A origem do amor pelos livros.

Algumas pessoas, senão muitas, me perguntam em que momento da minha vida passei a gostar de ler. Respondo que não me lembro o instante exato, mas quando rememoro ao tempo de minha  infância consigo visualizar a criança que fui, quase desde o berço, apaixonada pela leitura.

Comecei a ler e a escrever com quatro anos de idade. Nessa época, já gostava muito dos cadernos e dos livros. Lembro que a brincadeira mais fascinante para mim era aquela que intitulávamos “escolinha”. Acho que com uns sete anos eu tinha quadro, giz e alguns cadernos nos quais copiava tarefas para que os primos treinassem a escrita.

Era com certo profissionalismo e maestria que exercia o papel de professora que amava ensinar. Está certo que praticamente obrigava as crianças a brincarem comigo, pois elas preferiam se divertir com outras coisas. Então, acabava que essa brincadeira tinha tempo exato e curto para durar. Ainda assim, aproveitava o tempo exíguo e não perdia a oportunidade que os meus figurantes de alunos me davam.

Percebendo a dificuldade em tê-los ali na condição de aprendizes, propunha a eles que fizéssemos o revezamento das brincadeiras e, caso não aceitassem brincar do que eu gostava, também não participaria das diversões deles. Desse modo, acabavam se rendendo aos meus argumentos, ainda que de maneira um tanto forçada.

Uma das coisas que percebia, ainda quando criança, era a vantagem que o saber me proporcionava em relação aos adultos. Ser admirada pelos pais, professores, familiares e, também, pelos colegas não deixava de representar uma espécie de atenção que me direcionavam e sobre a qual eu deleitava.

À época diziam se tratar de uma menina esperta e inteligente que aprendia tudo com uma rapidez impressionante. Minha mãe voltava das reuniões escolares muito satisfeita por receber elogios a respeito da filha que, indiretamente, se constituíam também em elogios à mãe que a criara. No entanto, as notas altas que angariava, segundo minha mãe, não passavam de uma obrigação, tendo em vista que estudar era a minha principal atividade não-lúdica e uma das únicas exigências maternais. Minha mãe cobrava muito pouco de  mim. Ainda que eu diga que ela me exigia notas, na verdade eu era a primeira a me obrigar a apresentar bons resultados. E ela dizia de boca cheia e em alto e bom tom que nunca na vida precisara me mandar estudar. “Minha filha não me dá trabalho.” Ainda escuto essa frase com grande peso e responsabilidade em meus ouvidos e, principalmente, em minhas ações.

Figurei por muito tempo como a primeira da turma em notas e em comportamento. Desde muito cedo percebi que a forma de se portar no mundo faz toda a diferença na maneira como as pessoas enxergam outra. Sendo assim, prezava pelo bom comportamento para que não dissessem “tira boas notas, mas…”. Não suporto o “mas” como forma de maximizar a parte ruim em detrimento daquilo que se vê como bom em alguém. Todas as vezes que escuto esse “mas” vindo de qualquer parte já sei a intenção oculta e obscura de quem a emite. Acreditem, o “mas” é quase sempre destruidor.

Sem quase nenhum esforço conseguia um lugar de destaque na escola. Acredito que salvava-me o fato de sempre ter tido muita facilidade em escrever. Às vezes nem sabia ao certo a resposta exata de uma questão de prova, mas ia dizendo coisas de forma intuitiva de modo que ganhava nota por uma perspicácia que me era nata.

Para os demais, eu era dotada de certa inteligência, mas no fundo sabia que era pura percepção e intuição que tinha – não só para as atividades escolares, mas para captar o movimento das pessoas e da vida.

Aprender algo novo sempre me foi motivo de muito êxtase. Ficava atenta aos ensinamentos repassados pelos outros, entretanto era movida por uma curiosidade que me fazia buscar sozinha pelas assuntos que não eram ensinados na escola. Então, por conta própria fui atrás dos livros.

Havia uma biblioteca que ficava de frente para minha casa e adorava estar ali entre os livros. Tinha duas ou três amigas de quem gostava bastante, mas passava pouco tempo com elas. Ocorre que há um limite de convívio no qual as pessoas não se cansam umas das outras. Elas às vezes me cansavam, apesar do sentimento que nos ligava, e pensava que eu também podia cansá-las.

Com os livros era diferente. Eu não me saturava deles e eles sempre me ensinavam alguma coisa. Eu sentia que me acrescentavam algo. Sentia que com eles me tornava um pouco mais rica.

Os livros me expunham a outros mundos e a novas dimensões. Eles dialogavam comigo sem quaisquer imposições. Cabia a mim refletir sobre o que estavam me dizendo. Comecei a perceber que talvez ninguém me apresentasse nunca ao que eles me diziam e tudo ali ao alcance de minhas mãos e sob meu próprio controle. Eu podia escolher aqueles de que mais gostasse e cujo assunto me interessasse. Era um mundo maravilhoso no qual eu podia entrar e sair no momento que bem entendesse.

Ficar só era uma necessidade para poder ler todos os livros de que dispunha. Brinquei muito com as outras crianças e com os meus primos. Gostava também das bonecas, mas nunca conseguia verdadeiramente me sentir mãe delas. Preferia o papel de amante dos livros.

Andava com eles para cima e para baixo da casa da minha mãe para a casa da minha avó. Aí me enfiava num quarto e passava horas e horas devorando-os e imaginando as cenas, os personagens e os lugares descritos. Eu viajava para todos os lados sem sair do lugar. Saía do pequeno aposento apenas para beber água ou pedir minha avó que fizesse algo porque estava com fome. Ela dizia sorrindo: “você vai virar Tamirim de tanto ler”.

Tamirim, segundo ela, era um homem que ficara louco por estudar demais. Eu sorria e dizia que isso não aconteceria. Hoje, entendo que talvez esse personagem descrito pela minha avó tenha ficado conhecido como louco de pura lucidez a que fora submetido com a leitura de seus exemplares.

Quase todo entendimento é confundido com insanidade. Dom Quixote nos deu muitas lições apesar de vislumbrar outra coisa em meros moinhos de vento, uma das evidências utilizadas para apontar sua loucura. E Hamlet, no auge de sua lucidez, quando percebera toda a podridão do reino da Dinamarca, a hipocrisia e a traição que ocorrera dentro de sua própria família, fora taxado de louco.

Os livros têm a função de nos tornar mais atentos, observadores, reflexivos e críticos. Assim me tornei e gostava dessa sensação de estar captando não apenas o mundo a mim apresentado por eles, mas também aquele ao meu redor.

Ler muito me levava de forma automática a escrever. Não sei bem precisar, mas acredito que com uns dez anos já esboçava alguns fragmentos de textos. Lembro que cheguei a tentar escrever uma novela que não tinha fim. Depois me cansei da história, rasguei e joguei fora. Também, contava com um diário onde escrevia sobre o que me acontecia durante o dia. Mais tarde, escrevi muitas cartas para aquele que eu achava que seria o primeiro e o único amor da minha vida. Eu me enganara como todo ser que se apaixona. Futuramente, outros amores me arrancariam mais cartas.

Meu domínio sempre foi pelo uso da palavra, mais escrita que falada. Ao falar sou um pouco tímida e me confundo algumas vezes, pois a emissão do som é mais lenta que meu raciocínio. Todavia, ao escrever tenho coragem, ousadia e me articulo melhor. Também acho mais fácil e simples escrever porque vou colocando as ideias no papel sem interrupções e posso organizá-las de forma mais convincente. Uma leitora disse que tenho elegância ao escrever. Alguns leitores me perguntam como consigo escrever de maneira envolvente. Simplesmente respondo que é o meu modo e só. Nem tudo pode ser explicado.

Antes dos quinze anos de idade já tinha lido Jorge Amado, Machado de Assis, Rachel de Queiroz, Carlos Drummond de Andrade, Olavo Bilac e, pasmem, Lolita, de Vladimir Nabokov. Li “O crime do Padre Amaro”, de Eça de Queiroz; “O guarani”, de José de Alencar e tantos outros clássicos. Eu os escolhia aleatoriamente, às vezes pelo título ou depois de ter lido algumas páginas.

Ninguém nunca me obrigou a escolher um ou outro. Não havia censura. Minha mãe nunca me questionara a respeito do que lia. Nasci livre para escolher meus livros e meu destino. Assim permaneço.

Apenas aos dezesseis anos tive contato com um texto de Clarice Lispector. Um professor de cursinho que ministrava Literatura leu em sala um conto dessa escritora e nos mostrou as diversas interpretações que se podia ter a respeito do que lera e fiquei fascinada. Pensei em como alguém poderia escrever algo com significados tão múltiplos, surpreendentes e de forma tão bonita. Desde então, Clarice nunca mais saiu da minha vida e continua sendo minha escritora preferida. Mergulhei em sua vida, em sua obra e foi por meio de seus textos que consegui entender muito mais a respeito de mim mesma.

Continuo lendo compulsivamente. Ler é minha salvação. Escrever é… missão? Escrevo porque sou obrigada a me esvaziar e quem sabe encher os outros. Quando termino um texto tenho a sensação de que nunca mais voltarei a escrever. Literalmente, fico Oca da Silva. Só que a percepção dos sentidos me expõe novamente à vida e de novo eu absorvo os fatos que me são revelados. É um ciclo que me traz vazio e completude.

De tanto me perguntarem como e em que momento passei a gostar de leitura veio-me à tona um fato que pode ter contribuído e muito para o desenvolvimento desse gosto.

Uma vez que meus pais se separaram quando eu ainda era muito criança, não consigo me lembrar de momentos em que tenha, na infância, convivido com meu pai. Entretanto, algumas pessoas me diziam que ele era muito inteligente, falava bem e gostava muito dos livros. Acredito que de alguma maneira quis ter uma marca dele em minha vida. Esses créditos não posso dar à minha mãe, pois ela mesma dizia que não gostava de estudar e que tinha preguiça de ler.

Pois agora, forçando minhas lembranças, chego a essa conclusão que me fora por um tempo oculta e eis que de súbito é-me revelada de maneira tão clara e evidente. O amor que desenvolvi pelos livros foi um jeito que encontrei de carregar uma parte do meu pai comigo. A parte que considerei melhor e me fez admirá-lo. Quis mantê-la sempre ao meu alcance de tal forma que ela continua viva, forte e pulsante dentro de mim.

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