Lisístrata, A greve do sexo ou O poder político das mulheres exercido pelo fechamento de suas pernas.

A guerra se alastra pela Grécia. As mulheres não mais suportam a partida e o distanciamento de seus maridos. Estão cansadas de ficarem sozinhas à espera de um retorno incerto e improvável. Estão fatigadas de parirem filhos, criá-los e, mais tarde, terem que entregá-los, à força, aos desmandos de um Estado que os remetem a conflitos armados, cujas causas são impalpáveis e os motivos fúteis e vãos.

Elas pretendem estancar os sofrimentos impostos pela hostilidade das disputas, apesar de continuarem a viver com aqueles decorrentes de suas próprias condições de mulheres.

A ateniense Lisístrata convoca as demais mulheres gregas para um encontro a fim de tratar sobre um assunto sério e de interesse geral. À hora marcada, apenas Cleonice aparece. Desesperada com o pouco caso das outras de sua classe, Lisístrata murmura: ” (…) me envergonho de ser mulher. Sou obrigada a dar razão aos homens quando nos tratam como objetos, boas apenas para os prazeres do leito. No momento em que foram convocadas para uma decisão definitiva na vida do país, preferem ficar na cama em vez de atender aos interesses da comunidade.”

Passado algum tempo, gregas de diferentes estados começam a surgir e quando todas estão presentes, Lisístrata anuncia a sua preocupação com a guerra e se pronuncia sobre um plano que concebeu para findá-la e instaurar a paz. As mulheres precisam salvar o país.

A curiosidade permeia suas cabeças. “Como é que nós mulheres vamos derrotar os homens?” No entanto, Lisístrata tem plena convicção de que se todas seguirem o que ela diz, os homens largarão suas espadas e voltarão mansinhos para casa.

O seu plano consiste em que as mulheres se abstenham “daquela pequena parte do homem que mais o classifica como tal”. A proposta é que as gregas, sem exceção, façam greve de sexo.

Eu não resisto. Que a guerra continue” – diz uma.

“Peça-me para atravessar uma fogueira com os pés nus, mas não nos prive da melhor coisa da vida” – diz outra.

Nunca ouvi falar de tortura semelhante” – profere mais uma.

Entretanto, Lisístrata consegue convencê-las. Logo, passam a analisar os riscos de tal medida. Seus maridos podem abandoná-las, porém aquela adverte que “o risco de qualquer batalha é perder a batalha”. Eles podem pegá-las à força. Neste caso, é necessário que fiquem em “posição fetal”. Ainda, podem bater nelas. Apenas nessa circunstância extrema é permitido que cedam, contudo não devem se mexer nem colaborar, mas permanecer inertes até que eles se cansem e desistam. “Eles têm pouco prazer quando sentem que não correspondemos.”

Ao final, fazem o juramento regado a goles de vinho e partem para executar o combinado.

As gregas conseguem tomar e ocupar a Acrópole, considerada templo dos deuses e em cujo local se guarda o tesouro. Os homens velhos que ali restaram não admitem de forma alguma serem dominados por mulheres e dirigem-se-lhes com tochas de fogo para as queimarem. Proferem todo tipo de xingamento e ofensa contra elas, que em momento algum se curvam para tais impropérios. Pelo contrário, reagem com vigor, coragem e ousadia. E, por fim, apagam os fogos de suas tochas.

Os velhos ficam inconformados: “E nós, heróis de um passado tão recente, vamos deixar essas mulheres peçonhentas, inimigas dos deuses e dos trágicos, conseguirem o que não conseguiram inimigos tão potentes?”

Entretanto, elas estão dispostas a salvar o país e os homens que nele habitam, mesmo que não queiram. Estão empenhadas em proteger o patrimônio do povo para que não seja vilipendiado no sustento de uma insensata guerra. O bom senso está com as mulheres e elas, mais do que nunca, decidem usá-lo. Não pretendem calar e ficar de braços cruzados diante da destruição a que os homens submetem e são submetidos. Elas tomam consciência de suas importâncias e da necessidade de atuarem em assuntos políticos, os quais ficavam adstritos aos homens que se sentiam superiores e fortes apenas por possuírem um membro que enrijece.

Pois se eles pensam que, por serem munidos de um “pau endurecido“, devem se sobrepor, as mulheres decidiram por fechar as pernas e mostrar-lhes que, sem elas, as armas masculinas, por mais potentes que sejam, não têm quaisquer utilidades ou resultados.

Engana-se quem supõe que esse seja o maior e o mais importante ato político das mulheres. Entretanto, naquele momento, era o único de que dispunham e podiam se utilizar. A abstinência foi a forma de luta desarmada e pacífica encontrada pelas mulheres para combater os excessos devastadores de uma guerra. Não é à toa que minha avó dizia: “Os homens têm que armar, as mulheres já nascem armadas.” E quando elas descobrem o poder de suas armas recônditas não há guerra no mundo que perdure.

Se os homens lembravam-se delas apenas nos momentos em que sentiam vontade de desembainhar e penetrar suas espadas cortantes, elas iriam mostrar-lhes que seus paus sozinhos não fazem nenhuma canoa e os obrigariam a pronunciar um tratado de paz.

Mas as mulheres também são de carne, osso e desejo. Estavam doidas para se deitarem e gozarem com seus homens. Isso seria o fim do plano traçado por Lisístrata. Ela suplicou-lhes que segurassem mais um pouco suas volúpias e não colocassem a perder os esforços até então empregados. Afinal, estavam no mesmo barco e era preciso que não largassem seus remos.

Cinésias dirigiu-se à Acrópole à procura da esposa Mirrina, que havia abandonado o lar. Suplicava o seu retorno imediato, pois que estava sofrendo de dor e ardor. Quanto mais o desprezava, mais desejo sentia por ela, o qual se manifestava visivelmente com seu membro apontado para o alto.

Diante das recusas de suas mulheres, os homens começaram a padecer de um sintoma comum. A Grécia foi tomada por uma “ereção universal”, cuja resolução somente seria possível caso concordassem em pôr fim à guerra. O embaixador bradou: “Devemos assinar a paz de qualquer forma, com condições, sem condições, mas já. Olhem nossa condição!”

Diante de mulheres resolutas, sensatas e decididas,o homens gregos acharam por bem firmar um tratado para o restabelecimento da ordem e da paz.

Caladas e desarmadas, mas com ações firmes, direcionadas e conscientes, as mulheres se impuseram ao poder de seus homens e do Estado.

De repente, alguém esteja certo quando diz que “o segredo do mundo se encontra entre as pernas das mulheres”.

O problema é que essas pernas têm permanecido abertas demais. Quem sabe seja a hora de fechá-las para pôr fim a algumas guerras que atingem-nas?

Talvez elas tenham que, tal como as gregas, falar menos e agir mais ou quem sabe lutar de boca fechada e pernas cruzadas para que o grande segredo não seja revelado.

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