O Livro de Eclesiastes (ou O poder político e seus riscos)

Eclesiastes é um dos livros bíblicos que particularmente mais gosto, cuja leitura me recorro frequentemente.

Tenho consciência de que é necessário que nos lembremos algumas vezes, senão muitas, de que tudo é ilusão e corrida atrás do vento.

Tudo é vaidade. E vaidade tem o significado de vazio (do latim, vanitas). Consciente estou de que toda a minha vaidade se fundamenta no nada.

Já que expliquei a etimologia do termo vaidade, quero abrir um parêntese para pedir que se apeguem ao significado das palavras e, principalmente, às suas origens, pois isso tem muito a nos dizer. Quem sabe num outro texto eu possa explicar isso melhor. Dito isso, avante!

Há muitas passagens desse livro sobre as quais poderia me delongar, mas quero falar tão somente dos versículos que tratam do poder político e de seus riscos.

Diz Eclesiastes: “Mais vale um jovem pobre, porém sábio, do que um rei velho, mas insensato e que não aceita mais conselhos. O jovem foi tirado da prisão e tornou-se rei, embora tivesse nascido pobre durante o reinado do outro. Mas observei que todos os vivos, os que caminham debaixo do sol, ficam do lado do jovem, que vem ocupar o lugar do outro. Há sempre numerosa multidão de povo para quem se põe a liderá-la. Entretanto, a geração seguinte já não estará contente com ele. Na verdade, também isso é ilusão e corrida atrás do vento”.

O poder é, portanto, uma grande ilusão. Quem hoje apoia um determinado governo, amanhã poderá persegui-lo e voltar-se contra ele. Basta o mínimo de desencanto! Convém não se iludir.

Esse trecho bíblico me lembra o filme intitulado “O Amante da Rainha” (baseado em fatos reais). A história se passa no Reino da Dinamarca.

O Rei Cristiano VII, mentalmente doente, resolve selecionar, dentre tantos, um médico para acompanhá-lo em suas andanças.

Escolhe Johann Struensee. Este, além de inspirar a confiança do rei, desperta o amor da rainha, Carolina Matilde da Grã-Bretanha, totalmente infeliz em seu casamento. Johann e Carolina tornam-se amantes.

O Rei Cristiano VII, alheio à traição, promove Johann a ministro de seu governo e, depois, regente do reino da Dinamarca.

Johann é um liberal progressista e acaba convencendo o rei acerca da necessidade de promover reformas sociais. O povo, que até então estava submetido a uma situação de extrema miséria, passa a gozar de alguns direitos e vai ao delírio. Por consequência, Johann, que já subira ao posto de amante da rainha, passa também ao de amado pelo povo.

A concessão de tantos direitos faz aumentar os gastos do Estado. E alguém tem que pagar a conta. É hora de aumentar os impostos. O povo novamente vai ao delírio. Mexer no bolso, órgão vital do cidadão, é chamá-lo para a guerra (ou para as manifestações) – não sem razão. E assim fizeram.

Sem querer contar todo o filme para que aqueles que se interessarem não percam a vontade de assisti-lo, limito-me a dizer que, após os aumentos dos impostos, o povo que amou Johann foi o mesmo que passou a odiá-lo.

A profecia de Eclesiastes se cumprira e a multidão não estava mais contente com Johann nem com o Reino da Dinamarca. A euforia com esse governante não passou de ilusão.

E o que dizer de Lula? Amado e odiado pelo povo. Preso sob o clamor popular. O poder de Lula foi ilusão, mas ele continua correndo atrás do vento.

E o Presidente atual que, após vencer as eleições, deixou de ser um deputado isolado no Parlamento para se transformar num mito, rodeado de admiradores do poder?

Se eu pudesse aconselhá-lo, diria-lhe: leia e reflita sobre os ensinamentos de Eclesiastes e não se deixe enganar, pois tudo não passa de ilusão.

E o que dizer a você que me lê? Não digo, mas imploro: recorra frequentemente ao livro de Eclesiastes. Leia-o. Reflita. E, sobretudo, não se esqueça nunca: TUDO É ILUSÃO E CORRIDA ATRÁS DO VENTO!

7 comentários em “O Livro de Eclesiastes (ou O poder político e seus riscos)

  1. Também gosto muito de eclesiastes, quando falo sobre esse livro sempre me contaproem dizendo que é um livro de alguém que está longe de Deus.

    Bom talvez eu esteja,as com sinceridade todos assumiriam que tudo é vaidade, até mesmo aquilo que eu vos escrevo agora.

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  2. Não vejo como um livro de alguém que está distante de Deus. Vejo como um chamado para não valorizarmos tanto o que é passageiro e ilusório. Também, para nos ligarmos ao que realmente importa na vida. Quem sabe buscar apenas o reino de Deus? Tudo é vaidade, porque tudo o que fazemos é para diminuir o nosso vazio e angústia. Sim, o que você escreve é por vaidade (rsrs). Albert Camus diz que “escrever é um ofício de vaidade”, rs. O que escrevo também é por vaidade.

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  3. Gostei bastante do texto! E, talvez de modo vaidoso, gostaria de comentar algumas coisas que podem enriquecer nosso entendimento a respeito do livro: Eclesiastes é conhecido em hebraico como קהלת (Korrelet), que a tradução tá mais ligada a “Aquele que reúne o povo para anunciar”, normalmente é traduzido por Eclesiastes devido ao caráter de pregação que tem esse livro, pois, tradicionalmente é visto como obra de um rei já velho -Salomão- e que vai contar o que aprendeu com a vida. Porém antes de começar ele evoca uma construção hebraica de superlativo, Vaidade de vaidades. Quando o povo judeu queria expressar o superlativo de algo eles repetiam, vide Santo dos santos, Cântico dos cânticos, Jesus se utilizava disso ao dizer Em verdade em verdade. Salomão no papel do “Korrelet” diz que tudo que há está impregnado dessa gigantesca Vaidade, que Nietzsche chamaria de Niilismo.
    Vaidade para o hebreu está ligada ao vapor, algo que sobe e desaparece, algo que não pode ser segurado, algo que passa como um sopro. חבל.
    No entanto, Salomão especifica onde está essa vaidade, “Debaixo do Sol”. Tudo que está debaixo do sol e só pode ter significado debaixo do sol, é vaidade, ilusão, canseira, desconforto, ignorância, loucura, etc.. Albert Camus, Nietzsche, Franz Kafka, Sartre, Kierkegaard, e tantos outros, concordam com isso. Mas para Salomão há algo acima do Sol, alguém acima do Sol, e esse alguém refuta Salomão . Ele mesmo, da metade do livro para o final, começa a demonstrar que tudo que é feito para אלהים (Elohim) não é em vão. Logo, sua conclusão é de alguém que está próximo de seu Deus, ao ponto de perceber que olhar para a realidade debaixo do sol e tudo que ele fez pensando em buscar sabedoria debaixo do sol não passava de tristeza e enfado.
    E em relação a política, se tudo que nós vemos é somente para resoluções passageiras e nunca para longo prazo, se a miséria só aumenta e a dor social só progride, se o perverso é exaltado por proferir coisas mais pérfidas a cada discurso, então não resta mais nada além de vaidade e correr atrás do vento, pois nada do que é feito aponta para a realidade que o Pregador (Korrelet) usa como conclusão, Aquele que está acima do Sol.
    (Peço desculpas pelo texto longo)

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    1. Jonatas, não se desculpe. O seu comentário é bastante enriquecedor. Adorei a visão que você trouxe sobre o livro de Eclesiastes, citando grandes autores que corroboram com esse entendimento. Gostei muito. “Abaixo do sol, nós. Acima do sol, Deus.”
      Obrigada!

      Curtido por 1 pessoa

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