Água Viva, de Clarice Lispector

Tenho uma grande admiração por Clarice Lispector desde os tempos de menina. Posso dizer que é a minha escritora preferida.

E essa preferência nada tem a ver com um conhecimento profundo que eu tenha sobre Literatura.

Sinto Clarice. Sinto suas palavras em minhas entranhas e chego a pensar que ela estava muito certa quando disse: “O leitor é o escritor”. Sim. Eu sou Clarice. E digo isso com a sua própria permissão, inscrita no livro A descoberta do mundo.

Adquiri Água Viva,  primeiro pela beleza da edição, e depois porque ainda não o havia lido. Ocorre que acabei deixando-o como enfeite numa mini biblioteca que mantenho em casa.

Até que um dia, ao ler “Só as mães são felizes”, de Lucinha Araújo, notei quando esta mencionou que seu filho Cazuza era um profundo admirador de Clarice e, mais tarde, numa entrevista com o próprio cantor, ele declarou que “Água Viva” era um de seus livros prediletos.

Assim, minha curiosidade sobre o livro foi atiçada e resolvi tirá-lo da estante.

Água Viva não se configura numa história linear. São fragmentos escritos de uma pessoa que ama ao ser amado. Parece uma carta ao mesmo tempo em que não se parece com gênero algum. São palavras soltas – às vezes de um entendimento cristalino; outras, intraduzíveis. Parecem falas desordenadas que vão se ordenando à medida em que toca o mais íntimo de quem lê.

E a leitura flui como um rio que deságua não sei onde. Vai se sentindo, achando significados próprios dentro do ambiente caótico do escritor que é também o do leitor.

É um livro que fala de Deus, do feio, da solidão, da desorganização, do medo, do instante-já, da loucura, do amor, da liberdade, dos dias da semana, das flores, dos bichos, da morte, da vida.

É denso!

“Ninguém me prende mais”.

“Amor demais prejudica os trabalhos”.

“Vivo à beira”.

“Eu que detesto o domingo por ser oco”.

“Queria tanto morrer de saúde como quem explode”.

Clarice me prende é pelos pés. E eu tento correr à galope como um cavalo. Mas, quem me prende de fato? Provavelmente, eu mesma. Sim, Clarice. Eu sou você e você sou eu! O que você escreve continua. ” Estou enfeitiçada”. Continue…

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