Minha Vida, de A. P. Tchekhov.

Minha vida é uma narrativa em primeira pessoa, cujo personagem principal é Missail, contador de sua própria história.

Demitido de seu nono emprego, para desgosto do pai, um arquiteto municipal, Missail decide dedicar-se a serviços braçais, pois considera que as atividades burocráticas e intelectuais não possuem quaisquer utilidades. Além do mais, nesses empregos passava o dia inteiro sem fazer absolutamente nada e isso o levava a um profundo tédio.

“(…) todos os nove empregos pareciam-se um com o outro como gotas d’águas: eu tinha de ficar sentado, escrevendo, ouvindo observações estúpidas ou grosseiras, à espera da demissão.”

Apesar de tentar se explicar a seu pai, este não admitia que o filho se misturasse à classe baixa e se dedicasse a serviços desprovidos de nobreza. Seria uma vergonha que, inclusive, mataria de desgosto a mãe de Missail, se ela estivesse viva – dizia seu pai. Aos seus olhos, o filho era um “homem tapado”, um “cabeça sem cérebro”. O tipo de trabalho que ele queria exercer revelava um “traço característico de escravos e bárbaros.”

Missail tentava explicar-lhe que tinha vitalidade suficiente para exercer trabalhos mais árduos e úteis. Era vergonhoso e ofensivo que um homem de vinte e cinco anos ficasse o dia todo dentro de um cômodo abafado, sem nada produzir, sob a justificativa de que era dotado de um tal “fogo sagrado”. Era inadmissível que esse “fogo sagrado”, tão valorizado por seu pai, fosse direcionado a escrever letras mortas que em nada alteraria a realidade de alguém.

“(…) eu me julgava muito forte, resistente, capaz de fazer o mais pesado dos trabalhos.”

Nenhuma explicação o convenceria, posto que ele era incapaz de aceitar os argumentos do filho, “estúpido” e “patife”. Nesse dia em que Missail o procurou a fim de ser compreendido de seus motivos, seu pai o bateu com um guarda-chuva. A irmã, Kleópatra, presenciou a surra, mas não manifestou qualquer defesa. Simplesmente, “deu as costas sem dizer nem uma palavra”.

Mesmo sem o consentimento paterno, no entanto, julgando estar agindo de acordo com a consciência, Missail deu início à nova vida de operário, vestindo-se pobremente e fora de moda, gozando de má reputação por não ter um cargo.

Enxergava o pai como um ser medíocre que, embora bradasse sobre a insignificância do homem diante do universo, não agia segundo esse saber e achava-se o melhor dentre todos os homens.

Único arquiteto da cidade, todas as construções feitas pelo pai eram iguais, sem qualquer inovação.

“(…)nos últimos quinze a vinte anos pelo que me lembrava, não se construía um único prédio decente na cidade.”

“(…) todas as casas construídas por meu pai, todas parecidas umas às outras, lembravam-me vagamente a sua cartola, a sua nuca rígida e severa. Com o passar do tempo, na cidade acostumaram-se com a falta de talento de meu pai; ela criou raízes e tornou-se o nosso estilo.”

Na casa do pai de Missail, cada copeque era milimetricamente contado. As despesas eram bastante reduzidas a ponto de eles se alimentarem muito mal para que o dinheiro fosse poupado ao máximo. Kleópatra era a responsável por contabilizar as economias da família, verificar se os empregados não estavam comendo além do permitido, bem como servir chá para o genitor ou para as visitas, por pelo menos cinco vezes ao dia. Essas eram as suas únicas ocupações.

Missail amava a cidade em que vivia, mas não gostava das pessoas com as quais era obrigado a conviver. Achavam-nas tediosas, estranhas e até asquerosas. Elas estavam imersas na mesquinharia, na mentira e no esforço por manter uma espécie de aparência enquanto “viviam do capital acumulado e do salário recebido por funcionários públicos.”

Há uma crítica à diferença gritante entre as classes e à exploração de umas sobre outras. Para Missail, existiam opressores e explorados. Havia uma hipocrisia reinante, uma farsa, uma desonestidade sem precedentes.

“Na cidade inteira eu não conhecia nenhuma pessoa honesta. O meu pai recebia propina e imaginava que lhe davam isso em respeito às suas qualidades morais.”

Quase todos estavam contaminados pela sujeira, com exceção de algumas moças que, em seu julgamento, possuíam alguma pureza moral.

Ele deixou a cidade e foi morar e trabalhar no campo. Chegou a passar fome e compreendeu porque algumas pessoas trabalham apenas por um pedaço de pão. Estava insatisfeito consigo mesmo, faminto e vagava.

Agora, Missail vivia às próprias custas e não dependia do pai. Este cortou qualquer tipo de relacionamento com o filho. Por vezes, a irmã ia visitá-lo, principalmente para encontrar-se com o médico Blagovó, que gostava de conversar com Missail sobre ideologias, e pelo qual Kleópatra acabou se apaixonando. Missail percebeu que as visitações realizadas pela irmã eram direcionadas a ele apenas de modo reflexo. Era o médico que ela realmente desejava encontrar.

Ela chegou a suplicar ao irmão que se corrigisse, mas Missail continuou a agir conforme a própria consciência, sem qualquer pretensão de se emendar de toda e qualquer acusação que recebesse.

Blagovó admirava Missail pela coragem que teve em mudar a vida de forma tão abrupta. Imaginava que essa sua força poderia ser direcionada para algo mais nobre, como a arte ou a ciência. Blavogó era um homem encantado pela ciência e pelo progresso. Já Missail acreditava que o progresso é uma ideia sem contornos definidos. Não se sabe ao certo o limite do desenvolvimento, até onde ele vai e, por ser tão desprovido de margens, talvez não haja nada que justifique as atrocidades e explorações que se faz em nome dele.

Missail tinha por ideal a igualdade dos fortes e fracos, dos ricos e pobres e imaginava que a melhor maneira de nivelar todas as classes seria por meio do trabalho físico. Para Blagovó, esse nivelamento social representaria uma ameça ao progresso.

Numa dessas conversas, eles discutiram a respeito do capitalismo em contraposição ao surgimento de ideias libertárias. Apesar de existir uma maioria que acredita lutar por uma minoria sem privilégios, aquela continua se submetendo a estilos de vida que financia os novos tipos de escravidões, que atualmente se apresentam de formas camufladas.

“Já não açoitamos nossos criados na estrebaria, mas damos à escravidão formas refinadas, no mínimo somos capazes de encontrar a justificativa para ela em cada caso particular.”

Fico imaginando quantas coisas adquirimos e que são custeadas pela escravidão disfarçada de trabalho legal. Nós bem o sabemos e muitas vezes agimos de forma consciente, mas estamos tão famintos pelos produtos oferecidos pelo capitalismo que acabamos nos rendendo a ele com justificativas por demais rasas ou desprovidas de veracidade.

Quando o doutor Blogovó viajou a São Petersburgo para tratar de interesses profissionais, Missail notou que as visitas da irmã se tornaram escassas. Ela voltou a vê-lo apenas quando o médico retornou da viagem. Dessa forma, Kleópatra, sob pretexto de encontrar o irmão, acabava se deparando com quem de fato desejava ter por perto – o amado.

Mesmo exercendo um tipo de trabalho malvisto pelas classes mais abastadas, aqueles que exigem apenas a força física, Missail continuava a ter contato com pessoas pertencentes à nobreza. Passou a frequentar a casa de María Viktoróvna, filha de um engenheiro para o qual ele já havia trabalhado, e quando ia visitá-la se servia das melhores comidas e aproveitava o conforto que lhe era oferecido por essa gente cujos modos ele mesmo criticava.

Trabalhar como pintor passou a entediá-lo. O contato com o doutor Blagovó, único homem que exercia sobre ele alguma influência, fez com que Missail começasse a se interessar por adquirir conhecimentos que fossem capazes de intelectualizar seu trabalho “sem graça”. Apesar de gostar de seu ofício, começou a perceber que as pinturas que realizava destinavam-se a atender facilidades e comodidades daqueles que podiam pagar por ela. Novamente, a classe para a qual ele direcionava as mais ardentes críticas.

A amizade de Blagovó não só fez com que Missail se elevasse moralmente, indagando-se a si próprio a respeito de suas convicções, como também fez com que Kleópatra refletisse sobre o estilo de vida que estava levando junto ao pai.

“Será que não estraguei a minha juventude? Nos melhores anos da minha vida, dava conta apenas de contabilizar as despesas, servir chá, economizar copeques, fazer sala a visitas, e pensava não havia nada no mundo mais elevado do que isso. Eu tenho aspirações de ser humano e querer viver, mas de mim fizeram uma governanta.”

Kleópatra julgava que o pai era o culpado de seus anos perdidos. A educação rigorosa a que ela e o irmão foram submetidos nunca seria esquecida por eles, mesmo deixando a casa do pai na tentativa de seguir suas próprias vidas. Eles sempre estariam ligados a questões passadas, seja por raiva, mágoa, culpa ou pelo desejo de que o pai os aceitassem e entendessem as suas escolhas.

Missail se encantava por María Viktoróvna a cada visita que lhe fazia. Certa vez ela disse-lhe perceber que ele não confiava em si próprio e que não parecia estar satisfeito com as atividades que exercia, pois não ficava à vontade em suas roupas de pintor.

Os dois acabaram se casando e María decidiu morar no campo, numa propriedade pertencente ao pai dela. Missail não gostava de trabalho rural e até pensou em dizer-lhe que se tratava de uma atividade para escravos, mas acabou se lembrando que apenas repetiria os pensamentos e as palavras de seu pai. Preferiu silenciar.

Missail estava completamente apaixonado e passou a viver os sonhos da amada. Seus ideais de justiça e igualdade foram substituídos por pensamentos de amor. Passou a trabalhar no campo ainda que sem qualquer atração pela agricultura, mas como forma de agradar a esposa.

Com o passar do tempo, María começou a se incomodar com o jeito de viver daquela gente do campo, com a falta de civilidade, com a preguiça e grosseria daquelas pessoas que algum dia pensaram em proteger e defender.

A rotina do casal e a falta de novidade minava a possibilidade de novas emoções e a preocupação passou a recair sobre coisas miúdas e mesquinhas do cotidiano, intensificadas com a irritação crescente que María sentia pelos camponeses. Estes eram “animais”. Passou a odiá-los.

Ela tinha pensamentos próprios que não se comunicavam com os do marido. Gostava de leitura e de conversar a respeito de coisas interessantes, bem distantes dos assuntos que agora via-se obrigada a tratar, como a bebedeira dos mujiques preguiçosos. María Viktoróvna, ao falar da embriaguez dos camponeses, se esquecia de que o próprio pai bebia muito e tinha adquirido o espaço onde ela vivia por meio de fraudes descaradas.” Missail se questionava: “Como ela podia esquecer?”

Os esforços pelo aperfeiçoamento pessoal a que María e Missail se dedicavam beneficiavam a si mesmos e não modificavam a vida de quem quer que fosse. Os mujiques continuavam vivendo na ignorância, na sujeira e na bebedeira. Ela disse-lhe: “(…) tudo continua como antes, e você ter arado e semeado ou eu ter gasto dinheiro e lido livros não melhorou em nada a vida de ninguém. Pelo visto trabalhamos apenas para nós próprios.”

María dizia que, se eles realmente quisessem ser úteis para os outros, teriam que atuar sobre a massa, como aqueles que fazem música e conseguem atingir a muitos. A luta pelos outros exige que se saia do comodismo do nosso estreito círculo. Mas quem está verdadeiramente disposto a lutar e se dedicar a um número indefinido de pessoas quando muitas vezes não temos a coragem e disposição para encarar nem mesmo nossas próprias lutas pessoais?

Missail percebeu que a vida conjugal estava prestes a acabar. Sua esposa era muito ativa, rica e talentosa para terminar o resto de seus dias na insignificância. Ela gostava de música, pintura e literatura e logo levantaria voo, deixando-o novamente sozinho.

“(…) eu tinha sido só um boleeiro, que a transportara de um divertimento a outro.”

María partiu… “(…) arrumando o vestido, como uma ave que finalmente fugiu da gaiola e ajeita as asas da liberdade.”

Kleópatra se envolveu com Blagovó, homem casado. Teve o infortúnio de engravidar e a alta sociedade a desprezava. No entanto, sentia-se melhor por estar distante do rigor do pai, por se dedicar à leitura, ao autoconhecimento e não mais perder tempo com atividades mesquinhas que tanto tomaram tempo de sua vida.

“Sofro porque gastei metade da vida de modo tão estúpido, sem ânimo.”

Apesar das tentativas de seguir a vida com independência e de protestar a educação dada pelo pai, o que para ela era mais importante, Kleópatra adoecera muito nos últimos tempos e não resistiu. A criança ficou aos cuidados do tio, que promovia passeios com a sobrinha.

María Viktoróvna mandou-lhe uma carta anunciando que não retornaria e que o casamento deles havia sido um erro.

“(…) dê-me a liberdade, corte mais depressa o laço que ainda perdura e nos une.”

Tanto María quanto Blagovó seguiram seus ideais. Eles permitiram ser tocados pelo arrebatamento da vida. Aquela viajou para a América e o médico dedicou-se à carreira científica. Apenas Missail e Kleópatra ficaram presos a seus passados.

Missail procurou seu pai mais uma vez na expectativa de que ele o compreendesse. Amava-o e lastimava a distância, mas aquele estava irredutível e não se mostrava disposto a uma reconciliação enquanto o filho não mudasse de ideia e comportamento. “O que se planta, se colhe. Você desprezou os meus conselhos e insistiu teimosamente em suas opiniões falsas” – disse-lhe.

“Tudo passa, a vida também passará, quer dizer, não precisamos de nada. Ou precisamos só da consciência e da liberdade, porque o homem é livre, ele não precisa de nada, nada, nada.”

Missail, ao pensar nesse trecho da carta que María Viktoróvna lhe encaminhara, refletiu: “Nada passa.”

Tudo que viveu havia lhe deixado marcas que o tempo e os acontecimentos não foram capazes de apagar. Continuou trabalhando como operário e as pessoas da cidade se acostumaram com a vida que ele levava.

Depois, tornou-se empreiteiro, envelheceu, ficou com ar taciturno, rígido, severo. Raramente sorria. Não visitava o pai, mas carregava-o em seus pensamentos. Missail não foi capaz de esquecer e, por isso, não conseguiu viver verdadeiramente a própria vida.

“Tudo passa” ou “Nada passa” dependerá da disposição que se tem em deixar os acontecimentos passados no lugar onde eles devem estar – no passado. Apenas com a superação das decepções e das dores é possível começar a pensar em ser livre. Caso contrário, nunca conseguiremos quebrar as algemas com que acorrentamos os nossos próprios pés.

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