Não há qualquer coisa que justifique o ato de ser mãe.

A decisão de ser mãe não deve ser justificada em nenhuma hipótese, sob pena de se incorrer nas mais estapafúrdias respostas. Ser mãe deve ser um ato baseado pura e simplesmente na vontade. Uma vontade com que não precisamos dialogar, assim como essa que me faz escrever. Não me indago a respeito do porquê escrevo. Apenas o faço seguindo uma imposição de minha natureza que é tão branda e sem esforço como quando respiro.

O ato de procriar deve vir como uma inspiração, cujo expirar nasça sob a forma de um ser que se pretenda cuidar e amar. Indagar-se a respeito de ser ou não ser mãe é um indício de que não nasceu para sê-lo, mas nem sempre nascemos para ser uma coisa ou outra. Às vezes, aprende-se.

Ainda é grande o número de mulheres que não se questionam diante da tendência natural de conceber filhos. A maioria sente esse desejo e se verga para que se cumpra nelas a vontade de Deus que, quase sempre, se coaduna com a vontade delas próprias. A vontade de Deus quanto a conceber filhos ainda não se manifestou em mim. Provavelmente, Ele não acha que é o meu momento e assim posso seguir caminhando sem contribuir para a humanidade, mas também sem o peso da culpa.

Na verdade, essa história de que você terá filhos com a finalidade de contribuir para a humanidade não faz qualquer sentido. Talvez, a melhor forma seria dizer que terá filhos para fazer parte da humanidade. Nunca saberemos de antemão se nosso filho irá contribuir com alguma coisa ou se será apenas mais um na multidão. Se minha mãe tivesse pensado em me colocar no mundo para que eu fosse um meio de contribuição, provavelmente ela teria se frustrado, pois até agora não beneficiei a ninguém e tudo que faço qualquer outro faria.

Ser mãe para ter quem cuide de nós na velhice é outra coisa que não tem fundamento. Além do mais, demonstra insegurança, medo e, acima de tudo, egoísmo, cujo fim único somos nós mesmos. Ainda, não sabemos se nossos filhos nos sobreviverão e, se sobreviverem, se vão realmente cuidar de nós.

Soube de uma pesquisa que apontou que os idosos são cuidados mais por amigos e outros parentes do que pelos próprios filhos. Alguns, inclusive, preferem colocá-los no asilo ou são obrigados a se eximirem do cuidado aos pais, quer por falta de tempo, dinheiro ou mesmo por necessidade. As causas são variadas. Mersault, personagem do livro O estrangeiro, de Camus, achou por bem colocar a mãe no asilo, pois já não tinham o que conversar um com o outro e porque ele precisava trabalhar e não podia lhe fazer companhia. Ele precisou seguir sua própria vida como todos os filhos precisam… Pelo menos no asilo ela teria companhia.

É pelo motivo de os filhos terem que seguir suas próprias vidas que não podemos tê-los pelo medo de a solidão bater à nossa porta. Não temos o direito de confiná-los a nós para nos proteger da inevitável solidão que acompanha nossa velhice.

Ter filho contra a vontade para satisfazer o desejo do parceiro pode ser temerário. O filho é integralmente da mãe, mas não é integralmente do pai. Tendo em vista o grau de dispensabilidade, a figura paterna passa por três estágios: para a concepção, ele é parcialmente indispensável; para a geração é totalmente dispensável; e para a criação é dispensável, mas muito importante.

No que diz respeito à mãe, ela é indispensável em todos os estágios. Além do mais, a falta materna ou conflitos vivenciados com a mãe podem ocasionar danos psíquicos graves que marcam toda uma vida.

Assim, um pai atuante pode contribuir bastante para a formação de uma criança, mas há inúmeros momentos que só o colo, a proteção e o cuidado da mãe tem o poder de cura.

Pensar em ter filhos para preencher o vazio que existe entre o casal é de uma tremenda irresponsabilidade. Primeiro, porque a criança vai nascer com o peso de tampar um buraco que lhe precedera e que ela nem sabia da existência. Segundo, se existe um vazio entre o casal que faz ambos sofrerem por incompletude, creio que talvez seja hora de pensar numa solução que envolva os dois, únicos responsáveis pelas próprios rumos. Inclusive, pode até ser o caso de uma separação e não de colocar um ser no mundo com uma responsabilidade de reintegrar os pais que não escolheu.

Talvez a ideia de ter filho seja tanto mais acertada quando decorre de um excesso de conexão entre o casal do que de uma falta entre eles.

A justificativa de que, por meio de um filho se tem acesso ao maior amor do mundo, também deve ser rechaçada. Se precisa gerar um filho para exercer o amor em sua totalidade significa que só é capaz de amar muito aquele que foi fruto de si mesma. E não há mérito algum em amar os nossos próprios frutos. É apenas a manifestação de uma das facetas de nosso narciso, que nos acompanha em quase todas as nossas decisões e ações, sob o disfarce de amor pelo outro.

Ainda, sobre o amor de mãe ser o maior sentimento do mundo é preciso dizer que depende. Ele realmente é grande, mas cabe apenas dentro de um ser único. Ele é grande em qualidade, restrito em quantidade. Uma mãe é capaz de voltar contra todos em nome do amor que tem por apenas um ser. Nenhuma mãe pagaria o preço pago por Maria que ofereceu seu filho único pelo amor que Deus tem por toda humanidade.

Conceber para ter a chance de dar ao filho tudo que você quis e não teve ou de ele ser tudo que você quis ser e não foi demonstra que você não separa as vontades do ser que gerou das vontades do ser gerado. Os desejos de seu filho podem não coincidir em nada com os seus. E querer oferecer a ele tudo aquilo que não teve ou transformá-lo em algo que você não conseguiu ser é uma forma de afagar suas próprias carências em detrimento de um ser que nada teve a ver com elas.

O argumento da evolução é fraco e também não se sustenta. Evoluir significa passar por um processo gradual de transformação. Pensamos sempre em evolução como uma forma de nos transformarmos a cada dia numa versão melhor de nós mesmos. Para isso, não precisamos ter filhos. Há várias coisas porque passamos e que podemos observar que nos oferece a possibilidade de nos melhorarmos. Por exemplo, os exercícios de se colocar no lugar do outro e de rever as próprias falhas e fraquezas são de grande valia na busca da evolução. A própria ideia de que tudo é passageiro e de que morremos um dia são fatos que por si sós já nos deveriam ensinar muitas coisas. O amor que você tem a um filho não é maior que o amor que você tem a si próprio, senão Jesus, em sua inteligência suprema, nos teria dito: “Ame ao próximo como ama os seus filhos”. Mas não, ele disse: “Ame ao próximo como a ti mesmo.” Quando você resolve ter um filho é por amor a si mesma, a uma ideia sua, a um desejo seu. É a si que você busca se satisfazer por meio dele.

E se você não evoluir como o esperado depois de ter um filho quem terá falhado, você ou ele?

A ideia de que você vai se perpetuar nos seus descendentes é uma tremenda ilusão. Os seus filhos serão feitos da mesma matéria que você e um dia eles também se vão e tanto você quanto eles cairão no esquecimento. Quem está aqui para rememorar a existência de sua tataravó? Um modo menos efêmero de se eternizar talvez seja pela arte ou ciência. Mas que necessidade é essa de eternidade? A eternidade prometida por Jesus não foi a pertencente a esse mundo. Nesse mundo, tudo é ilusão e corrida atrás do vento, como diz Eclesiastes.

Querer justificar a decisão de ser mãe parece originar de uma necessidade de dar importância superior a esse ato ou mesmo não querer admitir que o fazemos porque somos animais e todos os animais assim o fazem. Parece nascer do fato de os humanos não aceitarem que uma das funções para os quais estamos aqui é reproduzir, caso contrário por que a mulher teria óvulo e o homem esperma? Mas não, temos que justificar. Temos que dar notoriedade e uma importância maior para as nossas ações.

Entendo que não é fácil estar diante do vazio das coisas inexplicáveis. Entendo que é muito mais fácil carregar nossas ações de sentido. Mas nem tudo precisa de um motivo, uma razão ou um porquê. Podemos agir pura e simplesmente porque sentimos vontade e essa vontade as vezes é muito mais forte do que nós. Podemos ter filhos apenas por tê-los e mesmo assim amá-los, sem precisar que o nascimento deles venha marcado pelo peso de uma responsabilidade cuja anuência eles não deram. A justificativa é um modo de tentar fazer com que os outros aceitem nossas razões e, sobretudo, um modo de nós mesmos convivermos com o peso de nossas escolhas.

Quando Deus disse “crescei-vos e multiplicai-vos”, Ele não se justificou. Deu-nos apenas a ordem. Portanto, cabe a nós a escolha da obediência ou arcar com as consequências da desobediência. No entanto, qualquer escolha carrega a possibilidade de vir acompanhada de alegrias e dores, mas nunca de provas ou explicações.

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