Só no Ano Novo.

À meia noite é acordada pelo estrondoso barulho dos fogos de artifício e pelos gritos daqueles que aguardam as promessas do ano que se inicia. O homem pensou bem quando dividiu o tempo em ciclos, pois nos sentiríamos uns perdidos diante de dias incontáveis que só se findariam com o anúncio da morte.

A euforia dos outros não lhe incomodava. Reanimou de seu sono e ficou toda acordada enquanto ouvia cada explosão no ar. Também não estava triste por ter que, sozinha, fechar as portas de um ano a que chamam de velho. Tem força interior para encerrar os ciclos e acostumou-se a fechar as portas todos os dias e iniciar cada manhã com uma nova promessa.

Quis gozar de sua companhia e solidão no último dia do ano como se fosse o último dia de sua vida. Sabia que junto aos outros a sua paz seria fatalmente abalada. Gozou daquela espécie de paz que só se consegue estando inteiramente só e não permitiu que a alegria mansa e humildemente sentida se perdesse em meio ao barulho estridente dos que estavam do lado de fora da rua e de si mesmos.

Pensou em abrir um vinho. Recusava-se a ter que tomar champanhe só porque todos o tomam em noite nova. No entanto, desistiu ao imaginar que o álcool poderia contaminá-la e forçá-la a sentimentos que não estava mais disposta. Queria a pureza das emoções não alteradas e adulteradas pelas substâncias. Queria suportar aquela noite como suporta todas as outras – na raça.

Estava só e contente e livre. Respirou fundo algumas vezes e pensou na respiração como o sopro de Deus. É verdade que a “a vida é um sopro”. Sentiu-se toda cheia de divindade e balbuciou: eu sou, eu sou, eu sou.

Levantou, bebeu um copo d’água e espiou pela janela. A noite estava forçosamente iluminada pelos fogos e algumas pessoas ainda gritavam. Pensou em como tudo aquilo deixaria de ser a poucas horas adiante, mas não pensava em dizer isso a ninguém para não ferir a felicidade, ainda que fugaz, daqueles que, ao acordar, se encontrariam com suas duras realidades.

Adiantou-se a pensar que o carnaval também se aproximaria com suas fantasias e sorrisos agendados para acabar em dia e hora certos. Teve compaixão dos que se alegram apenas com as festividades e entendeu que nem todos atingiram essa liberdade para enfeitar a vida diariamente com confetes.

Não quis se vestir de branco e atrair a paz. Estava cheia de uma paz estonteante dentro de si. Também rejeitou o amarelo que dizem trazer dinheiro, pois estava satisfeita com suas posses. Não se aventurou a colocar uma roupa vermelha, de que nunca gostou, pois acha que, querendo, pode seduzir com qualquer cor. Nem azul, nem rosa, pois nesse dia estava sem sexo. Só a alma existia. O preto que é sua cor preferida sequer cogitou. Achou que ficaria muito poderosa de preto e não estava interessada em poder, apenas em ser. Assim, decidiu-se pelo cinza que representa a total ausência dos outros.

Olhou-se no espelho para confirmar se a imagem era a mesma do ano anterior. Só os seus olhos grandes e abertos haviam se modificado e tornado maiores. Cortara os cabelos para não parecer mais velha do que é e porque acha que uma mulher para ser transgressora tem que, no mínimo, cortá-los. Nem mesmo sabe de onde tirou essa ideia, mas gosta de mantê-los sempre curtos. É uma de suas formas de ser livre.

Ficou sabendo que há mulheres que gostariam de cortar suas madeixas e não o fazem porque os seus homens não deixam. Lamentou profundamente por essas mulheres não mandarem nem mesmo em suas próprias cabeças.

Quando a noite ficou silenciosa resolveu ler um pouco. Abriu o livro aleatoriamente na frase: “Não abras teu coração a qualquer homem“. Entendeu como uma mensagem lhe encaminhada de presente e começou a rezar. Rezou tanto que dormiu cheia de si e cheia de Deus.

Acordou bem cedo e lembrou-se que estava diante de um ano novo. O que fazer? Quis improvisar algo inusitado, mas a primeira coisa de que precisava era tomar o seu café. Depois do café leu algumas crônicas. Logo mais, sentou-se com a máquina no colo e se pôs a escrever.

O vento balançava as cortinas brancas, os pássaros lá fora cantavam, o dia estava límpido e tranquilo com um sol modesto que iluminava sem queimar.

Nenhuma euforia, nenhum grito, nenhum canto como aqueles da noite anterior. Mas ela continuava com sua alegria contida e serena, pois que há muito entendeu para que serve a divisão do tempo em dias, meses e anos.

O entendimento das coisas lhe deu a alegria e a tranquilidade necessárias para que ela encare cada dia como uma oportunidade de recomeço. Em todas as suas noites fogos de artifício explodem no ar e em todos os seus dias, diante de uma página em branco, ela escreve novas histórias.

Todos os dias, ao acordar, olha-se no espelho e diz a si mesma: “Feliz Dia Novo.”

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