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A maioria das pessoas que estão nas suas redes sociais odeia tudo o que você posta.

Se a maioria das pessoas que estão em nossas redes sociais odeia tudo o que postamos, qual o motivo de elas estarem ali?

Caso você não se enquadre na categoria de pessoas famosas ou públicas, cujas redes sociais abrangem muitos anônimos, provavelmente as suas são compostas por pessoas mais próximas que envolve os próprios familiares, os familiares de seu esposo (a) ou companheiro (a), seus amigos e os dele (a), colegas de trabalho, escola ou faculdade e demais conhecidos.

Quando as pessoas que estão em nossas redes imaginam que algum dia possam estar frente a frente conosco em alguma oportunidade, quer por situações que obrigam um encontro ou ocasionalmente, essa ideia pode inibi-las no sentido de nos excluir de sua lista de amigos. Outra coisa que também constitui impeditivo para essa atitude drástica é o medo do que vão pensar a respeito ou mesmo o risco que se corre de evidenciar ao próprio excluído que realmente não gostamos dele ou que nos incomodamos com as suas postagens.

Se é alguém que não conhecemos e que deixa de nos agradar automaticamente damos um clique e aquela pessoa deixa de existir junto com os seus conteúdos. Mas se é o nosso cunhado, aquela prima ou tia ou aquele colega de trabalho que senta ao nosso lado, aí a coisa se complica e acabamos por tomar a decisão de que é melhor suportar do que escancarar a antipatia.

Na Era da Pós-Modernidade, a importância de parecer se sobressai quando comparada a de ser. As características da individualidade e do narcisismo são preponderantes. Nunca tivemos um esvaziamento de identidade tão grande, no qual estamos, mais do que em outros tempos, com os olhos voltados para fora em detrimento daquilo que deveríamos fazer para desenvolver em nós o que desejamos e vemos sob poder e domínio do outro.

Em uma de suas palestras, Rossandro Klinjey informa que uma pesquisa alemã indicou que 87% das pessoas integrantes de nossas redes sociais odeia tudo o que postamos. Essas pessoas sentem ódio e tristeza por não viverem na vida real as coisas que aqueles que elas observam vivem nas fotos ou vídeos publicados .

Ele acrescenta que durante trinta segundos, no qual uma pessoa fica exposta ao contato com essas redes, ocorre nela o início de sintomas de depressão e infelicidade, experimentados pelo simples fato de reconhecerem que não leva uma vida tão boa quanto àquelas que são exibidas pelos demais.

Nesse momento é ativado o fantasma da comparação, a qual R. Klinjey reconhece como uma das formas mais infantis de se estar no mundo. Ela é tão danosa que inviabiliza as pessoas de diferentes formas, além do mais faz surgir um dos sentimentos mais maléficos que é a inveja. Esta é tão prejudicial que faz brotar o ressentimento, porque a depender do critério que usamos para nos comparar é bem provável que muitas vezes nos sintamos inferiores. Comparar também é uma forma de anular nossa singularidade, nos diminuir e nos desprover de autoestima.

Karl Lagerfeld diz que “a personalidade começa onde a comparação termina”.

Sigmund Freud, considerado pai da psicanálise, sugeriu que “a única pessoa com a qual você pode se comparar é com você mesmo no passado.”

Sofrer por não sermos como o outro pode nos conduzir a um abismo, pois por mais que nos esforcemos é algo impossível de se conquistar. Ao nos compararmos, nasce a ideia de que alguém é melhor do que nós e passamos a nos caracterizar com adjetivos que minam nossa autoestima, capacidade e nos faz sentir rebaixados.

“Nada é bom ou ruim se não for por comparação”. E assim, Tommas Fuller encerra o pensamento de que só nos definimos por mais ou por menos porque adquirimos e institucionalizamos em nossas vidas essa praga que é a comparação.

Klinjey continua a palestra dizendo que essas pessoas que se comparam “acham que não valem nada e não podem nada e que não são ninguém e que não têm condição alguma”. Esses pensamentos só podem conduzir alguém ao fracasso de nada conseguirem ou nada fazerem, pois aquilo que imaginamos ser tem muita força de se tornar um imperativo em nossas vidas.

É muito mais fácil seguir e curtir as fotos das musas fitness estadunidenses que estão longe de nós do que as fotos na praia de biquíni daquela colega de trabalho que sua a camisa para manter um corpo escultural.

É melhor fingir que não estamos vendo a postagem de um prato de camarão internacional em que um “amigo” se farta, enquanto estamos preparando a marmita diária de arroz com feijão.

Parece que o ato de direcionar um elogio ou aplauso a alguém próximo é como assumir publicamente a própria incapacidade e baixeza.

Curtir ou comentar uma foto do primo ou irmão que está em Paris enquanto se espera o ônibus às 6 da manhã para ir ao trabalho é visto como um reconhecimento de fraqueza e inferioridade.

Klinjey questiona: “Você tem 1.000 amigos na rede e 50 curtiram sua postagem. O que aconteceu com os outros 950 que também visualizaram?” Ele responde: “Ódio mortal de você.”

Outro apontamento que é feito diz respeito ao fato de que a maioria dos que estão ali não publicam nada. O que eles estão fazendo nesse espaço? Sendo expectadores das vidas dos outros. São os observadores de plantão. E, segundo Rossandro, que eu ainda não disse se tratar de psicólogo e doutor em psicanálise, “a infelicidade é provocada mais em quem vê do que em quem posta”.

Quando estivermos tristes diante do que o outro é, tem ou faz, precisamos refletir que tudo isso custou-lhe um preço que talvez não estejamos dispostos a pagar. É preciso escolher aquilo que consideramos importante para nós e ter consciência de que qualquer escolha pressupõe o abandono de outras tantas. Estando seguros a respeito do que queremos não há motivo para nos entristecer ao visualizarmos os gozos alheios.

Se você fica com raiva toda vez que aquela colega de faculdade posta uma foto com a barriga trincada, lembre-se que ela está pagando o preço de não comer aquela barra de chocolate deliciosa que você come na calada da noite quando todos estão dormindo.

Se está indignado porque o primo vai dar uma volta ao mundo, não se esqueça de lembrar que todos os dias ele teve que dizer não a muitas coisas, as quais você nunca disse, apenas para economizar dinheiro e realizar essa viagem.

Antes de invejar alguém que fala inglês fluentemente e rotulá-lo de exibicionista, lembre-se do quanto ele sofreu por passar noites em claro, sentado e estudando, enquanto você estava deitado, dormindo e sonhando.

A fortuna de alguém que faz com que você se entristeça por não possuir pode ter sido conseguida em detrimento de separações, cansaços e perdas.

A inteligência do amigo que você admira e finge não notar para não admitir sua própria ignorância, provavelmente, para ser adquirida, custou ao possuidor muito tempo de solidão, dor nas costas e na alma.

O texto que lê e sente ódio do autor, porque não consegue desenvolver tal qual ele suas próprias ideias e escrever tão bem, deve ter sido desenvolvido depois de muitas horas de estudo e leitura que lhe conferiram esta habilidade, e cujo tempo você deve ter empregado se deleitando em coisas que te pareciam mais prazerosas.

Assim, não há razão para invejar ou odiar. Há motivos para cobiçar. A cobiça pressupõe que nos inspiremos no outro e nos move a descobrir os meios que ele empregou para conseguirmos adquirir as habilidades e os recursos que tem, e tentar nos aproximar ou superar, não movidos por um sentimento de competição, mas porque o que ele é ou faz ou tem nos apetece e queremos proceder da mesma forma. Na cobiça, sabemos que temos condições e lutamos sem precisar desferir nossa ira.

A inveja não. Ela é sempre danosa e incapacitante. O invejoso não consegue ser ou fazer nada do que admira em silêncio no outro e muito menos tem a ombridade de reconhecer as capacidades que, disfarçadamente, reconhece alhures.

Na peça de Shakespeare, Iago se empenha em destruir Otelo, porque enxerga neste inúmeras qualidades que nele próprio faltara. Deseja tudo aquilo que o mouro possui, seu cargo, sua esposa, suas honras e sua coragem. Tomado de inveja, destrói Otelo e se autodestrói, pois se vê perdido quando perde o sujeito que lhe animava.

Todos podemos acender as nossas luzes e iluminar a si mesmo e aos outros. Não devemos aceitar a condição de sombras do protagonismo daqueles que admiramos, nem precisamos nos irar, invejar, prejudicar, odiar ou desferir golpes contra aqueles que se destacam.

Temos que descobrir quais as capacidades, os dons e os talentos que temos e desenvolvê-los ou aprimorá-los, de modo que não nos incomodemos com o brilho do outro a ponto de deixar apagar a chama existente em nós que clama para ser reanimada.

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Meu nome é Ana Veiga, moro em Brasília e tenho paixão pela leitura e pela escrita. Ler e escrever são para mim "vícios desde o início". Leio por prazer. Escrevo por necessidade. E, nesse espaço, quero compartilhar com vocês os maiores ensinamentos que extraio dessas leituras. Espero que gostem!

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