A máquina também tem os seus direitos.

Ao partir para gozar alguns poucos dias de férias levei comigo alguns livros e também o computador, com o intuito de escrever os textos que fatalmente surgiriam em decorrência de situações presenciadas.

Animou-me a ideia de produzir coisas fora do ambiente costumeiro, inclusive como uma oportunidade de observar se, estando em outros ares, mudaria o tom ou modo como me expresso, numa tentativa de evidenciar a influência que o meio pode exercer sobre nós.

Durante o trajeto da viagem consegui matéria para compor um conto. E ao chegar no destino, interior da Bahia, tantas outras situações favoráveis à criatividade.

Entretanto, só me foi possível escrever uma vez. Daí em diante, todas as tentativas fracassaram, pois a máquina parou de funcionar totalmente como se estivesse exigindo de mim, em silêncio, o seu direito a férias por eu mesma estar em férias.

A verdade é que ela ficou tão lenta que não mais consegui escrever uma linha sequer. Parecia descansar num balançar de uma rede à sombra de coqueiros baianos a me dizer: “Deixe-me em paz que eu tô é na Bahia.”

Foi o que fiz. Desisti de escrever e perdi oportunidades únicas, pois às vezes a coisa só vem em determinadas situações e se não a externamos em seguida ela logo se perde.

Por que não escrevi à mão? Em primeiro lugar, por preguiça. Em segundo, porque acho que alteraria o sentido daquilo que tinha a dizer, porquanto às vezes tenho a sensação de que o instrumento nos influencia mais do que podemos imaginar.

Ao chegar de viagem, estava com tudo pronto para mandá-la ao conserto. Pensei: “Será que agora que voltei das férias e comecei a trabalhar, esse computador já pegou o ritmo frenético com que sempre me acompanhou?”

E não é que para a minha surpresa ele voltou a funcionar perfeitamente normal? Parece até mentira o que estou contando, eu sei. A vontade que dá é comprar um outro só para me servir de companhia quando eu viajar nas próximas férias. Seria um belo castigo ao que me deixou na mão que é bem este com o qual agora escrevo toda ligeira.

Mas não sou dessas que se vingam e também sei reconhecer o quanto essa máquina tem me ajudado durante todos esses anos. Também não sou das que por um ato único condena algo por inteiro. Às vezes não funcionamos bem mesmo e, depois, como num piscar de olhos, voltamos mais potentes. No fundo, todos nós, em algum momento da vida, precisamos de descanso uns dos outros.

Pensando melhor, acho até que ela resolveu por fazer uma greve apenas para me mostrar o quanto dela sou necessitada apesar de bancar a independente.

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