Casar ou não, eis a questão.

O casamento, por muito tempo, foi algo que em nada me seduzira. Por ter sido uma criança muito observadora e atenta, pude ver de perto e de longe muito mais as obrigações, as tristezas e os deveres de uma vida a dois do que as alegrias e as delícias.

Minha mãe dizia: “É filha, casamento é isso aí que você está vendo…”. E eu via uma coisa tão sem graça, tão insípida, tão insossa, que respondia: “Ah, se é isso, só isso, quero casar não.” 

Ela acrescentava: “Casa não, filha. Sua vida é tão boa. Você é independente. Vai casar pra quê?”

A certeza de que eu não casaria me guiou como guia a certeza da morte. Eu olhava ao meu redor, estendia minha visão para além do meu redor e casamento nenhum me animava. Diante dos casais casados, pensava:”Ah, então é isso… Se é isso, isso é muito pouco para mim. Quero não”, repetia.

Vi gente casar por inúmeros motivos: para se livrar de uma mãe carrasca; por interesse; por solidão; por imposição; por tédio; porque estava ficando velho e já estava passando da hora; por estar namorando há muito tempo; por paixão e até por amor, essa invenção que não tem perdão.

Compareci a algumas celebrações de casamento e voltava com a mesma certeza de que aquilo não seria para mim.

Sempre achei as cerimônias matrimoniais muito fantasiosas, repetitivas, enfadonhas e engessadas. As noivas passavam um tempo enorme programando cada detalhe de uma festa que não é nem para ela, nem para o noivo. É para a plateia, para o público. Até o guardanapo para limpar a boca e jogar fora é escolhido a dedo. Esses preparativos, só de ouvir falar, me davam preguiça.

O noivo é um alheio às preparações. A presença dele só é importante no grande dia e o coitado entra assim meio espantado e perdido com tanto glamour que ele nem fazia ideia que seria tamanho. Afinal, esse dia não é dele. É dela: da noiva. E eu nunca entendi porque uma noiva se prepara tanto. A mulher não pode reduzir seu dia ao do seu casamento. Lastimável para mim que faço de todos os dias o meu grande dia e me arrumo e me preparo diariamente como quem vai ao encontro de seu noivo.

Aí é aquele festival de desfile entre as inúmeras madrinhas que parecem disputar o mais bonito vestido, a melhor maquiagem e o penteado mais fashion. Isso quando não há aquela invenção da noiva de exigir que as madrinhas que a representam vistam de rosa e as representantes do noivo vistam de azul, numa prova de que a breguice humana não tem fim.

Depois, soa aquela marcha nupcial  horrível e entra a noiva fantasiada de branco e de princesa para o sapo que a espera ansioso pela hora do beijo em que se presume que ele se tornará um príncipe.

Quase sempre a fala do padre gira em torno das dificuldades de uma vida a dois que não representa nem uma gota do oceano de dificuldades que serão enfrentadas e, assim, os noivos trocam suas alianças e fazem juras de amor e fidelidade até que a morte os separem.

Naquele momento, os convidados já estão doidos para que a cerimônia termine e eles possam comer e beber de graça. O buffet é quase sempre o mesmo e é tão caro que é o responsável pela limitação do quantitativo de convidados. Faz-se aquela fila enorme de desesperados (eu já fui um desses) e só depois de as barrigas estarem cheias é que se dá início à festa.

Há uma pausa para outra breguice que inventaram: a dancinha dos noivos. Milimetricamente ensaiada para arrancar sussurros e gemidos da plateia. Passada essa fase é hora de beber e dançar até o dia raiá. Aliás, nem sempre porque o horário de uso do salão é limitado sob pena de se pagar uma multa altíssima.

À medida que a festa vai chegando ao fim, os noivos e os convidados vão se desfigurando pelo suor e pela bebida. A maquiagem derrete, as escovas e penteados vão se desmanchando, as mulheres vão diminuindo de tamanho com a retirada dos saltos que elas trocam por havaianas, providenciadas previamente pela noiva, e tudo vai tomando cor e forma de realidade.

No outro dia, a comemoração continua com um almoço entre as famílias e os amigos mais chegados. Esse é o momento de comentar quem comeu, quem não comeu, quem reclamou da comida, quem vestiu o que, como estava fulana, beltrano, quem ficou bêbado e todos os demais detalhes do dia anterior. 

É ali que a realidade começa a imperar com mais vigor. Você percebe que agora tem sogra e sogro de verdade e para sempre. Descobre que tem cunhados, tios, primos, sobrinhos e mais uma infinidade de parentes de todos os tipos que você terá que conviver e aturar. Como se não bastassem os seus, você foi em busca de mais.

Chegados da viagem de lua-de-mel (como diz uma amiga, só a lua porque o mel já foi há muito tempo), é hora de enfrentar o dia a dia de um casamento. Cuidar da casa, da comida, da roupa para lavar, das marmitas para levar ao trabalho, das compras de supermercado…

Depois, as programações das viagens de férias, parceladas e compradas com muita antecedência, pois há que se aproveitar antes da chegada dos filhos.

Vem as indelicadezas de ambos, as faltas de sensibilidade e gentileza, as brigas, as crises, as reconciliações e, depois, o tédio. Ah! E vem os chatos que não se cansam de perguntar quando vem o primeiro filho e depois o segundo e… 

… e tem-se filhos ou cachorros. E o tédio é amenizado um pouco porque tem menino para cuidar, fralda para comprar, creche para pagar, escola, faculdade… Os filhos se casam, vem os netos e a vida vai indo com suas muitas ocupações, futilidades e amenidades.

E aquela certeza que eu tinha de que não iria casar se esvaiu, pois, também casei. Submeti ao casamento porque já namorava há um bom tempo, porque fui invadida pelo tédio e pelo amor, essa invenção. Mas, me recusei e me recuso àquela cerimônia fantasiosa que descrevi. Não é por birra nem por falta de dinheiro. Também não tenho inveja nem sou contra os que assim o fazem. Já me diverti um pouco nessas festas. É  por falta de tato mesmo para preparar algo tão grandioso e porque não combina comigo que sou tão pequena e simples. Uma festa dessas é demais para mim. 

Peguei meus panos de bunda, meu namorado pegou os dele, alugamos um apartamento e aqui estamos levando a vidinha de casados, sem registro no papel e sem as orientações de um padre. Pedindo Deus para ir guiando e orientando e perdoando as ofensas e as brigas e para ir prolongando as fases enamoradas de muito meu bem pra cá e muito meu bem pra lá.

Casamento não é bom nem ruim. Não dá para aconselhar case ou não case. É algo muito pessoal, assim como ter filhos, assim como tudo. Tem gente que tem dúvida se casa ou compra uma bicicleta. Eu digo que uma coisa não impede a outra. 

Você pode só casar, só comprar uma bicicleta, casar e comprar uma bicicleta. Você pode fazer o que quiser com a sua vida. A única coisa que você não pode e nem deve fazer é querer convencer o outro a casar ou não com base em sua própria experiência.

Quando eu dizia que não queria casar, não tentava convencer ninguém a fazer o mesmo. E agora que casei, também não o faço. Nada é mais elegante que o respeito de permitir ao outro decidir seus próprios caminhos. Isso vale para tudo. Isso vale para a vida. 

Quanto a ter filhos… Bem. Isso é assunto para outras horas…

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