Memórias póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis.

Brás Cubas é o principal personagem dessa história que por ele mesmo é contada. Porém, algo inusitado caracteriza esse narrador. Ele está morto. Trata-se de um defunto autor. É uma “obra de finado”, escrita “com a pena da galhofa e a tinta da monotonia”. Daí o tom irônico, debochado e, por vezes, uniforme com que a história se desenrola.

Por referir-se a um homem que, morto, conta a sua vida, há um notório desprendimento das regras, da moral e dos bons costumes. Brás Cubas não se esforça por esconder absolutamente nada, mesmo os seus sentimentos mais vis e mesquinhos; seus amores; suas invejas; seus fracassos; suas dores; seus caprichos; seus interesses; suas traições… Tudo é demonstrado sem pudor, medo ou censura. Nada precisa ser encoberto com qualquer manto, afinal, expõe suas memórias póstumas. Não é preciso mentir nem enganar a si mesmo, nem aos outros, pois a morte representa descer à imobilidade física e moral.

A história começa a ser contada não pelo nascimento do personagem, mas pela sua morte.

Morreu!

Aos 64 anos, rijos e prósperos, solteiro e com um bom patrimônio, encontrava-se dentro de um féretro em direção ao túmulo, acompanhado por onze amigos, sob uma chuvinha miúda, triste e constante que deu àquele dia o tom da melancolia.

À beira da cova, um dos presentes proferiu esse discurso:

“Vós, que o conhecestes, meus senhores, vós podeis dizer comigo que a natureza parece estar chorando a perda irreparável de um dos mais belos caracteres que têm honrado a humanidade. Este ar sombrio, estas gotas do céu, aquelas nuvens escuras que cobrem o azul como um crepe funéreo, tudo isso é a dor crua e má que lhe rói à natureza as mais íntimas entranhas; tudo isso é um sublime louvor ao nosso ilustre finado”.

Se Brás Cubas não gozou reconhecimento e notoriedade enquanto vivo, deleitou-se em elogios depois de morto.

Conta que morreu de pneumonia. Logo mais, admite que a causa verdadeira fora menos a pneumonia e mais uma ideia grandiosa e útil a que se fixou durante toda a sua vida.

Essa ideia consistia em inventar um medicamento sublime destinado a aliviar a melancolia, o estado de morbidez e a tristeza da humanidade.

Confessa, entretanto, que por detrás do ânimo de salvar a humanidade, escondia o desejo de ver seu  nome estampado em jornais e imprensa em geral. Sua ideia era movida mais pela vaidade de receber uma medalha virada para si e para o público do que pela ajuda aos outros.

“Quem não sabe que ao pé de cada bandeira grande, pública, ostensiva, há muitas vezes várias outras bandeiras modestamente particulares, que se hasteiam e flutuam à sombra daquela, e não poucas vezes lhe sobrevivem?”

A bandeira pública  levantada por Brás Cubas era descobrir um remédio que levasse aos homens a cura da melancolia; a particular, mais importante que aquela outra, era ser notado e reconhecido. Essa era a sua ideia fixa que o faria louco ou forte. Essa era a sua tão sonhada invenção, a que o fez adoecer e morrer.

À porta da alcova, caiu-se em delírio e teve um encontro com Pandora, a que carrega uma caixa com todos os males. Ansiava por mais vida neste instante em que o esperava a voluptuosidade do nada. De seu devaneio, via os séculos passados desfilarem à sua frente, desde a glória até a miséria.

“(…) e via o amor multiplicando a miséria, e via a miséria agravando a debilidade. Aí vinham a cobiça que devora, a cólera que inflama, a inveja que baba, e a enxada e a pena, úmidas de suor, e a ambição, a fome, a vaidade, a melancolia, a riqueza, o amor e todos agitavam o homem, como um chocalho, até destruí-lo como farrapo.”

E tudo isso se repete de geração a geração até que o homem, alheio à própria miséria, imerso em sua falsa glória, percebe-se a um pé da cova, onde, digerido por Pandora, tudo se finda e há só o silêncio.

A vida não seria tão somente uma ilusão, onde o homem entra nu e desarmado e vai armando-se, vestindo-se, construindo palácios, criando ciência e arte e, diante da necessidade da vida e da melancolia do desamparo, põe-se a descer ao ventre da Terra e a subir à esfera das nuvens e a fazer-se orador, filósofo e mecânico?

Foi preciso cair em delírio para ver que a sua vida seguia o curso de todas as demais vidas por entre os séculos, num devaneio que beira à sandice dos que sabem que, diante desse tudo, não lhes restará mais nada.

Entretanto, antes de morrer, Brás Cubas precisou inaugurar o espetáculo da vida. Nasceu e já foi desde logo o herói da casa. O genitor orgulhou-se do filho inteligente e bonito que nascera tal qual o próprio pai.

“Os olhos babavam de orgulho, e ele espalmava a mão sobre a minha cabeça, fitava-me longo tempo, namorado, cheio de si.”

Brás cresceu como crescem as magnólias e os gatos. Enfim, como todo ser que nasce, vive e morre. Crescer é parte da natureza. Não há grande coisa nisso. Também não houve no crescimento dele.

Matreiro e inquieto, diz ter merecido a alcunha de “menino diabo”, um dos mais malignos do seu tempo, arguto, indiscreto, traquinas, voluntarioso, indócil, opiniático e egoísta.

Aos olhos do pai, admirável. “Às vezes me repreendia, à vista de gente, fazia-o por simples formalidade; em particular dava-me beijos.”

Sabia que seu pai o adorava a ponto de lhe dar o sol se assim pudesse. Quanto à mãe, considerava uma criatura fraca, de pouco cérebro, casada, bonita, modesta, abastada, cujo Deus era o marido.

Aos dezessete anos dera o primeiro beijo numa moça cujo nome era Marcela, descrita por ele mesmo como boa moça, lépida, sem escrúpulos, luxuosa, impaciente, esbelta, amiga do dinheiro e dos rapazes. Marcela possuía alguma coisa que nunca achara nas mulheres puras.

Muito fora o esforço para sustentar o amor dessa mulher:

“Foi-me preciso coligir dinheiro, multiplicá-lo, inventá-lo. Primeiro explorei as larguezas de meu pai; ele dava-me tudo o que eu lhe pedia, sem repreensão, sem demora, sem frieza; dizia a todos que eu era rapaz e que ele o fora também. Mas a tal extremo chegou o abuso, que ele restringiu um pouco as franquezas, depois mais, depois mais. Então recorri a minha mãe, e a induzi a desviar alguma coisa, que me dava às escondidas. Era pouco; lancei mão de um recurso último; entrei a sacar sobre a herança de meu pai, a assinar obrigações, que devia resgatar um dia com usura”.

Antes que Marcela lhe roubasse a alma, seu pai o colocou à força num navio rumo à Europa para estudar.

Apesar de ter sido um acadêmico superficial, tumultuário e petulante, bacharelou-se em Direito e carregou seu diploma cheio de orgulho.

Distante, foi capaz de esquecer a moça por quem perdera a consciência que restou recuperada tempos depois, ao admitir: “…Marcela amou-me durante quinze meses e onze contos de réis; nada menos”.

Anos depois a encontraria sem o brilho da juventude, velha e dona de uma ourivesaria herdada por um homem com quem se relacionara.

Seu retorno ao Rio de Janeiro deu-se em virtude dos poucos dias de vida que restavam a sua mãe. Havia oito a nove anos que não a via. Era a primeira vez que presenciava a morte de alguém.

“Confesso que tudo aquilo me pareceu obscuro, incongruente, insano…”

Esse acontecimento trouxe-lhe tristeza e ele decidiu ficar por um tempo sozinho numa propriedade do campo. “A morte de minha mãe me aparecia como um exemplo da fragilidade das coisas, das afeições, da família…”

“Ao cabo de sete dias, estava farto da solidão.”

Seu pai dirigiu-se até ele oferecendo-lhe dois projetos: um lugar de deputado e um casamento.

Virgília era o nome da moça. “Um anjo sem asas”, filha do conselheiro Dutra, uma figura de grande influência política que faria com que Brás chegasse mais rápido ao cargo de deputado.

Sob o mínimo sinal do filho de não aceitar a disputa ao cargo, seu pai bradou:

“Ah! Brejeiro! Não te deixes ficar aí inútil, obscuro, e triste; não gastei dinheiro, cuidados, empenhos para não te ver brilhar, como deves, e te convém, e a todos (…). Olha, estou com sessenta anos, mas se fosse necessário começar a vida nova, começava, sem hesitar um só minuto. Teme a obscuridade, Brás; foge do que é ínfimo. Olha que os homens valem por diferentes modos, e que o mais seguro de todos é valer pela opinião dos outros homens.”

Ocorre que Virgília escolheu outro para marido. De carreira mais promissora, Lobo Neves a conquistou, sob a promessa de torná-la Marquesa.

Quatro meses após o desencanto de não ver o filho nem deputado nem casado, o pai de Brás Cubas morre acabrunhado e triste. “A tristeza de morrer sem me ver posto em algum lugar alto, como aliás me cabia.”

Restou-lhe o despeito, charutos, murros e leituras truncadas. “Mas, eu era moço, tinha o remédio em mim mesmo.”

A herança deixada pelo pai foi motivo de conflito com a irmã Sabina e o cunhado Cotrim que acusaram Brás de querer ficar até com a roupa do corpo deles. A dificuldade de um dos lados ceder levou ao distanciamento dos irmãos e Brás conta que passou a maior parte do tempo sozinho, entre a ambição e o desânimo.

Passado um tempo, Brás e Virgília se reencontram e vivem o que fora interrompido no passado. Talvez de forma mais intensa pelo perigo que corriam na condição de amantes.

Sem conseguirem disfarçar aos outros o que lhes ocorria, logo foram objeto de suspeita pública. Inclusive do próprio marido de Virgília.

“O caso dos meus amores andava mais público do que eu podia supor. Virgília era um belo erro, e é tão fácil confessar um belo erro.”

Havia até uma certa vaidade em que outros soubessem do seu caso amoroso e ele nem fazia sequer questão de disfarçá-lo. Talvez como prova de que tivesse conseguido algo que lhe fora negado no passado. Virgília era-lhe um prêmio arrancado dos braços de outro que outrora a arrancara dos seus.

Virgília não lhe parecia querer deixar o marido. Brás chegou a propor uma fuga, ao que ela negou sob o argumento de que não poderia deixar o filho, fruto de seu casamento. O filho que Brás odiava.

Brás a considerava menos escrupulosa que o marido. Ela rendia a Lobo Neves cortesias, atenções e muitos afagos, numa flagrante ação lisonjeira que faz o adulado se render aos pés de uma mulher.

Virgília surge grávida e faz nascer em Brás uma suspeita paternal. Anima-lhe essa ideia. Ao contrário de Virgília que vê a gravidez como uma limitação aos hábitos de sua vida elegante.

Antes que ele pudesse pensar em um futuro para seu suposto filho, Virgília sofre um aborto e o prenúncio da paternidade morre na fase embrionária.

Movida pela transferência de posto do marido para outro estado, Virgília se despede de Brás, que confessa:

“Senti alguma coisa que não era dor nem prazer, uma coisa mista, alívio e saudade…”

Brás aproveitou uma espécie de aparente viuvez que lhe deu a partida de Virgília e pôs-se a meditar sobre o Humanitismo de seu amigo Quincas Borba – principalmente a respeito da inveja.

“(…) a inveja não é senão uma admiração que luta, e, sendo a luta a grande função do gênero humano, todos os sentimentos belicosos são os mais adequados à felicidade.”

A inveja o perseguira por toda a vida. Não fora a inveja o maior impulso para a sua aventura com Virgília? Confessara: “Concluí que talvez não a amasse deveras”.

Desejou o aplauso, a multidão. Só conseguiu chegar a deputado. Mas, ambicionava ser ministro, título que estava prestes a ser dado ao seu antigo sócio, Lobo Neves e que encheu Brás de irritação e inveja.

Porém, antes de receber tal título, Lobo Neves sucumbe à morte para imensa glória de Brás Cubas. Sim. Ele confessa ter sentido tranquilidade, alívio e prazer com a morte daquele que, vivo, teria lhe tomado seu desejado posto de ministro, depois de ter se casado com sua prometida Virgília.

Tudo que fizera e sentira não causava-lhe nenhum remorso.

Sua fase mais brilhante foi aquela em que se dedicou a apoios sociais, a conselho do amigo Quincas Borba.

A finalidade secundária desse trabalho era levar alegria à alma dos doentes e dos pobres. Causa tão grande que lhe dava excelente ideia de si mesmo.

Brás Cubas morreria sem ter alcançado nada do que desejara. Morto, pôde nos confessar:

“Não alcancei celebridade do emplasto. Não fui ministro, não fui califa, não conheci o casamento. (…) ao lado dessas faltas, coube-me a fortuna de não comprar o pão com o suor do meu rosto (…)

Também, não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria”.

Toda sua vida fora exposta nesse livro num tom espontâneo e sem amarras que só a morte pode dar a alguém. A franqueza é, segundo ele, a primeira virtude do defunto.

Talvez, só a consciência da morte traga à tona aquilo que não se ousa dizer enquanto se vive, sob o temor do olhar da opinião, do contraste dos interesses, da luta das cobiças que nos obrigam a calar, a disfarçar, a não estender ao mundo as revelações que fazemos quando estamos a sós com a nossa consciência.

“Mas, na morte, a possibilidade do desabafo, da liberdade, de sacudir fora a capa, deitar ao fosso as lantejoulas, despregar-se, despintar-se, desenfeitar-se, confessar lisamente o que foi e o que deixou de ser. Porque já não há vizinhos, nem amigos, nem conhecidos, nem estranhos; não há plateia.

O olhar da opinião, esse olhar agudo e judicial, perde a virtude, logo que pisamos o território da morte.”

A medalha que Brás Cubas não logrou em vida foi conquistada após sua morte, quando pôde nos legar esse livro no qual se entrega sem farsas e sem máscaras.

Só a morte é libertadora. Tudo o mais é tentativa de liberdade.

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