O sonho de ser primeira-dama.

Ela é atendente numa lanchonete de beira de estrada, situada no município Vila Boa. “Meu nome é Flavionete” – responde sorridente como tudo o mais que se lhe pergunta. Logo em seguida dá uma gargalhada estridente e mostra seus dentes grandes e brancos que destacam e iluminam o seu rosto negro.

O batom vermelho é para esconder a feiura – informa a um cliente quando este lhe diz que sua boca chama a atenção. Mas fala sorrindo e sem parecer importar em admitir que não é das mais belas. Algo me faz pensar que é daquelas sabedoras de coisas, como suscitar nos outros alguma espécie de atração pelo modo de ser e que transcende a barreira de sua mera aparência.

Pergunto se tem pão de queijo e ela responde afirmativamente com seu riso largo: “E está uma delícia”. Depois, peço um pastel. “Espere um pouquinho que vou fritar agora mesmo para que fique quentinho e gostoso de comer.”

Meu esposo entra em seguida e pede um café. “Agora, meu senhor. Olha, nosso café é quente e muito gostoso. Pode beber à vontade que eu nem vou te cobrar”. Por último, acrescenta: “Também servimos almoço e jantar e é tudo muito delicioso. Cada dia é uma coisa diferente.”

Ao qualificar bebidas e quitutes como quente e gostoso, Flavionete sugere que tudo naquele lugar é muito bom de ser degustado, inclusive ela mesma.

Quis saber de onde vínhamos. “Ah, não gosto de Brasília. Nunca fui lá. Gosto é de Goiânia, mas tem muito ladrão e a gente precisa tomar cuidado. Na rua 44, eles roubam aos montes.”

Quase lhe respondo que ladrão tem em todo canto, inclusive em Brasília com suas duas torres e bacias aberta e fechada.

“Pois que eu tenho vontade de conhecer é o Parkshopping. Parkshopping é o quê mesmo moça?” – pergunta ela.

“É um shopping” – respondo.

“As coisas lá são baratas?” – quis saber.

“Não. As coisas lá são muito caras.” – digo.

“Então, se um homem me levar ao Parkshopping quer dizer que ele está apaixonado por mim?” – indagou Flavionete.

Bem, fiquei sem respostas, pois eu mesma nunca havia pensado na hipótese de um homem mostrar estar apaixonado ao levar uma mulher para passear em lugares cujos preços das coisas são elevados.

Depois de um pequeno silêncio, respondi: “Pode ser.”

Flavionete quer arrumar um namorado a todo custo, no entanto ele precisa estar disposto a pagar os altos custos para mantê-la. Depois, revelou seu desejo de trabalhar no Senado. Falei que esse também é um desejo meu.

“Eu quero trabalhar lá nem que seja para servir cafezinho aos senadores, porque tem mulheres que começam assim, logo viram secretárias e depois são promovidas a esposas deles como aconteceu com fulana de tal” – disse-me.

Percebi que nossas motivações para trabalhar no Senado não eram as mesmas, no entanto Flavionete queria chegar ao topo da carreira começando pelos degraus mais baixos e galgar, por seus próprios méritos, até o lugar mais elevado de mulher de senador.

Servir com humildade os parlamentares, porque Jesus disse para sermos servos. E porque os humilhados serão exaltados. Flavionete seguia à risca os ensinamentos de Cristo e com um sorriso no rosto de quem tem paciência e consegue esperar pela salvação, ainda que para isso tenha que morar e trabalhar em Brasília, lugar de que não gosta só de ouvir falar.

Brinco e pergunto se existe a Vila Má ou se é só a boa mesmo. Ela diz que não, mas informa que há uns poucos metros dali tem um lugar chamado inferninho e que é doida para ir até lá “ver se encontra o capetinha”. Cai na risada. A colega, ao escutar a conversa, diz que esse lugar é feio e tem muita morte.

Flavionete gosta de perigo e não teme o inferno, nem o capeta, muito menos os senadores.

Sorri o tempo todo, porque a vida é difícil e chorar não resolve, deixa a cara inchada e muda as feições do rosto. “Chorar deixa uma pessoa feia, moça.

Concordo e trato rápido de sorrir de volta, afinal também não quero ser feia. Quem é que quer?

Não sei se porque a conversa envolvia Brasília, mas Flavionete deixou claro que é doida para se arrumar com um político. Falou a respeito de um certo governador que vive bêbado. “Ah se eu tivesse a oportunidade de pegar ele assim. Ia “cerrar” ele todinho e quem sabe arrumar um filho.”

O que ela gosta mesmo é de dinheiro. Foi de boca cheia e sorriso nos lábios que nos contou sobre as gorjetas que recebe quando a ex-mulher de um governador passa por aquele local.

Meu esposo tentou narrar uma história que aconteceu num hospital e ela, sem se importar muito com o caso, quis logo saber se é lá que ele trabalha. Respondeu que não sem lhe revelar mais nada. Ela, que já havia lhe oferecido café quente e gostoso à vontade, manifestou uma curiosidade excedente a respeito de qual profissão ele exerce.

Até saber que é casado comigo e dizer: “Sua esposa é gente boa demais”. Eu bem sabia das intenções de Flavionete que não sou besta, entretanto a perdoo, pois cada um tenta arrumar seu próprio meio de vida. Eu mesma não arranjei o meu?

Mal sabe que ele trabalha num banco. Era capaz de crescer os olhos por imaginá-lo banqueiro. Soube de uma mulher que achou que o marido, por trabalhar no banco, era o dono do estabelecimento e se empolgou até descobrir que o cartão de crédito havia sido bloqueado. Só caiu na real quando, sério, ele lhe disse: “Você está confundindo as coisas. Minha função é de bancário e não banqueiro como deve pensar que sou.”

Mas qual é a mulher que não sonha com um crédito ilimitado?

Nós mulheres sempre queremos que nossos homens tenham muito dinheiro. Quem nunca ouviu dizer “se quer mulher bonita que pague por isso?” Não dá para se iludir nesse mundo onde nada é de graça. A gente sempre paga o preço, de um jeito ou de outro. E a mulher que me acusa de estar mentindo é porque não se indaga a respeito ou tem vergonha de assumir a resposta que dá a si mesma. Mas digo logo que não cabe pudor algum. “É assim porque é assim.”

Flavionete não tem vergonha de dizer que procura um homem por dinheiro e um pouco de amor. E quem vai dizer que ela está errada? Amor só é bom quando a barriga está cheia e as contas pagas. É muito mais fácil amar no conforto de um quarto refrigerado, com cama macia e geladeira cheia para, depois do ato, matar a fome mais elementar de todas.

Pois que a danada é pura ousadia, bom humor e alegria de viver. Se com isso ela conquistará deputados, senadores ou o Presidente do Brasil, nada posso dizer, mas que já conquistou os céus, disso não me restam dúvidas.

E conquistou também a mim, pois não vejo a hora de passar por lá novamente, comer o delicioso pão de queijo e sorrir com o riso gostoso de Flavionete.

Quando finalmente nos despedimos, ela desferiu seu olhar maroto e disse: “e quem sabe eu passe do posto de mulher de senador à primeira-dama, não é mesmo moça?

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