Ney Matogrosso, Vira-lata de raça.

“Quero ser lembrado como uma pessoa que defendeu a liberdade e espero, sinceramente, que enxerguem na minha vida o reflexo dessa liberdade.”

Rumo ao encerramento do livro, Ney Matogrosso também afirma: “Quero ir em paz, na hora que tiver que ir, e no meu epitáfio estará escrito assim: “Viveu livre!”

Talvez a palavra mais mencionada no livro Vira-Lata de Raça seja liberdade. Esse termo define a vida e a obra desse artista grandioso, bem como o seu corpo e o seu espírito.

Ney de Souza Pereira, Ney Matogrosso ou simplesmente Ney. Talvez ele dissesse: “Deem a mim o nome que quiserem. Andrógino, viadinho, bicha, híbrido…”

Nada o limita nem o aprisiona, pois ele não se deixa enquadrar, definir, classificar. Ney é bicho solto, um vira-lata, mas não um vira-lata qualquer. Ele é de raça.

Ney é animal livre. Filho de um militar conservador e “cabeça-dura”, confessa que sempre teve problemas de relacionamento com o pai que o reprimia e o discriminava. Desde a infância, o pai parece ter notado no filho uma sensibilidade malvista nos homens e diante disso insistia em ofendê-lo.

Relembra o episódio em que seu pai o chamou de viadinho, sem que ele, criança, soubesse sequer o significado do termo.

Embora desconhecesse, respondeu como que intuitivamente: “Não sou viado, mas quando for o Brasil inteiro vai saber!”

Seu pai era Antônio Matogrosso Pereira, a maior autoridade que Ney Matogrosso enfrentou em toda a sua vida.

Ney diz ter nascido transgressor graças ao pai que teve. As transgressões primeiras ocorreram  em sua própria casa, onde contestou, desde muito cedo, o seu progenitor.

Quando criança, Ney se encantou pelas artes. Gostava de pintar. Seu pai tratou de avisar: “Não quero filho artista! Filho meu nunca será artista.”

Ele pintava mesmo assim. Quando não tinha material adequado, pintava num papel de pão ou no chão.Todas as limitações eram por ele transpostas, numa atitude de não aceitação à realidade que se impunha.

Quando a relação com o pai ficou insustentável, Ney resolveu sair de casa. Conta que chegou a dormir duas noites nas ruas do Rio de Janeiro por não ter para onde ir.

Depois, entrou para a Aeronáutica e, mais tarde, mudou-se para Brasília, onde trabalhou por um tempo no Hospital de Base.

Foi na Aeronáutica que, pela primeira vez, viu dois homens másculos se abraçando, numa cena em que ele diz ter sentido transbordar amor. Ah, então dois homens podiam? Juntando essa cena com aquela da infância em que, ao se confessar, o padre lhe perguntara se havia feito “saliências” com meninas ou com meninos, ficou claro que dois homens podiam se amar de todas as formas, de corpo e de alma.

No Hospital de Base, trabalhou com lâminas para fazer biópsia e com crianças em estágio terminal de câncer. Foi neste lugar o seu primeiro contato com a morte, a finitude. Espanto! Ney vê um cadáver aberto, fica alguns dias sem conseguir comer nada, assustado, mexido, virado.

As crianças que deixava vivas num dia, no outro já não estavam mais lá. A morte existe. A finitude é real. Mais tarde, Ney conviveria com muitas outras mortes, rápidas, constantes, dolorosas. Mais tarde, perderia muitos de seus amigos e pessoas próximas “tocados” pela AIDS.

Quando Ney se mudou para Brasília, em 1961, a cidade tinha acabado de surgir. Brasília era uma recém-nascida. O salário era três vezes maior que no restante do país. Pagava-se mais para atrair as pessoas. Era preciso povoar o território. Por outro lado, o comércio era escasso. Ney conta que pegava o dinheiro que ganhava e jogava para cima. Para que ganhar mais e não ter onde gastar?

Dinheiro nunca foi a “pegada” dele, nem a sua meta, nem o seu fim.

Ney demonstra um total desprendimento com tudo, menos com sua verdade e liberdade.

Sobre sua passagem por Brasília, considera que foi um dos períodos mais especiais de sua vida, que cresceu como ser humano, passou a ganhar seu próprio dinheiro e ter condições de alugar um quarto num apartamento, a ser independente.

Em Brasília teve consciência de sua sexualidade, liberdade para escolher com quem dividi-la, sem o peso da culpa cristã. Para ele, Brasília é muito especial, inclusive por ser o lugar onde se apresentou pela primeira vez como cantor.

Embora reconheça a importância desse lugar para o seu crescimento enquanto ser, decidiu ir embora. Sua vida não poderia se resumir à burocracia e ao engessamento de um dia a dia dentro de um hospital. Assim, foi em busca de outros caminhos que o levassem ao desenvolvimento de sua arte, pois carregava a certeza de que ocorreria uma transformação positiva em sua vida.

Voltou para o Rio de Janeiro, onde viveu por um tempo como hippie, sem dinheiro e, às vezes, sem comida, mas feliz, produzindo seus artesanatos, de forma livre como sempre foi.

Sobre esse período, fala: “Não tinha dinheiro, mas era muito feliz, sem preocupação, andava apenas com a roupa do corpo. Todos os meus sonhos cabiam dentro de uma bolsa de couro costurada por mim.”

No auge da ditadura militar, Ney surge como vocalista da banda Secos e Molhados. Mesmo tímido, conseguiu colocar para fora toda a sua energia, força e expressão escondidas por detrás de suas pinturas no rosto.

Revela que a arte o salvou de sua agressividade. No palco, ele a colocava para fora. Vomitava. Cantava. Dançava. Insinuava. Agredia sem ser agressivo. Para Ney, a arte salva e deveria fazer parte dos currículos de todas as profissões. “Com a arte presente em nosso cotidiano seríamos seres humanos menos violentos.”

Secos e Molhados não surgiu como uma resposta à ditadura. Não teve por intenção combatê-la. Ainda assim, era um atentado contra a moral e os bons costumes pregados pelos militares, que os chamavam de “grupo de bichas” e “viados comunistas”.

Entretanto, Ney não permitia limites, enquadramentos ou rótulos. “Sempre fui dono do meu nariz. Não estava nem um pouco preocupado com o que estavam pensando de mim, não ia mudar meu comportamento de maneira nenhuma.”

E não mudou mesmo. Ney passou pelo Secos e Molhados e pela ditadura ileso. Quando começou a entrar dinheiro, o grupo se dissolveu. A ditadura deu lugar à redemocratização. Contudo, Ney é e continua.

Comenta sobre o término dos Secos e molhados: “Eu nunca coloquei o dinheiro em primeiro plano na vida, muito pelo contrário, sempre acreditei que a grana era responsável pelo comportamento mesquinho das pessoas.”

Ney é plural. Seus interesses passam por música, teatro, pintura, direção, iluminação e literatura. Gosta de ler, de ficar só, do contato com a natureza, de bichos. Ele não compõe letras, mas tem tesão pela palavra e interpreta desde os antigos aos atuais compositores.

Não é saudosista. Abre espaço para a novidade, para o que está no porvir. Leonino que brilha diz “eu sou”. Permanece jovial com os seus 77 anos. Tem vigor, sensualidade e sexualidade. Cuida do corpo, da mente, do espírito. É atual no auge dos seus 46 anos de carreira.

Ney não se apresenta como cantor, posto que restringe. Ele é artista. É assim que se reconhece. No cantor, cabe a canção. No artista, cabe o mundo.

Os momentos mais difíceis de sua vida foram aqueles nos quais perdeu pessoas muito próximas em decorrência da AIDS. Ney revela que chegou a ir três vezes ao cemitério, numa mesma semana, para enterrar amigos. Dentre eles, um companheiro com quem conviveu alguns anos e Cazuza, uma das grandes paixões de sua vida, o qual descreve: “Parecia um anjo que havia despencado do céu, aquele pivetezinho de praia, um tremendo vagabundo. Lindo. Apaixonante”.

Apesar de se envolver com homens, Ney não quer levantar bandeiras em favor de causas homossexuais. Tem horror a essas limitações. “Gay o caralho. Sou ser humano.” Ele bem sabe que por detrás dessa defesa alucinada dos gays há um mercado que se beneficia do poder de compra deles e os defende mais por questões de ordem lucrativa do que por respeito à dignidade humana.

Ele afirma que a liberdade é possível não pelo grito, mas pelo comportamento. Liberdade não se fala, se vive.

De fato, o tempo parece ser um aliado desse grande artista que só se importa com o presente e só nele vive. Ney diz ter lembranças, mas não saudades. “Se eu me submetesse ao tempo, já seria um homem velho.” A sua vitalidade afasta a velhice. Seu pensamento livre o protege da caretice.

Ney é um homem que tem cravados no corpo e na mente os valores de liberdade, verdade e coerência. Sua filosofia de vida é manter a mente aberta ao novo. Sua energia é direcionada para fazer as coisas que ama, como cantar. Ney possui tônus e vigor de sobra. Para ele, a velhice está na mente. Quer envelhecer com a mesma dignidade com que percorre a vida.

Ele é aquele que Caetano canta: “Esse senhor tão bonito traz algo único, uma serenidade incrível.”

Ney é senhor de si. É senhor de sua verdade e liberdade: “Sou um homem livre, somos seres livres e temos que afirmar isso o tempo todo.”

Ney é um exemplo de ser humano que se destaca, dentre muitas outras coisas, por viver a liberdade mais do que falar sobre ela. Doa a quem doer, transgride, mas com a elegância de quem não precisa usar nem da força nem do grito. Ney é o próprio grito e a própria força. 

“Amo ser assim, amo ser quem sou. Escolhi não ter de conviver com mentiras, mas ter a liberdade de me expressar como desejo. Sinto enorme prazer de não ser hipócrita, e muito menos ser submetido à hipocrisia.”

Assim, Ney apenas é… E, sendo, vai se fazendo e refazendo nesse tempo presente que é tudo o que temos.

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