Montaigne e eu, os desmemoriados.

É bem provável que a minha falta de memória jamais se constituísse matéria de um texto se essa minha característica não tivesse encontrado eco num ensaio de Montaigne que acabo de ler.

Nele, o ensaísta admite que carece da faculdade da memória e não crê que haja no mundo alguém menos favorecido a esse respeito que ele próprio. Pois então, apresento-me como sendo, nesse aspecto, muito mais agraciada que ele. Minha memória é curta e fraca. Em tudo o mais posso me parecer com o vulgo. Mas quanto à lembrar-me do que vi, ouvi e vivi comparo-me ao grande Montaigne.

Não digo que sou maluca ou carente de discernimento. Deixo que outros o digam. Entretanto, esqueço-me dos acontecimentos, quer sejam de um passado próximo ou remoto.

Em meio às conversas de família, ao ser questionada ou instada a falar sobre algo que ocorrera, digo frequentemente não me lembrar. Ao que uma prima suscita: “Essa aí é “desmemoriada” e “cabeça ruim”, não sei como ela se lembra do que estuda“.

Não exerço o meu direito de réplica, pois não tenho o que contestar. Ela tem razão. Eu quase nunca me lembro de nada. É com grande esforço que consigo puxar de mim algumas coisas findadas e, talvez, esse seja o motivo para eu não lhes dar importância. Elas passaram e ficaram estancadas onde devem estar: no passado.

Na verdade, nem gosto muito de rememorar coisas, quer tenham sido boas ou ruins. Tenho muita dificuldade em gastar meu precioso tempo em algo que já não é. Nem meus sofrimentos, nem minhas alegrias pretéritas merecem atenção, pois recuso-me a viver de ilusões. Para que deleitar-me em algo que não mais existe? Essa é a explicação que encontro para ter desenvolvido essa qualidade des memorian.

A falta de memória passa por ingratidão“, afirma Montaigne. Nesse sentido, ela pode ser malvista e desprezada. Mas sabendo-me persona grata não posso me abalar diante de tal acusação. Porém, é bem verdade que se esqueço do mal que fiz e me fizeram, o bem ofertado e recebido também haverão de ser esquecidos.

Há alguns meses viajei para uma cidade na qual morei por três anos e reencontrei algumas amigas que se puseram a relembrar acontecimentos referentes a pessoas com as quais havia mantido contato durante os anos de minha permanência no local.

Lembra de fulano de tal? Pois é. Morreu num acidente.”

Não me vinha de jeito nenhum a imagem do falecido e num esforço que me levou à exaustão decidi parar de tentar lembrá-lo. Ao que uma amiga retrucou: “Como não lembra? Ele vivia querendo namorar você?”

Eu juro que mesmo diante dessa afirmação nada me veio à tona. Até hoje não sei de quem elas falavam. Para descontrair eu disse: “Veja lá se vou me lembrar dos que quiseram me namorar. Foram tantas emoções durante esses três anos.

Ao que ouvi como resposta: “Tantas emoções que você já nem se lembra mais delas.”

E aquela mulher que vendia roupa pra gente? Pois não é que beltrana morreu no parto?

Também não me lembrava de beltrana.

E aquela festa…”. Não me lembro.

E aquele dia…”. Lembro menos ainda.

Sem dúvidas tenho falhas de memória. Pode crer.

E o que falar da ida ao ginecologista? É um horror, porque eu já sei que todos fazem a mesma pergunta que não respondo há anos porque não me lembro: “Qual foi a data da sua última menstruação?” Respondo: “Não sei Doutor. Mas vem todo mês a cada vinte e oito dias”.

Como você sabe?”

 “Só se sabe sabendo“.

Dá vontade de dizer para não me perguntarem mais nada. Perguntas demais me dão nos nervos. Essa ousadia não dou nem aos médicos. Quero que eles me examinem e me deem o diagnóstico sem que eu precise me lembrar de coisa alguma. Ou então perguntá-los como tratam os pacientes que têm amnésia ou alzheimer.

Outro dia contei uma história fragmentada a um grupo de pessoas sobre um episódio que vivi com aquela prima que me chama de desmemoriada. Eu disse que nós duas tínhamos ido a uma evento e que ela havia ultrapassado um pouco os limites do álcool, se embriagado e passado por uma situação vexatória que me fez não mais querer sair em sua companhia. No meio das risadas, ela aparece e desconstrói os fatos:

Quem se embriagou nesse dia não fui eu, foi você, sua cabeça ruim.”

Pois não é que havia me esquecido que eu mesma protagonizara a cena da embriaguez?

Com isso, minhas outras faculdades se aguçam na medida em que essa se desgasta. . Se tivesse sempre na memória o que os outros disseram e fizeram, em vez de julgar por mim mesmo ter-se-ia apegado, como acontece comumente, às apreciações alheias“, afirma Montaigne.

Assim, vou deixando para trás tudo o que  é para lá estar. O coração não se enche de ódio nem de mágoas. Esqueço o mal que me fizeram; as agressões e os desentendimentos. Esqueço as palavras ditas e não ditas; os amores que se foram; as amizades que não permaneceram. E tudo isso me exime de ter qualquer espécie de saudade.

Por não ter muito o que lembrar, tenho concisão ao falar. Não atordoo a ninguém com palavrório vão e insignificante. Meus dizeres são pobres em detalhes, restritos ao principal, sem enfeites e pormenores inúteis. E se fere, sinto muito. Depois esqueço.

A fraqueza de minha memória faz com que eu guarde menos recordação das ofensas recebidas”, diz Montaigne.

E assim como ele, é essa falha de memória que me permite contemplar paisagens já vistas como se as tivesse olhando pela primeira vez, que me faz reler um livro inúmeras vezes percebendo a cada leitura o encanto incessante da novidade, como quando releio Hamlet por inúmeras vezes.

É a falta de memória que me previne da mentira, porque eu teria que me esforçar muito em relembrar uma história criada para repeti-la com as mesmas invenções da primeira.

É por não ter do que lembrar que me mantenho em silêncio concentrada na ação do momento.

Do passado não tenho nada a sorrir, a chorar, a lamentar, a pensar em reviver. Quero é o mergulho no hoje que me recebe de braços abertos e do qual amanhã já não terei nem mais lembranças.

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