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Erga a cabeça, estufe o peito e permaneça ereto.

Havia um fenômeno que ocorria com certas meninas no começo da adolescência, que consistia no encurvamento das costas no momento em que se percebia o nascimento dos seios. Minha mãe sempre dizia: “Fulana está ficando corcunda.” E me alertava: “Filha, estufe o peito.”

Para mim, manter uma postura ereta não representava incômodo algum e fazia parte de uma ousadia que me era nata. O nascimento dos seios não significava nenhuma espécie de vergonha, uma vez que fazia parte de um processo natural que ocorre com todas as mulheres. Essa sensibilidade para captar o natural sempre foi em mim bastante aguçada. É natural um homem se unir com uma mulher, é natural o acasalamento do macho e da fêmea, o nascimento dos filhos como o dos bezerros ou dos demais bichos. O que é comum e recorrente não precisa de delongas.

Na adolescência, ainda não era possível entender que a postura física exigida pela minha mãe teria um impacto altamente significativo na maneira como eu encararia os fatos da vida. Mas, adulta, consigo perceber que, ao manter a cabeça erguida, o peito estufado e o corpo ereto, uma pessoa sinaliza que está pronta para encarar a vida como ela é, sem se esquivar de suas responsabilidades e muito menos sem vitimizações ou lamentações que não ajudam alguém a sair do lugar onde sempre esteve.

Quase toda pessoa lamuriosa, queixosa, cheia de complexos de inferioridade ou inapta para a autorresponsabilidade tem uma característica física comum que é o encurvamento das costas. Parece que, além de carregar suas próprias dores, se dispôs a carregar as dores do mundo, de modo que o peso a encolhe tanto a ponto de colocar as mãos no chão e voltar a ser um quadrúpede ou um feto sedento por voltar ao útero da mãe.

As mulheres muito altas geralmente têm os ombros curvados como forma de diminuírem e ficarem mais parecidas com as outras de menor estatura, que são maioria. O mesmo acontece com os homens mais baixos. É comum vê-los encolhidos como que para se esconderem da vergonha de não possuírem a altura média que os homens costumam ter. Isso demonstra um sentimento de inferioridade por serem de um jeito ou de outro, às vezes manifestado de forma inconsciente, mas que diz muito sobre alguém, pois a postura de uma pessoa delata a forma como ela se sente e encara a vida.

Muitos costumam se desculpar alegando problemas ou dores de coluna ou qualquer coisa que os impedem de se reerguerem. A verdade é que isso não passa de justificativas para não assumirem o ônus da autorresponsabilidade ou até mesmo pode residir no desconhecimento de suas causas. E como a ignorância não nos dá consciência, permanecemos de olhos vendados para a origem de nossos problemas ou sintomas.

No primeiro capítulo do livro “12 regras para a vida”, de Jordan B. Peterson, ele discorre sobre a importância de se manter as costas eretas e os ombros para trás. Para ilustrar sua tese, descreve o comportamento das lagostas que saem vitoriosas e das que saem derrotadas na busca pela sobrevivência. As ganhadoras mantêm a coragem e a confiança, manifestadas por meio de uma postura firme e pomposa. Já as que saem derrotadas contorcem o corpo e procuram um lugar bem ermo e afastado onde possam esconder.

Jordan diz: “É por isso que quando somos derrotados agimos como aquela lagosta que perdeu a batalha. Nossa postura se inclina. Ficamos com o rosto voltado para o chão. Sentimo-nos ameaçados, machucados, ansiosos e fracos. Se as coisas não melhorarem, tornamo-nos cronicamente deprimidos. Sob tais condições, não conseguimos aguentar as lutas impostas pela vida com facilidade e nos tornamos alvos fáceis para os bullies de casca grossa.”

Geralmente, as crianças que sofrem bullying continuam sendo massacradas, porque ao invés de darem respostas às brincadeiras ou crueldades dos colegas, elas se curvam e saem de cena, mas alimentam os sentimentos de fracasso e ressentimento em silêncio, que mais tarde podem vir a ser exteriorizados de diversas formas. É preciso ensiná-las a enfrentar os ataques. E não estou falando de violência, mas tão somente de postura.

J. Peterson continua: “Se sua postura for ruim, por exemplo – costas curvadas, ombros caídos, peito para dentro e cabeça para baixo, parecendo pequeno, derrotado e incapaz (protegido, em teoria, de um ataque pelas costas) – , você vai se sentir pequeno, derrotado e incapaz. As pessoas, assim como as lagostas, medem-se em parte por consequência da postura. Se você apresentar como derrotado, as pessoas vão reagir a você como se fosse um perdedor. Se começar a se alinhar, elas o olharão e tratarão de forma diferente.”

Lembro-me de minha avó paterna, aos 73 anos, em pé ou sentada, com uma postura extremamente ereta, cabeça erguida e olhar fixo. Venceu a pobreza, criou oito filhos com dificuldade e quando morreu só lhe restava uma descendente. Sobreviveu à morte de sete filhos sem curvar nem mesmo as costas. A sua postura física e psicológica sempre foi de enfrentamento e coragem e ela dizia: “Quem muito se abaixa mostra o fundo das calças.” Talvez, por isso, sempre fez questão de se manter ereta.

“Levantar a cabeça fisicamente, diz Jordan, também significa, evoca e demanda erguê-metafisicamente.” Ele acrescenta que essa atitude postural significa a aceitação da terrível responsabilidade da vida de olhos bem abertos. “Significa decidir voluntariamente transformar o caos do potencial em realidades da ordem habitável. Significa receber o fardo da vulnerabilidade da autoconsciência e aceitar o fim do paraíso inconsciente da infância, em que a finitude e a mortalidade são apenas vagamente preenchidas. Significa realizar, voluntariamente, os sacrifícios necessários para gerar uma realidade produtiva e relevante.”

O mais alto grau da evolução do homem mostra o sapiens totalmente ereto, de pé e erguido. Uma postura ereta talvez seja um dos traços que evidencie o quanto um ser está evoluído no entendimento e na aceitação de questões que envolvem a essência da natureza humana.

Portanto, preste atenção em sua postura. Pare de se curvar, se entortar e se arrastar. “Levante a cabeça, mantenha as costas eretas e os ombros para trás.”

E ouso dizer: Caminhe sempre para frente e esqueça de uma vez por todas sua primitiva condição de australophitecus.

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Meu nome é Ana Veiga, moro em Brasília e tenho paixão pela leitura e pela escrita. Ler e escrever são para mim "vícios desde o início". Leio por prazer. Escrevo por necessidade. E, nesse espaço, quero compartilhar com vocês os maiores ensinamentos que extraio dessas leituras. Espero que gostem!

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