confessaria a ele.

A segunda: que ele seria o padre a casá-la.

Capitu concordou com a primeira promessa, quanto à segunda: “Não, Bentinho, seria esperar muito tempo; você não vai ser padre já amanhã e leva muitos anos… Olhe, prometo outra coisa, prometo que há de batizar o meu primeiro filho”.

Talvez essa promessa inesperada, mesmo em tom de brincadeira, tenha plantado desde já na cabeça de Bentinho que o primeiro filho de Capitu seria de outro.

“Quanto ao meu espanto, se também foi grande, veio de mistura com uma sensação esquisita, percorreu-me um fluido. Aquela ameaça do primeiro filho, o primeiro filho de Capitu, o casamento dela com outro, portanto, a separação absoluta, a perda, a aniquilação, tudo isso produzia um tal efeito que não achei palavra nem gesto; fiquei estúpido. Capitu sorria; eu via o primeiro filho brincando no chão…”

Passada a brincadeira, Capitu prometera casar-se apenas com ele. Assim o fez. Enquanto Bentinho passou algum tempo no seminário e, depois, cursou Direito, Capitu o esperou. Aproximou-se de Dona Glória durante todo esse tempo. Afinal, nada aproxima mais uma mulher de um homem do que estar na companhia da mãe dele. Dona Glória passou a achar em Capitu “uma porção de graças novas, de dotes finos e raros”. Difícil uma mãe se enganar quanto aquela que será a esposa de seu filho.

Bentinho ardia em ciúmes, intensificado ainda mais, se é que possível, depois de uma conversa ocorrida no seminário quando José Dias foi visitá-lo e ele quis saber notícias de Capitu.

 “Tem andado alegre, como sempre: é uma tontinha. Aquilo, enquanto não pegar algum peralta da vizinhança, que case com ela…”

Imaginar que Capitu pudesse interessar-se por alguém que não fosse ele intensificou o sentimento cruel do puro ciúme de Bentinho. Este não admitia pensar em Capitu sendo alegre estando distante dele, porque o ciumento é capaz de um extremo egoísmo e se pretende ser a razão da existência do outro.

Bentinho passou a lembrar-se que alguns olhavam para Capitu. Sim, e daí? Para que teríamos olhos se não fossem para olhar? Se Capitu lhe interessou porque não interessaria a outros? Alguém consegue ver maldade nisso?

Na cabeça de Bentinho, só a proximidade dele poderia dar alegria a Capitu. O ciumento também é infantil e bobo, é cheio de malícia e desconfianças e julga o outro por si próprio. Vou provar mais a frente que Bentinho julgava os outros por sua desmedida malícia. Só peço que tenham calma como fui obrigada a ter enquanto lia o livro, pois tudo será esclarecido.

Mas, desde já, digo a vocês que estou aqui em defesa de nossa Capitu, que não o traiu, todavia manteve lealdade ao amado até o fim, mesmo que este não tenha sequer merecido.

Capitu era fiel, antes de tudo, a si própria: “Para mim, basta o nosso juramento de que havemos de casar um com outro”. E, como diz Shakespeare: “Sejas fiel contigo e nunca serás falso com ninguém”.

Perto da família de Bentinho, Capitu disfarçava o que existia entre os dois. Até esse disfarce, extremamente necessário para afastar todas as suspeitas do que ocorria entre eles, incomodou Bentinho, ao que Capitu disse: “(…) como é que queria que me portasse, uma vez que suspeitavam de nós…”

Certa vez, Dona Glória adoecera. José Dias foi ao seminário buscar Bentinho, a pedido dela. No caminho, Bentinho chegou a imaginar: “Mamãe defunta, acaba o seminário”. Isso mesmo, ele chegou a pensar na morte da própria mãe como uma maneira de libertá-lo. A morte da mãe, devedora da promessa, teria como consequência a morte da dívida.

Mas não sejamos tão duros. Perdoemo-lo, pois fora somente um de seus muitos devaneios. Dona Glória morrera em outro momento e libertou o filho para se casar com Capitu antes que ele pudesse ter de novo qualquer pensamento fúnebre dirigido à mãe.

Quando esteve no seminário, Bentinho conhecera e tornara-se amigo de Escobar, homem polido, de olhos dulcíssimos e de rosto interessante. Bentinho segredou ao amigo que não tinha vocação para o seminário. O amigo confessou que sentia o mesmo. Que a sua vocação era para o comércio.

A amizade entre os dois era cada vez mais intensa e Escobar foi apresentado à família de Bentinho, que o recebera bem e gostara bastante dele.

Tanto Bentinho como Escobar escaparam de ser padres. Bentinho se casou com Capitu. Escobar com Sancha, amiga daquela. Os casais eram muito próximos e amigos.

Capitu e Bentinho viveram os primeiros sete dias das núpcias na Tijuca. O distanciamento e a falta de notícias dos pais de Capitu a preocuparam e ela quis logo voltar a Matacavalos, para as desconfianças habituais de Bentinho, que quis saber se Capitu cansara-se dele.

Capitu respondeu que ele seria sempre uma criança e, aborrecida, disparou: “Então eu esperei tantos anos para aborrecer-me em sete dias?” As desconfianças de Bentinho ocuparam todo o livro.

Para Bentinho, o que Capitu queria com o retorno era exibir a todos o seu atual estado de casada. Era o que ele imaginava, baseando-se em sua própria vaidade e importância. Na verdade, ele mesmo se delata ao dizer que gostava de realizar passeios com Capitu para que todos o vissem e o invejassem. Pelo que sentia, Bentinho julgava que Capitu sentia o mesmo. Uma das muitas provas de que julgava os outros por si.

Escobar se casou com Sancha, amiga de Capitu, e foram os primeiros a conceber criança, uma menina. Esse fato causou inveja em Bentinho que demorara mais tempo para ter o primeiro e único filho, Ezequiel.

Capitu gostava de rir e dançar e se enfeitava com amor quando ia a um baile, conforme relata seu marido. Num desses bailes, Capitu pôs-se a dançar enquanto Bentinho a observava. Ah! Os braços de Capitu. “Os braços merecem um período”.

“Eram os braços mais belos da noite, a ponto que me encheram de desvanecimento. Conversava mal com as outras pessoas, só para vê-los, por mais que eles se entrelaçassem aos das casacas alheias. Já não foi assim no segundo baile, quando vi que os homens não se fartavam de olhar para eles, de os buscar, quase de os pedir, e que roçavam por eles as mangas pretas, fiquei vexado e aborrecido. Ao terceiro não fui, e tive o apoio de Escobar, a quem confiei candidamente os meus tédios, concordou logo comigo”.

Bentinho deixou de frequentar os bailes por puro ciúmes. Estar na companhia de um ciumento é também abrir mão da alegria e da felicidade, pois nada o incomoda tanto quanto ver o parceiro alegre. Aquele que arde em ciúmes é também o que arde em egoísmo. O ciumento é um aborrecido e nada mais nos deixa tão entediados quanto a sua companhia. O ciumento nos sufoca. Para conviver com ele é preciso dissimular, mentir e enganar. Caso não esteja disposto a isso, é melhor livrar-se dele o quanto antes. Entretanto, Capitu amava Bentinho, apesar de suas chatices e criancices.

Há mais episódios de ciúmes. O livro é cheio deles, a ponto de nos cansar. Inúmeras vezes tive vontade de aconselhar Capitu: “Livre-se dele”. Não o fiz por respeito, afinal “não se navegam corações como os outros mares desse mundo”.

Coração é terra de estranhamentos. Estranho o coração de tantas outras Capitus. Lastimo pela vida delas. Se é que podemos chamar qualquer prisão de vida. Amo a liberdade e amo mais quem me deixa livre. Não amei Marcelo, nem Fábio, nem Magalhães. Odiei aqueles que me quiseram escrava de suas neuroses. Livrei-me de todos eles. De amarras, bastam as minhas.

Uma nova cena de ciúmes surge. Capitu põe-se a ver o mar. Concentra-se nele. Bentinho ciuma do mar, do vento, da água e de sua própria sombra.

Ele tenta se explicar: “Venho explicar-te que tive tais ciumes pelo que podia estar na cabeça de minha mulher, não fora ou acima dela”.

Tem mais essa: o ciumento não permite nem que você pense.

Já ouvi muitas mulheres dizerem que seus homens morrem de ciúmes delas, com orgulho e alegria. Pois bem, isso nunca me foi ilusão. Ao ouvi-las, pensava: “Grande vantagem há nisso. Antes de morrerem de ciúmes, eles te matam”. O egoísta não se mata, antes, mata aos outros. O ciumento mata o corpo depois de, há séculos, ter matado a alma de sua vítima. Fujam deles se o que desejas é vida em abundância.

Bentinho dissera: “Cheguei a ter ciúmes de tudo e de todos. Um vizinho, um par de valsa, qualquer homem, moço ou maduro, me enchia de terror e desconfiança… Capitu era tudo e mais que tudo; não vivia nem trabalhava que não fosse pensando nela”.

Também teve ciúmes de seu amigo Escobar. Antes, desejou a mulher deste. “Tive uma certeza só, é que um dia pensei nela, como se pensa na bela desconhecida que passa. Senti os dedos de Sancha entre os meus, apertando uns aos outros. Foi um instante de vertigem e de pecado. Não havia meio de esquecer inteiramente a mão de Sancha nem os olhos que trocamos. Rejeitei a figura da mulher do meu amigo e chamei-me desleal”.

Portanto, está aí mais uma prova da malícia de Bento Sant-Iago. Está aí, dentre tantas, a causa de seu ciúme. Um ciumento é, antes de tudo, um infiel em potencial. E, por saber-se disso, desconfia dos outros, inclusive dos mortos.

No velório de Escobar, Bentinho observa Capitu e a vê olhando para o defunto.  Ao ser questionada, ela responde indignada:

“Pois até os defuntos! Nem os mortos escapam aos seus ciúmes!”

Para Bentinho, Ezequiel não era seu filho, mas de Escobar. Via no menino a figura do amigo, assim como o pai de Sancha via em Capitu a figura da esposa. Semelhanças inexplicáveis. Não para Bentinho, cuja explicação recaíra na certeza da traição de Capitu.

Capitu sugeriu-lhe a separação, Bentinho a mandou para a Suíça. “Capitu era mulher por dentro e por fora, mulher  à direita e à esquerda, mulher por todos os lados, e desde os pés até a cabeça”, admitira Bentinho.

O problema é que Capitu era mais mulher do que Bentinho era homem, como ele mesmo reconhecera. E ele a invejara. Invejara nela tudo que não era capaz de ser: a simpleza, a modéstia, a sutileza, o amor ao trabalho e aos costumes religiosos. Supunha-se menos que ela em todos os aspectos. Invejara o controle que Capitu exercia sobre si mesma: “Todas as minhas invejas se foram com ela. Como era possível que Capitu se governasse tão facilmente e eu não?”

Se as pessoas valem a afeição que a elas direcionamos, Capitu me vale muito. Vale pela coragem com que enfrentou tudo e todos para se casar com Bentinho: a família dele, o seminário, o tempo em que o esperou cursar Direito e o próprio Bento. Vale pela coragem de continuar ao seu lado apesar das inúmeras desconfianças e por ter se mantido firme em meio a tantas injúrias.

Capitu foi leal ao amor que sentia e dedicou-se a ele até o seu fim . Morreu inocente. Bentinho sabia. Sabia tanto que não foi capaz de levar seu filho Ezequiel para conhecer sua tia Justina no leito de morte. Ela poderia confirmar o que ele já sabia, tão boa que era em notar semelhanças físicas nas pessoas: Capitu nunca o traíra.

Não é à toa que Casmurro cita a tragédia de Shakespeare. Otelo mata a mulher, Desdêmona, por puro ciúmes. Depois, descobre que ela era inocente e que Iago mentira quando a delatara como adúltera.

Bentinho é o próprio Iago. Senão por que seria Bento de Sant -Iago? Delata Capitu como sendo infiel sabendo-a inocente. A quem ele quer enganar? A mim é que não permito essa trapaça. Ele se faz de vítima, advogado de defesa de si mesmo e juiz de sua própria causa. E não admite quaisquer espécies de atenuantes ou excludentes.

Bentinho termina sua história citanto um trecho bíblico: “Não tenhas ciúmes de tua mulher para que ela não se meta a enganar-te com a malícia que aprender de ti”.

O ciumento é, sobretudo, um malicioso e supõe malícia nos outros.

Todos os familiares de Bentinho citados no livro morrem. Ele se muda para o Engenho Novo e, entediado, escreve Dom Casmurro.

Casmurro conta que tentou flertar com outras donas. Elas sumiam ao primeiro contato. Fugiam dele como o diabo foge da cruz. Talvez, de imediato, percebiam nele o que Capitu não percebera, ou percebendo, insistira, quer por amor, quer por teimosia de quem ama ou por esperança de que as coisas se alterem.

Creio mesmo que Capitu o amou. Já Bentinho… Esse nunca amara ninguém a não ser a si mesmo. Não é à toa que tornara-se um casmurro.

Um comentário

  1. Nossa que post mais interessante e esclarecedor! Eu adorei ❤ Parabéns
    Estou começando com meu blog, se puder retribuir o carinho seguido de volta, ficarei muito feliz!
    Feliz 2020 para você e todo sucesso, ai !
    Abraços, Kathlen.

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