O conhecimento de si mesmo talvez seja a principal chave da sabedoria. Sócrates fez desse princípio o eixo de todo o saber filosófico.

Não há unanimidade para questões como essas: A vida é ou não é bela? Vale ou não vale a pena viver? Os seres são em essência bons ou maus? Devemos ou não confiar uns nos outros? Dentre outras mais…

A resposta dependerá da concepção e experiência de vida de cada um, se é que há resposta. Entretanto, a observância de si mesmo talvez nos traga alguns pensamentos que podem nos conduzir a chegar próximo a certas verdades e ajudar-nos a viver de forma melhor, com mais harmonia, paz e leveza.

Para Schopenhauer, representante do pessimismo, a vida não é bela. Porém, ele a suportou, tendo em vista o seu envolvimento com a Filosofia e com a crença de que nascera para uma  missão grandiosa: produzir conhecimento para que a humanidade tivesse condições de suportar melhor essa vida.

Aqui nesse texto, não vou dizer se concordo ou não com as visões de Schopenhauer. Quero apenas explanar alguns pensamentos desse filósofo e caberá a vocês, leitores, julgá-los por si próprios.

A arte de conhecer a si mesmo é um apanhado de escritos de cunho pessoal e máximas preferidas que Schopenhauer tinha como filosofia prática de vida.

Ele absteve-se de viver uma vida pessoal, de se relacionar com pessoas, de casar, bem como de se ocupar com prazeres mundanos para dedicar-se ao ócio criativo e desenvolver sua filosofia. Para ele, a vida pessoal era apenas uma condição para a intelectual. Aquela deveria ser o mais estreita possível para, ao fim, conseguir realizar sua vida intelectual de forma plena, onde recaía seu principal gozo. “Deixei de lado os interesses pessoais e tudo concentrei em minha vida espiritual”.

Considera cinco sextos da humanidade imprestável e mesquinha, cuja “existência transcorre sempre de maneira igual”. A outra parte, um sexto, da qual ele acreditava fazer parte, seria representada por espíritos melhores e mais evoluídos.

Sua vida baseou-se em “querer o menos possível e conhecer o mais possível”. Diante disso, viveu o ócio livre para pensar e estudar, que só lhe foi possível devido à herança deixada pelo seu pai que respaldou a sua subsistência.

Acredita que o nosso grande mau é a vontade, que nada mais é que o desejo. É o desejo que nos faz sofrer e não nos dá paz. “Devemos ocultar a vontade como se faz com a genitália (…)”.

Por considerar-se um ser extraordinário, Schopenhauer prega a necessidade de retrair-se da parcela ordinária dos homens, tendo em vista a inexistência de interesses comuns com essas pessoas. “Os missionários na China não confraternizam com os chineses.”

Seu  maior prazer residiu em pensamentos deixados por seres semelhantes a ele que vaguearam por entre a gente desse mundo. A letra morta dos escritos de seus predecessores tocavam-no muito mais do que a existência dos reles, os quais ele designava “bípedes”.

Tinha clareza quanto à sua posição no mundo e sabia as consequências que esse lugar poderia lhe render, utilizando-se das palavras de Chamfort para expressar-se, nesse sentido: “(…) sigo audaciosamente meu próprio caráter, aceitando com coragem as desvantagens e os inconvenientes que daí possam surgir”.

Entretanto, importante era manter-se firme, sendo fiel aos seus desígnios. Para confirmar esse pensamento, cita Shakespeare numa das falas de Hamlet que encontrou som em meu íntimo, desde que li esse clássico:

“Acima de tudo sê fiel a ti mesmo:

Disso se segue, como a noite ao dia,

Que não podes ser falso com ninguém!”

Schopenhauer não defende o ódio pela parcela vil da humanidade, antes prega o desprezo por ela. Quanto aqueles que o desprezavam – ele foi ignorado por muitos outros filósofos de seu tempo, principalmente pela sua divergência com Hegel – ele se fixou no seguinte:

“Desprezai-me, se podeis, mas o risco é vosso, não meu”.

Durante a juventude, o desejo de sociabilidade chegou a povoá-lo ao mesmo tempo em que tinha “aversão ao ser humano”.

Adulto, a repulsa ao humano fora ainda mais acentuada. Ele diz:

“A partir daí adquiri gradualmente um “olhar solitário”, tornei-me sistematicamente insocial e decidi dedicar o resto da minha vida efêmera totalmente a mim mesmo e, assim, perder o menor tempo possível com aquelas criaturas, a quem o fato de andarem sobre duas pernas conferiu o direito de nos tomarem por iguais (…)”.

Para embasar seu pensamento, cita:

 “O começo da sabedoria é o temor aos homens”. (Chamfort)

“Muralhas e muros são bons meios de defesa, mas o melhor é a desconfiança”. (Demóstenes)

“A mentira é a alma da vida social.” (Leopardi).

“O homem é o lobo do homem”. (Plauto)

“É mais seguro temer os homens que confiar neles.”

O desprezo era sua arma contra os seres que considerava diferentes dele. “Não se deve permitir que o ódio tome conta de nós, pois aquilo que se odeia não se despreza suficientemente.”

Era possível agir com desprezo profundo, tendo em vista a visão clara da “inacreditável miséria da disposição moral do homem, sua enorme limitação de entendimento, seu egoísmo, sua injustiça gritante, inveja e maldade, que às vezes chega às raias da crueldade”.

Melhor afastar-se já que “cinco sextos das pessoas do mundo são canalhas, néscias ou imbecis”. Schopenhauer acredita que, quanto mais o outro um sexto restantes se distanciar dos demais, melhor.

“A convicção de que o mundo é um deserto, em que não se pode contar com companhia, deve se tornar uma sensação habitual”.

Sobre a tagarelice, Schopenhauer declarou: “Não há ocasião em que eu considere os homens menos como meus semelhantes do que, por exemplo, quando os vejo tagarelar coisas sem sentido, o que para mim é como o latido dos cães ou o piar dos canários”.

É preciso fugir dos tagarelas, segundo o filósofo, para quem “É melhor nada falar a ter de manter uma conversa pobre e maçante”.

“(…) te guardes de conversas vis, ignóbeis, bárbaras e indignas.”

Os monges só conseguem ser o que são porque se afastam. Não vejo outra forma de um desenvolvimento intelectual e espiritual se não houver um certo distanciamento, pois só é possível chegar-se ao entendimento de certas coisas no silêncio e na introspecção.

Sobre essas questões, o filósofo faz as seguintes reflexões:

“A companhia humana limita meu espírito, e a solidão de novo a amplia”.

“A ocupação com coisas divinas os torna mortos para a multidão.”

“Um homem de verdade tem de ficar distante dos homens.” (Schiller)

“Num mundo irrestritamente comum, todo aquele que for extraordinário irá necessariamente se isolar, e de fato se isola.”

” Quanto mais o homem se isola da companhia dos homens, melhor se sente.”

“Uma felicidade grande e rara é, portanto, possuir tanto em si que não é impulsionado pelo fastio interior ou pelo tédio a procurar a companhia dos homens.”

Apesar de considerar a maior parte dos homens desprezível, Schopenhauer diz que gostaria de dizer o contrário, encontrando, entretanto, impedimento em sua experiência e maturidade, que o demonstrou repetidas vezes o quanto o homem é danoso, volúvel, pérfido, ambíguo, feroz e cruel.

Já que poucos homens podem nos ser benéficos, melhor o isolamento. Além do mais, que alguém pode oferecer ao outro além de sua própria solidão? “O que alguém pode ser para outrem possui um limite bem estreito: no final cada um é e permanece só.”

A miséria moral e intelectual do ser humano é tão intensa que o filósofo prega o menor envolvimento possível com ele. Inclusive, sugere que não nos enganemos, não nos deixemos seduzir pela tentação de criar ilusões e pensar os homens como desejamos, sendo necessário sempre termos diante dos olhos o que de fato eles são. Num primeiro momento, o homem pode até nos parecer mais tolerável, o que um pouco mais de intimidade certamente mostrará o contrário.

“O que um homem de minha espécie pensa e sente não tem semelhança alguma com o que as pessoas ordinárias pensam e sentem. Eis porque me convém permanecer hermeticamente fechado em mim mesmo.”

Assim ele justifica o seu retraimento social. E, diante dos que considera imbecis, sugere pelo uso da ironia. Mas, uma ironia calma e sem afetação. Nunca o ódio, que é uma forma de se importar.

“Temos de nos acostumar a ouvir tudo – até aquilo que mais poderia nos enfurecer – de maneira bastante serena, e com isso ponderar os absurdos do interlocutor e de suas opiniões, sempre evitando qualquer conflito.”

É isso o que tenho tentado fazer. Ouvir tudo, ainda que seja o maior absurdo, e silenciar. “Jamais devemos ceder à vontade de falar apenas por falar, visto que a tagarelice torna-se a franqueza do coração.”

Falar o menos possível. Algo a se perseguir, inclusive como forma de evitar demasiada intimidade, que para o filósofo pode culminar em diminuição do respeito. “Temos de nos esforçar por economizar ao máximo possível tal sociabilidade…”

A solidão foi uma constante em sua vida: “”(…) o mundo tornou-se para mim vazio e ermo. Durante toda a minha vida senti-me terrivelmente só, e no fundo do peito sempre suspirei.”

Declara não ter encontrado alguém que, em espírito e coração, fosse de fato um ser humano. Faz algumas exceções, como Goethe.

“Nada encontrei senão miseráveis sofríveis, de cabeça limitada, coração ruim, sentimentos vis”.

Assim, proclama que o dissabor com os indivíduos teve de ceder lugar ao sereno desprezo pelo todo.

“Cedo tornei-me consciente da diferença entre mim e os homens”.

“Todas as vezes que estive entre os homens retornei menos humano.” (Thomas von Kempen)

Isso o fez isolar completamente, anunciando ter que suportar com dignidade e paciência a “solitude of kings“, a solidão dos reis (Byron).

Refere-se a Th. Moore para dizer “quanto mais observo os homens, menos gosto deles; se ao menos eu pudesse dizer o mesmo das mulheres, estaria bem”.

Seus sonhos de felicidade sempre tiveram por base o retraimento, a paz, a solidão e o gozo de suas faculdades.

Schopenhauer chegou a se envolver com uma mulher, entretanto, não contraiu matrimônio.

“Não senti a coragem nem a capacidade ou chamado para carregar comigo o fardo do matrimônio”.

Casar-se seria reduzir sua liberdade, então não via qualquer vantagem em diminuí-la a fim de conquistar outrem.

Cita Bacon pra dizer que esposa e filhos seriam impedimentos para a realização de grandes tarefas.

Além do mais, considera a mulher um ser que esconde muitos males: “gastos sem fim, cuidados com a prole, indocilidade, teimosia, envelhecimento e perda da beleza em poucos anos, mentiras, cornos no marido, caprichos, ataques histéricos, amantes e outras coisas mais do inferno e do diabo”.

Nesse sentido, refere-se a Petrarca: “Quem procura paz, que evite a mulher, fonte perpétua de conflito e dor de cabeça”.

“Vivo principalmente em meu mundo de pensamentos e não gosto de companhia, diversões, sem falar que nem sempre estou de bom humor. De forma que resta pouca esperança de uma mulher vir a sentir-se feliz comigo”.

Em prol de sua liberdade e independência, preferiu a posse de si mesmo e a renúncia à posse de qualquer outra pessoa.

Schopenhauer considera que “quanto mais sensato e sábio alguém é, tanto piores são seus relacionamentos com a metade insensata da humanidade, e com razão, pois tais relacionamentos seriam uma imbecilidade maior ainda de sua parte”.

Esse filósofo se considerava um ansioso e abominava essa sensação que o atormentava e o direcionava a criar situações imaginárias e enxergar desgraças impossíveis. Diz que a ansiedade foi herança de seu pai e que tentava combatê-la, embora muitas vezes tenha se curvado a ela.

Talvez sua insegurança tenha sido um dos motivos para o seu isolamento, como ele mesmo confidencia:

“Mesmo sem haver nenhum motivo especial, trazia em mim uma contínua e íntima preocupação, que me levava a ver e procurar perigos onde não havia. Isso amplia ao infinito a menor inquietação e me dificulta por completo o relacionamento com os seres humanos”.

A dificuldade de se relacionar dava-se também por considerar a grande maioria das pessoas intragáveis.

“Os seres humanos têm uma tal índole que os mais sábios foram todos aqueles que no decurso de suas vidas travaram com eles o menor contato possível”.

Na sua visão, a função de um filósofo do seu calibre é instruir os outros seres, com distanciamento,  já que eram desnecessários para o desenvolvimento de si próprio.

 Cinco sextos da humanidade “levam em conta força e poder, convém evitá-los ou torná-los inofensivos. Devido à inveja própria da natureza humana só resta aos obtusos e destituídos de espírito alimentar uma animosidade secreta contra os que têm espírito superior”.

A satisfação de sua vida recaiu em possuir o ócio livre para pensar e estudar. “Considero o ócio como o bem maior” – disse.

Necessitava viver para ele mesmo e para seu espírito. Sua felicidade consistiu no ócio que utilizou para desenvolver todo o seu pensamento, exteriorizado por meio dos muitos livros que escreveu.

Schopenhauer considerava que havia nascido para esse destino e que só foi possível vivê-lo devido ao dinheiro deixado pelo seu pai, sem o qual teria que trabalhar duramente para se manter e não lhe sobraria tempo para pensar e estudar.

Ele não foi muito querido pelos demais filósofos do seu tempo, teve problemas de relacionamento com a mãe, dissensões com Hegel e uma briga com uma senhora que lhe rendeu um prejuízo de ter que pagar-lhe uma pensão vitalícia sob a acusação de injúria.

“Para ser amado pelos homens, ter-se-ia de ser igual a eles. Mas que o diabo os carregue! O que os une e mantém unidos é a sua ordinariedade, miudeza, superficialidade, raquitismo espiritual e mesquinharia”.

“O igual se alegra com o igual” – disse.

Preferia ver antecipar o seu fim a ter que deixar-se arrastar pelos miseráveis que o levaria também ao fim, mas de modo que jamais desejaria.

Segundo sua filosofia, “quanto maior é o mundo de alguém, maior é a farsa”. A sociedade precisa da mentira para viver. “A mentira é a alma da vida social”.

Schopenhauer, citando Friedrich Buchholz, considera que a vantagem superior de uma pessoa reside no maior grau com que ela desenvolve em si mesma características de independência e completude em relação ao outro. A pessoa deve agir para desenvolver sua formação e produtividade e, para isso, distanciar-se o mais possível, excetuando apenas os casos em que o contato é de extrema necessidade.

Assim, “tal pessoa pode ser tranquilamente incluída entre as mais excelsas e magnânimas”.

Essas foram as principais colocações que retirei dessa obra.

Bem, agora cabe a cada leitor realizar as considerações que entender convenientes e, ao fim, realizar suas próprias ponderações a respeito do pensamento desse grande filósofo.

Publicado por:leiturana

Meu nome é Ana Veiga, moro em Brasília e tenho paixão pela leitura e pela escrita. Ler e escrever são para mim "vícios desde o início". Leio por prazer. Escrevo por necessidade. E, nesse espaço, quero compartilhar com vocês os maiores ensinamentos que extraio dessas leituras. Espero que gostem!

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