A metamorfose, de Franz Kafka.

O personagem principal do livro é Gregor Samsa, caixeiro-viajante, que mora com pai, mãe e irmã e dá um duro danado no trabalho para sustentar toda a família, desde que o pai se viu arruinado em seus negócios e, por consequência, endividado.

Sentindo-se na obrigação de sustentá-los e pagar a dívida do pai, Gregor acorda muito cedo todos os dias e vive uma vida fatigante e cansativa com suas muitas viagens, falta de tempo, refeições de má qualidade e nenhum momento para si mesmo.

Até que um dia ele acorda de sonhos intranquilos e se percebe em sua cama metamorfoseado num inseto monstruoso.

Creio que Kafka utiliza a metáfora “inseto monstruoso” apenas para demonstrar como Gregor será visto a partir do momento em que passa a se preocupar consigo mesmo e vive de acordo com os seus desejos, deixando de atender às necessidades da família e da firma onde trabalha. É o mesmo que acontece conosco quando decidimos não nos submeter às expectativas, aos caprichos e às vontades daqueles que esperam alguma coisa de nós.

A metamorfose porque passa é oriunda de uma conscientização a respeito da vida que levava, alheio a si mesmo, às suas vontades, por estar voltado de corpo e alma à família.

Nesse dia, Gregor não se levanta para trabalhar à hora marcada. Decide dormir mais um pouco, o que faz com que todos os membros da família batam à porta do seu quarto com vistas a questioná-lo. Ele responde que levantará dentro de alguns minutos e pensa:

“Se não me contivesse por causa dos meus pais, teria pedido demissão há muito tempo; teria me postado diante do chefe e dito o que penso do fundo do meu coração. Ele iria cair da sua banca! Também, é estranho o modo como toma assento nela e fala de cima para baixo com o funcionário – que além do mais precisa se aproximar bastante por causa da surdez do chefe (…) assim que juntar o dinheiro para pagar a dívida dos meus pais – deve demorar ainda de cinco a seis anos – vou fazer isso sem falta.”

Enquanto isso, Gregor pensa em como justificará seu atraso na firma em que trabalha. Não poderia dizer que estava doente, afinal há cinco anos exercia o seu ofício sem nunca adquirir qualquer enfermidade. Desconfiariam dele. Empregado não pode adoecer, como bem lhe diria o gerente: “(…) homens do comércio, feliz ou infelizmente precisa muitas vezes, por considerações de ordem comercial, superar um ligeiro mal-estar.”

Kafka aproveita para fazer uma crítica ao sistema de produção capitalista que ignora a saúde e a qualidade de vida do empregado em prol do lucro desmedido.

Deitado na cama, Gregor faz um tremendo esforço para se manter nela, tendo que lutar contra suas próprias pernas que, de tão habituadas a caminhar todos os dias para alcançar o trem, parecem querer andar sozinhas, sem obedecer ao comando emitido pelo seu dono no sentido de se manterem estáticas.

Quando o gerente da firma percebe que Gregor não chegara ao trabalho à hora marcada, decide ir pessoalmente à casa do empregado tirar satisfações, para consternação e vergonha da família.

O gerente exige que Gregor lhe dê uma explicação imediata e clara. Diz estar perplexo com a atitude dele e declara: “Acreditava conhecê-lo como um homem calmo e sensato e agora o senhor parece querer de repente começar a ostentar estranhos caprichos.”

A partir do momento em que Gregor não se comporta dentro do esperado, o gerente se volta contra ele e o acusa. Cinco anos chegando à hora certa e nenhum elogio, mas um único dia de atraso é o suficiente para desqualificá-lo, inclusive alegando que seu rendimento na firma não tem sido tão satisfatório. Quem nunca foi difamado por não dizer amém aos caprichos de seus chefes que atire a primeira pedra.

Gregor pede ao gerente um pouco de paciência, mas é em vão. O superior está irredutível e, percebendo a atitude e confiança com que o empregado tomara a decisão de ali permanecer mais um pouco, o gerente sai da casa assustado e inconformado.

Essa situação deixa os pais de Gregor consternados, pois eles acreditavam que o emprego do filho estava garantido pelo resto da vida. O futuro da família dependia desse emprego.

Após a saída do gerente, Gregor cai em sono profundo. Ao acordar, tem a oportunidade de observar a vida tranquila que sua família leva à custa de seu trabalho. O apartamento em que moram é grande e bonito. Havia sossego e bem-estar.

Seu pai se mantinha saudável, mas não trabalhava. Sua mãe tinha problemas respiratórios e realizava algumas atividades domésticas leves, pois contratavam alguém para o serviço mais pesado. E sua irmã, então com dezessete anos, era considerada criança pelos pais e gostava de dormir, usar roupas bonitas e se divertir. Todos felizes e satisfeitos em usar e gozar os benefícios de uma vida ofertada por Gregor. Como seria quando tudo isso chegasse ao fim?

Gregor passou a ser ignorado por todos. Ninguém se interessava mais por ele. Preso em seu quarto, apenas sua irmã se dirigia até o local, em horas marcadas, para levar restos de comida e limpar o quarto quando a imundície havia ultrapassado o máximo permitido. Tudo era feito com nojo, indiferença e descaso, “como se fosse o quarto de um doente grave ou mesmo de um estranho”.

Os móveis foram retirados do quarto de Gregor como se ele já não precisasse de mais nada e todo e qualquer entulho era para lá dirigido, como se o local fosse habitado por um bicho. Era assim que o viam, como um inseto inútil, um monstro.

Sozinho em seu aposento, Gregor se lembra dos bons tempos e momentos vividos com a família feliz, principalmente quando entregava uma boa quantia de dinheiro em troca de nenhum calor especial.

Quando o dinheiro deixou de ser entregue, todos os membros da família trataram de arrumar emprego e, como o apartamento comprado por Gregor era enorme, três quartos foram destinados à locação.

A irmã o destratava, o pai agia com extrema rigidez e a mãe, se não pecou por ação, o fez por omissão, pois não se moveu em nada para apoiar o filho, apenas pediu ao marido que poupasse-lhe a vida.

Gregor sentia na carne o desprezo e a repulsa daqueles que tanto protegeu e cuidou. Certa vez, o pai o agrediu também fisicamente a ponto de lhe causar profunda ferida no corpo e na alma. 

A família estava tão envolvida com os seus afazeres que não tinha tempo para se ocupar com Gregor. A ele só restou o esquecimento.

Como a economia da casa agora era mantida por todos, eles trataram de reduzir despesas e gastos, inclusive demitindo a empregada doméstica. 

Diante do abandono total, Gregor chegou a pensar em reassumir as responsabilidades da casa, mas já não lhe restava ânimo para cuidar daquela família ingrata e que só lhe oferecia maus tratos, causando-lhe imenso ódio.

Gregor se mantinha em seu canto resignado. “Sua indiferença diante de tudo era grande demais”.

Ninguém mais lhe dirigia qualquer atenção. Até a comida era empurrada com os pés ao seu quarto pela irmã. A mesma irmã a quem ele aspirou um dia encaminhar a um conservatório para estudar música, disposto a pagar o preço que fosse. A mesma irmã que passou a se referir a ele com as mais impiedosas expressões:

“Esse monstro. Precisamos nos livrar dele.”

“Precisamos tentar nos livrar disso.”

“É preciso que isso vá para fora.”

“O convívio de seres humanos com um bicho assim não é possível.”

“Quando já se tem de trabalhar tão pesado, como todos nós, não é possível suportar em casa mais esse eterno tormento. Eu não aguento mais.”

Realmente, todos se esqueceram do quanto Gregor os suportou e os sustentou por tanto tempo.

Diante de tantos ataques, Gregor se convenceu, até mais do que a irmã, de que precisava desaparecer da vida dos seus, embora pensasse neles com emoção e amor.

O abandono, a indiferença, o desprezo, os maus tratos, a fome, o desamor e a ingratidão atingiram letalmente Gregor, fazendo-o expirar pela última vez.

A faxineira foi quem o encontrou morto e comunicou o ocorrido à família. O pai de Gregor a pediu que desse um jeito no objeto encontrado, que o jogasse fora. Ela o empacotou como um lixo e ninguém quis saber os detalhes da missão delegada.

“Bem, agora podemos agradecer a Deus” – disse o pai.

Todos respiraram aliviados e resolveram descansar e dar um passeio nesse belo dia ensolarado. Afinal, mereciam.

Acordaram em esquecer o que ficou para trás e conversaram sobre perspectivas do futuro, onde seria necessário viver sob uma economia mais modesta, pois já não seriam sustentados por Gregor.

Enquanto conversavam, o senhor e a senhora Samsa, quase simultaneamente, notaram o quanto a filha havia florescido e se transformado numa jovem bonita. 

Grete já não era mais a criança, assim vista pelos pais ao tempo em que Gregor existia e supria as necessidades de todos. Era uma moça e já podia agir em prol da família. “Pensaram que já era tempo de procurar um bom marido para ela.”

Novos sonhos couberam naquela família cheia de boas intenções… Uma filha com um corpo jovem para um marido rico e abastado.

E assim, Gregor se foi para sempre e restou esquecido na vida daqueles que decidiram fechar as portas de um passado assustador.

Triste, mas foi o que aconteceu.

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