Quando eu quis resolver questões de justiça com uma tatuagem.

À época em que me dirigi a um tatuador, eu cursava Direito e estava extremamente encantada com a ideia de justiça, conceituada por grandes filósofos, cujas reflexões tive oportunidade de conhecer por meio da matéria Filosofia do Direito.

Animava-me poder concluir o curso e me tornar juíza e justa. Um professor de Direito Penal, vendo toda a minha empolgação nas aulas, tratou de me avisar que ao final do curso eu não estaria tão deslumbrada como naquele começo. Dei de ombros, pois tinha certeza que aquela paixão não teria fim. A mesma certeza que temos quando nos apaixonamos por uma pessoa. A paixão não terá fim.

Essa paixão pelo Direito movia meu espírito e também moveu  minhas pernas até um tatuador, porque eu desejava cravar o símbolo da justiça em alguma parte do meu corpo. Cheguei com a foto da figura nas mãos. Era uma balança toda certinha, pois para agir com justiça é preciso pesar, medir, ponderar e decidir. Tudo com muito equilíbrio. A figura da balança estava toda ajustada em seus pesos. Quanto a mim, que seria a responsável pela ponderação dos lados, parece-me hoje que não estava tão equilibrada assim, pois movida por uma paixão que nada mais é que uma doença. Ainda que não admitamos, paixão é doença.

O tatuador avaliou e disse ser possível fazer o desenho. Perguntou onde eu queria a tatuagem. Eu apontei o local e ele me mandou de volta para casa para pensar direito, uma vez que tatuagens são “para a vida toda”. Até hoje não voltei lá e se eu tivesse boa memória para lembrar desse homem, teria retornado para pelo menos agradecê-lo e até presenteá-lo por ter me livrado dessa loucura.

Isso quer dizer que eu considero loucos os que fazem tatuagem? É óbvio que não. Nem emito qualquer juízo de valor a respeito das pessoas que querem marcar seus corpos. Mas, no meu caso seria uma loucura e explico.

Primeiro, porque nada na vida tem o caráter de definitivo e estamos nos transformando o tempo todo. Se hoje quero a balança da justiça, amanhã quero um coração, depois quero uma estrela e percebo que à medida que o tempo passa meus interesses são outros.

Segundo, uma amiga me contou que conheceu uma menina que tatuou uma estrela no pulso e, depois de ter sismado com a tatuagem e não tendo dinheiro para pagar um procedimento que a apagasse, pegou uma gilete e se mutilou para arrancar a estrela que para ela não mais brilhava.

Fiquei agoniada quando soube dessa história e, se já havia desistido dessa aventura, agora é que não voltaria a pensar mais nisso.

Outro amigo me contou que um de seus maiores arrependimentos foi ter feito tatuagem. Quando resolveu por isso ainda era jovem, mas estava ficando velho e como a pele enruga e perde o brilho, a tatuagem estava ficando feia e desbotada. Para ele, tatuagem só é bonita em pele jovem, mas naquele momento não se lembrou de que iria envelhecer.

A partir daí passei a observar as tatuagens nas pessoas mais velhas e também acho feias e desconexas com o ânimo que as gerou. Como posso saber disso? Simplesmente, porque somos volúveis.

A tatuagem é a exteriorização de algum sentimento ou emoção que animou o espírito em uma certa época. É a necessidade de colocar algo para fora. Uma alegria, uma dor, uma paixão, um amor, uma revolta ou um ardor. Seja lá o quer for, é um modo de exteriorizar. E é também uma necessidade que se tem de provar algo aos outros. É como escrever. Quem escreve sob o argumento de que escreve somente para si mesmo está mentindo. Escreve-se para si e para os outros. Quem tatua sob o argumento de que tatua para si também está mentindo. Tatua-se para si e para os outros. Às vezes, só para os outros.

Quero mostrar para alguém que amo, amo a Deus, que sou devota de São Francisco, que minha mãe é muito importante para mim, que meus filhos estão acima de tudo, que prezo pela justiça, que acho as borboletas bonitas, que nasceu alguém especial, que morreu alguém excepcional, que admiro uma celebridade… Sentir não é suficiente. Guardar para si é impensável. Preciso exteriorizar, fazer com que os outros também percebam. E se tenho um corpo que não considero bonito, tenho a tatuagem e chamo a atenção para ela. E se tenho um corpo que considero bonito, faço a tatuagem e chamo a atenção para ele.

São vários os motivos porque nos marcamos e todos eles vêm com o desejo de nos mostrarmos. Só para comprovar o que estou dizendo, há pessoas que tatuam em lugares que elas mesmas não conseguem ver, como nas costas, mas os outros enxergam e é isso que importa. Somos todos sedentos de atenção, embora jamais admitamos essa verdade.

E por que fazemos isso? A escritora Rosa Montero escreveu: “Tatuei uma salamandra num dos braços há doze anos e precisei me conter para não ir correndo no dia seguinte fazer outra. É que você experimenta uma sensação maravilhosa, um alívio e uma plenitude irracionais, como se com esse rabisco de tinta debaixo da pele pudéssemos derrotar o inimigo pelo menos uma vez, humilhar aquele corpo tirano que nos humilha, um corpo que não escolhemos e com o qual temos de lidar a vida toda, o corpo que nos adoece e que acaba nos matando, aquele maldito corpo traidor que de repente se torna capenga, e acabaram-se para sempre as montanhas; ou que faz crescer insidiosamente, no laborioso silêncio das células, um tumor maligno que vai te torturar antes de te assassinar; ou que escorrega e se quebra tão facilmente, feito uma melancia que estoura, quando um carro te atinge. Pelo menos, corpo miserável, eu te marquei com uma salamandra que é filha apenas da minha vontade, e você vai ter de aguentá-la até apodrecer.”

Quem tatua, como quem escreve, o faz por mil razões, mas a principal delas é dizer que não basta guardar os sentimentos em si e para si. É preciso compartilhar, provar, mostrar e ser objeto de uma atenção, mesmo que ínfima. Não importa se efêmera, mas nos confirma que, pelo menos por alguns segundos ocupamos o pensamento de um outro ser, ainda que sejamos esquecidos já no próximo instante. Não importa. Qualquer atenção está valendo e nós a aceitamos de bom grado.

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