O Rei Lear, de Shakespeare.

Cheguei a esse livro, como a Hamlet, por meio de uma palestra do historiador Leandro Karnal. O Rei Lear não me surpreendeu mais que Hamlet, apenas deixou-me no mesmo estado de lúcida embriaguez.

Lear, rei da Bretanha, resolveu dividir o reino em três partes, sob alegação de velhice e proximidade de sua morte. Segundo acreditava, essa divisão diminuiria o peso dos anos, livraria-o de todos os encargos, negócios e tarefas, de modo que era preciso confiar o reino à forças mais jovens.

Visto que tinha três filhas, Goneril, Regana e Cordélia, o Rei dirigiu-se a elas: Digam-me, minhas filhas – já que pretendo abdicar de toda autoridade, posses de terras e funções do estado, qual das três poderei afirmar que me tem mais amor, para que minha maior recompensa recaia onde se encontra maior mérito natural.

Queria o Rei que as filhas falassem de seus sentimentos por ele. Mais que de demonstrações por meio de atos, o majestoso desejava palavras, palavras, palavras…

Ao que tudo indicava, os seus muitos anos de vida e de convivência com as descendentes não foram suficientes para observar, em atitudes, a que mais o amava e destinava-lhe maior atenção. Para o Rei, o conceito de amor parecia consistir em ouvir uma sinfonia melodiosa e enganosa, a tal ponto que exigiu de cada filha a confirmação de seus sentimentos por meio da mais convincente oratória.

Goneril, a mais velha, afirmou amá-lo mais do que pudesse exprimir quaisquer discursos. Regana poupou o esforço em tecer diferente afirmação e declarou amá-lo tanto quanto Goneril.

Terminadas as falas das duas primeiras declarantes, chegou a hora de Cordélia enunciar o seu amor. Ela disse: Amo Vossa Majestade como é meu dever, nem mais nem menos.

O Rei pediu para Cordélia melhorar a resposta, sob pena de ter sua herança prejudicada.No entanto, Cordélia insistiu em falar pouco, ao que o pai reagiu: Tão jovem e tão dura?

Cordélia: Tão jovem, meu senhor, e verdadeira.

Diante da sinceridade e franqueza da filha, o Rei Lear decidiu retirar-lhe o dote. Ao vê-la desprovida de herança, o Duque de Borgonha desistiu de se casar com ela, deixando-a livre para que o rei da França a tomasse como esposa por reconhecê-la muito mais valiosa se comparada a um simples dote.

Ao se despedir do pai, Cordélia pediu-lhe perdão por não possuir a arte pérfida e oleosa de falar sem sentir, pois o que sentia fazia sem precisar abrir a boca. O Rei Lear excomungou-lhe: Melhor que não tivesses nascido do que me seres tão desagradável.

Desde as primeiras páginas do livro, associei-me a Cordélia por esta ser sábia, sincera e falar pouco. Sei que o preço a ser pago por dizer certas verdades pode ser a própria vida. Ainda assim, repudio a mentira, a arte da bajulação e da enganação.

Não demorou muito para que Goneril e Regana armassem contra o pai após concretizada a partilha do reino. Com o poder nas mãos, não havia mais motivos para palavras de amor, quanto mais atitudes de consideração.

Goneril falou sobre o pai: É um velho inútil que pretende ainda exercer os poderes que já não lhe pertencem. Por mim, os velhos caducos voltam à infância, merecem repreensões e não carinho quando se vê que erram o caminho.

O Rei Lear começou a se desesperar com os desmandos das duas filhas e desabafou: Mais doloroso do que o dente de uma cobra é ter um filho ingrato.

Era tarde demais para se arrepender. Ao se aconselhar com o Bobo da côrte, este lhe dirigiu essas palavras: Tu não devias ter ficado velho antes de ter ficado sábio.

No meu entender, é justamente o Bobo que faz as melhores reflexões no livro. De que serve a velhice se não para nos trazer pelo menos a sabedoria da experiência dos anos? De que serve a passagem do tempo se não para fazer com que reflitamos antes de agir impensadamente? E, mais uma vez, o Bobo, que de bobo não tinha nada, disparou: Não havia nenhum juízo nessa coroa careca ou não teria doado tua coroa de ouro. Repartiste teu juízo à esquerda e à direita e acabaste ficando sem nada no centro.

A sinceridade do Bobo fez-me lembrar a de Cordélia, a que o Rei não estava acostumado, pois o posto que ocupou durante a vida deve ter-lhe rendido muitas lisonjas falsas e, provavelmente, a verdade não lhe era sequer sussurrada.

O Rei havia se voltado contra a filha mais nova por ter sido verdadeira com ele, mas que faria contra a franqueza do Bobo uma vez que nada mais lhe restava –  nem poder, nem coroa, nem reino?

Agora és apenas um zero à esquerda. Valho mais do que tu; pelo menos sou um Bobo – tu não és coisa nenhuma.

Nesse trecho do livro, desejei ser Boba tantas vezes quantas se fizessem necessárias para falar a mim mesma as verdades que ninguém ousa dizer, por amor, ódio ou indiferença.

O que se passa no decorrer da história, bem como seu final, não será por mim revelado. É preciso ler o livro e tirar as próprias conclusões.

Entretanto, fica o aprendizado do que pode nos ocorrer por excesso de confiança,  de sinceridade, por determos o poder, por sermos velhos sem sermos sábios ou jovens destemidos.

Esse livro trata de relações familiares e de poder, onde existem a traição, a infidelidade, a deslealdade, o desamor, o interesse, a inveja, o orgulho, a maldade e tantos outros sentimentos que nos fere e machuca.

Mas ele também conta a história de uma filha leal e que, como Hamlet, morre em defesa e por amor ao pai. Esse livro nos apresenta o personagem Kent, amigo do Rei até as últimas consequências.Traz um personagem que não sabe mentir num mundo de tanta enganação e que tem de se passar por bobo para poder ser franco.

Ao final da leitura, refleti: caso o Rei Lear tivesse ficado sábio antes de envelhecer não teria sofrido tanto e perdido tudo, inclusive as filhas. Se o Rei tivesse entendido o amor das filhas por meio de ações para com ele não teria acreditado em palavras vazias.

Creio no amor como um verbo e não como um substantivo. O verbo pressupõe uma ação. É na ação que mora o amor. (Até lembrei da fala de Jesus: Eu sou o verbo, como que dizendo “Ajam! Não apenas falem de mim, mas ajam como eu lhes ensinei”.)

Concluo com uma frase de Kent às irmãs Goneril e Regana: Que as vossas ações confirmem os belos discursos – que as palavras de amor gerem atos de amor.

As palavras proferidas pelas duas irmãs não geraram atos de amor para com o pai. Goneril e Regana não ouviram o conselho de Kent. Mas diante da experiência e reflexão sobre esse livro,  atrevo-me humildemente a me passar por Boba e vos aconselhar: Façamos com que as nossas palavras não sejam vãs. Na dúvida entre falar e agir, aja!

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