Mudar é preciso ou O que falta é vontade.

Creio que a maioria de nós sabe que num ou noutro aspecto de nossas vidas faz-se necessário promover uma, algumas ou, quem sabe, muitas mudanças.

O tempo passa e, geralmente, ao final de cada ano renovamos as promessas e os planos de um recomeço mais ativo, onde aquelas coisas que desejamos sairão de nossas cabeças e serão executadas.

Ocorre que muitos começam algo e, antes do prazo determinado, desistem, adiam ou se envolvem com outras coisas e deixam de lado tudo aquilo que realmente gostariam de fazer para se sentirem menos tristes, frustrados ou infelizes.

Nós somos inerentemente seres de desejo. Queremos várias coisas ao mesmo tempo e, à medida que satisfazemos uma, imediatamente outra se manifesta em nós.

Há quem diga, inclusive, que a raiz de nossos males e infelicidade é o desejo e que, portanto, só alcançaríamos a tão sonhada felicidade se cortássemos dele suas raízes antes mesmo que começassem a brotar e nos tomar.

O desejo por si só não nos conduz a lugar algum. Ele se constitui num movimento inicial, um start, um estímulo ou aspiração no sentido de buscar algo que para nós é importante conquistar.

Rossandro Klinjey, psicólogo clínico, compara-o a um diagnóstico, que apesar de ser importante, apenas se constitui uma etapa para o alcance de um fim, qual seja, a cura da enfermidade.

Ele sozinho não conduz a um resultado, no entanto não deve ser desprezado, pois se constitui como um elemento essencial para impulsionar a ação. Presumo, por exemplo, que várias pessoas tenham o desejo de acertar os números da loteria, entretanto aqueles que, possuindo-o, não realizarem seus jogos jamais terão chance de levar o prêmio. Repito, pois, o desejo puro e simples não produz resultados.

Ainda, é salutar desenvolver habilidades que nos capacitem para realizar aquilo que desejamos. Isso deve se fazer presente para evitar o autoengano. Alguém que queira passar numa prova deve buscar munir-se de conhecimentos que o preparem para o exame, sob pena de não conseguir a aprovação.

Essa fase do processo, que é a preparação, exige esforço, comprometimento, dedicação e foco. Mas nada impede que, nos intervalos, procuremos realizar atividades lúdicas ou artísticas que ventilem um pouco a mente e, depois, voltemos aos nossos deveres, pois elas não podem ser um motivo de fuga, mas apenas diversões para um momento de descanso.

O esforço constitui um grande aliado na satisfação de um desejo, pois ele nos retira da imobilidade e da sensação de inércia. “Uma coisa que faz você se sentir bem mesmo não tendo ainda alcançado a sua meta é saber que está trabalhando para conseguir.”

Essa frase está relacionada à lei do trabalho, cuja tradução consiste em “aquilo que plantamos, colhemos.”

Ocorre que o fator indispensável e primordial para gerar a ação é a vontade. O Dicionário Online de Português traduz esse termo como sendo “a força interior que impulsiona o indivíduo a realizar algo, a atingir seus fins ou desejos; ânimo, determinação, firmeza.”

Essa força interior varia em cada sujeito e suas motivações para ativá-la é de ordem inteiramente pessoal. Se ela é o ânimo, vem de animus, vem da alma.

Joana de Angelis diz que no início ela pode ser inexpressiva ou incipiente, porém é ativada e tanto mais aumenta quanto mais é exercitada. E daí vem a ideia de repetição, insistência na ação, até que tenhamos novos condicionamentos, que gerarão novos comportamentos ou atitudes.

Os estudos, os exercícios físicos, o ato de escrever, uma dieta, a fluência em uma língua e tudo o mais que se pretenda realizarr será reforçado cada vez mais à medida que praticado. Como bem disse Charles Chaplin, “a persistência é o caminho do êxito”.

Os primeiros movimentos podem parecer desagradáveis ou difíceis. Entretanto, eles só serão vencidos com a repetição que “cria memória, conduta, comportamento e vontade”.

Quando iniciamos, a vontade pode ser pequena e o maior obstáculo é que ela luta contra uma vontade contrária e maior, diz R. Klinjey.

Há quem queira acordar cedo para praticar exercícios físicos ou estudar, mas essa vontade ínfima luta contra uma gigante que é dormir mais tempo. A vontade pequena de fazer uma dieta conflita com a enorme de se deliciar com os prazeres de tudo que é muito agradável e gostoso ao paladar. A vontade minúscula de ler um livro vai de encontro com a vontade monstruosa de ficar horas e horas acessando as redes sociais ou assistindo televisão.

Por isso, costumamos dizer que devemos ter muita “força de vontade”, pois nossa tendência em permanecer na zona de conforto é imperiosa. Precisamos identificar essas vontades fortes que inibem ou prejudicam o acontecimento de outras.

Outra coisa que atrapalha a realização de desejos é a tão falada procrastinação, o adiamento contínuo e ininterrupto no sentido de fazer aquilo que sabemos que é necessário para o alcance de um propósito. O ato de procrastinar pode ser entendido como a arte de se enganar e, muitas vezes, vem acompanhado de inúmeras desculpas que nada ajudam e são uma forma de autossabotagem.

A vontade deve ser forte, mas pior que a vontade fraca é a não-vontade. Esta significa “estacionamento evolutivo”.

Rossandro Klinjey diz: “Tudo que para apodrece, enferruja, perde valor, perde sentido, é considerado um desperdício diante das leis de Deus.”

O desperdício de que fala está relacionado a tudo aquilo que poderia ter sido construído e que não foi pela falta de movimento decorrente da não-vontade ou da inação.

Ele acrescenta que devemos saber as causas que impedem a geração de vontade para ocasionar a mudança. A primeira delas é que “tentamos comer um elefante inteiro”, ou seja, queremos fazer tudo ao mesmo tempo.

Por exemplo, passamos longos períodos distantes dos estudos e, quando decidimos retornar a eles, como que por um desejo de recuperar o tempo perdido, nos dispomos a passar oito horas por dia sentado numa cadeira.

Isso pode atrapalhar, uma vez que a vontade inicialmente deve ser exercitada em doses quase homeopáticas para ser aos poucos fortalecida. Há que se ter uma negociação consigo mesmo, pois uma nova atividade, antes inexistente, passa a fazer parte do cotidiano. É preciso que ela seja incluída devagar e à medida que o tempo passa ganhe consistência e robustez.

A falta de concentração e foco também impedem a mudança. Estamos rodeados pelos mais diversos excessos, de informação, de contato, de gente, de distração, de interesses, de coisas, dentre tantos outros. Inclusive, excesso de metas, que nos deixa perdidos sem saber qual delas é a mais essencial e deve ser primeiramente cumprida. Para minimizar esse problema, R. Klinyey propõe uma hierarquização, pois não há como fazer várias coisas ao mesmo tempo, sob pena de não se fazer nenhuma.

A mudança deve ser contínua, direcionada e gradual. Tentar fazer várias mudanças de uma só vez também pode não surtir efeitos. É nessa hora que devemos fazer uso do nosso poder de escolha. Quais as mudanças mais importantes? O que mais me atrapalha? Começo pelas mudanças mais simples? Ou preciso começar pela mais complexa porque ela é mais urgente? Essas são algumas perguntas que podem ser feitas.

Subestimar o processo de mudança também pode atrapalhar o seu alcance. Ela deve ocorrer a cada dia e não se materializa em doses sempre crescentes. Um dia conseguimos ler mais, no outro menos. Um dia caminhamos trinta minutos, no outro não caminhamos. Devemos insistir. “Se estiver cansado, descanse. Mas não desista.”

O sentimento de culpa é totalmente dispensável, porque ele impede o movimento. É primordial conscientizar que o fracasso nem sempre é ruim, pois ele nos ensina. Tentativas e erros fazem parte do processo. “A criança, antes de aprender a andar, sofre algumas quedas.”

A falta de comprometimento também é um óbice para a mudança, assim como experiências passadas e traumáticas que conduzem a um pensamento de generalização. Ainda, os medos criados ou alimentados por nós e que são paralisantes.

O círculo social pode ser uma barreira para a transformação, caso se conviva com pessoas que, por terem uma vida limitada, não aceitam que alguém de dentro dele possa ser diferente. Ou até nós mesmos podemos ficar amedrontados diante da ideia de assumirmos nossa diferença, pelo medo da rejeição.

Crenças, religiões mal interpretadas, padrões sociais doentios são outras coisas apontadas como inibidoras do processo de mudança.

Só o indivíduo que tiver a coragem de ir à luta e “dar à cara para bater”, sem medo de ser criticado ou rejeitado tem chances de conseguir aquilo que deseja.

“Deixe que falem mal de você e continue a fazer, porque tem consciência de que é o certo.”

Rossandro Klinjey acrescenta à sua fala um discurso de Roosevelt:

“Não é o crítico que importa, nem aquele que aponta onde foi que o homem tropeçou ou como o autor de uma façanha poderia ter feito melhor. O crédito pertence ao homem que está por inteiro na arena da vida, sujo, rosto manchado de poeira e suor, que luta bravamente, que erra, que decepciona, porque não há esforço sem erro e decepções. Mas que na verdade se empenha em seus feitos, que conhece o entusiasmo das grandes paixões, que se entrega à causa digna, mas na melhor das hipóteses conheceu, ao final, o triunfo da grande conquista e que, na pior, se fracassar, ao menos fracassou ousando grandemente.”

Há os que estão na arena da vida, em pé, dedicando, empenhando, esforçando e há os que estão sentados nas arquibancadas, julgando, apontando e criticando.

A arena é o lugar daqueles que lutam e a arquibancada dos que preferem a zona de conforto, “veneno mortífero e causador de imobilismo”.

Assim, cabe a cada um de nós usar o próprio juízo e escolher em qual dos lados ficar.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s