Não ser Deus, de Gianni Vattimo

Trata-se de um daqueles livros que você não conhece o autor, nunca ouviu falar dele, não sabe nem qual é sua origem, salvo pela evidência do nome italiano, mas deixa-se seduzir pelo título: “Não ser Deus”. 

Não é por acaso, acredito. Algum complexo de Deus devo ter. Aliás, sei que tenho. Foi o que me fez parar num divã. A psicóloga foi categórica: “Você tem complexo de herói. Quer controlar tudo.” Se doeu essa verdade? Nem um pouco. Eu mesma traçara previamente meu diagnóstico. Precisava apenas de um profissional que confirmasse.

Entretanto, Gianni Vattimo reconhece sua pequenez, aceita sua finitude, não teme a morte. O Ser é mortal. Para ele, o que resiste ao tempo é apenas a arte. Shakespeare, Da Vinci, Dante Alighieri, Clarice Lispector, Machado de Assis, Victor Hugo, Cervantes, dentre tantos, jamais serão esquecidos, porque suas obras resistem ao tempo.

Aí fiquei pensando naqueles que dizem querer filhos para não serem esquecidos, para deixar um legado. Filhos podem ser a melhor coisa do mundo, como afirmam alguns (apesar de eu não achar que seja a melhor coisa do mundo para minha mãe).  Mas, eles também não resistem ao tempo. Eles não sobreviverão para perpetuarem as existências de seus pais, muito menos suas memórias.

Vattimo não teve filhos. Nunca sentiu desejo de paternidade como também nunca senti desejo de maternidade. Quando penso na possibilidade de ter filho vejo uma chance de me tornar melhor que sou, porque um filho subtrai e muito.  Um filho faria mais por mim que eu por ele, porque me desviaria desse meu eu tão cheio de si. Nem sei se tenho salvação, porque se penso em me tornar melhor por meio de um outro ser, estou pensando, mais uma vez, é em mim. 

Na velhice, Vattimo confessou sua homossexualidade. Confessou porque é livre: “Me sinto livre como nunca me senti antes. Livre para dizer tudo o que penso. Isso sim. E é uma das muitas coisas que não são perdoadas. Nem pelos inimigos nem pelos amigos”. É porque a liberdade ofende, diz Clarice Lispector.

E por falar em velhice, começa o livro com um relato do seu aniversário de 70 anos e com alguns questionamentos: “Envelhecer atenua a dor da vida? Faz-nos menos capazes de sofrer e, portanto, também de amar e sentir paixões? Deixa-nos mais cínicos, mais duros, mais insensíveis? ” Essas perguntas são respondidas ao longo do livro.

Para Vattimo, Deus é uma experiência de liberdade. Ele diz: “Amar a Deus. Bom… Não sei o que dizer, nem o que isso quer dizer. Entendo melhor amar o próximo”.

Sartre diz: “O homem projeta ser Deus e fracassa”. Deus é perfeito e eterno. O autor reconhece sua imperfeição e tem o eterno como um momento de plenitude, não como algo que dura para sempre. Seu mais completo momento de felicidade foi a companhia de um rapaz com quem viveu um romance, que durou apenas um mês.

Paro a leitura nesse ponto. Será que o homem inventou a eternidade por não conseguir se imaginar não sendo algo depois da morte? Para mim, a morte é a aniquilação total da consciência.

Vattimo não crê na imortalidade da alma. Eu também não. Pepe Mujica definiu a morte como o mais profundo silêncio mineral. Apoderei-me dessa expressão e agora ela é minha. 

Se não consigo me encontrar com Deus durante toda minha vida por que hei de encontrá-lo no momento de minha morte? Prefiro ver e sentir Deus todos os dias enquanto vivo. E isso é tudo.

“Queria ser escritor e já me comportava como intelectual” – diz Vattimo. A identificação com quem escreve me acompanha desde sempre. Não creio que uma pessoa se põe a escrever por ordens externas. Vejo como uma necessidade, uma obrigação íntima. Ou escrevo, ou me afogo. Ou escrevo, ou me sufoco. Ou escrevo, ou “me muero”. 

Quando criança, lia e escrevia ao mesmo tempo. Começava histórias que não vislumbravam um fim. Talvez já tivesse em mim o desejo da eternidade. 

Adolescente, escrevia num diário os acontecimentos e sentimentos em relação a eles e enviava muitas cartas de amor ridículas, de que falara Álvaro de Campos. Coitado de quem as recebia. Não tenho mais notícias dele, mas deve ter morrido asfixiado de amor falado. Simplesmente, minhas cartas e eu éramos ridículas.

“Mais do que ser admirado, muito mais do que ser famoso, o que quero é ser amado”. Essa confissão de Vattimo não me toca. Sou mais ligada às pessoas por admiração do que por amor. E prefiro que me admirem do que me amem. Não faço nenhum esforço para ser amada. E já rejeitei as mais diversas formas de amor, porque ele é exigente. “Quem me ama quer que eu seja algo de que ele precisa”. E eu não suporto exigências! Apenas, exijo.

Esse livro é plural, porque fala de diferentes assuntos e experiências vividas pelo autor como italiano, filho, filósofo, professor universitário, político, conferencista, homossexual, escritor, idoso, heideggeriano, amigo, amante, niilista. Evidente que há passagens não muito claras para mim, pois precisaria ter muito mais conhecimento para entendê-lo melhor.  Por exemplo, precisaria compreender o pensamento de Friedrich Nietzsche e Martin Heidegger. E estou muito longe disso. 

Porém, não julgo uma obra como boa ou ruim tendo como referência a minha ignorância, pois ela é ilimitada. Fico com o que entendo. Aceito o que não compreendo. Conformo que há coisas que meu entendimento não suporta, nem tem condições de entender. Sigo rumo à próxima página.

“Há autores que nunca entenderei ou entenderei apenas de maneira aproximada, e isso não é terrível, e sim bonito”.

Concordo com Vattimo também quando ele diz que “Toda experiência de verdade é uma experiência interpretativa”.

Tenho uma pequena estante de livros na sala e quando a olho  é da seguinte maneira que interpreto: “Olha o tamanho da amostra microscópica de tudo que não sei”. A experiência interpretativa que faço desses livros é no sentido de me confrontar com tudo aquilo que desconheço.

“Um ato de conhecimento é algo que diz respeito tanto a você quanto ao objeto que você interpreta: a pessoa do outro, a obra que você lê. Você muda enquanto interpreta aquela coisa, mas muda também a coisa porque cola-se por cima dela uma nova interpretação”. 

Essa descoberta deu-me uma nova dimensão do significado de arte. Sempre tive consciência da mudança que uma obra é capaz de provocar em mim, mas não havia pensado no quanto posso mudar uma obra. Causou-me espanto o pensamento de que posso tornar Hamlet ainda melhor.

Há, entretanto, um pensamento de Heidegger (citado por Vattimo) que não só entendo como compartilho: “A grande obra de arte por excelência é a Bíblia: e a Bíblia é efetivamente a instituição do Ocidente, teimamos sobre o sexo dos anjos, esganamo-nos por causa da interpretação das Escrituras, o grande clássico é este”.

Trinta anos de catolicismo não conseguiram me fazer ler a Bíblia. Mas, quando li a obra de um ateu, “Pecar e perdoar”, de Leandro Karnal, fiquei inteiramente seduzida por tudo que a Bíblia tem a dizer. Hoje, é o meu livro preferido. Hoje, tenho mais respeito pelos ateus  – mesmo sem adotar a crença deles.

Sou cristã. Cada vez mais sinto que Cristo deve ser o único modelo a seguir, não por medo, mas por consciência de que é o melhor exemplo que já tive notícias.

“Eu, se não fosse Deus” é um dos últimos capítulos do livro em que Vattimo confessa que aos 80 anos continua ocupando-se dos outros e fazendo caridade mais por obrigação que por prazer ou escolha. “Sempre penso que preciso prover, prover a todos. Sou aquele que provê. Mas então sou Deus”. É uma presunção que o acompanha ao longo da vida. “Amanhã eu paro. Paro de me fazer de Deus”.

Para Vattimo “o único verdadeiro pecado é a falta de ouvir o outro, a falta de caridade.” O homem sempre acha uma maneira de criar um Deus que admite apenas as suas falhas. O que Deus permite é o que eu faço. O que o outro faz é pecado.

No último capítulo pergunto a mim mesma: que busco encontrar? E Vattimo responde: “Você procura a liberdade. E é esse o motivo de ser sozinho, pois é difícil ser realmente livre sem ser um pouco só”. 

Essa solidão que gosto e cultivo não é aquela em que não se tem companhia. Isso  sempre quis, tenho e prezo. Quero dormir e acordar todos os dias com alguém do meu lado. 

Solidão para mim é saber que não existe outro eu e ficar confortável com isso. Que nem sempre terei alguém para compartilhar gostos, preferências e pensamentos, porque sou só, no sentido de ser único. Gostar de ser só é gostar de ser-me. Isso é a liberdade. Vattimo sustenta que é livre. Também o sou. Foi a liberdade que me faz escolher esse livro e fazê-lo companhia por algumas horas. 

Todavia, “gostar de ser livre é querer livre também os outros” e, por isso, digo a  você que me lê: tenha a liberdade de eleger ou não esse livro como companhia por horas, dias, meses ou por toda a vida. Seja livre! Até me lembrei de Nelson Rodrigues: “A liberdade é mais importante que pão”. Bem, aí já não sei. Preciso pensar melhor.

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