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Sobre não sentir saudades.

Surgiu-me pensar sobre esse assunto do momento em que percebi a ocorrência semanal, todas às quintas-feiras, de postagens, feitas por usuários de mídias sociais, de fotos ou vídeos com a expressão #tbt, que diz respeito a uma gíria popular com o significado de throwback thursday, cuja tradução pode ser entendida como quinta-feira do regresso. Ela é utilizada para ilustrar fotos registradas no passado que remetem a uma espécie de saudade.

Se os usuários são realmente autênticos em seus sentimentos saudosistas ou se encontram nesse dia apenas a oportunidade de publicar algo sob o argumento de o serem, não cabe a mim o julgamento. Ocorre que, diante de tantas demonstrações de regresso, coube a mim a pergunta: Por que não sinto saudade?

Nenhuma resposta me ocorre. Para melhor entender o significado do termo consultei um dicionário que informou-me se tratar de um sentimento melancólico devido ao afastamento de uma pessoa, uma coisa ou um lugar ou à ausência de experiências prazerosas já vividas.

Ainda insatisfeita, resolvi ir direto à fonte, ou melhor, à etimologia da palavra. Saudade vem do latim “solitatem“, que traduz-se em solidão. Existem variantes do termo, mas pareceu-me que esse chega mais perto do sentido que lhe damos.

Nos dizeres de Caroline Michaelis “saudade é a lembrança de se haver gozado em tempos passados, que não voltam mais; a pena de não gozar no presente, ou de só gozar na lembrança; e o desejo e a esperança de no futuro tornar ao estado antigo de felicidade.”


Todas essas definições confirmam que o sentimento de saudade não ocupa o meu ser, quer por temperamento ou por qualquer outra coisa que eu mesma não sei explicar.

Muitas das coisas que vivi e pelas quais passei foram apagadas naturalmente da minha memória que nunca foi das mais acumuladoras. Esqueço facilmente os pormenores. Apenas os momentos de muito prazer ou muita dor foram por ela registrados. E mesmo assim, não tenho plena certeza de que todos nela permanecem vivos. Creio que não.

E não que tenha tido uma vida sofrida ou de muitos gozos. Acredito que transitei pelos extremos algumas vezes, mas sempre vivi no caminho do meio com alegrias e tristezas equilibradas. Encarei os acontecimentos que me sobrevieram de forma natural, sem muito alarde, sem muitas expectativas.

Segui pela vida vivendo um dia após o outro e acreditando que só temos pleno domínio sobre o agora. Isso não significa um desprezo pelo passado ou pelas origens ou pela minha ancestralidade. Tenho um enorme respeito por tudo o que passou, aprendi com os erros e vibrei os acertos, mas não viveria nada outra vez. Não repetiria um momento sequer. Tudo o que passou faz parte de mim e me faz ser quem sou, mas o que sou nunca mais será o que fui.

É essa certeza de uma renovação constante que me exime de desejar vivenciar hoje e repetidamente um acontecimento passado. Tenho plena consciência de que, uma vez dada essa oportunidade, ela não  mais seria acompanhada das emoções que outrora experimentei pelo simples fato de que já não sou mais a mesma.

Imagine que eu sentisse saudade do meu primeiro amor e pretendesse encontrá-lo hoje para reviver sentimentos e momentos passados. Seria impossível, pois nem sou mais a menina provinciana de quinze anos, nem ele é atualmente o homem mais apaixonante do mundo conforme imaginava quando nunca tinha conhecido nenhum outro.

O significado etimológico de saudade referindo-se à solidão também não me toca. A solidão não me deixa saudosa. Entendo a solidão como um estado em que se está em paz com a própria companhia sem desprezar aqueles que nos são caros. Gosto de estar com algumas pessoas, ainda que poucas, e se desejasse ser absolutamente sozinha não teria nem me casado. No entanto, prezo a solidão por achá-la luxuriosa.

Gosto da companhia de pessoas que amo e admiro, adoro estar com elas, mas quando estou sozinha envolvo-me com a minha presença, meus pensamentos, arrumo minhas coisas, organizo a casa, os livros, leio, escrevo, saio para almoçar, tomar um café, vou à academia, faço as unhas, arrumo o cabelo, preparo um chá, um café, assisto palestras, entrevistas, ouço músicas, vou à igreja, medito, enfim, faço tantas coisas que me ocupo toda. Eu me deleito e me alegro com tudo que me ofereço. Nesse momento, não sinto saudade de nada, pois estou totalmente imersa no mundo que criei para os momentos em que me encontro sozinha.

Nessas horas não desejo reviver coisas passadas. Mal tenho tempo de me lembrar delas tão absorvida que fico pelo instante em que me encontro. As viagens que fiz, se boas, o foram naquele tempo. Os amores que tive, se apaixonantes, valeram pelo quanto duraram. As pessoas que passaram pela minha vida, se me causaram contentamento, resta-me a gratidão em tê-las conhecido. Os avós que me deram tanto amor e que partiram deixaram-me a lembrança do quanto fui amada e privilegiada de tê-los tido. Meu pai, com quem tão pouco convivi, deu-me a dádiva da vida pela qual tenho-lhe agradecimento e respeito.

Contudo, o que sinto não é saudade. Às vezes, rememoro situações com eles vividas, mas nada comparado à uma espécie de melancolia. São lembranças alegres e totalmente despretensiosas de repetições. Talvez um outro nome coubesse, mas ainda não descobri qual seria.

Sigo sem desejo de gozar no futuro emoções passadas, simplesmente porque não estou mais lá. Mudei e mudo continuamente. Enfim, transformamos-nos todos os dias e a beleza dos encontros está no ineditismo, tanto dos indivíduos como da nova situação.

Certa vez, combinei de sair com uma antiga amiga, cujos laços de amizade haviam se afrouxado por alguns desentendimentos. Como nossos programas costumavam ser alegres e divertidos, resolvi convidá-la para um almoço, imaginando que fosse possível reviver as mesmas alegrias de outrora. O almoço se deu sem que uma conseguisse encarar a outra e a estranheza tomou conta daquele momento de uma forma constrangedora. Trocamos pouquíssimas palavras e foi o nosso último encontro. Já não éramos mais as mesmas e a amizade havia chegado ao fim. Ou seja, as minhas lembranças boas eram de outros tempos e por mais que tentasse repeti-las seria impossível.

Heráclito diz que nenhum homem pode banhar-se duas vezes no mesmo rio,  pois na segunda vez o rio já não é mais o mesmo, nem tão pouco o homem.

Acredito que esse pensamento traduz claramente o sentido do que quero dizer quando afirmo não sentir saudade. Não sentir saudade nada tem a ver com a falta de amor pelas pessoas ou com a ausência de reconhecimento pelo passado vivido. Significa uma abertura cheia de espaços para as pessoas e os acontecimentos que hão de vir.

Não sentir saudade está muito mais relacionado com uma espécie de gratidão e uma sensação de ter aproveitado os momentos da melhor maneira possível. Se acredito ter vivido e me deliciado da companhia das pessoas até a última gota no momento em que com elas estive, não há mais porque voltar ao passado desértico.

Eu não sinto saudade. O que sinto é um desejo intenso de viver cada dia mais e melhor na minha própria companhia e daqueles que mais prezo. Sinto é a fome de vida que está presente no hoje. Nem no ontem. Nem no amanhã. Pois a minha consciência grita que a vida é sempre agora.

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Meu nome é Ana Veiga, moro em Brasília e tenho paixão pela leitura e pela escrita. Ler e escrever são para mim "vícios desde o início". Leio por prazer. Escrevo por necessidade. E, nesse espaço, quero compartilhar com vocês os maiores ensinamentos que extraio dessas leituras. Espero que gostem!

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