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Aparecida apareceu para mim.

Não sei se vocês se lembram de um relato que fiz a respeito de um sonho em que nele eu tinha uma empregada cujo nome era Ana. Ela realmente era a empregada dos meus sonhos, principalmente porque só frequentava a minha casa aos sábados e falava muito pouco.

Sempre desejei ter em casa alguém que pudesse organizá-la. Mas esse desejo esbarra em algumas questões como a necessidade que tenho de ficar só e em silêncio. Meu marido questionou se isso significa não gostar da presença dele ao que respondi que ele é discreto e silente, incapaz de incomodar. Esse é um dos motivos de eu tê-lo escolhido e amado.

Uma vez fui passar uns dias na casa de um amigo e de tão exausta da viagem encostei-me numa bancada de cimento e acabei dormindo. Acordei com uma senhora colocando um travesseiro sob a minha cabeça para que eu pudesse repousar melhor. Tratava-se de Dona Nalva. Uma senhora aparentemente simpática que cuidava da casa, da comida e do meu amigo com tamanho zelo e dedicação. Cuidou também de mim pelo tempo que permaneci por lá. Quando fui embora, quis levá-la comigo num flagrante desejo de tomar do meu amigo o que lhe pertencia.

Mais tarde ele me contou que estava enfrentando um litígio na justiça com Dona Nalva, pois ela exigiu dele o pagamento de direitos trabalhistas que acreditava possuir e ele lhe negara. Jamais imaginei que isso poderia ocorrer tamanha devoção ela parecia ter por ele. Mas como diz Clarice Lispector, “às vezes a devoção que recebemos das empregadas é cheia de um ódio mortal”. No fundo, elas se sentem exploradas.

Voltando ao que já disse, sempre desejei ter uma espécie de Dona Nalva em casa, desde que o desfecho dessa relação não me levasse aos tribunais como levou o meu amigo. 

A grande questão porque eu nunca pude dar concretude a esse sonho é que não teria condições de pagar a quantia exata que julgo merecer aquela que cuidaria diariamente da minha casa . Creio que ela deveria receber por seus trabalhos, no mínimo, três vezes mais do que eu mesma recebo pelo meu. E não podendo cumprir com isso por uma questão de insuficiência financeira, eu me sentiria exploradora e culpada. Sendo assim, opto por eu mesma manter minha casa organizada e viver de consciência limpa.

Ocorre que as atividades diárias têm ocupado muito do meu tempo e, embora eu me esforce para ser uma boa dona de casa, as coisas não têm ficado do jeito que eu gostaria. Até voltei a sonhar com a empregada Ana e mais uma vez percebi que Ana não passa de mim mesma. Sou eu essa empregada que tanto sonho e que, no entanto, ultimamente não tem se saído tão bem em seus afazeres domésticos.

As atividades de leitura e escrita são muitas vezes prioridades para mim. Além do mais, preciso dar atenção ao marido que, apesar de não me exigir nada, fica muito satisfeito com as gentilezas que lhe ofereço. Ora aqui, ora ali, senão todos os dias, pergunto-lhe o que deseja comer e nem sempre a comida desejada está pronta tal qual eu sempre estou. E como o fato de manter um amor ao meu lado é mais importante que escrever ou ler um livro, acabo fazendo essas concessões. Talvez fosse suficiente eu provar o meu amor apenas dizendo-lhe um “eu te amo”, mas é que tenho a necessidade íntima de sempre fazer algo por aqueles que prezo, nem que seja um prato à mesa. Só assim sinto que estou de fato amando. Amor para mim representa um fazer. É por isso que não paro. Por amor a mim ou aos outros é que estou sempre agindo. Ainda que, admito, aja mais por mim, tendo em vista que até o amor aos outros é um disfarce do amor próprio.

Então como estava dizendo não tenho sido uma excelente dona de casa. Uma bagunça cá, uma poeira acolá e apesar de tentar manter a ordem as coisas foram se acumulando.

Pensei que era a hora de contratar alguém para fazer uma faxina. Uma empregada fixa está fora de cogitação pelos motivos que apontei e mais um: não quero que meu marido ache que eu esteja delegando todo o serviço de nossa casa a uma estranha. Ele precisa sentir que a casa tem o meu toque. Não admito que ele sinta cheiro de casa limpa apenas quando outra invade nosso lar. Posso até delegar uma coisa ou outra, mas o controle tem que continuar em minhas mãos. Comida também não admito que outra faça, pois tempero ele há de provar a vida toda apenas do meu.

No dia em que estava decidindo pela faxineira resolvi parar um pouco e ler algumas crônicas da Clarice Lispector. Numa dessas, ela conta que tinha uma empregada chamada Aninha, mas que todas as vezes em que ia dirigir-se a ela chamava-a de Aparecida. Não entendendo o porquê disso, a própria Aninha tentou explicar: “é porque eu apareci”.

Logo fui tomada por um desejo de que Aparecida aparecesse para mim. Até adquiri uma imagem de Nossa Senhora Aparecida que me aparece todos os dias e estou satisfeita com ela aqui em casa. Mas nada impede que uma outra espécie de Aparecida também me apareça e me ajude com os serviços do lar.

Ao fechar o livro, resolvi ligar para uma amiga e perguntar se ela tinha alguma pessoa a indicar para fazer a faxina, pois eu precisava disso urgentemente. Ela disse: “Tenho sim. O nome dela é Aparecida.”

Nossa Senhora Aparecida havia me escutado? E tão rápido? Coincidências ou não aceitei a indicação imediatamente e tratei com Aparecida dela vir até minha casa.

No dia marcado eu estava a sua espera. Como ela se atrasara tive que sair para trabalhar e meu esposo ficou encarregado de recebê-la. Antes de sair de casa, eu disse a ele para comprar as coisas que Aparecida ordenasse e dar um jeito de providenciar o almoço dela. Ele fez tudo como combinado e declarou que havia acrescentado algo para ela beber. Não que eu me importe com uma ou outra regalia, mas quis saber dele porque quando vai comprar algo para mim não faz qualquer acréscimo além daquilo que peço. Coisas de mulher. Ele nada respondeu.

Quando voltei para casa no fim da tarde, Aparecida ainda estava realizando seus trabalhos. Apesar do nome, ela me pareceu uma pessoa discreta e silenciosa. Só falava quando perguntada.

Creio que apesar de não ter esse nome, sou bem mais amostrada, o que significa que seria justo eu também me chamar Aparecida. Até mais do que ela. E só reivindico isso porque acredito que é meu de fato e de direito.

Como uma espécie de milagre, Aparecida deixou a casa impecável. A danada é boa no que faz. Eu disse a ela que a diferença entre o seu trabalho e o meu é que o dela é visível. Ela quis me acalmar: “às vezes a casa é tão cheia de coisa que eu termino uma faxina e é como se não tivesse feito nada”. Não creio que assim seja e talvez ela só tenha tentado me alegrar.

Mas eu estava bem alegre com aquela aparição de quando cheguei em casa e vi que tudo mudara. Além de limpar cada canto, lavar janelas e colocar em ordem as coisas contidas nos armários, Aparecida lavou toda a roupa, organizou os guarda-roupas, limpou e arrumou cada um dos meus sapatos que não são poucos. Nunca vi tamanho zelo.

Ao anunciar que havia terminado, fui levar Aparecida até o ponto de ônibus e conversamos mais um pouco. Ela me contou que veio do Nordeste e eu disse que também. Ambas mulheres, aparecidas e nordestinas. Ambas tão iguais.

Aparecida disse que gostou muito da decoração da minha sala e que minha casa é muito boa de trabalhar porque não tem bagunça. Fiquei satisfeita porque como diz Clarice: “Casa é muito reveladora”. Quem sabe não tenha revelado algo sobre mim que a faça voltar.

O fato é que gostei tanto do serviço que combinei com Aparecida de me aparecer a cada quinze dias e ela concordou. Quando desceu do carro para pegar a condução nos despedimos e eu implorei: “Por favor, vê se não desaparece.”

Assim, voltei para casa pensando na próxima aparição e quando abri a porta lá estava Nossa Senhora Aparecida me esperando na sala limpa e cheirosa.

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Meu nome é Ana Veiga, moro em Brasília e tenho paixão pela leitura e pela escrita. Ler e escrever são para mim "vícios desde o início". Leio por prazer. Escrevo por necessidade. E, nesse espaço, quero compartilhar com vocês os maiores ensinamentos que extraio dessas leituras. Espero que gostem!

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