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A queda, de Albert Camus

Ele se apresenta como Jean-Baptise Clamence, embora não seja esse o seu verdadeiro nome. Clamence era um renomado advogado de Paris, cujo sucesso perpassava sua vida profissional, pessoal e junto às mulheres. Defendia as causas nobres e sempre esteve do lado considerado por ele como sendo o da justiça. Seus clientes eram, em especial, os órfãos e as viúvas.

Num momento de sua vida em que tudo corria muito bem, um acontecimento mudou por completo a sua vida. Era noite e ele estava parado olhando o rio Sena quando começou a escutar um riso vindo sabe-se lá de onde. Um riso persistente e debochado que parecia querer dizer-lhe algo. Quem seria? Olhou por todos os lados e não avistou ninguém. Seria ele rindo de si mesmo? Seria sua própria consciência?

Clamence abandonou Paris e a vida profissional a que se dedicara com tamanha vaidade e partiu para Amsterdã, onde frequentava diariamente um bar que servia de porto para marinheiros, renegado à função de consultor dessa gente que não lhe exigia diploma algum a que desse credibilidade para oferecer seus préstimos jurídicos.

Distante de Paris e da vida que outrora levara, Clamence se autoproclamou juiz-penitente e narrou a sua história numa espécie de confissão em que se acusa ao mesmo tempo em que parece acusar toda a humanidade. Isso fica caracterizado, dentre outras falas, quando, ao admitir sua própria duplicidade enquanto ser, ele dispara: “a criatura é dupla”.

O que deu causa à confissão foi o fato de Clamence ter tomado consciência de que ele e, por consequência, nós todos vivemos duas espécies de vida: a social e a íntima. Uma que está no campo do parecer e a outra do ser.

Para ser aceito, notável, admirado e reconhecido tinha que esconder sua verdadeira face e as suas reais intenções. Tudo aquilo que se dispunha a fazer pelos outros não era senão uma forma de beneficiar a si mesmo . Ao ajudar um cego atravessar a rua, pouco importava que este não o enxergasse, pois havia um público imenso disposto a aplaudir sua boa ação.

Clamence era absolutamente simpático. Sorria em abundância, dava apertos de mão, demonstrava generosidade e simpatia mesmo naquelas situações em que a sua vontade era sair dando socos naqueles que atravessavam o seu caminho sem lhe dar a devida importância, como se ele fosse apenas mais um.

Jamais seria apenas mais um, posto que eleito. Não tinha religião, mas era inaceitável que o seu sucesso em todas as áreas fosse originado apenas do esforço e do mérito. Alguma força superior havia de tê-lo escolhido para ser tão bom e diferente das demais “formigas humanas”.

Gostava das montanhas, dos picos, de viver nas alturas e só sentia à vontade nas situações elevadas. Sua profissão satisfazia essa vocação para viver no alto.

Como advogado, não julgava nem era condenado. Bastava defender o acusado energicamente e com esforço que, mesmo não diminuindo ou eximindo a pena do réu, o seu papel restava cumprido.

“Os juízes condenavam, os réus expiavam e eu, livre de qualquer obrigação, isento tanto de julgamento quanto de sanção, eu imperava, livremente, numa luz edênica”.

Clamence vivia no Paraíso do Éden, planando entre os deuses, certo de que era o melhor entre os seres e o mais inteligente do mundo. Não tinha amigos, mas cúmplices. Tampouco família. Apenas aliados.

Frequentava enterros, porque enxergava nessa triste circunstância a possibilidade de ser visto e, para tanto, admitiu: “Eu sabia precisamente que a minha presença seria notada e comentada favoravelmente”.

Não perdia as oportunidades de se fazer mostrar e, para isso, qualquer acontecimento seria de grande utilidade. “Vivam, pois, os enterros!”

Vaidoso ao extremo, reconheceu: “Fui sempre um poço de vaidade. Eu, eu, eis o refrão de minha preciosa vida, e que se ouvia em tudo quanto eu dizia. Só conseguia falar vangloriando-me… Só reconhecia em mim superioridades… Nunca me lembrei senão de mim mesmo.”

Fingia tanto que o seu cartão de visita poderia ser assim sintetizado: “Jean-Baptiste Clamence, ator”.

Sua atuação estendia às mulheres – presas fáceis. Tinha porte físico e inteligência suficiente para conquistá-las. Não lhe faltava charme e poder para seduzir. Considerava as mulheres muito melhores que ele e as colocava numa posição tão alta que se utilizava delas apenas para servi-lo. Qual é o maior de todos os seres senão aquele que serve?

Usava de sensualidade para atraí-las. Só não se metia com as mulheres dos amigos. Antes, terminava a amizade e ficava liberado. Amava-as até o o décimo encontro. Depois, cansava-se com facilidade, pois as companhias, por mais brilhantes que fossem, o oprimia profundamente.

Não as amava, nem lhes era fiel, mas fazia com que elas prometessem que ele seria o único de suas vidas. Afinal, depois dele nenhum outro haveria de existir.

“Uma espécie de pretensão estava, com efeito, tão encarnada em mim que eu tinha dificuldade em imaginar, apesar da evidência, que uma mulher que havia sido minha pudesse alguma vez pertencer a outro”.

Quando uma mulher o abandonou e fez vir à público seu baixo desempenho varonil, ele a reconquistou facilmente e a subjugou, demonstrando que ela não passava de uma mentirosa, caso contrário não estaria novamente com ele prestando-lhe homenagem pelo prazer que a fazia sentir. Depois, esqueceu dela.

Todas as honras, acredita, deviam se voltar a ele. Assim, confessou:

“Portanto, confesso que não conseguia viver, a não ser com a condição de, sobre a terra inteira, todos os seres, ou o maior número possível deles, se voltarem para mim, eternamente disponíveis, privados de vida independente, prontos a atender ao meu chamado, a qualquer momento, fadados, enfim, à esterilidade, até o dia em que dignasse e favorecê-los com a minha luz. Em resumo, para viver feliz, era preciso que os seres que eu elegesse não vivessem. Só deviam receber a vida, uma vez ou outra, a meu bel-prazer”.

Clamence é cônscio do julgamento dos homens, aquele que ocorre todos os dias pelo fato de ser ou deixar de ser alguma coisa. Ou apenas por existir.

“A aparência de sucesso, quando se apresenta de certa maneira, é capaz de irritar um santo”.

Entretanto, conhece e julga a si mesmo e ao fazê-lo estende seu julgamento a todas as demais criaturas.

Ao abandonar o exercício da advocacia em Paris,  transforma-se em juiz-penitente, aquele que se confessa ao mesmo tempo em que acusa. Um juiz que não se revela. Que vive sob o anonimato de um falso nome, num país diverso, e que, talvez, só por isso, tenha tido a coragem de se delatar.

Ele que sempre desprezou os juízes em geral acaba se tornando o mais severo de todos, porque aponta para toda a humanidade. Cabe, pois, a cada um de nós examinar-se a fim de concluir se o julgamento de Clamence é ou não justo.

Clamence narra um episódio em que estava passando por uma ponte e avistou uma mulher sentada e, após caminhar alguns passos, ouviu o barulho de um corpo caindo na água e gritos por socorro. Ele nem se deu ao trabalho de olhar para trás. Afinal, não havia ninguém para vê-lo salvar aquela mulher e, também, a água estava muito fria. Seguiu seu caminho e tomou o cuidado de não abrir os jornais nos próximos dias. Depois disso, a única precaução que tomou foi de não passar por nenhuma ponte no meio da noite.

E quantas vezes dizemos que a água está fria para nos livrarmos de nossas culpas?

Fingia levar a vida a sério, mas reconhece que nunca se preocupou com os assuntos humanos. Admite que só foi verdadeiramente sincero e entusiasta no tempo em que praticava esportes e na tropa, quando representava nas peças, por diversão.

Essa era sua fonte de delícias e nisso não há disfarces, pois “ninguém é hipócrita nos seus prazeres”.

“Ainda agora, as partidas do domingo num estádio superlotado e o teatro, que amei com uma paixão sem igual, são os únicos lugares no mundo em que me sinto inocente”.

Num estádio superlotado, ele é apenas mais um entre tantos e goza do anonimato. E, no teatro, é alguém que não ele mesmo. Por isso, tamanha inocência. O que mostra que ele continua o mesmo. A confissão até pode revelar, mas não implica necessariamente a mudança. Ela não representa em si um esforço para a purificação. Pode-se ter acabado de confessar e, logo após, estender o braço para ajudar um cego a atravessar a rua com intenções escusas.

Toda a sua vida foi uma representação. “Representava o eficiente, o inteligente, o virtuoso, o patriota, o indignado, o indulgente, o solidário, o edificante…” E só quando se sentiu abandonado foi capaz de admitir para si mesmo, não para o público, uma vez que não revelou seu verdadeiro nome, que sua vida não passou de uma farsa.

Por trás das cortinas, se indagava: “Quem sou eu?” E ele mesmo respondia: “Um cidadão-sol quanto ao orgulho, um bode de luxúria, um faraó na cólera, um rei de preguiça”.

Apesar de todo esforço em parecer, Clamence chegou à conclusão de que era em vão o que fazia. Decidiu isolar-se dos homens e refugiar junto às mulheres. “Não será a mulher tudo o que nos resta no paraíso terrestre?”

Também não. Constatou que as mulheres falavam muito de amor; falavam tanto quanto os papagaios. Ocorre que, “depois de ter amado um papagaio, tinha que dormir com uma serpente”.

Então, procurou em outros lugares o amor prometido pelos livros, porém nunca o encontrou. Pudera, também não sabia amar. Passou trinta anos amando a si mesmo e não conseguia perder esse hábito.

Caiu na libertinagem cuja vantagem recaía na desnecessidade de compromisso. Deleitou-se no álcool e com as prostitutas, mas na manhã seguinte sentia na boca o gosto amargo da condição de mortal. Fazia tudo para prolongar a vida, mas sua falsa onipotência se esbarrava no efêmero humano. “Brincamos de ser imortal mas, ao fim de algumas semanas, já nem sequer sabemos se poderemos nos arrastar até o dia seguinte”.

Sua fraqueza residia em gostar da vida e queria gozá-la sob todas as formas, passando por cima do que e de quem fosse.

Clamence foi perdendo fama e notoriedade, mais por suas provocações de linguagem que por suas libertinagens e orgias noturnas. Afirma ter conhecido o pior dos julgamentos que é o dos homens. Resignado ao tédio tornou-se uma criatura solitária vagando pelas ruas da cidade.

No último capítulo do livro, Clamence nos confessa a respeito de um episódio ocorrido quando se viu prisioneiro num campo de concentração. Como eram vários homens que ali estavam e precisavam lutar por água e comida sentiram necessidade de se organizarem sob a liderança de alguém. Clamence foi o escolhido para ser uma espécie de papa entre os seus, já que o verdadeiro papa se encontrava em seu trono e tão longe da miséria. Conta que roubou água enquanto um daqueles homens agonizava por sentir extrema sede. E justificou seu ato sob o argumento de que ele precisava sobreviver porque em detrimento daquele que morria havia outros que necessitava de sua liderança.

Em Amsterdã passou a viver uma vida simples. Não distribuiu seu dinheiro aos pobres. Deixava todas as portas abertas para que lhe roubassem à vontade, “na esperança de corrigir a injustiça pelo acaso”.

Talvez a maior dificuldade da criatura seja não julgar a si mesma. Talvez o olhar acusatório do outro só nos fere porque pensamos o mesmo a nosso respeito.

Há uma corrente psicológica ou espiritualista, não sei bem ao certo, que diz que ao julgarmos estamos condenando no outro aquilo que existe em nós. Por esse motivo, Clamence “estende a condenação a todos, sem discriminação, para diluí-la desde já”.

Ele não está disposto a absolver ninguém. Nós também não estamos. Somos todos juízes! E simplesmente não há saída, pois sendo estranhas e miseráveis criaturas, pertencemos à mesma raça.

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Meu nome é Ana Veiga, moro em Brasília e tenho paixão pela leitura e pela escrita. Ler e escrever são para mim "vícios desde o início". Leio por prazer. Escrevo por necessidade. E, nesse espaço, quero compartilhar com vocês os maiores ensinamentos que extraio dessas leituras. Espero que gostem!

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