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O Natal sem Cristo.

Cada membro daquela família estava sentado em seu lugar para o almoço de Natal. Como a mesa estava posta à claridade do dia fazia-se necessário o uso de óculos escuros para proteger as vistas e os olhares uns dos outros.

Formaram-se uns quatro grupos isolados, cada um com assuntos próprios a tratar, a depender da afinidade das pessoas entre si e com o tema.

Uns, em plena mesa farta de Natal, falavam sobre as maneiras de evitar a obesidade até o momento em que o grupo que continha obesos escutou ao longe essa conversa e fez com que chegasse a informação de que era hora de parar com esse assunto, pois que alguém poderia se sentir ofendido. Ninguém gostou de ter que suspender o papo que se mostrava tão agradável, afinal de contas os que falavam de magreza eram magros.

Também tinham os bebedores, aqueles que, em qualquer circunstância, não dispensam imensas quantidades de álcool, pois não conseguem se alegrar sem que ele seja injetado na veia. Aqueles que não têm o êxtase em suas almas e precisam de uma ajuda externa. Todos nós estamos muito precisados.

Mas a celebração do nascimento de Cristo não foi suficiente para que ficassem alegres? A questão é que Jesus não havia sido convidado para a festa. Comemorava-se um aniversário no qual as portas haviam sido fechadas para o aniversariante, pois todos ali estavam cheios de certezas e julgamentos. Se Madalena estivesse presente seria novamente condenada, e pior, sem a presença do Salvador para conscientizá-los a largarem suas pedras.

Uma mãe apontava o dedo para uma filha em detrimento da outra, pois em suas palavras, uma era simpática e a outra antipática. Esqueceu-se de que “para Deus, não há acepção de pessoas“. Ocorre que para algumas mães há.  Bem que elas tentam negar com palavras o que as atitudes entregam. O filho preterido é facilmente notado e geralmente prefere não participar dos eventos familiares, ou se participa, fica meio de escanteio, pois sabe que será quase impossível evitar a comparação danosa dos parentes.

Houve até quem fizesse um discurso sobre a humildade como sendo a capacidade de falar e sorrir para todo mundo. Nunca vi uma pessoa humilde exaltá-la. Assim como os ateus precisam falar de Deus para enaltecer sua crença na inexistência Dele, os soberbos precisam falar em humildade para realçar aquilo que a eles mesmos falta.

Os políticos sorriem aos quatro cantos porque são humildes ou para conseguirem votos? Por trás da ação, as intenções. E aqueles que não nasceram com o dom do riso e da fala fáceis foram humilhados na certeza de que um dia serão exaltados apesar da aparente arrogância.

Na hora de registrar o momento, o fotógrafo chama a todos: “Venha família estranha“. Essa foi a gota d’água para que uma das antipáticas presente desse seu grito de revolta: “Pois vá procurar outra família para você“. Diante da impossibilidade de aqueles que ali estavam escolherem um novo clã para nascerem, todos se esforçaram para aparecerem na fotografia com um esboço de sorriso nos lábios.

Esse cenário foi regido por uma música estrondosa que ocupava todos os espaços e ouvidos. Como quase sempre ocorre nas festas familiares, alguém decide o que os outros vão ouvir sem nem ao menos serem consultados. E ai de quem reclamar! É o chato ou o velho.

Não se tratavam  de melodias previamente escolhidas para ressaltar o tom de amor e amizade que devemos resgatar no Natal, mas aquelas mesmas de sempre berradas aos quatro cantos e em qualquer época.

A comida estava muito saborosa e a fartura de pão parecia querer compensar as outras faltas. Aqueles que almoçaram ao meio dia logo foram embora de estômagos cheios. Os que preferiram a bebida sabe-se lá Deus a que horas partiram.

Faltou oração, compaixão, acolhimento, compreensão e entrosamento e, nos anos vindouros, é bem provável que tudo se repita. Mas a minha vaga esperança é que pelo menos o aniversariante nas próximas vezes não falte.

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Meu nome é Ana Veiga, moro em Brasília e tenho paixão pela leitura e pela escrita. Ler e escrever são para mim "vícios desde o início". Leio por prazer. Escrevo por necessidade. E, nesse espaço, quero compartilhar com vocês os maiores ensinamentos que extraio dessas leituras. Espero que gostem!

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