Não chame o seu filho pelo nome.

A coisa que mais lhe entristecia e que foi a mim confessada com grande pesar era de que a sua mãe nunca o havia chamado de filho. A falta de convívio com o pai parecia não constituir motivo de lamentação, no entanto, apesar de todos os dias estar na presença materna, esse fato diminuía a importância simplesmente por nunca tê-la ouvido chamá-lo de filho.

Quando foi dada a ele a oportunidade de ser pai, a cada dez palavras que enunciava para se dirigir à sua filha, onze eram “filha”. Inconscientemente, parecia querer compensar o chamamento que a própria mãe lhe negara.

Digo, pois, a mãe sempre será a pessoa mais importante na vida de alguém e tudo o que ela é, diz, sente ou faz terá impacto na vida de seus filhos.

O poeta Fernando Pessoa lamentou profundamente não ter convivido com a mãe, e confessou que, por não ter experimentado o amor materno, nunca conseguiu se sentir amado por mais ninguém. O pintor Van Gogh quase enlouqueceu por sua mãe rejeitá-lo e não reconhecê-lo como artista. E a escritora Clarice Lispector, que fora concebida devido à crença de que, uma vez estando doente, a mulher poderia engravidar e, em consequência, ser curada, queixou ter nascido e fracassado no atendimento da única missão para a qual fora gerada – salvar a mãe.

Ela escreveu:

Fui preparada para ser dada à luz de um modo tão bonito. Minha mãe já estava doente, e, por uma superstição bastante espalhada, acreditava-se que ter um filho curava a mulher de uma doença. Então, fui deliberadamente criada: com amor e esperança. Só que não curei a minha mãe. E sinto até hoje essa culpa: fizeram-me para uma missão e eu falhei. Como se contassem comigo nas trincheiras de uma guerra e eu tivesse desertado. Sei que meus pais me perdoaram por eu ter nascido e vê-los traído na grande esperança. Mas eu, eu não me perdoo.

A mim, chegam várias histórias, algumas das quais acompanhei de perto, de pessoas que desenvolveram distúrbios de diferentes ordens, como carência excessiva, pânico e depressão, pelo fato de terem se sentido rejeitadas, renegadas ou afastadas do amor, pertencimento ou proteção de uma mãe.

Dra. Filomena Camilo, médica pediatra que também ministra palestras sobre criação e educação de crianças e adolescentes, declarou que a raiz de quase todos os problemas advindos deles parece residir nas relações que estabelecem com os pais, sobretudo com as mães.

Uma mãe com força, firmeza e bravura tem muito mais chance de criar filhos fortes e saudáveis do que uma mãe fragilizada, ansiosa e indecisa. E por incrível que pareça, esses sentimentos já são repassados desde o ventre, onde mãe e filho são apenas um e tudo o que constitui alimento para ela, alimenta também a ele. Até uma certa idade, o filho nem mesmo consegue individualizar-se da mãe. Ele acredita que os dois são um só.

Essa sensação de pertencimento, ainda quando crescidos, acompanha-nos durante a vida. Um filho pertence à mãe e qualquer mácula a essa condição fragiliza um ser de um modo ou de outro.

Para todas as demais pessoas somos aquilo que o nosso nome diz sobre nós. Dão-nos um nome para sermos diferenciados e ele passa a nos caracterizar muito mais pelas coisas que exteriorizamos do que pelo o que somos.

Quando pronuncio meu nome em voz alta não me reconheço nele e nem consigo me encolher para caber naquilo que me é apresentado pelo mundo. Mas quando minha mãe enuncia “Filha”, tenho plena certeza de que pertenço a ela e isso me dá uma sensação de porto para o qual retornar e ancorar todas as vezes em que me fecham as portas, pois o meu primeiro pensamento é de voltar para aquela que, em meio a dor, abriu-me os caminhos.

É estranha para mim a ideia de que minha mãe me chame pelo nome, cujo registro se encontra numa folha de papel destrutível, pois que só a ouço chamar-me de filha durante todo o tempo.

É importante que a mãe pronuncie “Filho” ou “Meu filho” para que ele não se sinta deserdado do exclusivismo de pertencer àquela que o gerou.

Não chamamos as nossas mães pelo nome. Só de pensar em assim proceder soa um tanto estranho. Presumo, pois, que há estranheza no fato de uma mãe chamar por seu filho utilizando-se do mesmo nome que os demais, sem qualquer distinção que o qualifique, individualize ou diferencie.

Dizemos que Deus enviou o seu único filho para nos salvar e não que nos enviou Jesus. Este se apresentou como filho de Deus e estendeu a todos nós essa condição com a evidente intenção de nos dar pertencimento. Da mesma forma, referia-se a Deus como “Meu pai”. E quando nos ensinou a orar, deu início com a expressão “Pai nosso…”.

Tudo isso evidencia a necessidade que temos de pertencer e de ter uma referência. Quando me chamam pelo nome que há registrado num objeto, sinto que tenho a obrigação de representar os papeis que exerço para atender a esse nome que me deram.

No entanto, quando ouço minha mãe chamar-me simplesmente de filha, dispo-me de todas as máscaras e me transformo naquele ser sem adornos que saiu do seu ventre e retorna completamente purificada e nua ao seio daquela que será sempre a grande mãe.

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