Por que fazemos o que fazemos?, de Mário Sérgio Cortella.

Como você se sente quando seu despertador toca bem cedinho na segunda-feira e você sabe que vai ter que levantar e se aprontar para mais uma semana de trabalho? O ato de sair da cama te anima ou te desespera? A depender da resposta que pensou, ela será capaz de demonstrar se está contente ou descontente com a atividade profissional que executa.

Neste livro, Cortella nos fala sobre propósito, cujo significado tem a ver com “aquilo que eu coloco adiante”.

Até um tempo atrás, o trabalho era visto apenas como um modo de sobrevivência, um instrumento por meio do qual obtínhamos uma contraprestação extremamente necessária para nos suprir de coisas que evitassem o nosso perecimento. Trabalhávamos para ganhar dinheiro e sustentar a família e, quanto mais elevada fosse a pecúnia, mais satisfeitos ficávamos. O propósito porque trabalhávamos era para conseguir manter a nossa continuidade. Nessa época, a vida era muito menos complexa e só queríamos sobreviver.

Entretanto, os tempos mudaram. Hoje, estamos bem mais exigentes em nossas necessidades. Não queremos trabalhar apenas para ganhar dinheiro, mas também para gozar de uma certa realização que nos demonstre a nossa importância e o nosso valor.

Realizar tem o sentido de “tonar real”, mostrar a mim mesmo o que sou a partir daquilo que faço – diz Cortella. Estamos em busca dessa realização e, por isso, não queremos mais ocupar um emprego onde fazemos apenas o que nos mandam sem entender o motivo de o estar fazendo. Queremos realizar as atividades de modo consciente e nos recusamos à alienação. Queremos produzir, mas com a compreensão do que e do por que estamos produzindo. Recusamo-nos a ser apenas uma ferramenta para que as coisas aconteçam.

Também valorizamos o reconhecimento. Re-conhecer é a possibilidade que temos de nos conhecer naquilo que fazemos. Para explicar melhor essa ideia, Cortella se utiliza dos ensinamentos de Hegel, filósofo alemão, que diz que nós só nos reconhecemos naquilo que fazemos. “Quando eu faço algo, eu me “re-conheço”, isto é, eu conheço a mim mesmo de novo. Já para Marx, o reconhecimento vem da necessidade intrínseca que nosso espírito tem de se mostrar.

Daí vem a necessidade que alguns sentem de executar atividades que sejam autorais. Essas, são aquelas que, uma vez exteriorizadas, carregam a nossa marca e são capazes de fazer com que nos percebamos nelas. “Eu me vejo fora de mim quando tenho minha obra feita.”

Nem todas as profissões permitem esse reconhecimento, quer na visão hegeliana ou marxista. Isso pode nos levar a um total desânimo ou frustração que impede de continuarmos a exercer nosso trabalho de forma motivada.

A motivação é algo de cunho totalmente interno. As pessoas podem nos estimular e nos fazer enxergar pontos ou situações que não estavam tão visíveis para nós. Mas, a motivação depende de um motivo e este é de caráter totalmente intrínseco. Sem motivação é difícil levar qualquer ideia ou projeto adiante e com entusiamo.

Trabalhar motivado é o melhor dos mundos e para isso é muito importante que se tenha um propósito. Por que fazemos o que fazemos? Sem a resposta a essa pergunta, certamente caímos numa angústia ou vazio por acharmos que estamos perdendo tempo, enquanto poderíamos estar muito mais alegres na companhia de nossos familiares. No entanto, se trabalhamos para ter dinheiro para alimentá-los, vesti-los, dar educação aos filhos, gozar de viagens ou de momentos de lazer com eles, esse pode ser o propósito, ainda que se tratem de questões ligadas ao reino da necessidade e não da liberdade.

Não é muito fácil conciliar esses reinos. E, a depender da atividade que exercemos, fica praticamente impossível atuar com liberdade. Como tento conciliar essa situação, uma vez que meu trabalho me oferece pouquíssima margem para a criatividade? Resolvi abrir um espaço para escrever sobre quaisquer assuntos que povoam a minha cabeça, sem quaisquer restrições que não sejam aquelas de meu próprio filtro. Posso escrever sem que o que escrevo passe pelo crivo de qualquer autoridade e, mais, sem que ninguém se aposse da autoria daquilo que me esforcei para realizar.

Trabalho porque preciso de dinheiro – é o campo da necessidade e, se não fizer isso, pereço. Quando escrevo, atuo com liberdade e aí tudo depende de minhas próprias escolhas. Se quero fazer um texto dizendo que não sou feminista e que acho que a criação é, preponderantemente masculina, como já o fiz, o máximo que pode acontecer é que eu perca seguidores ou leitores, mas isso em  momento algum faz com que eu pereça ou esmoreça. Na verdade, isso me leva a concluir por pensamentos que poderão subsidiar outras de minhas criações como aquela que estou desenvolvendo no sentido de que as pessoas que pregam tolerância são as mais intolerantes que conheço, porque a tolerância tão aclamada se esbarra com muita força contra aqueles que não pensam como elas próprias.

Para ter liberdade de escolha, antes é preciso estar bem alimentado, debaixo de um abrigo e em boas condições de saúde. O que me dá a liberdade de escrever é justamente o fato de ter um emprego que oferece um salário capaz de sanar as minhas necessidades básicas. Sem ele, estaria priorizando a luta contra a fome, a sede, a falta de teto, o frio e a doença. Ou seja, estaria imersa no campo da necessidade, sem vislumbrar a tão sonhada liberdade.

Realizar atividades autorais é muito gratificante. Ao final, todo esforço acaba sendo válido porque nos re-conhecemos naquilo, nos vemos ali. Estar diante de algo que tem a nossa marca é uma forma de não nos perdermos de nós mesmos. É um atestado que nós próprios nos damos de capacidade sensitiva, técnica, perceptiva e de criatividade.

Aquilo que somos se manifesta mais naquilo que fazemos do que na ideia que temos do que somos. Em Mateus é dito “A cada um segundo suas obras”. Esse é o motivo porque também temos filhos. Os pais se reconhecem neles. E há quem abra mão da procriação, porque se reconhece o suficiente em suas criações, como aconteceu com Van Gogh. Tanto a criação quanto a procriação conscientes provém da necessidade de alguém se ver fora de si.

Cortella diz que precisamos reinventar as razões pelas quais fazemos aquilo que fazemos. Ou melhor, o propósito. “Se esse propósito for tão somente ganhar dinheiro, então, não sofra. É para isso. Pronto.” Afinal de contas, não há mal algum trabalhar tão somente por dinheiro, desde que cumpramos com as nossas obrigações. Há outras formas de realização como, por exemplo, desenvolver outras atividades que nos levem a uma maior satisfação. Ou mesmo a ideia de que esse dinheiro pelo qual trabalhamos nos proporcionará ótimos momentos com aqueles que amamos.

Acredito que, mesmo quando não estamos totalmente motivados em nosso trabalho, podemos aprender e tirar muitas lições com as atividades que lidamos e com as pessoas com as quais nos relacionamos. Além do mais, as empresas costumam oferecer muitos cursos para os empregados aprimorarem seus conhecimentos. Há também a possibilidade de transitar em diversos setores e em cada um deles é possível sair com uma imensa bagagem.

Estou há dez anos numa empresa e já fui lotada em quatro departamentos. Em todos eles consegui tirar muito proveito. Em dois anos de Corregedoria fiz quase quatrocentas horas de curso e analisei inúmeros processos. Essa mesma empresa permitiu que eu fizesse meu estágio da segunda graduação, em condições especiais, e talvez eu não tivesse essa oportunidade em nenhum outro local. E em menos de um ano na área de riscos já estou com mais de cem horas de cursos. Então, tudo isso acresce e engrandece o meu currículo e me prepara para experiências futuras.

“O trabalho ajuda a moldar as  nossas habilidades e competências. As atividades que realizamos contribuem para formar a nossa identidade profissional.”

Muitas coisas contribuem para a desmotivação das pessoas nas empresas. O retorno financeiro não é a principal delas, mas a falta de reconhecimento sim. Não adianta negar. Nós sentimos um gosto imenso ao receber alguma espécie de distinção. Isso mexe com a nossa vaidade e nos faz sentir importantes.

Talvez estejamos apenas de passagem por uma empresa, mas isso não nos exime de vivenciar essa experiência da melhor forma possível. Lembrando que, na vida, também estamos apenas de passagem. E não por isso precisamos viver de forma mais ou menos.

Pode ser que nosso propósito não coincida com as tarefas que realizamos. Talvez seja o momento de procurar uma outra alternativa que nos faça sentir melhores e mais motivados. Se o que fazemos não tem, ao nosso ver,  finalidade alguma, não precisamos ficar presos o resto das nossas vidas nessa situação. Podemos redirecionar e reordenar nossas ações em busca daquilo que realmente queremos.

Mas, nada do que viermos a fazer será recheado apenas com coisas prazerosas. “Não há prazer contínuo.” As coisas acontecem a partir de um esforço nem sempre agradável. Em tudo o que realizamos é preciso ter compromisso. Hoje somos muito hedonistas. Buscamos prazer em tudo. Mas, nem sempre faremos as coisas como e quando queremos. Ainda que eu ache muito prazeroso escrever, há um desgaste nessa atividade que, para mim, é compensado quando vejo o texto finalizado.

Entretanto, preferiria não ter que revisá-lo. Às vezes fico procurando a melhor posição para escrever. Os dedos, as costas, os braços doem… Passo horas pensando e raciocinando em detrimento de outras coisas as quais sacrifico, pois amo escrever. E preciso ler e estudar muito para aprimorar a escrita, porque faz parte de nós a pretensão por degraus cada vez mais elevados. Tudo tem seu custo. “No pain, no gain” (sem dor, sem ganho).

Os bons propósitos são aqueles que nos elevam. Cortella diz que queremos fazer coisas que nos engrandeçam para além do acúmulo de patrimônio ou mera remuneração. Queremos ser admirados. Queremos que nosso filhos se orgulhem de nós. Que eles queiram nos imitar.

Nem sempre estaremos satisfeitos e é bom que não estejamos mesmo. Porque a satisfação nos desumaniza, nos põe inertes e a vida está no movimento, na ação. O dia em que não mais agirmos é o começo de nossa morte.

Tem uma hora que é preciso decidir sob pena de se perder tempo e vida. É preciso optar, priorizar, redirecionar, reorientar nossas escolhas. Não podemos deixar para viver ou fazer algo importante apenas depois da aposentadoria, ou quando nos livrarmos do atual emprego, ou quando as despesas diminuírem.

Se tem vontade de escrever, escreva. Se quer pintar, pinte. Se quer compor, componha… Há pessoas que sempre quiseram escrever um livro e nunca sentaram para esboçar uma linha sequer. Há aqueles que querem falar de forma mais eloquente e jamais procuraram um curso de oratória. Há os que dizem precisar fazer uma dieta, exercícios físicos e todas essas promessas são renovadas anualmente sem que nada tenha sido feito. Não avançam nem mesmo um passo.

O desencanto e o desânimo para com o trabalho não podem constituir justificativas para desleixar em outras áreas. Muito pelo contrário, devemos nos dispor a estar bem para reverter o quadro que nos desagrada. De nada adiantará deixar-se entristecer. Cortella diz que podemos nos dar ao luxo de ficarmos tristes somente por setenta e duas horas. Depois, “é levantar, sacudir a poeira e dar a volta por cima.” Sabe por quê? Porque o contrário não nos ajudará em nada.

Vai ser preciso esforço, abdicação e renúncia, mas é o preço que pagamos para conseguir qualquer coisa. “Se você quer ir a um lugar diferente, você deve correr pelo menos duas vezes mais rápido que aquilo.” (Lewis Carroll). Entregar-se quando se tem condições para seguir em frente é um ato de covardia. E como bem diz Guimarães Rosa, “O correr da vida embrulha tudo, a vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem.”

É preciso ter coragem para seguir em frente, crescer com os tombos da vida, aprender continuamente e encontrar caminhos. Cair faz parte, mas é preciso se reerguer. Cortella declara “Posso ter sido derrubado, mas sei que não fui dominado. Essa consciência me dá coragem.”

Encontrar o nosso propósito no trabalho e na vida nos reorientará e nos dará condições e motivações para caminhar com entusiasmo e alegria. Precisamos saber para onde queremos ir e por quê. Caso contrário, ficaremos perdidos a ver as sombras dos navios inalcançáveis que passaram por esse tempo pelo qual nós também havemos de passar.

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