Não existe imposição de padrão de beleza que primeiro não tenha sido imposto por você.

Até hoje não consegui entender muito bem a que se refere esse padrão de beleza imposto pela sociedade que a maioria das mulheres dizem se sentir pressionadas a seguir. 

Parece-me que esse tal padrão nada mais é que aquele a que nós mesmas nos obrigamos, cuja responsabilidade não temos coragem de assumir, uma vez que é muito mais fácil olhar a imagem do espelho e, ao não gostar dela, justificar que estamos sofrendo porque nos obrigam a ser de outro modo. 

Por que digo isso? Porque nunca me vi obrigada a me enquadrar em qualquer tipo de modelo, a menos que eu quisesse agradar um determinado grupo para o qual a aceitação de minha pessoa estivesse condicionada a me transformar em algo que não sou. E como um grupo com esse tipo de exigência não me interessa e não dou-lhe sequer valor, restaria afastado o mínimo esforço para integrá-lo e, consequentemente, não me pressionaria para caber dentro dele. 

Portanto, toda e qualquer transformação que alguém nos sugestione a fazer deve ser previamente submetida à nossa análise e ao nosso consentimento. Até porque nem tudo que nos é apresentado precisa ser rechaçado de pronto. Há certos tipos de coisas que, apesar de serem difíceis, vale a pena a dedicação para nos ajustarmos a elas, desde que seja um íntimo desejo nosso. Assim, tem que valer para nós e não para quem nos propõe.

Se você olha para a sua própria imagem e ela não te atrai, sinto-lhe dizer que, querendo ou não, você terá que conviver com ela para o resto da vida. Para onde quer que vá, ela será sua companheira.

Entretanto, nada nos impede de provocar uma melhora aqui, outra ali, sem carregar o peso de uma culpa por pensar que ao fazermos isso estamos nos agredindo ou rejeitando. É perfeitamente compreensível que alguém se submeta a uma plástica no nariz, desde que não perca de vista que a importância de sua pessoa não reside na realização desse procedimento. Com o nariz afilado ou não a capacidade de sentir os cheiros continua a mesma e é nisso que mora a relevância em tê-lo. São os sentidos que nos dão a dimensão dos seres e das coisas e não a forma mais ou menos estética como as partes do nosso corpo estão dispostas. 

Ocorre que quando afirmamos algo com base no pressuposto de que determinada coisa acontece conosco, costumamos ouvir como resposta que o mundo não gira em torno de nós e, por isso, não podemos ter certeza de algo embasando pura e simplesmente na nossa própria experiência. É um argumento válido, entretanto com ressalvas. Conquanto, partindo da observação de nós mesmos, pela prática do autoconhecimento, é bem provável que consigamos desvendar aqueles que nos são iguais em natureza e desgraça.

E uma das mais evidentes desgraças humanas é a prática da comparação. É ela quem nos faz criar um padrão de beleza na cabeça e culpar os outros para nos imiscuirmos de nossa própria sentença, alegando que é a mídia ou qualquer outro canal que se nos impõe, como se alguém tivesse nos obrigando a qualquer coisa com uma arma apontada para a nossa cabeça. Nós é que carregamos nossa ditadura no bolso, como bem disse Nelson Rodrigues ao criticar os libertários.

Por exemplo, utilizando-me do poder ditatorial que exerço sobre mim mesma é que criei dois padrões de beleza dos quais não abro mão de seguir. O primeiro está relacionado à persecução de uma capacidade de raciocínio e de interpretação que me dê a vaidade de saber-me dotada de inteligência. O segundo refere-se ao aspecto físico e diz respeito a conseguir manter um corpo magro e funcional até a velhice, caso eu seja privilegiada com a conquista dos anos. 

Ninguém me obriga a tais coisas. Elas não são frutos de imposição de quem quer que seja. Trata-se de uma conclusão a qual cheguei tendo em vista o conhecimento a respeito mim mesma e que mostrou-me a importância e relevância dessas questões para eu me sentir melhor.

Claro que não estou imune a receber influências de pessoas que são referências nesses quesitos, mas  elas não me impõem nada e em momento algum desejo ser exatamente igual a elas. Posso admirar e almejar alcançar o mesmo que outros alcançaram, mas sempre com a consciência de que o faço por mim e por livre e espontânea vontade, respeitando a coerência entre aquilo que penso, acredito e coloco em prática. 

Há alguns dias, chamou-me a atenção uma entrevista em que uma mulher denunciava sofrer ataques de gordofobia e lamentava a capacidade de as pessoas a julgarem pela sua figura externa. Ao final, a entrevistadora lhe perguntou se estava satisfeita com o atual corpo, ao que ela respondeu: “Não. Nunca estou.” 

Pareceu-me estar incomodada com os ataques vindos de pessoas totalmente desconhecidas, porque carrega dentro de si o próprio código de beleza inalcançável. Trata-se de uma mulher, ao meu ver, bonita, que sempre trabalhou expondo o corpo, mas que se recusa a admitir o valor que dá à aparência. Não vejo qualquer mal em cultivar um corpo que se considere belo e em reconhecer que se valoriza isso, ainda que para os outros possa parecer uma mera futilidade. O ruim é mentir quanto a isso para que não nos rotule. Não adianta, pois a mentira que contamos para nós mesmos é sempre a mais difícil de lidar e a mais propensa a nos causar problemas de todas as ordens. E um desses problemas é esconder de nós o que em nós nos desagrada ao tempo em que fingimos uma aceitação.

A comparação só é digna se feita em relação a uma mesma pessoa em períodos variados de sua vida. Posso comparar o que fui ao que sou e a partir daí traçar uma linha imaginária que me dê o dimensionamento do quanto evoluí, sob diferentes critérios. 

Há cerca de três anos vivia uma vida de sedentarismo, maus hábitos alimentares que me renderam muitos quilos a mais,  indecisão quanto a publicar ou não minhas ideias. Atualmente, faço exercícios físicos diários, mantenho uma alimentação regrada, escrevo textos e publico. Portanto, comparando-me àquela que fui penso estar vivendo de modo mais satisfatório. Contudo, jamais poderia colocar outra pessoa como parâmetro a fim de medir o meu próprio progresso.

É impossível agradar todo mundo, quer pela nossa aparência, quer pelo modo de pensar ou agir. O que me impressiona é ver como alguns reagem a críticas enunciadas por pessoas as quais ignoram ou que não fazem a menor diferença em suas vidas. Leandro Karnal diz que, diante de uma ofensa, só uma reação é possível: não abraçar a ofensa. Ou a pessoa está falando uma mentira e, por isso, não precisamos nos ofender por se tratar de mentira. Ou a pessoa está falando uma verdade e não devemos nos ofender tendo em vista que é verdade.

Se alguém diz que estamos fora do padrão de beleza e isso nos incomoda é porque está na hora de refletir sobre se é realmente uma imposição do outro ou nossa.

Pois que ninguém me diga como devo ser. E se disser, falará ao vento, pois simplesmente não darei ouvidos, a menos que eu concorde.

O dia em que as mulheres descobrirem o poder de uma verdadeira aceitação de si mesmas, o dia em que elas assumirem que o jeito como estão vivendo não lhes agradam e que é preciso realizar pequenas ou drásticas mudanças para melhorarem suas vidas por disposição da própria vontade, o dia em que se aperceberem em sua totalidade de seres dotados de corpo e alma, pararem de olhar para o lado e de se comparar a outras, começarem a praticar o autoconhecimento e descobrirem que as únicas imposições são aquelas que elas próprias emanam ou se submetem é que vão começar a entender o que significa a liberdade.

Mas que não restem dúvidas. A liberdade exige coragem e uma disposição para viver de forma coerente ao que se pensa, sem precisar bradar aos quatro cantos, mostrar os peitos, praticar heresia, destruir monumentos públicos ou ofender diretamente as autoridades. 

Nunca me autointitulei feminista, primeiro porque tenho horror ao termo. Acho brega a forma como hoje ele é empregado. E, depois, porque não gosto de falatórios vãos e inúteis, mas de viver de tal modo que a minha liberdade seja a prova viva de que faço o que sinto vontade

E, depois, não gosto que falem mal dos homens em sua generalidade, pois quase tudo que aprendi da vida veio até mim pela capacidade de criação que é, a meu ver, preponderantemente masculina. Na qualidade de mulher, estou muito mais preocupada em saber se estou bem maquiada do que em ficar construindo naves, aviões, prédios ou poemas.

Nem os homens, nem a mídia, nem ninguém nos obriga a seguir algum tipo de padrão de beleza, a menos que não esteja sedimentado em nossa mente o que devemos ser a partir da avaliação do nosso próprio julgamento consciente.

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