Felicidade Conjugal, de Tolstói.

Quem narra a história desse livro é Mária Aleksândrova, órfã de pai e mãe, que se vê apenas diante das presenças da irmã mais nova, Sônia, e da governanta e amiga da casa, Kátia.

A perda da mãe ocorreu mais tarde que a do pai. Contava com dezessete anos e se viu numa profunda tristeza, sem vontade de fazer as coisas de que mais gostava como ler um livro ou tocar piano. Sentiu-se perdida, angustiada, inerte e sem alegria para continuar a vida, sem ocupação, sem pensamento e sem desejo.

É nesse estado de desolação e tristeza que Mária se depara com Sierguiéi Mikháilitch, amigo de seu falecido pai e agora tutor dela e da irmã. Ele tenta alegrá-las falando de outros assuntos que não a recente perda e provoca Mária a reavivar seu espírito.

Ao saber que a moça vivia desconsolada chamou sua atenção para a necessidade de não se aborrecer e procurar força e consolo nos livros, na música, nos estudos e em toda a vida que tinha pela frente.

Mária gostava dele. Estava acostumada com a presença daquele homem em sua casa e o admirava por seu jeito brincalhão, alegre, leve e agradável.

A presença de Sierguiéi deu um pouco mais de ânimo àquela casa sem pai nem mãe. E Mária passou a esperá-lo todos os dias. Ao se despedirem, Sierguiéi a aconselhou: “Ocupe-se mais; não desanime”.

Com as palavras dele e a promessa daquela presença constante à sua frente, Mária vislumbrou a possibilidade de ser novamente feliz e passou a ocupar-se com a irmã, a música, a leitura, seus próprios pensamentos e a realizar passeios no jardim.

Ao retornar de uma viagem que fizera, Sierguiéi fez uma visita a Mária e ela contou a ele tudo aquilo que fizera para não se aborrecer e ocupar o tempo, numa tentativa de agradá-lo e de deixá-lo contente.

Numa das muitas conversas que os dois tiveram, Mária quis saber de Sierguiéi porque não se casara. “Porque gosto de ficar sentado” foi a resposta. “Só tenho vontade de ficar sentado. E, para casar, é preciso outra coisa”.

Ele contava com seus trinta e seis anos e considerava-se velho. Certa vez insinuou à moça:

“(…) não seria para você uma infelicidade unir a sua vida a um homem velho, já vivido, que só quer ficar sentado, enquanto você tem Deus sabe que ideias fervilhando na mente, Deus sabe que vontades?”

As conversas entre os dois se intensificaram cada vez mais. Mária gostava de falar de si mesma e Sierguiéi prestava atenção em tudo o que ela dizia. Foi tomada por uma imensa vontade de melhorar seu espírito a fim de demonstrar a esse homem que nela existia muito mais que um corpo jovem e bonito.

Mária passou a se sentir bem, disposta, alegre e convenceu-se de que o amava.

Os dois se casaram numa cerimônia muito simples, “sem barulho, sem enxoval, sem convidados, sem padrinhos, ceias, champanha e todos estes acessórios convencionais do ato matrimonial”. Só a vontade e o amor os unia.

O casal foi morar no campo, na casa em que residia a mãe de Sierguiéi com seus serviçais. Sierguiéi desejava viver essa vida simples, quieta e solitária sem muitas pretensões que não fossem o trabalho, a ajuda ao próximo, o repouso, a natureza, os livros, a música e o amor a alguém. Eis a felicidade a que ele sonhara.

Inicialmente, Mária concordou que o motivo de sua felicidade residia nas mesmas pretensões que o marido, entretanto, ele sabia que, mais cedo ou mais tarde, Mária desejaria outras coisas já que era jovem e vivera pouco. Ela ansiaria por outras sensações que aquela vivência simples e pacata não seria capaz de lhe oferecer.

Mária passou a se sentir solitária e entediada, sem espaço e liberdade. Sua vida girava em torno do esposo. A música, os livros, a casa de campo, o ar puro, o amor linear do marido e a simplicidade com que conduziam a vida já não lhe satisfazia. Tudo lhe parecia monótono e repetitivo demais.

Quando a situação começou a afetar a saúde e os nervos de Mária, o esposo decidiu passar um tempo na cidade, em São Petersburgo. O casal foi bem recebido pelos conhecidos e Mária era objeto de encanto de todos. Passaram a frequentar a alta sociedade, os bailes e as festas. Ela começou a se sentir disposta e alegre, afinal a sociedade rendia-lhe os mais altos e belos elogios e a sua presença atraía outros homens. Ela era notada por todos, enquanto que outrora, no campo, mal sentia o olhar do próprio esposo. Entre eles a distância era cada vez maior.

Mária necessitava de movimento, luta e intranquilidade. Seu espírito inquieto desejava a novidade a que o marido não mais estava disposto, porque já vivera tudo a seu tempo. De certa forma, Sierguiéi sabia que era preciso permitir à esposa usufruir desses prazeres sociais a fim de que ela mesma tirasse suas conclusões a respeito da melhor forma de viver. Assim, apesar dos ciúmes que sentia da amada não a impediu de passar pela experiência da glória da mocidade.

Mas à medida que o tempo passava, Mária deixava de ser a novidade e de atrair a atenção de todos. Mulheres mais belas e mais jovens surgiam na sociedade e ela sentia o desabrochar do esquecimento daqueles que a admiravam.

O abismo entre ela e o marido só aumentava. Mária vivia para si e para se apresentar aos outros e, pela primeira vez, Sierguiéi não se conteve em dizer-lhe que aquilo o incomodava. Os dois já não faziam questão de estarem juntos. Cada um vivia isoladamente no seu mundo e aquelas tantas conversas que tinham antes de se casarem ficaram cada vez mais escassas.

Mária passou a sentir que aquela vida social a que submetera não mais a seduzia. “A vida de sociedade, que a princípio me deixou ofuscada com o brilho e com as lisonjas do amor-próprio, logo apossou-se totalmente dos meus gestos, tornou-se um hábito, impôs-me suas cadeias e ocupou em minha alma todo o lugar disponível para o sentimento. Agora nunca mais ficava a sós comigo mesma e temia pensar na minha situação.”

Durante três anos a relação do casal permaneceu distante e fria. Nesse ínterím, a mãe de Sierguiéi faleceu e Mária teve um filho , bem pouco esperado, porque a impediria de frequentar os eventos a que ela se acostumara. O nascimento da criança lhe foi indiferente a ponto dela se questionar se era a pior dentre as mulheres por não amar o filho.

Mária chegou a desejar profundamente um príncipe que se encantara com ela. A sós com esse homem esteve a ponto de se entregar a ele, mas ao se lembrar do marido e do filho não teve coragem e, embora tenha fugido de concretizar qualquer ato com aquele estranho que a desconcertava, o sentimento de culpa a perseguia.

Tanto os sentimentos de Mária quanto os de Sierguiéi se transformaram ao longo do tempo. Ela sentia que havia perdido algo. A culpa lhe atormentava e a fazia imaginar que existia entre os dois algo que não fora de todo perdoado. Ela parecia atribuir ao esposo o desprezo que passou a sentir por si mesma. “Eu imaginava tudo o que ele podia estar pensando a meu respeito, e ofendi-me com os pensamentos terríveis que atribuí a ele.”

Era do julgamento de si mesma que ela não conseguia fugir. E esse talvez seja o pior dos julgamentos, porquanto vem acompanhado da culpa. “E a realidade transformou-se numa vida pesada, difícil, sem alegria.”

O casal consentiu em voltar a morar no campo. Mária teve outro filho. A casa era aquela que habitaram no início do matrimônio. Nada ali mudara, mas tanto eles quanto o amor que sentiam um pelo outro não eram mais os mesmos. Não havia como voltar ao passado. Talvez Mária quisesse. Entretanto, Sierguiéi acreditava que tudo que havia acontecido fora o melhor, embora também lamentasse o que ocorrera entre os dois ao proferir:

“(…) eu choro aquele amor passado, que não existe nem pode existir mais. Quem é culpado disso? Não sei. Sobrou o amor, mas não aquele, sobrou o seu lugar, mas o amor ficou totalmente dolorido, não tem mais força nem suculência, ficaram as recordações e a gratidão, mas…”

Mária não entendia porque Sierguiéi havia permitido que ela frequentasse a sociedade e se distanciasse dele. “Todos nós, e particularmente vós mulheres, devemos viver sozinhos todo o absurdo da existência, a fim de voltar à própria vida” – disse-lhe o esposo.

Os dois já não se beijavam como amantes que foram, mas como bons amigos. Não havia mais romance, ímpeto, nem desejo fervoroso entre os dois. O sentimento antigo ficou no passado e nada podia trazê-lo de volta. Mária era mãe dos filhos de Sierguiéi e este pai de seus filhos. Uma nova vida se apresentava. Um novo amor mais leve e fraternal os invadia.

O tempo é implacável e altera todas as coisas, entre elas o amor de um casal. E a felicidade conjugal dependerá da grandeza de alma dos dois para compreender, perdoar, esquecer e viver o que está no porvir…

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