Ir para conteúdo

O estrangeiro, de Albert Camus.

Mersault começa a narrativa informando: “hoje, mamãe morreu”. Ela vivia há três anos num asilo, situado a alguns quilômetros de Argel, onde ele morava e trabalhava.

Devido ao falecimento, teve que pedir permissão ao patrão para se dirigir ao asilo e acompanhar o velório. A viagem durou duas horas e ele dormiu durante quase todo o trajeto.

O diretor do asilo quis saber se Mersault gostaria de ver a mãe morta. Ele se recusou.

Sua mãe estava habituada àquele lugar e tinha alguns amigos. Mersault não podia lhe fazer companhia, pois trabalhava durante o dia todo e os dois já não tinham muito o que conversar. Então, achou por bem mantê-la naquele lugar. E agora que estava morta não queria mais vê-la.

No dia do velório, Mersault achou o dia lindo e ensolarado. A beleza do que existe é indiferente à nossa retirada. Tudo continuava em seu ritmo normal, sendo exatamente o que é. Mersault notou que nada mudara ao seu redor e acompanhou o cortejo maravilhado com a resplandecência daquele dia que se mostrou todo indiferente à morte de sua mãe.

Após o enterro, Mersault voltou para Argel. Ao chegar, sentiu alegria ao pensar que iria dormir por algumas horas. Ele se acostumaria com a perda da mãe, porque ela sempre lhe dissera que nos acostumamos a tudo, assim como ela se habituara naquele asilo.

Ele parecia denotar indiferença por todo e qualquer acontecimento, chegando a beirar uma certa frieza. Nada parecia desconcertá-lo ou desequilibrá-lo. Era como se carregasse em si o pensamento de que nada poderia fazer, pois “não havia saída”. Diante da morte da mãe, não havia saída. Diante do absurdo da existência, também não havia saída.

Ao acordar, Mersault foi tomar banho de mar e se encontrou com Marie. Os dois foram ao cinema assistir um filme de comédia. Sim. Um dia depois da morte da mãe para espanto da moça. Ele teve vontade de dizer-lhe que não teve culpa daquele acontecimento, apesar de no fundo admitir que “a gente sempre se sente um pouco culpado”.

Ele era um homem de poucas palavras, dizia “sim” ou “não” com a intenção de não prolongar conversas e não gostava que lhe fizessem perguntas. Mantinha-se calado sob o argumento de que nunca tinha grande coisa a dizer, no entanto observava o que se passava ao seu redor.

Observava o velho Salamanca com o seu cachorro, fazendo o mesmo itinerário há oito anos, reclamando, batendo e excomungando o cão, entretanto mantendo a coleira cada vez mais curta e apertada para que o animal não lhe escapasse. Até que um dia o cão foi embora e deixou seu dono desconsolado. Salamanca se habituara tanto àquela situação que, ao ser abandonado pelo ser que tanto desprezara, perdeu o rumo. Procurou o cachorro por dias, mas não o encontrou e teve que aceitar a partida. Certamente, ele se habituaria a essa falta, tal qual a namorada de Raymond, vizinho de Mersault, se habituara a apanhar.

Raymond espancava a mulher sob o pretexto de que ela o enganara. Certo dia, um guarda dirigiu-se até o quarto em que o casal brigava. Qualquer coisa que o guarda fizesse não mudaria as pancadas que aquela mulher havia levado. Rayond tremeu diante daquela autoridade, mas quando o guarda saiu os espancamentos continuaram, porque a mulher continuou frequentando o quarto de Raymond. Ela se habituara às mãos dele que, por vezes, lhe desferiam carícias e outras, muitas bofetadas.

O irmão da namorada de Raymond, um árabe, já o havia ameaçado inúmeras vezes, mas nem isso o intimidava.

Raymond convidou Mersault a passar um final de semana na casa de praia de um casal de amigo seu, Sr. e Sra Masson. Ele aceitou e foi acompanhado de Marie que, a essa altura, já desejava se casar com esse homem que ela considerava estranho, mas que também se habituara a sua estranheza.

Os três homens, Mersault, Raymond e Masson, resolveram fazer um passeio na praia e encontraram o árabe com seus comparsas. Eles desferiram golpes entre si. Raymond se feriu e dirigiu-se até a casa do médico acompanhado de Masson, enquanto Mersault ficou encarregado de dar a notícia a Marie e à Sra. Masson.

Depois de dar a notícia às mulheres, Mersault voltou à praia sozinho. “Tinha vontade de reencontrar o murmúrio da água, vontade de fugir do sol, do esforço e do choro de mulher, enfim, vontade de reencontrar a sombra e o repouso”.

O sol flamejava. O mesmo sol daquele dia em que enterrara a mãe. O sol que a tudo é indiferente e que continua a brilhar, ainda quando tudo dentro de nós é só escuridão. Aquele mesmo sol.

Mersault avistou o árabe vindo em sua direção com uma faca. O sol irradiava o objeto cortante e o revólver que Mersault tinha em mãos. “Então atirei quatro vezes ainda num corpo inerte em que as balas se enterravam sem que se desse por isso. E era como se desse quatro batidas secas na porta da desgraça.”

Mersault foi preso. Houve vários interrogatórios e o Estado lhe nomeou defensor público, uma vez que ele não constituíra advogado. Não sabia se era extremamente necessário ter alguém que lhe defendesse e achou muito cômodo que a justiça cuidasse desses pormenores.

O defensor o orientou sobre o que e como falar diante do tribunal. Os investigadores já haviam se informado sobre o comportamento de Mersault no dia do enterro da mãe e haviam concluído que ele dera “provas de insensibilidade”. O advogado quis saber se ele sofrera com a perda da mãe.

“Respondi que perdera um pouco o hábito de interrogar a mim mesmo e que era difícil dar-lhe uma informação. É claro que amava mamãe, mas isso não queria dizer nada. Todos os seres normais tinham em certas ocasiões desejado, mais ou menos, a morte das pessoas que amavam.”

O advogado o fez prometer que não falaria dessa maneira diante do juiz. Então, ele explicou: “o meu temperamento era este – meus impulsos físicos perturbavam com frequência meus sentimentos.”

“O que podia afirmar, com toda a certeza, era que preferia que mamãe não tivesse morrido.”

Mersault se recusava a dizer inverdades, ainda que para sua defesa. Estava cansado de tanto interrogatório e de repetir sempre a mesma história. Duvidavam de seu caráter taciturno e fechado, mas é porque ele não tinha grandes coisas a dizer. Ele era como todo mundo. “Exatamente como todo mundo”. Entretanto, preferiu não dizer mais nada por mera preguiça.

O juiz de instrução quis saber de Mersault se ele acreditava em Deus. Respondeu que não. “Nunca vi uma alma tão empedernida quanto a sua. Os criminosos que aqui estiveram diante de mim sempre choraram diante desta imagem da dor” – disse-lhe o juiz. Depois, o apelidou de Sr. Anticristo.

Mais que arrependimento, Mersault sentia tédio. Mesmo preso, considerava possuir tudo o que necessitava. No início da detenção sentiu dificuldade de conformar seus pensamentos, que ainda eram de um homem livre, com o corpo que se encontrava aprisionado. Depois, se acostumara.

“Era, aliás, uma ideia de mamãe, e ela repetia com frequência que acabávamos acostumando-nos a tudo”.

Também, atormentava-lhe o desejo por uma mulher. “Era natural, eu era jovem”. Ele não podia receber visitas íntimas já que não era casado. ” Foi informado de que era a primeira coisa de que os outros presos se queixavam.

Além de não poder se encontrar com mulher, também lhe foram tirados os cigarros. “Não entendia por que me privavam de algo que não fazia mal a ninguém”.

“Mas, a essa altura, já se habituara a não fumar e isso deixara de ser um castigo para mim.”

Mersault não se sentia muito infeliz e acabou por não se entediar mais a partir do momento em que aprendeu a recordar. Perdera a noção de tempo naquele lugar e as únicas palavras que lhe conservaram o sentido foram “ontem” e “amanhã”. “Para mim era sempre o mesmo dia que se desenrolava na minha cela, e era sempre a mesma tarefa, que eu perseguia sem cessar.”

Matara um homem, estava preso e não havia saída. “(…) e ninguém pode imaginar o que são as noites nas prisões.”

Mersault nunca tivera a oportunidade de assistir a um julgamento em toda a sua vida. O seu próprio julgamento seria o primeiro a que ele presenciaria. Geralmente, ninguém se interessava pela sua pessoa, mas naquele momento todos que estavam naquele tribunal, estavam para vê-lo.

Muito se interrogou a respeito da morte de sua mãe, como se isso tivesse relação com o crime que cometera. Achavam-no frio por não ter manifestado dor no dia em que a perdera. Sua calma no dia do enterro impressionara e a falta de choro não podia ser normal. Também não se admitira que não soubesse a idade da mãe. Tudo isso era muito suspeito. “(…) nem mamãe nem eu esperávamos mais nada um do outro, nem, aliás, de ninguém, e nós dois já havíamos habituado às nossas vidas.”

O promotor o fitava “com brilho irônico nos olhos”, com olhar de triunfo e, pela primeira vez, Mersault se sentiu culpado e com vontade de chorar, porque se sentiu detestado por todos que ali estavam.

Um dos interrogados foi o Sr. Céleste que, ao ser instado a dizer sobre o que pensava a respeito do acusado, pronunciou: “é um homem. Todo mundo sabe o que isso quer dizer”.

Céleste declarou que não havia defesa para o ato de Mersault. O que ele fez foi verdadeiramente uma desgraça. Considerava-o não apenas cliente, mas também seu amigo. Mas um amigo que cometeu um ato indefensável. E ao afirmar que Mersault era um homem, talvez quisesse dizer que todos os homens são capazes de cometer desgraças.

O promotor quis saber de Céleste se o acusado pagava suas despesas. “Isso é assunto nosso” – respondeu.

Muitas perguntas não tinham qualquer relação com o crime e, provavelmente, não influenciaria em nada no seu esclarecimento. Também, o fato de Mersault ter tomado banho de mar e assistido um filme de comédia um dia após a morte de sua mãe não parecia ter qualquer ligação com o assassinato, mesmo assim tudo fora levado ao tribunal como algo a mais para acusá-lo.

Salamano foi uma das testemunhas e disse: “é preciso compreender, é preciso compreender”. Mas, ninguém parecia compreender nada. E o advogado de defesa interrompeu dizendo:

“Afinal, ele é acusado de ter enterrado a mãe ou de matar um homem?”

Os fatos eram resumidos a partir da morte de sua mãe e da sua visível insensibilidade.

Mersault refletiu: “Mesmo no banco dos réus, é sempre interessante ouvir falar de si mesmo. Durante as falas do promotor e do meu advogado, posso dizer que se falou muito de mim, e talvez até mais de mim do que do meu crime. De algum modo, pareciam tratar deste caso à margem de mim. Tudo se desenrolava sem a minha intervenção. Acertava o meu destino sem me pedir uma opinião.”

Certamente, se fosse dada a oportunidade de Mersault falar, ele não falaria absolutamente nada. Ele matara um homem e não havia explicação para isso. Também não estava arrependido e não seria capaz de mentir. Era de seu temperamento. “Nunca conseguira arrepender-se verdadeiramente de nada”. No entanto, a obstinação com que o promotor lhe acusara, utilizando-se de informações tão pouco importantes e precisas para o desvendamento do crime, assustara-lhe.

“Dizia que, na verdade, eu não tinha alma e que nada de humano, nem um único dos princípios morais que protegem o coração dos homens, me era acessível. Disse, por fim, que o seu dever era doloroso, mas que o cumpriria com firmeza.”

Dirigindo-se ao júri, o promotor pedia a cabeça do acusado, cujo rosto, a seu entender, não se lia nada que não fosse monstruoso.

Mersault estava atordoado pelo calor e pela perplexidade. Ao ser mais uma vez instado a se pronunciar sobre por que havia cometido o ato, respondeu: “fora por causa do sol”. Não tinha o que falar, nem porque se justificar ou se eximir. Havia cometido um crime cuja maior pena seria o seu remorso eterno. Todos ali o haviam reduzido a zero, o haviam substituído. Nada mais tinha a declarar.

“Assaltaram-me as lembranças de uma vida que já não me pertencia, mas onde se encontrava as mais pobres e as mais tenazes das minhas alegrias: cheiros de verão, o bairro que eu amava, um certo céu de entardecer, o riso e os vestidos de Marie. Tudo quanto eu fazia de inútil neste lugar subiu-me então à garganta e só tive uma pressa: acabar com isto e voltar à minha cela.”

A condenação foi pronunciada. Todos os presentes estavam ávidos por um desfecho que só dizia respeito a Mersault. Só a ele. O promotor acusaria outros réus; o advogado teria outros clientes; o juiz julgaria outros crimes; os representantes do júri e as testemunhas seguiriam o curso de suas vidas…

Todos sairiam incólumes. Apenas Mersault aguardaria a própria execução. “Não havia saída”. Para ele, não faria qualquer diferença morrer aos trinta ou aos setenta. Não recorreu da sentença. Não se rendeu às inventivas de um capelão que esperou de Mersault um anúncio de arrependimento ou um pedido de perdão.

Mersault sentiu apenas medo, o que era normal. Não tinha a quem se agarrar em suas últimas horas. Não acreditava em Deus. Não suportava a presença daquele capelão. Pôs-se a esperar o dia da execução, desejando que houvesse muitos expectadores para que não morresse só. Antecipara a condenação com o seu crime. Só antecipara. Mais cedo ou mais tarde seria condenado. Assim como, mais cedo ou mais tarde, todos nós receberemos nossa sentença irrecorrível. Não há saída. Estamos todos imersos no absurdo. O absurdo da existência.

Categorias

Sem categoria

leiturana Ver tudo

Meu nome é Ana Veiga, moro em Brasília e tenho paixão pela leitura e pela escrita. Ler e escrever são para mim "vícios desde o início". Leio por prazer. Escrevo por necessidade. E, nesse espaço, quero compartilhar com vocês os maiores ensinamentos que extraio dessas leituras. Espero que gostem!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: