Um guia para saúde, de Mahatma Ghandhi.

Falar a respeito de saúde pressupõe que antes saibamos o seu conceito, com a finalidade de facilitar o entendimento do assunto tratado no livro. Assim, de maneira bem simplista, podemos considerá-la como a boa disposição física e mental que nos permite gozar de bem-estar. A palavra saúde deriva do latim salutis, que significa salvação e conservação da vida. Nesse livro, Gandhi não nos apresenta maneiras de curar doenças, mas sim, formas e meios de preveni-las. 

Ele não era um profissional da área de medicina, no entanto, passou vinte anos de sua vida observando os comportamentos que levam as pessoas a serem ou não saudáveis. Gandhi é bastante enfático ao afirmar que não podemos ser verdadeiramente felizes se não gozamos de saúde e a verdadeira saúde não pode ser conseguida sem um rígido controle do paladar.

A gula, inclusive, é considerada um dos sete pecados capitais que nos leva ao inferno. Não necessariamente ao inferno de Dante, lugar que só teremos a oportunidade de conhecer após a morte, caso julgados pecadores. As suas consequências podem ser desastrosas, ainda nesse plano terrestre, e uma delas é a possibilidade de adquirirmos doenças que, se não nos inviabilizam totalmente, têm uma enorme capacidade de limitar a nossa vida. 

A tentação da gula parece ser tão forte que o primeiro erro da humanidade se materializou com uma mordida na maçã. Caso Adão e Eva tivessem controlado o desejo pelo fruto teriam evitado todos os demais pecados. Talvez seja por isso que dizem por aí que se conseguimos refrear a boca é muito mais fácil controlar os demais sentidos ou vícios.

Também, encontramos na Bíblia vários trechos nos alertando para praticar a moderação na ingestão de alimentos e bebidas. Hipócrates, considerado pai da medicina, enunciou sua famosa frase: “Que seu alimento seja o seu remédio e que seu remédio seja seu alimento.” Mais uma evidência de que a forma como nos alimentamos pode evitar doenças e, consequentemente, nos auxiliar a preservar a saúde.

Ghandi diz que o único sistema de tratamento consistente é o que tenta remover a causa básica da doença, por meio de uma estrita obediência às leis fundamentais da saúde. Para ele, ter uma alimentação limpa e controlada, respirar ar puro pelas narinas, ingerir água, praticar exercícios físicos são extremamente importantes, assim como evitar os maus pensamentos, pois estes também são indícios de doenças.

Não somos guiados apenas pelo nosso corpo. A mente precisa ser saudável para gozarmos de saúde. Sobre o papel da mente em nossas vidas, ele declara:

“O homem se torna muitas vezes o que ele próprio acredita que é. Se eu insisto em repetir para mim mesmo que eu não posso fazer uma determinada coisa, é possível que eu acabe me tornando realmente incapaz de fazê-la. Ao contrário, se tenho a convicção de que posso fazê-la, certamente adquirirei a capacidade de realizá-la, mesmo que não a tenha no começo.”

O poeta inglês José Milton diz que a mente pode fazer um inferno do céu ou um céu do inferno. Atualmente, há evidências científicas de que muitos sintomas e desordens físicas são ocasionadas pelos pensamentos doentios. Ainda, “o cativeiro ou a liberdade do homem depende de seu estado mental.”

Portanto, a doença não provém apenas de nossas ações, mas também de nossos pensamentos. Conhecer as leis fundamentais da saúde possibilita sua prevenção ao invés da remediação. “É melhor prevenir do que remediar.” Além do mais, sabemos os inúmeros efeitos colaterais que os fármacos ocasionam. Assim, é muito mais prudente evitá-los e perseguir uma boa saúde.

“Quando um frasco de remédio entra numa casa, jamais sai, e ainda atrai outros remédios em seu rastro. Vemos inúmeros indivíduos afligidos a vida inteira por uma ou outra doença, apesar de sua patética devoção aos remédios. Hoje se tratam com um determinado médico, amanhã com outro. Passam a vida toda na busca fútil de médicos sucessivos que os curem de vez.”

Se quando pensamos em saúde lembramos dos médicos, deveríamos procurá-los para um aconselhamento de como preservá-la. Entretanto, a medicina está focada em acabar com os sintomas das doenças, não em sua prevenção. Só nos dirigimos a um médico para falar sobre um problema já instalado e nunca para dizer a ele que estamos vendendo saúde e queremos saber tudo o que podemos fazer para permanecermos assim. 

Muitas vezes, os médicos dão diagnósticos baseados na subjetividade de quem enumera os sintomas, sem quaisquer exames que os comprovem. Em Brasília, qualquer mal estar é enquadrado como virose. Acredito que muitos médicos nem costumam perguntar aos pacientes o que eles comeram. Caso perguntassem, saberiam se tratar de uma infecção intestinal. Gandhi diz que, na maioria das vezes, a febre provém de intoxicação alimentar e que a primeira coisa que se deve fazer é suspender a alimentação do paciente e, depois, inserir alimentos mais leves, a exemplo de frutas, vegetais e legumes, bem como água. Também, deve-se orientar a respirar ar puro para que a saúde seja tão logo restabelecida.

Aqui não se está abominando os médicos. Eles são importantes, entretanto nem sempre é necessário recorrer a ajuda de um profissional, mas apenas mudar os hábitos que nos conduzem ao adoecimento.

“(…) tanto quanto possível, reveste tua própria alma de paciência e não perturbes os médicos. Se obrigado a buscar a ajuda de um, certifica-te de que ele seja um bom homem; então, siga estritamente suas orientações, e não busques outro médico, a menos que seja a conselho do primeiro. Mas lembra-te acima de tudo que curar tua doença não está, primordialmente, nas mãos de médico nenhum.”

A saúde completa é muito difícil de ser conseguida, pois ela envolve todo um equilíbrio dos sistemas físico e mental. “O corpo que contém uma mente adoecida só pode ser doente.” Não estamos livres de preocupações, medos, angústias, tristezas prolongadas, ansiedades e pânicos. Todas essas emoções, se desequilibradas, têm uma enorme capacidade de adoecer o corpo. “(…) pensamentos e paixões ruins são diferentes formas de doença.”

A alma e o corpo são interdependentes. Assim, quaisquer manifestações que afetam um, consequentemente afetam o outro. A alma é imaterial e sem forma. O corpo é palpável e feito de osso, pele, carne e sangue. Nosso corpo é composto de cinco elementos – terra, ar, água, fogo e éter.

Ghandi diz que a parte mais importante do corpo é o estômago, pois ele é o órgão responsável por digerir a comida e nos fornecer a nutrição que precisamos para viver. E por falar em estômago, há pesquisas que estão se referindo a ele como o segundo cérebro. Há uma intensa ligação entre o estômago e o sistema nervoso. Alguns distúrbios mentais, como a ansiedade, são intensamente sentidos pelo estômago, culminando em gastrites e até úlceras. Mais uma vez, há evidências de que os transtornos da mente afetam visivelmente o corpo.

O principal agente de manutenção do sangue e da vida é o ar. O oxigênio que inalamos purifica o nosso sangue. Daí surge a importância de se respirar ar puro pelas narinas e não pela boca, pois dentro da cavidade nasal há um filtro que não deixa passar impurezas para dentro do organismo. Não há essa filtragem quando respiramos pelo órgão bucal. O ar é tão importante que não conseguimos ficar nem cinco minutos desprovidos dele.

Na civilização moderna é um tanto complicado respirar esse ar puro ao qual Ghandi nos orienta. Sendo assim, podemos pelo menos fazer o possível para que nossa casa seja bem limpa e arejada. Também, esforçar-nos por fazer uma caminhada em locais abertos, rodeados por vegetação e longe de carros, onde seja possível respirar um pouco o ar livre.

“(…) respirar ar fresco dia sim, dia não. Temos geralmente o hábito pernicioso de nos confinarmos à casa ou ao escritório o dia inteiro, com todas as portas e janelas fechadas. Na medida do possível, devemos permanecer ao ar livre em todos os momentos; ou, ao menos, dormir na varanda, ou ao ar livre. Os que não podem fazer isso deveriam manter portas e janelas do quarto totalmente abertas em todas as horas. O ar é o nosso alimento em todas as vinte e quatro horas.”

Confesso que gostava de ficar em casa com janelas fechadas e, automaticamente, mudei esse hábito depois da leitura desse livro. Agora, mantenho todas as janelas abertas e deixo entrar ar e luz à vontade. Fico imaginando o quanto nosso ambiente de trabalho é prejudicial à nossa saúde. Além de ficarmos confinados, ainda sofremos a incidência direta dos ar condicionados que, embora necessários, não são nada saudáveis. Volta e meia contraio sinusites, rinites e laringites. Sem falar na luz artificial a que somos submetidos durante todo o dia. “(…) o inferno é representado como completamente escuro. Onde a luz não penetrar, o ar jamais será puro.”

“(…) muitos médicos na Europa curam seus pacientes apenas com banhos de ar e de sol. Milhares deles têm sido curados apenas pela exposição ao ar e luz solar. Devemos manter todas as portas e janelas de nossas casas sempre abertas, a fim de permitir a entrada do ar e da luz.”

A água também é indispensável para a nossa existência. Nosso corpo é composto de 70% desse elemento. Devemos ingerir água potável. “(…) se continuarmos bebendo água impura, não devemos nos surpreender do nosso sangue acabar envenenado.”

Além do ar e da água, o corpo precisa de comida para sobreviver. (…) devemos comer apenas para preservar a saúde, não mais que isso.”

Ghandi é incisivo quando se refere à alimentação. Ele diz que devemos comer tão somente para apaziguar a fome. “O homem se considera o animal superior da criação e passa dias cultuando seu próprio estômago, comportando-se pior que os outros animais.”

Para ele, somos todos submissos ao paladar e não consideramos que comer demais seja um pecado. Toda festividade é envolta a massas, doces e gulodices. As pessoas comem sem parar, sem vergonha e acham bonito. “Temos cultivado noções tão falsas sobre a alimentação que não percebemos nossa servidão e bestialidade.”

A bebida também é altamente condenada e Ghandi a considera um veneno que destrói vidas e famílias. “O bebedor abandona sua sanidade e esquece a diferença entre mãe, esposa e filha. A vida se torna um mero fardo para ele. Até homens de juízo se tornam desamparados autômatos quando bebem; mesmo quando não estão de fato bêbados, suas mentes se mostram impotentes para funcionar.”

O tabaco constitui outro produto deplorável e que corrói a saúde das pessoas. Fumar é um dos vícios mais difíceis de serem abandonados e os cigarros estão cada vez mais tóxicos, a fim de fazer com que os usuários tenham dificuldade em deixá-los. As indústrias precisam trabalhar penosamente para fazer com que os fumantes fiquem viciados, pois além de serem obrigadas a estampar os efeitos danosos no rótulo dos produtos, todos sabem que não há benefício algum em consumi-los.

Chá, café e chocolate também são danosos à saúde. “Há uma espécie de veneno em todos eles. A evidência de que essas três bebidas sejam venenosas está no fato de que, após tomá-las uma vez, o indivíduo nunca mais passa sem elas.”

E qual seria a melhor maneira de nos alimentarmos?

Uma delas é a dieta vegetariana. “(…) o homem foi feito para viver de raízes e frutos, e não carne.” É importante ingerirmos mais alimentos crus, pois o processo de cozimento destrói muitos dos nutrientes.

Ghandi diz estar convencido de que a dieta de frutas é a melhor para nós e cita demasiadamente a banana-da-terra, a maçã e o limão como excelentes frutos. O leite e a carne devem ser evitados ao máximo. As leguminosas podem ser consumidas com prudência, mas ele as consideram pesadas. O consumo de vegetais é aconselhável, embora sejam menos nutritivos que as frutas. A farinha branca, o pão vendido nas lojas e o arroz são considerados inúteis. A ingestão de temperos deve ser bastante reduzida, bem como o sal e o açúcar. “É tolo consumir açúcar por si só.”

O azeite de oliva é um bom nutriente, bem como a amêndoa.

“A carne não é o alimento natural para o homem. Ela gera o mesmo tipo de ácido no corpo que as sementes leguminosas. Leva à queda dos dentes e ao reumatismo; produz sentimentos ruins como a raiva, que são também formas de doença.”

Quanto à quantidade de comida, deve-se fazer o menor número de refeições possíveis. É importante comer apenas o necessário, mastigar demoradamente e ingerir os alimentos mais saudáveis. A comida  não deve ser considerada como uma fonte de prazer. Devemos nos esforçar diuturnamente para não sermos glutões.

Outra coisa de extrema importância é a prática de atividade física. “Sem fazer exercícios regularmente ninguém pode ser saudável.” Ghandi diz que a mente fica tão enfraquecida pela falta de exercício quanto o corpo, e uma mente fraca é uma forma de doença. Ele sugere que façamos caminhada: “Caminhar movimenta cada porção do corpo e assegura a circulação do sangue.”

Sugere que vistamos roupas frescas e confortáveis e andemos descalços. E ousa dizer que as relações sexuais devem ser evitadas, pois elas levam a um esgotamento de nossa vitalidade. Para ele, uma mulher, a partir do momento da concepção, não deve manter relações sexuais, como forma de preservar ela própria e a criança. E se der vontade de fazer sexo? É só tomar um banho de água fria.

Coincidentemente, sempre achei que a mulher não deveria fazer sexo durante a gravidez e não me perguntem por quê. A Bíblia deixa claro que Maria e José não se aproximaram intimamente até o momento do nascimento de Jesus.

Ghandi discorre sobre tratamentos de saúde por meio do ar, da água e da terra. Sobre a febre, diz que a maioria é causada por problemas intestinais e a primeira precaução consiste em suspender a alimentação do paciente.

Ele considera como sendo as leis da saúde: “viver ao ar livre, comer alimentos saudáveis e com moderação, fazer exercício, manter sua casa arrumada e limpa, evitar maus hábitos e, em suma, levar uma vida de completa simplicidade e pureza.” E complementa: “(…) sob nenhuma circunstância cedam ao pânico, pois o medo paralisa os nervos e aumenta o perigo da letalidade.”

O autor dedica um capítulo ao tema da maternidade e do parto e diz que a mulher deveria ser levada a perceber que o caráter do filho que nascerá vai depender inteiramente do tipo de vida e de conduta da mãe no período da gestação, o qual ele considera sagrado.

“Nesses nove meses, a mulher deveria se engajar constantemente em boas obras, libertar a mente de todo o medo e preocupação, não dar espaço aos maus pensamentos ou sentimentos, deixar de lado todas as inverdades de sua vida, e não desperdiçar um momento em conversas ou feitos ociosos. O filho que nascer dessa mãe inevitavelmente será nobre e forte.”

E onde fica o marido nessa história? Ele deve evitar discussões com a esposa e deixá-la animada e feliz.

Após o nascimento, deve-se dedicar cuidados especiais à criança. A mãe deve manter uma alimentação saudável, pois tudo o que ela ingere passa para a criança pela amamentação. O bebê deve tomar banho morno e usar pouca roupa ou quase nenhuma. Ele deve ser gradualmente habituado a comer frutas para conservar a pureza do sangue e passar bem longe de açúcar. A depender da comida que dá para o seu filho você está, mesmo que involuntariamente, envenenando o organismo dele.

“O uso de sapatos impede a circulação livre do sangue e o desenvolvimento de pernas e pés fortes e vigorosos. Vestir a criança de seda e rendas, boné, casaco e ornamentos é uma prática bárbara. A tentativa de realçar por esses meios ridículos a beleza dada pela natureza só expõe nossa vaidade e ignorância.”

Entupir o filho de comida e ameaçá-los com punições são hábitos que revelam a falta de educação dos pais. “Se os pais são fracos, seus filhos crescerão fracos e frágeis; se os pais falam clara e nitidamente, os filhos aprenderão a fazê-lo. Se os pais dizem palavrões ou estão viciados em maus hábitos, os filhos os imitarão, desenvolvendo um mau caráter. De fato, não há campo algum da atividade humana no qual os filhos não imitem o exemplo dos pais.”

Eu quem o diga. Vejo-me fazendo as coisas de forma exatamente igual ao que via e vejo minha mãe fazer. Apesar de ter saído da infância, continuo, às vezes inconscientemente, a imitá-la. Até as coisas que nela eu condenava, como colocar a comida no prato para o marido, faço exatamente igual. É impressionante como os filhos reproduzem as ações de seus pais.

“É um solene dever de todos os pais virtuosos modelar seus filhos de um modo nobre. Isso requer que tanto o pai quanto a mãe tenham recebido eles próprios uma sólida educação.”

Toda transformação exige autodisciplina, inclusive no sentido de praticar as leis da saúde. Tê-la é essencial para vivermos bem dispostos e mais felizes. Lembrando que precisamos ter o corpo e a mente sãos, uma vez que eles estão intimamente conectados. “Devemos livrar nossas mentes das más paixões, como raiva e medo, confiar no poder salvador de um vida pura e devota e permanecer tranquilo na fé que estamos sempre nas mãos de Deus, pois o expectro da vida que Ele nos permitiu pode ser diminuído ou excedido.”

Por fim, devemos nos empenhar para sermos senhores do nosso corpo e de nossa alma se queremos gozar da verdadeira felicidade.

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