A desonestidade é o que nos une.

O último livro escrito por Clarice Lispector foi “A hora da estrela”, no qual ela narra a história de uma nordestina pobre, que vivia feito bicho, cujo nome é Macabea. Nessa obra, parece que ela quis dar o último grito. E realmente o foi, pois a escritora morreu logo em seguida, assim como a protagonista da narrativa.

Clarice denuncia a miséria do Nordeste com a propriedade de quem viveu por algum tempo em Maceió e Recife. Nesses lugares, provavelmente ela tenha se deparado com muitos olhares vagos e perdidos pela fome e pelo desamparo.

“Se você é um homem que tem mais dinheiro do que aqueles que passam fome de algum  modo você é desonesto.”

Essa frase ficou entalada na garganta, porque denuncia a minha própria desonestidade. E não adianta se fingir de sonso e dizer que não entendeu. É bem isso que você sabe e não quer admitir. Você e eu somos desonestos travestidos de santos. Belos santos do pau oco.

Não somos em nada diferentes daqueles políticos que acusamos por sempre quererem beneficiar a si próprios. Quanto mais temos, mais desejamos.  E queremos para darmos a nós mesmos, aos nossos pais, aos nossos filhos e aos chegados. Nunca desejamos mais com a finalidade de fazer aquilo que Jesus propôs a quem quis segui-lo: “Vende tudo o que tens e dá aos pobres”. Eu te seguirei Jesus, mas preciso carregar minhas tralhas nas costas. Sua proposta me seduz, entretanto não estou preparado para me desnudar.

Nós só damos esmolas para nos redimir. Eu mesma fiz a promessa de dar comida a quem quer que me peça. Mas sabem por onde ando? Por uma das áreas mais nobres de Brasília, onde quase não deixam pedintes e mendigos transitarem. Duvido muito que eu tivesse a coragem de fazer um pacto dessa magnitude se andasse pelos subúrbios ou favelas. Só querendo se passar por boazinha – a desonesta.

Sei que tem milhões andando por aí sem alimento, sem roupas, sem agasalhos e sem nada . E eu com isso? Tenho comida, cem roupas, cem sapatos, cem bolsas… Tenho tudo, meu Deus! E quanto mais tenho, pobre que sou quero mais. E quando não tenho mais o que querer, invento. Ontem mesmo inventei que precisava de mais um abajur e outras capas de almofadas.

A gente troca a TV, a geladeira, compra o último modelo iphone (com i minúsculo de inutilidade), viaja três ou mais vezes durante o ano e já programa as próximas viagens e a gente come nos melhores restaurantes, toma café expresso todos os dias nas cafeterias mais caras e decide ter filhos para colocá-los nas melhores creches e escolas porque não temos tempo para eles já que trabalhamos para ganhar dinheiro e a gente troca de carro e troca de apartamento e coloca os filhos para estudarem medicina para ter altos salários porque é preciso ter uma profissão que renda muito para poder gastar e ter tudo o que é necessário. E o que é tão necessário assim? “Somos simples animais” e de tão simples imersos nessa complexidade que criamos acabamos por nos perder. Perdi o fôlego, mas não posso colocar nenhuma vírgula que prejudique o tom.

Ou então a gente vira funcionário público e senta a bunda o dia todo na cadeira tomando cafezinho e esperando o dia passar para ao final do expediente produzir papel que não muda a realidade de ninguém. E aí você se sente um baita fracassado e desconta sua ira nos colegas que estão tão cheios de tudo quanto você. Mas o salário é bom e dá para comprar mais e mais objetos parcelados a perder de vista. Mas não fica pensando que é só isso que eles fazem quando decidem servir ao público com o dinheiro pago pelo governo. Aliás, pago por nós mesmos, porque o governo não dá nada a ninguém, apenas tira. Os funcionários públicos são muito bonzinhos. Eles dão muitas esmolas para aquelas creches chatas que ligam o dia inteiro pedindo contribuições. Não sei onde elas arrumam nossos números. Que saco! Mas eu sou boazinha e acabo vencida pela insistência, contudo não posso contribuir com muito, pois tenho inúmeras contas a pagar e filhos a criar.

Não há mérito em ajudar os seus. Não há mérito em amar seus filhos. Não há mérito no amor que tenho pela minha mãe ou meus irmãos. Não há mérito em dar esmolas.

E por falar em esmolas,  hoje fui abordada no sinal de trânsito por um homem que me pediu uns trocados. Disse que mora na rua e que não tem família. Eu dei as moedinhas que tinha, sob o argumento de que não contava com dinheiro e que só ando com o cartão. Também me lembrei que não podia gastar muito, pois estou programando aquela viagem à Europa que me renderá muitas fotos e likes nas redes. Ele ficou feliz com o pouco que dei de tão rico que é.

Como já falei, quase não me deparo com aqueles que verdadeiramente precisam de algo. Nós que só nos deslocamos de carro e nos bairros afastados da periferia não vemos o homem nu. Nós só vemos os outros carros, os pedestres, os ciclistas e motociclistas. Já repararam como damos nomes diferentes para designar aqueles que são como nós? Apenas homens? A gente é tão idêntico, mas tentamos nos distinguir por diferentes nomes porque não suportamos admitir nossa igualdade e miséria similares.

Perguntam-me: “o que você é?”. E eu respondo de peito cheio e alma vazia: “sou ADVOGADA”. Advogada, uma ova! Sou um pobre ser que se recusa em aceitar a própria pobreza que é grande e inalcançável e para isso se enche de títulos insignificantes. Não há diferença alguma entre o verdadeiro rei e o rei do teatro. Os dois se transfiguram e representam. E tudo o que você faz com essas intitulações que dá a si mesmo não passa de representação.

A desonestidade é o que nos guia e une. Saber disso faz com que eu direcione acusações, inclusive, a mim mesma. Saber disso me mantém em constante observação e silêncio, embora esteja cansada da mudez. Quero é gritar já que “há o direito ao grito”. Nunca se sabe quando se está gritando pela última vez.

Eu me delato e subjugo-me à minha condição, entretanto, em essência, isso não me torna nem um pouco melhor que os demais desonestos.

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