Dercy de cabo a rabo

“Tenho que dizer no meu livro a verdade que sinto no coração.” Essa frase sintetiza muito bem o que Dercy Gonçalves procurou nos revelar nessa obra – sua autenticidade.

É preciso reconhecer que dizer a verdade exige sobretudo uma espécie de coragem, uma vez que a hipocrisia foi e continua sendo uma das mais evidentes patologias sociais.

Muitos dos comportamentos que acusamos quando praticados pelo outro são também realizados por nós, entretanto às escondidas. Isso retira a tipicidade da conduta por aparente inexistência do fato e de sua autoria. No entanto, a nossa culpabilidade não escapa à própria consciência, uma vez que esta não sobrevive de aparências.

O termo puta foi uma das expressões mais utilizadas para caracterizar Dercy Gonçalves, mesmo quando ela não passava de uma menina em Madalena, cujo sonho era ser artista. Nem sabia se tratar de um termo pejorativo. Era ignorante de tudo. Também não tinha noção do que isso significava, mas quando lhe disseram que ser artista era o mesmo que ser puta, intuitivamente respondeu: “Então vou ser uma grande puta”. Só mais tarde entendeu do que se tratava. E bem mais tarde ainda é que descobriu que existia o sexo. Simplesmente, Dercy era uma puta virgem.

Quando resolveu publicar a sua biografia contava com oitenta e sete anos e precisou da ajuda de alguém, pois não sabia ler nem escrever. Maria Adelaide Amaral se dispôs a auxiliá-la e transcrever as memórias de Dercy, que sobre sua própria idade dispara:

“(…) não sou velha. Velho é quem está caduco, velhas são as pessoas que não têm mais o que fazer, que ficam encostadas, incomodando. Mas uma mulher como eu, que ainda trabalha, briga e raciocina… estou uma beleza, estou uma beleza. Eu me acho linda da cabeça aos pés, e quem não achar que se dane.”

Dercy partiu com cento e um anos de idade e trabalhou incansavelmente até a morte. Recusava-se a aposentar, a ficar parada e impedida de ser abraçada e de sentir o calor daqueles que lhe prestigiavam. “O carinho do público foi o único que tive em minha vida. O seu riso e o seu aplauso são as únicas coisas capazes de saciar minha fome e me confortar.”

Batizada com o nome de Dolores, ela ultrapassou suas dores e seguiu em frente. Apesar dos problemas familiares enfrentados com o pai que, semelhante a um animal feroz, batia nela constantemente e com a ausência de uma mãe que, fugindo da humilhação de ser traída, abandonou as filhas, Dercy não se deu por vencida.

Ela assume ter carências decorrentes desse contexto familiar e revela que também desenvolveu inseguranças, ciúmes, possessividade e depressão. Dercy não nega seus defeitos e falhas, muito menos joga a sujeira para debaixo do tapete. Ela não se esforça para esconder absolutamente nada.

A fim de amenizar seus conflitos interiores rendeu-se à psicanálise e diz: “Todo mundo precisa de análise, porque ninguém tem a cabeça no lugar. A psicanálise me ajudou a me entender melhor, a entender meu pai e aceitar minha vida, porque o que está feito está feito, uma hora a gente tem que aceitar. Não dava pra ficar me lamentando e acusando quem me sacaneou, porque aquelas pessoas também tinham seus problemas e, no fim das contas, acabei me saindo melhor do que essa gente que me prejudicou.”

Entretanto, a análise, apesar de útil, não resolveu todas as suas carências de menina pobre e mal amada. Dercy diz que durante toda a vida tentou compensar o que não teve. Desenvolveu cleptomania (roubava objetos mesmo quando tinha dinheiro em sua bolsa para comprar o que quisesse) e também a compulsão por compras. “Vou comprando o que gosto, o que quero e, principalmente, o que não preciso.”

Também, não se tornou menos possessiva com a análise e assumiu que esse era um caso para Nossa Senhora Aparecida e não para Freud.

Apesar de muitos a acusarem de falar palavrão, ela faz sua réplica: “Palavrão não é o que você diz, é o que você faz: se você rouba, é ladrão; se você mata, é assassino; se você trai, é um sacana; se você é eleito pelo povo e só defende os seus interesses, é um filho da puta.”

Dercy gostava de ser diferente e exótica. Reconhece ser uma mulher brava, um pouco sem educação, mas séria e que gosta das coisas certas. Acreditava em poucas coisas, duvidava de muitas, tinha poucos amigos.

Diz que nunca amou nem foi amada verdadeiramente. Aproveitou-se dos homens e eles se aproveitaram dela. Amava uma conquista e considerava o sexo secundário, sem graça, com os mesmos movimentos e resultados. Talvez o sexo com amor fosse mais interessante, reflete.

O sucesso para ela é uma mentira, algo efêmero. “Pra mim, quem faz sucesso até hoje é Jesus Cristo. Ele não tinha mídia, não tinha nada, e mais de metade do mundo o respeita.”

Dercy foi embora de Madalena aos dezessete anos com uma companhia de teatro que estava passando uma temporada na cidade. Não se indagava se estava certa ou errada. “Ser o que sou. Errada, certa, não importa. Eu não queria saber se era boa para os outros, o que queria era ser boa para mim.”

Seu desejo consistia em seguir a própria vida, sair daquela cidade onde era maltratada e ignorada, lutar pelo seu sonho que, a princípio, era só cantar. Assim, partiu livre e feliz. “Eu fui à vida na ignorância.”

Mesmo ignorante, Dercy diz ter sido movida durante toda a sua vida por uma intuição incomum. Era curiosa, seu aprendizado era fruto da vivência e das pessoas com quem se relacionou de várias formas. Considera-se uma mulher inteligente e esperta.

Com os pés fora de Madalena, encontrou o céu. “Ninguém me batia, ninguém me contrariava, ninguém me censurava, eu estava dentro de uma jaula de um só animal. Não havia outros bichos para me atacar. Ninguém me olhava de cima, ninguém era melhor que o outro, todo mundo era igual.”

Dercy se envolveu com um integrante da companhia do teatro e teve contato pela primeira vez com o sexo. Em seus dizeres, foi horrível. “Nunca pensei que aquela merda pudesse crescer tanto.” Ela diz que parecia estar enfiando um facão dentro dela. Meteu o pé no parceiro e, ensanguentada, acabaram parando numa delegacia. A puta se desvirginara de um modo cômico e trágico.

Depois de oito abortos, teve sua primeira e única filha. Só não abortou novamente porque o pai da menina a impediu. Aceitou a gravidez contrariada. Dercy não queria ser mãe, queria apenas trabalhar no teatro.

Sobre os abortos, declara não se arrepender de tê-los feito e que não há governo ou instituição religiosa capazes de dizer o que ela deve ou não fazer. “Na minha xereca ninguém manda”. Para ela, cada um tem o direito de viver como quer.

Apesar de não ter desejado ser mãe, Dercy amou e protegeu a filha tanto quanto pôde. Diz que o amor pela filha se revelou com força no momento da amamentação. Criou a menina de modo que ela não precisasse enfrentar as humilhações e as rejeições porque a mãe passara. Queria que ela se casasse com um homem “de bem” e foi o que aconteceu. O marido de Decimar foi um dos homens em quem Dercy mais confiou. Sua filha lhe deu dois netos. Ao contrário da mãe, Decimar era muito educada, alegre, bem relacionada e amada.

“Eu gostava tanto da minha filha que a escondia do mundo. Ela não seria como eu, não ia passar pelo que eu tinha passado.”

Dercy tinha em si a alma de artista e, apesar da ignorância de menina pobre de Madalena, nada a impediu de trabalhar no palco:

“O que me mandavam fazer, eu fazia; o resto funcionava na base da intuição, porque a maior parte das coisas que eu fazia no palco era puramente intuitiva. Essa foi a grande vantagem que tive na vida: uma percepção fora do comum a respeito das coisas. Não tinha estudo, não lia quase nada, mas alguma coisa dentro de mim me alertava, chamava a minha atenção, me ensinava, me obrigava a perceber, me dizia o que tinha e o que não tinha que fazer.”

Descobriu que podia fazer rir, que o público a achava engraçada e começou a acreditar que realmente tinha comicidade.

Representava em qualquer lugar e de qualquer maneira, afinal o show tinha que continuar. “Não podia escolher, porque tinha uma filha para criar.”

Sempre valorizou e respeitou o público. “O público era a coisa mais importante do espetáculo.”

Passou fome, ficou sem tomar banho por alguns dias, “comeu o pão que o diabo amassou”, mas o amor pelo trabalho e a consideração pelos que a aclamavam conseguiram lhe dá firmeza. “Queria continuar mantendo o meu pessoal, queria ver o nome de Dercy Gonçalves cintilando nos luminosos e, para isso, precisava seguir meu caminho, apesar das dificuldades.”

Envolveu-se com alguns homens, mas jamais pensou em abrir mão da carreira por qualquer um deles. Conta que, embora o sexo fosse algo secundário, encontrou um homem que a levou à loucura. Um baita de um mulherengo do qual ela sentia muito ciúme e se humilhava.

Entretanto, um homem que lhe propôs vida calma e pacata não lhe seduziu. “Ingenuamente, ele achava que podia me seduzir acenando com paz, sossego, tranquilidade e vida doméstica. Não era aquele tipo de vida que eu estava procurando. Nunca fui muito de vida tranquila e tinha me acostumado a guerrear, a brigar sempre pelas coisas, gostava da minha vida como ela se encaminhara. Só não sabia se era eu ou o destino que havia determinado assim.”

No palco, Dercy não gostava do papéis apagados em que ela fosse preterida e não se destacasse. E sempre conseguia roubar a cena com o seu jeito irreverente. Desaforo ela não engolia. Era brava e a “porra” comia se alguém quisesse passar por cima dela.

Para ela, o artista tem que saber se comunicar acima de qualquer outra coisa. Ele só se mantém pelo seu valor e talento.

Conhecida por ser indirigível, qualquer texto que lhe chegasse às mãos era alterado por ela em cena. Dava o seu próprio toque, improvisava como queria. Escreveram sobre ela: “Uma artista muito imprevisível, não consegue obedecer ao autor completamente, cria em cima, inventa.” E ela mesma admite: “Não tenho muita paciência pra fica repetindo o que o autor escreveu, palavra por palavra.”

Ninguém conseguia enquadrá-la e ela se justificava sob o argumento de que era uma estrela.

Dercy foi extremamente censurada, tanto pelos críticos, quanto por colegas de teatro e da televisão. Durante a ditadura era vigiada em todos os palcos. Não podia falar nem o seu clássico “puta que pariu”. Apesar de não representar qualquer perigo para o sistema não escapou à perseguição dos “milicos”, que chegaram à conclusão que se tratava apenas de uma mulher malcriada

“Tudo o que eu fazia era criticado, motivo de ostracismo, me condenaram, me botaram no limbo. Hoje sou exemplo de cultura.”

O que muitos consideravam defeito era para Dercy apenas uma questão de estilo e vitalidade. Excessiva? Exagerada? Que é que tem nisso? Era apenas a sua forma de expressar.

No palco, não tinha medo, era valente, audaciosa, livre, o que talvez tenha lhe rendido tanta censura a ponto de proibir-lhe até mexer as mãos por considerá-las pornográficas.

Dercy se casou com um jornalista de nome Danilo. Com o passar do tempo, ele começou a traí-la com mulheres mais jovens e chamá-la de velha. Essa ofensa lhe doía e a magoava tanto que ela começou a recorrer às cirurgias plásticas para parecer mais jovem. Apesar de o casamento andar de mal a pior tinha dificuldade em abandonar o companheiro. Além do mais, o status de casada era interessante, porque impunha a qualidade de mulher de respeito que ela tanto precisava.

Não traía, mas também não admitia traição. Era mulher de um homem só . Achava que trair daria um trabalho danado e ela acabaria confundindo nomes e se entregando.

“Comecei a preparar a saída de Danilo da minha vida. Não foi fácil. Nunca é fácil, mesmo quando a gente despreza o homem que vive ao nosso lado.”

“Além de desprezo, comecei a sentir nojo. Mas por que continuava com ele? Por comodidade? Por que ele cuidava de todos os meus negócios, as contas a pagar e as contas a receber, os contratos, os acertos com o dono do teatro? Pra que precisava de um marido que me lesava?”

A lesão que Danilo provocou em Dercy foi tanto de caráter emocional quanto financeiro, pois descobriu que ele desviava o dinheiro dela para bancar a diversão com outras mulheres.

A separação mexeu com ela. Estava infeliz, fumava muito, olhava-se no espelho e já não gostava mais do que via. Teve depressão. Foi neste cenário que resolveu se submeter à psicanálise durante nove anos. Trocou de analista por três vezes e se apaixonou por um deles.

“Se não tivesse sido uma criança ferida, se não tivesse levado tanta porrada da vida, seria mais calma, mais equilibrada. Mas talvez não fosse Dercy Gonçalves.”

Além do palco, divertia-se no jogo. Gostava de frequentar cassinos. Ganhou e perdeu dinheiro. Gostava de grana. “Meu gosto por jogo tem muito a ver com meu gosto por dinheiro. Gosto porque nasci pobre. Preciso de dinheiro porque me dá segurança; quando tenho, me sinto tranquila e sem ele fico insegura, muito aflita.”

A carência demasiada de criança pobre de recursos e de afetos fez com que Dercy desenvolvesse não só uma ambição pelo dinheiro, mas também uma possessividade doentia. Diz que tinha ciúmes até do travesseiro. “Quero tudo pra mim, mesmo o que não quero mais.”

Quando Dercy foi trabalhar na televisão, seu programa batia recordes de audiência. Entretanto, apesar dos resultados que dava para a emissora foi demitida sem qualquer explicação. Acredita que tenha sido por causa da perseguição do governo militar.

Assim, saiu do Brasil e tentou carreira no exterior, mas não gostaram de sua arte. Dercy só se sentia compreendida pelo público brasileiro. Tudo o que ela tentou fazer fora de sua pátria foi um fracasso. Em Portugal foi quase expulsa por causa de seus palavrões.

Dercy critica duramente os políticos. Esses são os que, para ela, proclamam os maiores palavrões contra o povo. Prometem e não cumprem no maior descaramento. E esse negócio de fazer alianças é, na sua visão, uma putaria. A putaria dos políticos foi a maior de todas que ela conheceu.

Não tinha religião. Acreditava em Deus, Jesus, em forças do bem e do mal. ” Deus pra mim é tudo. A natureza, a Lua, os astros, o universo, eu. É isso mesmo. Deus está dentro de mim. Não vejo Deus como as religiões pregam, e praticar uma religião, com todo respeito, sempre foi um atraso de vida. Não gosto de intermediários. Quando tenho assuntos a tratar com Deus, não preciso de padre, pastor, rabino nem coisas do gênero. Vou direto ao Diretor-Geral.”

Afirma não saber mentir, não ser falsa nem fingida.  “Nunca escondi o que foi a minha vida pra ninguém nem tenho rabo preso.”

Tudo aquilo que conseguiu foi proveniente de seus próprios meios: “Fui conseguindo tudo à minha custa, sozinha, sem esforço, sem ansiedade, sem angústia, sem aflição de chegar a ponto nenhum.”

Dercy não imaginou que a sua vida desse uma história tão linda. Numa entrevista feita para o programa Roda Viva, declara que o livro foi uma das coisas que mais a surpreendeu de tão bonita e verdadeiro que ficou a história nele contada.

Não culpa sua família por nada, pelo contrário, compreende. “Minha família era um conjunto de gente aflita, de gente sofrida, onde cada um incomodava o outro. No fundo, porém, todo mundo queria se encontrar, como aconteceu muito mais tarde.”

“Sou uma pessoa espetacular.”

“Sou uma estrela.”

“Sempre fui mais eu.”

“Sou agressiva, não nego.”

“Sou brava, sou forte, sou guerreira.”

“Não digo que sou santa…”

“Não tenho medo de ninguém.”

“Sou de um temperamento que não sabe guardar inconveniências.”

“Não me deslumbro com qualquer brilho.”

“Não sou de chorar, não sou de gastar lágrimas à toa.”

“Sou forte. Estou viva porque não deixei de sonhar. E sonho com muita convicção, deixando o sonho me tomar.”

“Nunca admiti nem admito que terceiros venham dar palpite em minha vida.”

“Não vem pra cima de mim me dizer o que é certo ou errado e o que tenho que fazer. A minha estrada quem comanda sou eu.”

“Aprendi também com o porteiro, o lixeiro, a puta, porque a gente sempre aprende com as pessoas.”

“A mim ninguém consegue imitar.”

Dercy tinha total consciência de sua originalidade e importância. A frase que permeia todo o livro é “Eu sou”. Consciente de si, de sua grandeza, nada nem ninguém conseguiu tirá-la de cena. Dercy nasceu para o palco e viveu para estar nele. A força dessa mulher guerreira era incomum. Sua independência admirável. Ninguém a dominava. Ninguém a paralisava. Ninguém, além dela mesma, deu direcionamento à sua própria vida. Tinha livre-arbítrio, dado por Deus, disse.

Tudo o que fazia era por si mesma. “As coisas que fiz e faço, faço por mim, pensando em minha saúde, em meu trabalho, no respeito por mim mesma. Não é porque tenho uma filha, dois netos e uma bisneta. Mas porque acredito que cada um deve se respeitar, deve se amar. Ninguém tem obrigação de gostar da gente, a não ser a gente mesma.”

Dercy tentou enganar a morte de todas as maneiras. Não queria morrer. Tinha tesão pela vida e pavor da morte. Depois dos oitenta anos descobriu que tinha um câncer e conseguiu passar uma rasteira nele. Sua garra é admirável. Entretanto, aos cento e um anos seu corpo cedeu espaço a uma pneumonia.

Hoje, com toda a sede de vida que moveu sua trajetória, Dercy deve estar brilhando e fazendo graça nos palcos da eternidade. A menina de Madalena subiu aos céus e virou uma grande estrela.

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