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Um prefácio como nenhum outro.

O prefácio é um texto prévio de apresentação, geralmente sucinto, escrito pelo autor ou por outrem, colocado no início do livro, e tem por finalidade explicar o conteúdo, o objetivo ou a pessoa do escritor.

O livro O avesso e o direito, de Albert Camus, lançado pela Editora Record, contém um dos prefácios mais lindos, cujo texto foi escrito pelo próprio autor e é dotado de uma autenticidade das mais comoventes.

A obra foi escrita quando ele estava com vinte e dois anos de idade e publicada na Argélia, em tiragem bastante reduzida. Camus recusava-se à reimpressão de mais exemplares por considerar que o livro não foi escrito de maneira muito habilidosa. Sua crítica nunca esteve relacionada ao conteúdo, e sim à forma. Tanto é que ele  não renega nada do que escreveu.

Camus foi convencido a reimprimi-lo somente após seus leitores o informarem a respeito da dificuldade em encontrar um exemplar de O avesso e o direito, bem como sobre o preço alto que os livreiros cobravam em decorrência da raridade da edição. Para que todos os interessados tivessem acesso fácil à obra, ele venceu a resistência e decidiu por republicá-la.

O avesso e o direito é a fonte de onde jorrou tudo o que Camus produziu posteriormente. Ele diz “Cada artista conserva dentro de si uma fonte única, que alimenta durante a vida o que ele é e o que diz. (…) sei que minha fonte está em O avesso e o direito.”

Camus cresceu na Argélia, no período em que esse país estava sob domínio francês. Seu pai era um operário de vinha e sua mãe analfabeta. Apesar de ter vivido muito tempo na pobreza, nunca considerou essa condição como uma desgraça. Diz que até suas revoltas foram iluminadas por ela. Revoltas essas destinadas para que todos conseguissem elevar suas vidas apesar das circunstâncias em que viviam.

Ainda que o mundo não possa ser mudado, é possível mudar a vida. Assim, Camus mudou a própria vida ao se tornar artista e talvez a arte o tenha permitido ver beleza em meio às dificuldades decorrentes de sua condição social e por que não do próprio clima cortante da África? O sol escaldante queima, arde e castiga, no entanto ilumina a todos gratuitamente. 

“Eu vivia na adversidade, mas, também, numa espécie de gozo. Sentia em mim forças infinitas: bastava, apenas, encontrar seu ponto de aplicação.” Essas forças foram canalizadas para a escrita, uma das mais primorosas a que tive acesso. Camus escreve de um modo tão peculiar, coerente e expõe o seu pensamento com tanta desenvoltura e inteligência que, ao lê-lo pela primeira vez, tive vontade de me recolher dentro do meu amadorismo e nunca mais escrever uma linha sequer. 

Os maiores problemas enfrentados pelos africanos, diz ele, decorrem menos das condições de natureza, tempo e clima e mais do preconceito e da burrice. A África foi e continua sendo um continente de exploração e de domínio estrangeiro e seu povo sofrido, sempre visto como animais, sujeitos a variados tipos de escravidão. Com uma população composta por mais de 80% de negros, nunca foi difícil enquadrar o seu povo como pertencente à raça inferior.

A pobreza não foi motivo para Camus desenvolver qualquer tipo de inveja. Segundo ele, a imunidade a esse sentimento, o qual considera o câncer das sociedades e da doutrina, deveu-se à educação recebida no seio familiar, onde quase tudo faltava, mas quase nada invejavam.  Ele diz “a pobreza não pressupõe, obrigatoriamente, a inveja.”

“Só pelo seu silêncio, sua reserva, seu orgulho natural e sóbrio, esta família, que não sabia nem mesmo ler, deu-me, então, minhas mais elevadas lições, que perduram até hoje. E, depois, eu estava ocupado demais em sentir para sonhar com outra coisa.”

Diz-se um privilegiado por não saber possuir qualquer tipo de coisa ou bens, uma vez que a posse é um dos meios pelos quais nos privamos da liberdade. “Sou avarento com essa liberdade que desaparece assim que começa o excesso de bens. O maior dos luxos nunca deixou de coincidir, no meu caso, com um certo despojamento. Gosto da casa nua dos árabes ou dos espanhóis.”

“Não invejo nada” – repete. Nem fama, nem dinheiro, nem prêmios, nem glórias.  Muito provavelmente, a proteção à inveja seja proveniente do orgulho e da vaidade a que todo artista está sujeito.

Também não se considera um ressentido, mesmo quando esteve doente. ” (…) conheci o medo e o desânimo, nunca a amargura.”

Camus afirma que suas paixões de homem nunca foram contra e os seres que amou sempre foram maiores e melhores que ele. Era esse amor o responsável por movê-lo em sua profissão, uma vez que a releitura de seus textos nunca lhe deu sequer uma alegria e se diz surpreso do sucesso obtido com alguns de seus livros. 

O contentamento não estava no resultado de seu trabalho, mas no ato da concepção. Assim, afirma:

“O escritor tem, naturalmente, alegrias para as quais vive e que são suficientes para contentá-lo. Mas, para mim eu as encontro no instante da concepção, no instante em que o assunto se revela, em que se delineia a articulação da obra diante da sensibilidade subitamente clarividente, nesses momentos deliciosos em que a imaginação se confunde totalmente com a inteligência.”

Camus era indiferente para com a maioria dos interesses humanos, inclusive ignorava os elogios e as  homenagens. Isso talvez se devesse ao orgulho, que era reconhecidamente uma de suas fraquezas. 

Admitia sentir as alegrias da vaidade como todo artista. “O ofício de escritor, particularmente na sociedade francesa, é, em grande parte, um ofício de vaidade. Eu o digo, aliás, sem desprezo, apenas com pesar. Nesse ponto, sou parecido com os outros; quem pode dizer-se despido dessa ridícula fraqueza?”

Por reconhecer em si mesmo as próprias fraquezas é que conseguiu descrever tão bem as que são inerentes à condição humana e toda a sua obra transita por entre esses sentimentos e emoções que nos ocupam a alma.

Camus era arrebatado pela vida. Tinha desespero e apetite desordenado para viver. Mergulhou numa intensa produção literária, finalizada apenas quando de sua morte, aos quarenta e sete anos, em decorrência de um acidente de carro. 

Para ele “só vivemos verdadeiramente algumas horas de nossa vida”. E essas horas devem ser ocupadas com a beleza do que é visto e palpável e não com abstrações divagatórias de um mundo que jamais nos dará a razão de sua existência. Por que viemos e para onde iremos não importa. Podemos estar diante de um absurdo jamais decifrável, mas a vida se nos apresenta todos os dias com um belo sol que brilha para todos indistintamente e nos trás a oportunidade de vida, sem busca de maiores explicações.

Consciente de que o homem é muito mais movido pela paixão que razão não conseguiu corrigir sua natureza pela moral, ainda que tenha tentado. “O homem me parece, às vezes, uma injustiça em movimento: penso em mim.” 

Camus partia da análise de si mesmo e assim atingia os sentimentos e as emoções do outro. E, por não se afirmar justo, não podia conceber o atributo da justiça aos seus iguais.

Reconhece ter percorrido um longo caminho desde a edição de O avesso e o direito, mas não considera ter progredido tanto. Às vezes, quando pensamos progredir, na verdade, recuamos. 

Declara caminhar com “a mesma leve embriaguez”, passando pelos dias sem esperar nada do amanhã, sem possuir, sem invejar… É o amor pelos seus, pela escrita e pela arte que o move.

Assume sua anarquia profunda e diz ser dotado de desordens, instintos violentos, obscuridades na alma – sentimentos direcionados em favor da edificação de sua arte. 

Sabe-se imperfeito e ao buscar o equilíbrio entre o que é e o que diz, pretende construir a obra de seus sonhos. 

Sua alma clamou por ser artista desde os tempos em que era um pobre menino argelino queimando ao sol. O artista queima para dar luz a si e aos outros. Ele se posiciona em seu próprio centro e precisa manter essa posição mesmo que arda em brasas. A vida de Camus foi incendiada pela beleza da arte e, apesar do sofrimento de um espírito em chamas, declara que sofreria muito mais se sua alma não ardesse.

Esse ardor deve ser homenageado por nós leitores, pois dele nasce toda a produção de Camus, a que temos o prazer de contemplar e permitir também à nossa alma se incendiar por sua instigante e inquietante arte.

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Meu nome é Ana Veiga, moro em Brasília e tenho paixão pela leitura e pela escrita. Ler e escrever são para mim "vícios desde o início". Leio por prazer. Escrevo por necessidade. E, nesse espaço, quero compartilhar com vocês os maiores ensinamentos que extraio dessas leituras. Espero que gostem!

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