Discurso do Método, de René Descartes.

Você consegue se imaginar despojando-se de toda aprendizagem adquirida para se aventurar numa empreitada filosófica de questionar todo e qualquer pensamento tido como uma verdade?

Já se surpreendeu com a ideia de abandonar a faculdade ou sequer passar pela sua porta e buscar, sozinho, o conhecimento que considera útil para viver melhor os seus dias?

Também, nunca havia pensado nem numa coisa, nem noutra. Não que eu tenha apego a dogmas e recuse a aceitar contradições às minhas ideias, mas sinto que há um certo conforto em manter pensamentos que talvez seriam desfeitos caso os colocassem à prova.

Descartes afastou-se do estudo acadêmico, abandonou a leitura dos livros e se dispôs a viajar, sem previsão de retorno, para conhecer outros costumes, culturas e pessoas, com a finalidade de adquirir conhecimento por meio de sua própria observação e seu próprio método.

Além de procurar por lugares sossegados para desenvolver sua atividade reflexiva, sem interrupções, ele decidiu por subtrair de si o conhecimento que acumulou ao longo da vida e, desprover-se de pré-conceitos que poderiam prejudicá-lo na apreensão de pensamentos novos, os quais, antes de serem consagrados como verdadeiros passariam pelo crivo de sua razão e não de nenhuma outra.

Para tanto, desenvolveu um método composto por quatro passos para se chegar à compreensão de algo, antes de classificá-lo como verdadeiro ou falso. Ele diz: “(…) meu propósito não é ensinar aqui o método que cada um deve seguir para bem conduzir sua razão, mas apenas mostrar de que maneira procurei conduzir a minha.”

O filósofo confessa seu fascínio pelas letras e afirma que desde a infância desejou aprendê-las e sentia-se nutrido por elas. Frequentou uma escola, entretanto não estava satisfeito com os ensinamentos ali transferidos, embora não os desprezasse. Entende a importância do aprendizado de alguns idiomas que levam à compreensão dos livros clássicos, importantes para formar o discernimento e o julgamento, no entanto sua recusa em ingressar para a academia deveu-se pela crença de que neste lugar não aprenderia as verdades que supunha necessárias saber.

“(…) abandonei inteiramente o estudo das letras. E, decidindo não buscar mais outra ciência senão a que se poderia achar em mim mesmo, ou então no grande livro do mundo (…)”

Sobre as questões divinas, preferiu não empreender esforços no sentido de revelá-las, pois que considera a razão humana insuficiente para apreendê-las e explicá-las. Reconhece que a divindade não escolhe necessariamente os doutos para se manifestar e faz-se conhecer inclusive e, por que não mais, aos ignorantes, pois o meio usado para se chegar aos céus dá-se pela fé e menos pela racionalidade.

Ainda assim, Descartes desenvolve um raciocínio que acredita comprovar a existência de Deus. Para isso, utiliza-se da álgebra, aritmética, medicina e outras ciências. Deus não é menos provável que a existência dos astros.

Seu propósito não consistia em reformar ou transformar o pensamento dos outros, mas tão somente o seu, a fim de conduzir melhor a sua vida. Deixa a quem o ler, a liberdade de escolher imitar ou não o seu método, posto que, embora todos possuam razão, as opiniões são divergentes.

E a formação das opiniões estão relacionadas às experiências de vida de cada um, ao contexto em que nasceram e às influências que receberam ao longo do tempo. Portanto, era preciso se afastar dos ensinamentos daqueles que julgavam o mundo encerrados em seus aposentos e partir para a observação local de cada coisa com os seus próprios olhos.

“Parecia-me que eu poderia encontrar muito mais verdade nos raciocínios que cada um faz sobre os assuntos que lhe importam, e cujo resultado, se julgou mal, irá puni-lo em seguida, do que naqueles feitos pelo homem de letras em seu gabinete, sobre especulações que não produzem qualquer efeito e não têm outra consequência, a não ser, talvez, que lhe proporcionarão mais vaidade tanto quanto mais afastadas estiverem do senso comum, pelo tanto de espírito e de artifício que precisou empregar para torná-las verossímeis. E sempre tive um extremo desejo de aprender a distinguir o verdadeiro do falso, para ver com clareza minhas ações e andar com segurança nesta vida.”

O método que Descartes desenvolveu para se chegar ao conhecimento tem início pela recusa em aceitar qualquer coisa como sendo verdadeira caso não possa ser de fato evidenciada. Em segundo lugar, dividir os assuntos complexos em tantas partes simples quantas forem necessárias a fim de melhor resolvê-los. Depois, ordenar os pensamentos de acordo com a complexidade, dos mais simples aos mais difíceis e ao final fazer enumerações e anotações que devem ser revisadas de tempos em tempos, pois que não há verdades absolutas que não possam ser novamente contestadas.

A busca pelo conhecimento a que Descartes se propôs empenhar consistia primeiramente, como mencionado, em abandonar verdades em que acreditava e exercitar a liberdade do pensamento. Entretanto, para realizar esse desejo era preciso viver tranquilamente, de modo que nada atrapalhasse suas reflexões e análises. Estava inserido num contexto social, onde era preciso a observação de certas regras e preceitos a serem obedecidos com o fim de evitar prejuízos ao cumprimento de seus fins. Ele também prezava por silêncio e repouso. Tudo o que pudesse contribuir para assim permanecer seria de bom proveito.

Portanto, desenvolveu algumas máximas, as quais intitulou de moral provisória, uma espécie de código de conduta para viver da maneira mais feliz que pudesse, sem causar danos a outrem nem a si próprio.

Optou por obedecer as leis e aos costumes dos países por onde andava e a guiar-se pelas opiniões mais moderadas e prudentes, comumente aceitas pelos mais sensatos. E para compreender quais eram as opiniões dos homens de bom-senso pautava-se mais em observar suas ações que suas palavras. De todas as opiniões igualmente aceitas, adotava as mais comedidas.

Pôs-se a evitar todos os excessos, as posições radicais, pois tinha consciência do quanto a maior parte das coisas são mutáveis e do quanto uma opinião extremada ou duvidosa poderia conduzi-lo a um equívoco.

Também, decidiu por ser o mais firme em suas ações. Realizar suas escolhas e seguir com elas resolutamente sem se desviar. Num primeiro momento, pode ser difícil optar pelas ações mais acertadas, o que pode ser em parte resolvido pela escolha das mais prováveis. O importante é decidir, segundo Descartes.

O exemplo de que ele se utiliza para demonstrar a importância da firmeza das decisões é aquele em que imagina alguém perdido numa mata. É preciso escolher um caminho, seguir retamente e não se desviar dele em momento algum. Esse caminho o conduzirá a algum lugar e seja qual for é melhor que ficar parado no meio da floresta.

A terceira máxima refere-se a preferir mudar a si mesmo que a ordem do mundo. “Nada está inteiramente em nosso poder a não ser nossos pensamentos.”

Imagino que a obediência a essa máxima seja uma questão de sobrevivência, a qual levou-me a pensar na teoria de Darwin, sintetizada na frase “Não é o mais forte que sobrevive, nem o mais inteligente, mas o que melhor se adapta às mudanças.”

Descartes precisava se adaptar aos diferentes contextos em que estava inserido de modo a evitar complicações e problemas que oferecessem danos ao seu propósito. Mudar o mundo é algo extremamente complexo e difícil, mas mudar a si mesmo e seus pensamentos estava sob seu pleno domínio e poder.

Diante desse entendimento é que os filósofos antigos dedicavam-se unicamente ao ofício de pensar e com pleno domínio de suas paixões.

“(…) dispunham deles tão absolutamente que tinham alguma razão de se julgarem mais ricos, mais poderosos, mais livres e mais felizes do que quaisquer outros homens, os quais, não tendo essa filosofia, e por mais favorecidos que sejam pela natureza e a fortuna, nunca dispõem de tudo o que querem.”

Descartes estava certo de que, segundo seu espírito, a ocupação que havia escolhido era a melhor dentre todas que existiam. Dedicou sua vida a cultivar a razão e a buscar o conhecimento utilizando-se do método por ele mesmo prescrito. A satisfação que eu sentia, diz ele, preenchia de tal modo o meu espírito que nada mais me importava.

Procurou viver apartado dos vícios e de mãos dadas com prazeres doces e inocentes para desfrutar de seu tempo livre sem aborrecimentos. Optou pelas diversões mais honestas que não o conduzissem à exaustão e o impedissem de levar adiante seu propósito. A moderação e a prudência eram as suas companheiras, afinal de contas prezava por manter a dignidade e a reputação que lhe eram conferidas.

Sua única certeza residia no quão importante e benéfico é o exercício da dúvida. Sabia que estava sujeito a erro como qualquer outro. Então, tudo aquilo que havia aprendido poderia ser falso. Ou não. Mas, a confirmação só seria possível se colocasse à prova da própria razão todos os seus pensamentos.

Desfez de todas as suas prévias certezas como um homem nu que acaba de ser lançado ao mundo e cuja leitura de tudo o que se apresentasse seria feita unicamente a partir de seus olhos. A única coisa real e verdadeira era a sua própria existência. Não havia como desfazer de si mesmo. Ele existe e pensa e porque pensa existe. “Penso, logo existo.” E “para pensar é preciso ser.” Quanto ao mais, nada há de absoluto.

Como criatura era um ser imperfeito, mas se nasceu com a ideia de perfeição é porque uma entidade perfeita gravou isso em sua mente ou espírito ou alma. Daí conceber Deus como Criador do mundo e dos seres.

Algo imperfeito não pode construir a ideia de perfeição se esta não lhe for incutida, pois o menor não cria do nada algo maior que a si mesmo. “Era preciso necessariamente haver algum outro mais perfeito do qual eu dependia e do qual tivesse adquirido tudo o que possuía.”

E como saber se aquilo que possuímos é ou não de Deus? Não é de Deus as coisas que nós mesmos sentimos vontade de nos desfazer, como “a dúvida, a inconstância, a tristeza e coisas semelhantes”.

Descartes também acredita na imortalidade da alma e na natureza diversa que ela tem se comparada ao corpo. A inteligência é atributo do espírito, embora as condições físicas influenciem no seu aprimoramento e exercício.

Ele declara que Deus insculpiu na natureza leis que podem ser observadas em tudo o mais que há no mundo e essas leis também estão gravadas em nossas almas. Nenhuma máquina que o homem se disponha a criar será tão bem feita como o homem-máquina, criado para nele habitar uma alma-extensão-de-Deus.

Afirma que com o seu método chegou a verdades, sem no entanto nos dizer que verdades são essas. Talvez o tenha feito intencionalmente para que nós próprios cheguemos às nossas, pois a Filosofia não se presta ao estabelecimento de dogmas, mas antes de dúvidas. A Filosofia não se ocupa de respostas, mas de perguntas.

“Embora minhas especulações me agradassem muito, julguei que os outros também as tinham e talvez lhes agradassem ainda mais.”

Descartes era um profundo conhecedor da variedade e multiplicidade dos seres e de suas opiniões. Entendia que, embora parte de um todo complexo e de uma razão comum que só não se mostra em casos de acidentes, cada um é diferente em suas curiosidades e questionamentos. Por isso, as suas dúvidas e perguntas não podiam ser as mesmas de todos os outros.

Mas quem há de dizer o contrário diante da afirmação de que a saúde é o maior bem dentre todos os outros? Há verdades universais? Se não conseguirmos resolver esse problema com uma fórmula matemática, muito menos o conseguiremos com a Filosofia.

O mundo é muito amplo e vasto para descobrirmos tudo que nele há e suas causas apenas pelo uso de nossa razão fraca. O que sabemos é uma gota diante do oceano daquilo que ignoramos. Ciente disso, Sócrates emitiu sua máxima “Só sei que nada sei”. Descartes pareceu querer dizer que o pouco que sabia só servia para si mesmo.

E por que nós sentimos uma ardente necessidade de impor nossas verdades aos outros quando às vezes ela não serve nem para nós mesmos?

Por quê?

2 comentários

  1. Gostei da interpretação que fizestes de Descartes. Eu gosto muito quando as pessoas leem obras filosóficas com interpretações não “sistemáticas acadêmicas” do ramo da filosofia. O que me faz ter um apreço muito grande por gente que acaba levantando perguntas tão simples, mas que comunicam tanto. Parabéns pelo texto.

    Como dois centavos de contribuição eu diria duas coisas que julgo importantes para chegar mais fundo em Descartes:
    1. Ele é um moderno, na verdade o pai do pensamento moderno. Atualmente ele é visto assim, o que não significa que não existam outros que possam ser intitulados como pais do pensamento moderno, só que atualmente os filósofos tem se sentido mais inclinados a falar da importância dele para as bases desse pensamento chamado de moderno. O que significa ele ser o pai da modernidade filosófica? Ele basicamente inspira toda a segurança que as pessoas tem na ciência de sua época. A filosofia da época dele estava tentando se recornstruir para entregar pensamentos seguros e 100% convictos, como uma ciência exata e pura.
    2. O segundo ponto é que ele não conseguiu alcançar esse patamar científico filosófico. No entanto ele publicou todas as suas obras como se ele tivesse alcançado o patamar do conhecimento puro e verdadeiro.
    O que me faz pensar que o fato dele ter feito algumas publicações sobre sua filosofia é justamente porque havia uma crença, particular, de que o mundo precisava conhecer o que ele conheceu. A verdade que “só servia para ele”, por vezes, me deixa com uma dúvida: Se só serve pra tu, porque cê vai publicar um livro? É engraçado, mas parece ser a maldição dos filósofos, eles dizem encontrar sistemas particulares e individuais, no entanto a sua intenção é sempre divulgar sua descoberta como fonte de verdades. É o calcanhar de aquiles da humildade racional.

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    1. Obrigada, Jonatas. Eu leio esses livros de Filosofia desprovida de todo e qualquer conhecimento filosófico. Posso dizer que é mais com a pele do que com a inteligência. Quanto a essa questão da “humildade racional”, como diz um amigo-leitor, precisaríamos sentar uma tarde toda num café para conversar a respeito. Penso eu que tudo o que escrevo serve primeiro e imediatamente para mim, mas que também pode atingir o outro. Já pensei nessa questão: Por que escrevo e publico se antes vem de uma necessidade íntima de me expressar? Vaidade? Ainda não encontrei respostas. Estou prestes a lançar um livro e penso: por que? Ainda não descobri, mas penso sim que tem um viés de vaidade e busca de reconhecimento, uma fraqueza inerentemente humana.

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