A empregada chamada Ana.

Enquanto eu cortava o bacon para colocar no feijão, o desejo mais real e que me veio com toda a força foi aquele de ter uma empregada.

É sábado e eu acordei na madrugada para ler e escrever, depois voltei a dormir mais um pouco e quando acordei novamente quis me dedicar à leitura e escrever meus textos.

Só que os deveres domésticos se impunham. E eles não podiam ser adiados, porque uma das coisas que preciso para desenvolver meu trabalho, digamos “intelectual”, é que o ambiente esteja limpo e organizado.

Espere um pouco, leitores, tenho que parar de escrever só uns minutinhos para olhar as panelas no fogo. Já eu volto…

Voltei.

Então, como estava dizendo, entreguei-me ao ofício de deixar a casa em perfeito estado de conservação e produção. Isso tomou um bom tempo da manhã e da tarde.

Terminada a limpeza e a organização, comecei a preparar o almoço e, simultaneamente, a pensar em como, tendo uma empregada, sobraria mais tempo para eu me dedicar a ler e escrever.

Durante a semana, meu esposo chega do trabalho a noite e com fome.  Preciso me revesar entre a sala, onde escrevo e a cozinha onde cozinho e lavo. Ele tem fome e precisa comer. Também eu, tenho fome e preciso comer, ler e escrever.

Faço tudo sem preguiça ou reclamação. Zanzando para lá e para cá, entre a sala e a cozinha, preparo a janta, sento e leio, lavo a louça, sento e escrevo e vou fazendo assim.

Quando está tudo pronto eu o sirvo à mesa, feliz em tê-la cheia de papéis, livros e comida, mas também em tê-lo para sentar e me fazer companhia.

Ele come, por vezes elogia o meu tempero que é só dele, e olha para mim com aquele olhar satisfeito de quem está com a barriga cheia. Eu retribuo com um olhar de quem cumpriu um de meus deveres de mulher.

Assim, nossos dias vão se passando nessa rotina que nos faz casados, unidos pelo amor e pelas nossas necessidades.

Ocorre que hoje é sábado, o dia que para Clarice Lispector e para mim é “a rosa da semana” e eu gostaria de me entregar inteiramente a esse dia, lendo e escrevendo, por todo tempo, sem cessar.

E por isso, repito, o sonho de ter essa empregada que já é por mim tão amada e desejada.

E como seria a empregada dos meus sonhos?

Bem, ela também se chamaria Ana, para evitar que, tendo outro nome, sua presença me pesasse muito. Tendo o mesmo nome que eu, pareceria que eu continuaria sendo a única dentro de casa.

Ana não precisaria ser bonita para não chamar muito a atenção do meu esposo. Também, não precisaria ser tão inteligente para que ele não passasse a admirá-la mais que a mim. Entretanto, gostaria que ela entendesse um pouco de Literatura para que pudesse, ao final de seus trabalhos, sentar à mesa e tomar um café comigo, falar um pouco sobre os livros e as novidades literárias.

Ela só trabalharia aos sábados, chegaria bem cedinho, deixaria toda a casa limpa e organizada, sem me incomodar. Ah, ela teria que falar bem pouco, porque não gosto de muito falatório. É coisa minha. Acostumei a viver no silêncio e gosto dele. O silêncio para mim é conditio sine qua non para bem viver. Por isso, escolhi um marido silencioso e discreto, que tem na presença a simplicidade incapaz de incomodar.

Que mais?

Ana teria que saber cozinhar para deixar a comida do sábado e do dia seguinte toda pronta. Contudo, o tempero dela não poderia ser daqueles bons, pois chegada a semana em que eu voltaria a cozinhar, não suportaria meu esposo desejando e com saudade do tempero da outra Ana que não é eu. Ah! Isso não.

Ela não precisaria nem me amar, mas não poderia nutrir por mim ódio, desses que as empregadas costumam nutrir por suas patroas. É que eu não posso, sabendo, uma vez que perceberia no primeiro dia, dividir um espaço com quem me odeia.

Eu daria para ela uma boa grana e falaria aos seus ouvidos apenas coisas agradáveis que nos faz ver quão importantes somos. Ana seria muito importante para mim. Faria ela se sentir o melhor dos seres, mostrando que as atividades palpáveis e visíveis que ela desempenha são mais nobres que essas minhas, dentre às quais ler e escrever que, às vezes, não dá em nada e não me leva a lugar nenhum.

Ana seria muito respeitada e protegida. Ninguém ousaria tocar nela para dizer desaforos ou para chateá-la. Nem a mim, eu admitiria tamanho descompasso. Ana seria venerada e tratada como rainha, desde que não ousasse tomar o meu lugar.

Depois do nosso café das 15, nos despediríamos como grandes amigas e eu aguardaria a volta de Ana nos próximos sábados. Eu amaria Ana. Amor distante é amor que dura.

Ao acordar, percebo que já é finalzinho da tarde de sábado. Eu havia dormido no tapete da sala com um livro nas mãos. Ainda com um pouco de sono, escuto a voz do meu esposo lá do quarto: “está na hora de preparar o café”.

Eu olho em volta, meio sonolenta e respondo alto: “Peça a Ana”.

Ele fala mais alto: “E eu estou pedindo a quem?”

Ah, meu Deus, tudo não passou de um sonho. Não há outra Ana. Ana sou eu.

Levanto e, cambaleante, me recomponho. Vou para a cozinha e preparo o café, pensativa.

Depois dessa, só me resta servir.

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