Abandono

As primeiras horas da manhã eram de um silêncio sem promessas. Acordava bem cedo, preparava o café forte, sentava-se horas no sofá da sala, onde alternava entre pensamentos e leituras. O vento entrava pela janela, o canto dos pássaros soava tênue nos ouvidos, às vezes, vozes de pessoas, choro de crianças, barulho ao longe de […]

Leia mais

não há respostas ou a falta de resposta

De onde vim? Quem sou? Para onde vou? Essas perguntas, subliminarmente ou de modo explícito, permeiam toda literatura de Clarice Lispector. Ainda que escape às definições possíveis, ela pode ser lembrada como alguém que passou a vida à procura da coisa, de algo que, embora invisível e intocável, fosse causa, fonte ou origem de tudo […]

Leia mais

Descoberta

Dei para falar de amor e, no meio da noite, acordar de sonhos onde não só o peito pulsa. Pieguice, pieguice, acuso-me. Fui avisada a não subestimar o deus da flecha, que pode ser muito traiçoeiro. Eu sei, eu sei. Levei a mão à boca como quem se obriga ao silêncio. Fechei os olhos para […]

Leia mais

Ousar ser

Ainda ontem acordara contente, dava pulos de alegria pela casa, olhava-se no espelho para confirmar o semblante sereno e inebriava-se ao ver os próprios olhos brilhantes. Os pés plantados tão firmes que o chão parecia não conseguir aguentar o peso de tanta felicidade. A qualquer hora, o solo abruptamente se abriria a devorar-lhe com sua […]

Leia mais

Amor puro

Ao vê-lo pela primeira vez sentiu o coração aquecido e aquele desejo ardente de amor puro. Não era vertigem, antevia. Alguma coisa naquela voz despertava-lhe anseios adormecidos. Lembrou-se de quando tinha quinze anos, tão próximos na memória, mas já distantes no tempo. As lembranças das primeiras vezes eram as únicas que não restavam de todo […]

Leia mais

Destino de mulher

Uma constante na literatura de Clarice Lispector é a presença de personagens mulheres, casadas, donas de casa e mães que, em algum momento de suas vidas, diante de acontecimentos comuns ou corriqueiros, despertam da situação na qual se encontram e se percebem mergulhadas no cuidado e na atenção ao marido e aos filhos, ou mesmo […]

Leia mais

Guerra dos sexos

Na crônica Amor Imorredouro, Clarice Lispector afirma, sem rodeios, que o maior interesse das mulheres são os homens. Antes que alguma mulher previsível o queira negar dizendo-lhe que não são os homens, mas os filhos, ela adianta: Isto é diferente. Filhos são, como se diz, a nossa carne e o nosso sangue, e nem se […]

Leia mais

Morrer do coração

O coração dava mostras de que não ia bem. Acelerava diante das emoções mais inesperadas como quando, cheia de vertigem, olhava para o céu e via que um avião sobrevoava. Noites havia em que o silêncio era interrompido pelas batidas fortes no peito cujo barulho incomodava os ouvidos atentos. A boca seca, a cabeça pesada […]

Leia mais

Gertrudes pede conselho

Gertrudes pede conselho, um dos contos de Clarice que mais me impressiona e dele me valho principalmente quando, diante de uma dúvida relacionada a algum desconforto íntimo, penso que um conselho poderia cair bem. Acontece que ao terminar de lê-lo, uma força ressurge dentro de mim de tal maneira que me levanto heroica e aliviada, […]

Leia mais

O que é a vida?

Em Água Viva, Clarice Lispector não apenas nega-o como livro, posto não ser assim que se escreve, mas adverte sobre a impossibilidade de alguém recontar o que nele está escrito pelo simples fato de não ser algo dotado de enredo: Sei que depois de me leres é difícil reproduzir de ouvido a minha música, não […]

Leia mais