Almoço de domingo

O almoço desse domingo não seria como os outros. Cansada e indisposta em virtude de seus vinte quilos a mais, adquiridos até o oitavo mês da gravidez, nesse dia ela preferiu não ter que lidar com o peso das atividades domésticas e sugeriu ao esposo que fossem almoçar num restaurante. Faltava a ele coragem para lhe negar qualquer pedido desde que soubera que ela abrigava o segundo filho seu. Como a abusar da disposição forçada daquele homem, Clara insinuou que poderiam convidar os seus pais a acompanhá-los, pois fazia tempo que não os via.

Ao escutar a mãe, o menino veio correndo alegre em sua direção anunciando alto que iria matar a saudade dos avós. Júlio calou-se e conteve o desejo de gritar que não gostaria de estragar o seu domingo na companhia do sogro, o qual jamais poupava tagarelices, mentiras e inconveniências. Triunfante em ter o desejo atendido, Clara seguiu em frente com suas roupas largas e a passos lentos, enquanto o menino logo atrás agarrou-se à mão do pai como que a arrastá-lo para mais um desses encontros familiares onde se veria obrigado a gozar da presença de pessoas com as quais não tinha afinidade nem se sentia satisfeito.

Os pais de Clara se acomodaram no carro e, antes que andassem poucos metros, Júlio ouviu do sogro: Será que depois que o meu neto nascer, esse meu genro vai demorar tanto de novo para acertar a bola no gol? E deu aquela sua gargalhada estridente.

Pelo amor de Deus, Chico. Você por acaso dormiu com eles, pois nem mesmo cumprimenta ninguém antes de soltar as suas piadas – disse a mulher dando-lhe uma cotovelada no canto esquerdo de sua avantajada barriga.

A filha estava tentando engravidar há cinco anos e só conseguiu à custa de caros tratamentos pagos com a ajuda dos pais. Júlio deu uma risada de canto sem graça. Preferiu não falar nada e seguir viagem. Antes, quis saber da esposa para onde iriam.

Mas veja bem, esse homem não sabe nem ao menos escolher um lugar para levar a família, Amélia – sussurrou o sogro. Ela deu-lhe outra cotovelada disfarçada e sugeriu que fossem a um restaurante argentino que ficava próximo.

Pode ser esse que mamãe sugeriu – disse Clara com sua voz estendida e preguiçosa de mulher prestes a dar à luz.

Nos últimos três meses, pouco esforço fazia para pensar nas mínimas coisas, pois além do cansaço, voltava-se toda para o ser que crescia dentro dela, de maneira que todo o exterior não mais lhe despertava, salvo as raras vezes em que o primogênito a ela se dirigia. Júlio estava acostumado com a falta de atenção da esposa no período da gravidez, uma vez que esse era o segundo filho do casal, o qual só fora concebido em virtude da insistência de Clara que sempre sonhou em ser mãe antes mesmo de pensar em arranjar um marido.

Olha papai, se vou casar, só Deus sabe. Mas filhos terei muitos e isso quem sabe sou eu – dizia Clara adolescente.

O pai não entendia muito bem sobre essas modernidades e dizia-lhe: Minha filha, que conversa mais sem sentido essa sua. Não foi para isso que te criei. Veja bem, veja bem o que vai fazer de sua vida. Não quero mãe solteira dentro de minha casa. Trate de tirar essas ideias da cabeça.

Quando conheceu Júlio, Clara não quis deixar escapar a possibilidade de se casar com ele. Precisava ter filhos, porque assim queria e não podia contrariar a vontade do pai, o qual ficaria muito decepcionado caso ela os concebesse fora do modelo tradicional familiar. Se dependesse de Júlio, ainda estariam namorando, no entanto ele acabou se rendendo aos apelos de Clara e, em menos de um ano, estavam frente a um padre jurando mutuamente amor e fidelidade até que a morte os separassem. No entanto, o que os separou não foi a morte física de um deles. Algo havia morrido entre o casal, anunciando uma espécie de separação. Era a morte do desejo. Desde o nascimento do primeiro filho, Júlio não desejava mais a sua esposa.

Do lugar em que dividia a mesa com as companhias do almoço, ele lançava furtivos olhares para outra mulher que estava a alguns metros de distância. Clara estava de costas para o desejo do marido. Sentada com a deselegância de quem não precisa seduzir mais ninguém, ela direcionava sua atenção aos pais e conversava com eles sobre histórias vividas pela família, as quais não despertavam interesse algum em Júlio, embora ele esboçasse constrangidos sorrisos de quem finge estar escutando o que a cabeça ignora por completo.Depois, passaram a falar sobre o bebê que estava prestes a chegar. Ainda não sabiam o sexo. Segundo Clara, o filho mais velho desejava que fosse um menino com quem pudesse dividir brincadeiras comuns. Já o pai desejava uma menina.

Não é mesmo Júlio? – indagou Clara.

Ele tentou acompanhar o rumo da conversa, mas estava totalmente perdido naquele meio. Só o corpo presenciava a cena, pois sua atenção estava voltada inteiramente para a mesa ao lado.

Que menina? – perguntou.

Eu disse aos meus pais que você prefere que nosso bebê seja uma menininha.

Não tenho preferências, Clara. Isso é coisa da sua cabeça. O importante é que nasça com saúde. Você é quem faz questão de dizer que prefere outro menino. Até agora se nega a descobrir o sexo para não ter uma surpresa que não coincida com as suas expectativas. Amarei de qualquer jeito, independente de sexo.

O sogro sussurrou: Está vendo aí, Amélia, ele não tem vontade própria para nada. Onde nossa filha foi se meter?

Amélia fingiu não escutar e disse: Júlio tem toda razão. O importante é que meu neto ou minha neta nasça com saúde.

O almoço seguiu sem que Júlio conseguisse se concentrar nas conversas que se emendavam umas nas outras. Ele tinha muita vontade própria, a despeito do julgamento do sogro que nada sabia sobre os pensamentos que passavam no íntimo do genro. Tinha vontade de abandonar o lar, de chegar à mesa ao lado e oferecer companhia para a mulher que observava desde a chegada ao local, cujos olhos tinham o brilho que há muito havia abandonado os olhos de Clara.

O sogro não sabia que Júlio tinha vontade de voltar no tempo e nunca ter conhecido nenhum daqueles com quem era obrigado a conviver. Vontade ele tinha de muitas coisas. Imaginava que, se não fossem os filhos, entregaria-se aos seus desejos acumulados e reprimidos, daria as costas para Clara e buscaria resgatar em outros ares os prazeres e a vida que o compromisso da jura eterna conseguiu esmagar.

Um casal de conhecidos aproximou-se da mesa e deram parabéns aos futuros pais. Como é a sensação de ser pai novamente, Júlio? – perguntou o homem.

Muito boa. Ter filhos deixa a gente mais centrado. Impede que façamos algumas loucuras – disse ao tempo em que lançava um rápido olhar para a mulher que o desconcertava.

E que tipo de loucura gostaria de fazer Júlio? Posso saber? – perguntou Clara.

Loucuras como aquelas que fazíamos por todos os lugares da casa, meu amor – respondeu insinuante.

Para safadezas ele não me parece nada bobo – observou o sogro num sussurro.

O casal de conhecidos despediu-se em meio a abraços e risadas. Enquanto Júlio pagava a conta, a mulher ao lado ia-se para sempre. Enquanto a mulher ia-se para sempre, Clara saía do restaurante de mãos dadas com um filho e o outro no ventre. Júlio vinha logo atrás e, ao contemplar a família, disse a si mesmo:

Não é bem por causa dos filhos que não a deixa, Júlio, e você sabe muito bem disso.

Da cegonha à cegueira

Mãe – interpela o menino – de onde veio o meu irmãozinho? A mulher, que não estava pronta àquela hora da manhã para as curiosidades de criança, olhou para o marido num erguer de sobrancelhas como quem dizia – e aí? – ao que o marido deu de ombros como a insinuar que nada tinha a ver com aquilo, pois a pergunta não fora a ele direcionada. Sem escapatória, a mãe respondeu: Seu irmãozinho? Oh meu filho, seu irmãozinho chegou até nós trazido pelo bico de uma cegonha.

Mas as crianças de hoje não se satisfazem com explicações ilógicas e descabidas. O menino não se contentou com a resposta da mãe e insistiu: Mamãe, mas o meu irmãozinho não estava na sua barriga? Quem colocou ele aí? Eu nunca vi uma cegonha aqui em nossa casa. A essa hora, o pai já havia escapado do lugar onde conversavam. A mãe hesitou em continuar com a história da cegonha e achou por bem dizer a verdade.

Tanto você como seu irmãozinho foram colocados na barriga da mamãe pelo papai. Mas agora você é muito pequenino para saber de todos os detalhes. Então, a mamãe só pode te dizer nesse momento que quando o seu pai e eu quisemos fazer você e o seu irmãozinho nós dormimos tão bem agarrados, demos tantos beijos um no outro, nos amamos tanto que dessa explosão de amor nasceram João e Emanuel.

Dessa vez, João, com os seus seis aninhos de idade, não só entendeu melhor como também aceitou a explicação da mãe, pois em sua cabeça era muito mais lógico o irmãozinho ter chegado por intermédio do pai, que estava todos os dias em casa, do que ter sido conduzido por uma cegonha que ele nunca vira mais inventada. Um pouco mais satisfeito, correu em direção aos seus brinquedos e a mãe suspirou aliviada por não precisar lhe revelar em tão tenra idade os detalhes mecânicos que se dão entre as pessoas encerradas na alcova.

Há quem defenda que a iniciação infantil, no que diz respeito a assuntos sobre sexo, ocorra cada vez mais cedo – como se fosse de extrema necessidade que a criança, inserida nesse mundo no qual não é nada aconselhável que ela tome parte, entenda os meandros que não lhe serviriam para absolutamente nada em seu contexto lúdico e de fantasia. Essa questão e outras similares se dão numa atualidade em que a banalização do sexo no universo dos adultos respinga e atinge todos aqueles que, de alguma forma, estão em seu entorno.

Por muito tempo, o sexo foi visto como um tabu, um assunto sobre o qual era proibido e vergonhoso falar, por questões de ordem cultural, moral ou religiosa. Apesar de ser indispensável para a continuidade das espécies, o que indica o seu caráter de naturalidade, nunca faltaram quem dele se desviasse como algo que tivesse de ser mantido em absoluto segredo. Desde que Adão e Eva esconderam-se de Deus por vergonha de estarem nus, passamos um longo tempo a ocultar nossas partes mais íntimas como a esconder um tesouro que não poderia ser descoberto ou revelado nem para nós mesmos.

Diferente de um cão que copula livremente a qualquer hora do dia e sob as vistas de quem queira presenciar o seu ato puramente instintivo, os seres humanos civilizados se dão em suas relações íntimas bem longe da observação de seus pares. Ainda que seja o modo pelo qual homens e animais se igualam sob o aspecto da reprodução permanente e contínua, é a aura de segredo, mistério e erotismo que passou a acompanhar a intimidade entre os humanos que deu a essa relação um significado nobre, a qual ultrapassa um movimento meramente físico para alcançar a transcendência e, por vezes, o sagrado.

Desprovido do caráter secreto e oculto, escancarado pela verborragia com que muitos debatem as minúcias de suas preferências particulares, o sexo perde os atributos essenciais da fantasia, da surpresa e do mistério, que leva amantes a sondarem e se desejarem mais intensamente, e se transforma numa mera ginástica ou acrobacia pornográfica.

A mim não convém a defesa de falar abertamente sobre sexo quando essa transparência atinge os detalhes que não cabe ao público saber. Dizer o sexo como maneira de informar, elucidar e educar crianças, adolescentes ou adultos é importante e necessário, no entanto a abordagem deve levar em conta a idade e a experiência dos ouvintes, tomando-se o cuidado de não engendrar por territórios que ultrapassam as fronteiras daquilo que se precisa conhecer.

Certa vez, causou-me espanto deparar-me com um programa de TV, onde quatro ou cinco mulheres, aberta e grosseiramente, abriam ao público geral os detalhes mais sórdidos de suas predileções sexuais. Em cada depoimento se avultava muito mais uma ânsia por chamar a atenção e afirmar uma liberdade forjada que, beirando às raias da indignidade, aquelas mulheres se esforçavam para impor.

Recentemente, uma outra mulher do universo das celebridades, gravou um vídeo revelando e ensinando as miudezas e os pormenores do difícil processo sodômico que ela e o esposo praticam para facilitar o ato que, embora pareça árduo, pode se tornar fácil e prazeroso.

Inacreditável a que ponto chegaram as mulheres, sob pretexto da alcançada liberação sexual. E se me refiro a elas, não é por achar que provindas de homens essas atitudes são menos censuráveis, é pelo simples fato de que não os vi em cenas semelhantes, e isso não quer dizer que eles não protagonizam idênticas situações vexatórias e igualmente deploráveis. No entanto, percebo que, entre as mulheres, há um afã por essa exposição dispensável, movidas, talvez, pela necessidade de soltar os fantasmas que por tanto tempo elas se viram obrigadas a repreender e calar.

Moralizar o sexo não é o que pretendo muito menos impingir-lhe proibições ou discriminações. As pessoas devem ter e prezar pela independência de se relacionarem como querem, desde que aja entre elas o consenso; desde que não seja algo forçado ou que desrespeite uma das partes. O que me parece excessiva e, portanto, vã e desnecessária é essa banalização, a qual transforma o sexo em mero ato reprodutivo, automático e animalesco que precisa ser escancarado aos quatro cantos como para provar que gozamos de desmedida liberdade.

Se já não precisamos mais inventar aos nossos filhos coisas sem nexo como a história da cegonha, devemos pelo menos tirar as vendas de nossos olhos para nos livrarmos dessa cegueira que nos acomete de tal forma que já não sabemos até que ponto as nossas liberdades beira o grotesco, a decadência e a frivolidade.

Coisas de menina

Ela não passava de uma criança cujo nascimento dos seios desabrochava como botões de rosa. Sabia que algo lhe acontecia, porque havia dor ao mínimo toque. A dor que acompanha o nascer da vida estava presente a cada novo despertar do seu corpo. Mal sabia que outras dores lhe atingiriam para além da matéria que lhe constituía.

Enquanto as demais colegas fugiam das apresentações da escola, movidas pela vergonha de exibir-se aos outros, ela enfrentava seus pudores oferecendo-se com embaraço e atrevimento a representar todos os papéis que os eventos festivos e a vida convocavam-na a interpretar.

Ansiava pela chegada das festas juninas, porque participar das quadrilhas era-lhe uma fonte de alegria frustrada e, se lhe ofereciam o lugar da noiva, recusava-se de pronto a esse destino que sequer habitava seus pensamentos mesmo que fosse para figurar numa peça de teatro.

Tentava por si mesma escolher o seu par sem, no entanto, dar mostras de quem realmente queria e, se esse impasse tivesse que ser resolvido por meio de sorteio, usava de subterfúgios para que um certo menino fosse o escolhido. Porém, nunca teve a sorte de dançar com aquele que já lhe despertava, menina, os sentimentos de uma mulher feita. Só gozava o prazer de usufruir a companhia desejada tão somente nos momentos em que ocorria a troca de pares.

Quando davam-se as mãos, olhava-o no fundo dos olhos com o desdém que lhe era típico. Ele a despertava, mas jamais saberia de seus sentimentos para que nunca ousasse feri-los. Precisava de um sinal que lhe comprovasse que era correspondida antes de declarar-se a ele, e se não houvessem provas também não haveria revelações, pois o orgulho sempre lhe impediu de admitir uma paixão que não restasse recíproca. Essa confirmação aconteceria bem mais tarde quando os dois já eram adolescentes e se despediam pela última vez e para sempre.

Quando se viu tendo que participar de um evento em que precisava usar uma fantasia, com a qual ficaria mais nua e exposta, pensou em abandonar o ímpeto que a levara até então a nada hesitar. Vestida de havaiana, seu corpo estaria quase todo à mostra, seus seios seriam cobertos tão somente por dois adesivos vermelhos em formato de flor e uma saia branca e rodada deixaria de fora suas pernas curtas que ela mal sabia futuramente dar passos largos que a deixariam muito mais em evidência .

Salvou-lhe o fato de que havia um adorno para finalizar o que seria seu visual completo. Em sua cabeça foi colocada uma coroa de flores e, retirados os espinhos que serviram de tormenta para a cabeça de cristo, ela sentiu que não mais deveria temer mostrar-se meio nua e com o seu corpo às vésperas do derramamento de sangue. Carregaria a sua cruz que era a coisa na qual estava prestes a se transformar – um corpo de mulher.

O próximo desfile ocorreria em sete de setembro, mas lhe exigiria tão somente a voz. Misturada ao som das outras vozes de um coral, era com a mão no peito e o olhar fixo que cantava alto os hinos enaltecedores do Brasil, o qual seria sempre o mesmo.

Com o passar dos anos deixou de cantar o país do futuro e a calar a voz que entoava a composição nacionalista e apaixonada de Olavo Bilac em troca de declamar seus poemas a Eros. Não é que as dores a tenham deixado muda. É que ela quer falar, cantar e pintar apenas as coisas que verdadeiramente acredita. E por incrível que pareça, ainda acredita no amor, o qual nunca foi capaz de lhe doer menos, quer mulher, quer menina.

O Pequeno Príncipe, de Antoine de Saint-Exupéry

Atenção! Atenção! Pouso forçado em pleno deserto do Saara. Um aviador é obrigado a parar uma dessas viagens que os homens do planeta Terra fazem procurando não sei o quê e indo para não sei onde. É preciso consertar o seu avião e seguir caminho. O tempo é curto. Em oito dias, a reserva de água chegará ao fim e o aviador tem pressa, pois corre o risco de morrer de sede.

Imerso em sua importante atividade mecânica, eis que surge uma voz a lhe dizer: Desenhe um carneiro para mim. Ao virar-se, percebe-se frente a um menino de cabelos dourados. O aviador lhe responde que não sabe desenhar. Bem que, quando criança, até sonhara em ser pintor, no entanto os adultos o desencorajaram a esse ofício artístico. Disseram-lhe para fazer outras coisas. Estudar matemática, geografia ou inúmeras outras ciências, pois não era bom em desenhos. Ah, os adultos!

Mas o menino insistia. Ele nunca desistia de algo que quisesse. O aviador, como para se livrar do pequeno, uma vez que precisava urgentemente consertar o seu avião, desenhou o carneiro e, também, a pedido do menino, uma caixa para colocar o animalzinho dentro. Eram desenhos muito pequenos, porque o garoto já alertara que, no seu planeta, pouco maior que uma casa, as coisas eram bastante pequeninas.

Foram nessas circunstâncias que o aviador conheceu o Pequeno Príncipe e revelou, seis anos depois, as maravilhas desse grande encontro.

O pequeno príncipe resolveu lançar-se a outros mundos em busca de trabalho e para aprender coisas novas. No seu planeta, ele tinha por atividade limpar três vulcões e impedir que os baobás crescessem demasiadamente a ponto de invadir todo o seu pequeno espaço, um dos motivos porque queria um carneiro que comesse os baobás. Também tinha uma rosa que ele amava, porém a achava muito vaidosa e orgulhosa. Nada do que possuía foi capaz de impedi-lo seguir rumo a outros asteróides. Nem mesmo o fato de poder contemplar várias vezes o pôr-do-sol, de que ele tanto gostava, foi motivo suficiente para fazê-lo mudar de ideia. Assim, partiu e disse adeus à sua rosa que ficou sozinha e muito triste.

Antes de chegar à Terra e conhecer o aviador, o Pequeno Príncipe passou por alguns outros planetas e conheceu algumas figuras inusitadas e um tanto quanto estranhas.

O primeiro deles era habitado por um rei. Ao avistar o menino, a majestade animou-se com a ideia de ter um súdito aos seus pés, tão orgulhoso que era. O rei fez questão de afirmar ao pequeno todo o seu poder, uma vez que reinava sobre todas as coisas. Como a coisa de que mais gostava era ver o pôr-do-sol, o pequeno pediu ao todo poderoso rei que usasse de sua onipotência para ordenar ao sol que se pusesse várias vezes num só dia. Infelizmente, o rei não pôde atendê-lo. Sem querer admitir que seu poder não era tão grande assim, informou ao menino que precisava esperar por condições mais favoráveis para atender à sua solicitação.

Para despistá-lo, o soberano ofereceu outras regalias ao pequeno. Poderia torná-lo Ministro da Justiça, embaixador ou qualquer outra autoridade. Mas o pequeno só queria mesmo era ver o sol se pôr várias vezes num só dia. Esse era o seu único desejo.

Ser Ministro da Justiça não lhe interessava. Ser juiz, muito menos. Julgar a quem? Não havia ninguém para julgar. Além do mais, ele não gostava de condenar ninguém à morte. Só queria ir embora daquele lugar. O Rei tentou convencê-lo: Você pode julgar a si mesmo. A resposta do pequeno foi categórica: Posso julgar a mim mesmo em qualquer outro lugar. E foi-se embora sem olhar para trás.

O segundo planeta era habitado por um vaidoso. Se alguém ainda não sabe, quero explicar. Vaidoso é aquele que tem vaidade. E vaidade provém do latim vanitas e quer dizer vazio. Somos vaidosos, porque somos vazios. Dentro de nós, sabemos o tamanho de nossa insignificância e, por isso, queremos provar o tempo todo que somos importantes. Eclesiastes, um dos livros bíblicos que mais gosto e que deu-me certo entendimento quanto à existência, nos chama a atenção para a nossa desimportância diante da magnitude de Deus: É para o benefício das pessoas que Deus as põe à prova, para que vejam que elas, em si mesmas, são como animais, pois a sorte do ser humano e dos animais é a mesma; tanto morre um como o outro; todos têm o mesmo sopro. O ser humano não leva vantagem nenhuma sobre os animais, porque tudo é ilusão. Todos vão para o mesmo lugar: Todos vêm do pó, e ao pó todos voltam. Portanto, tudo é ilusão e vaidade.

Dito isso, saltemos para o encontro do pequeno príncipe com o vaidoso, o qual gostava de muitos aplausos e elogios. Os vaidosos só escutam os elogios. O vaidoso gostava de ser admirado, portanto implorou ao pequeno que o admirasse. Mas o que é admirar, quis saber o menino? Admirar significa reconhecer que eu sou o homem mais belo, o mais bem-vestido, o mais rico e o mais inteligente do planeta – disse-lhe.
O Pequeno Príncipe achou tudo muito estranho e fez uma observação: Eu até posso admirá-lo. Mas o que você ganhará com isso? E foi-se embora do segundo planeta.

O aplauso, o elogio, o reconhecimento e o julgamento do outro não muda nem altera o que somos, no entanto fazemos de tudo em busca de aceitação, movidos, talvez, pela ilusão e pelo vazio que nos habitam. Muitas vezes, nos sentimos mais do que realmente somos e não pensamos que basta uma ventania, uma doença ou uma rejeição para nos balançar diante de nossas prévias certezas. Grande é Deus. Ele e só Ele.

O livro da Sabedoria, Eclesiástico, nos chama a combater nosso complexo de Deus: De que, porém, se orgulhará quem é terra e cinza, quem, ainda em vida, expele os intestinos: Uma doença prolongada zomba do médico; quem hoje é rei amanhã estará morto. Pois na morte são os répteis, as feras e os vermes que têm como herança o ser humano.

Perdoem-me, leitores, por ser tão impiedosa e dura ao revelar verdades que preferimos fingir não conhecer. A obra O Pequeno Príncipe é tão amada e admirada por tantos e eu me ponho descaradamente a falar sobre ela com pinceladas de assuntos indelicados e indesejáveis como a morte. Não me levem a mal, pois ao ressaltar a finitude quero esfregar-lhes a vida. Para vivermos melhor, direcionando atenção ao que realmente importa, precisamos estar conscientes de nossa mortalidade.

O exercício que faço contra a minha própria vaidade é diário e constante. E, ainda assim, muitas vezes suponho-me grande. Dirijo-me a Deus com um verso ousado de um poema de Adélia Prado: me cura de ser grande, ó meu Deus, meu pai, meu pai. E eu mesma pergunto: onde está a minha grandeza Senhor? Encho-me de mim, vou crescendo, crescendo e fico tão imensa que levo às mãos à Bíblia, leio Eclesiastes, Eclesiástico e, de novo, torno ao pó.

A existência do principezinho era simples, melancólica e desprovida de vaidade, por saber-se pequeno. Também tenho momentos de pura melancolia, de consciência bruta do vazio em mim habitável, mas a pequenez sabida, porém não admitida e não aceita coloca-me novamente em pé no paraíso sem maçãs ou serpentes. E se escondo a melancolia não é puramente por orgulho e vaidade. É tão somente porque lhes quero alegres e a sorrir. Não quero contaminar-lhes com o meu pecado, muito menos lançar o veneno da lucidez contra quem nada fez em desfavor de mim.

O terceiro planeta visitado pelo Pequeno Príncipe era habitado por um bêbado. Um bêbado que bebia para esquecer que bebia, pois sentia vergonha de beber. Quantas coisas continuamos a fazer mesmo quando elas nos causam vergonha?

O quarto planeta tinha por morador um empresário, o qual não percebeu a chegada do pequeno, uma vez que estava muito ocupado a fazer contas. Por ser um homem preciso e sério, não tinha tempo para lidar com bobagens. Tão imerso estava em seus negócios que até desenvolveu uma crise de reumatismo já que não lhe sobrava tempo para praticar atividade física. Só os números lhe interessava. Afinal, os adultos adoram números.

Quando vocês falarem de um novo amigo, os adultos nunca vão perguntar sobre as coisas essenciais. Nunca irão perguntar, por exemplo: Qual é o som da voz do seu amigo? Quais as brincadeiras que ele gosta mais? Ele coleciona borboletas? Os adultos irão perguntar: Qual a idade dele? Quantos irmãos ele tem? Quanto ele pesa? Quanto o pai dele ganha? Só assim acreditam que podem conhecer uma pessoa. Se vocês disserem aos adultos: Vi uma linda casa de tijolos cor-de-rosa, com gerânios nas janelas e pombos no telhado…, eles não conseguirão visualizar essa casa. Será preciso dizer: Vi uma casa que custa dois milhões de reais. Aí, sim, eles vão exclamar: Essa casa deve ser linda!

Portanto, não permitam que suas ocupações diárias, a necessidade de acumular e a ganância façam com que percam a sensibilidade para o essencial. Esqueçam os números nas ocasiões em que eles forem totalmente dispensáveis.

Ao perceber a forma estranha com que o empresário conduzia sua vida, o Pequeno Príncipe resolveu ir embora daquele lugar.

O quinto planeta, de tão pequeno que era, só cabia um lampião e um acendedor de lampião. O homem acendia e apagava o lampião minuto a minuto. Esse ofício automático e corriqueiro chamou tanto a atenção do menino que ele logo quis saber o porquê de acender e apagar o objeto em períodos tão curtos de tempo. O acendedor de lampiões respondeu que era o que mandava o regulamento. Entretanto, o planeta começou a girar mais rápido e o regulamento não foi atualizado. Ainda assim, aquele homem era fiel ao que proclamava a regra.

O Pequeno Príncipe imaginou que o habitante do quinto planeta talvez fosse desprezado pelo rei, pelo vaidoso, pelo bêbado e pelo empresário, contudo reconheceu: ele é o único adulto que não me parece ridículo, talvez porque se dedica a fazer uma coisa sem se preocupar apenas com os seus próprios interesses. Este é o único adulto que poderia ser meu amigo.”

O sexto planeta era habitado por um geógrafo que se autointitulava muito importante (ele era muito vaidoso). O geógrafo ficava em seu planeta esperando que os exploradores chegassem com as informações sobre as cidades, os mares, as montanhas, os rios, os desertos e os oceanos para que enfim ele registrasse as suas anotações.
O Pequeno Príncipe se pôs a falar sobre o que existia em seu próprio planeta, como por exemplo uma flor. No entanto, o geógrafo não achou nada interessante essa informação para os livros de geografia. As flores são efêmeras, disse ao pequeno que até então não sabia que efêmera significava uma coisa ameaçada de desaparecer em breve.

Ao lembrar-se da flor que havia deixado e da efemeridade dela, o Pequeno Príncipe teve a sua primeira reação de arrependimento. Descobriu que ela era mortal. Talvez não houvesse mais tempo de recuperar a linda rosa que abandonara. Talvez, quando voltasse para o seu pequeno planeta, a flor tivesse desaparecido, pensou ele. Isso o entristeceu e ele foi embora do sexto planeta pensando na amada.

De novo, o tema da finitude nos lembra que, assim como as flores são mortais, também são mortais todos aqueles que amamos. O Pequeno Príncipe amava a rosa, mas a achava extremamente vaidosa e orgulhosa, características que o incomodavam bastante. Por outro lado, ela era bela, envolvente e perfumada. Tinha defeitos e qualidades como qualquer ser e, se possuía espinhos, usava-os apenas para se defender, ingênua que era em não perceber que eles não eram suficientes para repelir todos os males que podiam atingi-la.

Apesar de orgulhosa, antes do pequeno partir, a flor declarou a ele o seu amor e admitiu o quanto fora vaidosamente tola. Ao lembrar-se dela, pensou: Fui incapaz de entendê-la! Eu não deveria ter julgado a flor por suas palavras, mas por suas ações. Ela me oferecia seu perfume e me enchia de alegria. Eu jamais deveria tê-la abandonado! O certo mesmo era eu ter percebido sua ternura por trás daqueles truques bobos. As flores são tão contraditórias. Mas eu era jovem demais para saber amá-la.

Precisamos entender e, sobretudo, aceitar que aqueles que amamos, assim como nós próprios, têm virtudes e defeitos. Essa é uma verdade incontestável, ainda que não saibamos lidar com ela. Somos imperfeitos, mas podemos nos tornar melhores a cada dia sem que para isso precisemos abandonar os que amamos. Não deixemos o arrependimento vir tarde como veio para o Pequeno Príncipe, o qual, ao lembrar-se da possibilidade de ter perdido a sua flor, experimentou uma profunda tristeza. Que tenhamos a capacidade de aprender com a sua dor antes que tenhamos as nossas próprias dores por não observarmos os infinitos exemplos que se apresentam diante de nós.

O sétimo lugar visitado pelo Pequeno Príncipe foi a Terra. A Terra não é um planeta como outro qualquer. Existem nele cento e onze reis (não se devendo esquecer, é óbvio, os reis negros), sete mil geógrafos, novecentos mil empresários, sete milhões e meio de bêbados, trezentos e onze milhões de vaidosos, ou seja, um total de mais ou menos dois bilhões de adultos.

Ao chegar nesse intrigante planeta, o Pequeno Príncipe deparou-se com um jardim cheio de rosas. Eram rosas muito parecidas com aquela que havia deixado. O menino ficou profundamente triste, porque ela havia lhe falado que era a única de sua espécie em todo o Universo. E agora estavam na sua frente cinco mil flores muito parecidas com ela, num único jardim!

Mais tarde, ao se deparar com uma raposa, as coisas começaram a ficar mais claras para o pequeno, pois a raposa, muito astuta, explicou-lhe: Você, para mim, ainda não passa de um menino semelhante a milhares de outros meninos. Eu não tenho necessidade de você. E você também não tem necessidade de mim. Eu, para você, ainda não passo de uma raposa semelhante a milhares de outras raposas. Mas se você me cativar, nós teremos necessidade um do outro. Você será o único menino do mundo para mim. E eu serei a única raposa do mundo… Assim, o pequeno príncipe entendeu que a sua flor não era como as outras. Ela o havia cativado. É o tempo que doamos ou perdemos com algo ou alguém que torna esse algo ou alguém importante para nós. Portanto, somos sempre responsáveis por aquilo que cativamos. Somos responsáveis pelos laços que criamos.

O pequeno príncipe também achou o sétimo planeta muito estranho e fez algumas observações acerca dos habitantes da Terra:
Os seres humanos não têm imaginação. Só repetem o que os outros dizem…
Ninguém está contente no lugar onde está.
Só as crianças sabem o que procuram.
Os seres humanos embarcam num trem expresso, mas depois já não sabem o que estão procurando. E por isso começam a se agitar e dão mil voltas sem saber para onde ir…

O Pequeno Príncipe é um livro para ser lido e relido inúmeras vezes, em diversos momentos de nossa vida. Eu mesma já o li repetidamente e a cada encontro aprendo algo novo. Não é à toa que a obra tornou-se um grande clássico da literatura. O seu autor, Antoine de Saint-Exupéry, era mesmo um aviador que teve o seu avião abatido pelos nazistas durante a Segunda Guerra Mundial.

Ao saber quem era o piloto da máquina abatida, o soldado que alvejou o avião onde estava o escritor, declarou: Eu só soube depois que era Saint-Exupéry. Eu queria que não tivesse sido ele, porque todos os jovens da minha geração leram seus livros. Nós adorávamos ele.”

Talvez o Pequeno Príncipe tenha retornado ao seu planeta e encontrado a sua flor. Não saberemos se a serpente que disse levá-lo de volta cumpriu a promessa ou se usou de artimanhas para enganá-lo e destruí-lo. Prefiro acreditar que ele teve tempo de voltar para a sua rosa e pôde aprender que de nada adianta andar por todos os lugares se não temos ao nosso lado os que cativamos e amamos. O essencial não é ver paisagens, não é transitar por todos os lados, não é conhecer pessoas, as quais supomos “importantes”, mas que no final das contas não nos ensinam nada de interessante. O essencial não é dar voltas e voltas pelo mundo, pois só se ver bem com o coração. O essencial é invisível aos olhos. O que realmente importa não é o que vemos, mas o que sentimos.

Como nos ensina a Bíblia, em Mateus: Porque onde estiver o vosso tesouro, aí estará também o vosso coração. Portanto, deixo a vocês, leitores, que descubram onde estão os seus tesouros e não percam tempo de suas vidas dando voltas e mais voltas para, no final, não chegarem a lugar algum ou não terem mais tempo para retornar.

E se me permitem uma sugestão, leiam e releiam O pequeno príncipe. Retirem dele os ensinamentos que precisam para viver melhor, pois um livro é capaz de transformar a nossa vida se estivermos abertos e atentos ao que ele tem a nos dizer.

Que esse livro seja capaz de tocar o coração de cada um de vocês fazendo-lhes despertar para o que há de mais essencial. Isso é o que verdadeiramente lhes desejo.

Eu sou Aninha

Antes de ser a tão conhecida Cora Coralina, ela era apenas aquela menina feia da ponte da Lapa. Ela era mais uma Aninha dentre tantas que existiam na Cidade de Goiás. A criança, cujo pai, de tão velho e doente, morreu logo após o nascimento da filha. Aninha, a menininha de pernas moles que vivia a cair pelos cantos sem ninguém que a colocasse novamente em pé. Aquela que se sentia pouco querida e a menos amada dentre as quatro filhas de sua mãe.

Seu nome de registro era Anna Lins dos Guimarães Peixoto, pois na Cidade de Goiás se mostrava bastante comum dar o nome Anna para muitas meninas que nasciam, em homenagem à padroeira da cidade, Santa Ana. No entanto, invadida pela vaidade que costuma habitar os escritores, a velha musa goiana decidiu por adotar o pseudônimo Cora Coralina, não só pelo desejo de diferenciar-se por seus pensamentos e sua poesia, mas também por apresentar-se com um nome que mais ninguém possuía. Eram muitas as Anas, de modo que podiam atribuir seus versos a uma que fosse mais bonita que ela. Assim, decidiu-se por Cora Coralina, que não possuía xarás. Bons ou ruins, seus versos não poderiam ser concedidos a outra que não ela própria.

Nascida na Casa Velha da Ponte, Cora passou a infância cercada por muitas mulheres da família, as quais queria, cada uma, exercer autoridade sobre ela. Via as ruas da cidade pela janela, quando deixavam, e o quintal com bichos e plantas acabou sendo o único lugar onde exercia o seu ludismo. Impossibilitada de estar na companhia de outras crianças e, também, das irmãs, que escapavam de Cora às escondidas, ela passava horas e horas a brincar nos fundos da casa. Talvez, essa tenha sido a causa principal de seu interesse pela Natureza, que perpassou toda a sua vida, somada ao fato de ter morado por um tempo no sítio dos avós, no momento em que as economias da família tornaram tão escassas que necessitaram alugar a Casa da Ponte, e Jacinta, sua mãe, precisou pedir auxílio e moradia junto aos seus pais, avós de Cora.

Em decorrência dessa migração para o campo, Cora só estudou algumas séries do primário. Ela confessou que tinha muita dificuldade de aprender e só conseguiu vencê-la pela bondade e paciência de uma professora, para a qual, mais tarde, ofereceu um de seus livros. Só foi apresentada às regras do Português muito tempo depois pelos seus próprios filhos, e ao narrar esse episódio, não se envergonha de dizer que, se dependesse de gramática, jamais escreveria. Sua escrita fazia-se de forma intuitiva, em obediência apenas às suas observações, aos seus pensamentos e sentimentos.

No sítio dos avós, Cora tinha muito o que observar e havia tempo para se dedicar aos seus versos, os quais começaram a ser escritos quando tinha catorze anos de idade. Apesar da espontânea criatividade literária, seus parentes duvidavam de sua capacidade e chegaram a cogitar que aqueles escritos não eram de sua autoria, mas de um primo o qual consideravam mais inteligente. Cora não era incentivada pelos familiares, muito menos recebia o apoio de algum deles para continuar a escrever. Se alguém acreditava em sua produção, esse alguém era ela mesma. Sentia uma força interna brotar de dentro de si. Sentia um impulso vindo de seu interior e, por mais que não recebesse o reconhecimento dos seus, ela não tinha dúvidas de que um fogo artístico incendiava as suas veias.

Quando a família voltou para a Cidade de Goiás, Cora teve a oportunidade de participar de eventos literários promovidos na cidade. Além da escrita, a leitura era uma de suas ocupações favoritas. Ela lia muito. Ler era uma atividade para a qual sua mãe também se entregava bastante. Talvez Jacintha, em virtude das frustrações de ter perdido dois maridos e das dificuldades que precisou enfrentar para criar as filhas, fora impossibilitada de se dedicar à produção literária. No entanto, legou à Cora esse desejo, que a despeito de também ser cercadas por inúmeros obstáculos, venceu todos eles, recolhendo cada pedra que aparecia em seu caminho e utilizando-se delas para construir a escada na qual subiria por toda a vida.

Foi num desses encontros literários que Cora conheceu Cantídio Brêtas e viu no casamento uma oportunidade não só de ser mais livre, por se desprender das celas familiares, como também a chance de abandonar a solteirice, visto que um de seus confessados medos era o de não arrumar um marido.

No entanto, Cantídio era divorciado. Casar-se com ele seria um escândalo sem precedentes numa cidade marcada pelo conservadorismo e pelos antigos costumes. Mas deixar passar essa ocasião, poderia representar um risco de permanecer para sempre presa às imposições e aos desmandos das outras mulheres da família, cheias de antigas crenças e de limitações que tentavam repassar aos mais moços por acreditarem que estavam fazendo a coisa certa.

Movida por um intenso desejo de se desprender das garras autoritárias em que vivia, Cora encheu-se de coragem e, num determinado dia, antes do sol nascer, sobre o lombo de um cavalo, deixou a Cidade de Goiás, acompanhada de Cantídio, e partiu rumo ao estado de São Paulo, estabelecendo moradia na cidade de Penápolis, lugar em que moraram por muito tempo e onde Cora criou os seus filhos.

Se sua família a limitava, Cantídio também não lhe afrouxou as rédeas. Em entrevista, Cora declarou que saiu das garras dos parentes para as do cônjuge, o qual sentia ciúme doentio. Cora continuou a escrever, mas seus textos não podiam ser publicados por expressa imposição do marido. Para ela, escrever era uma forma de comunicar-se com os outros. Soltar os seus pensamentos para o mundo a motivava e, já que estava proibida de publicá-los, faria menos versos e passaria a plantar e vender flores.

Cora empenhou-se na arborização da cidade de Penápolis. Preocupava-se muito com questões ecológicas e ambientais. A natureza devia ser preservada. O seu olhar atento e perscrutador jamais deixaria escapar o entendimento de que todos os seres estão interligados e que é preciso não só cuidar uns dos outros, mas também preservar e zelar por todas as coisas que existem.

Católica, passou a fazer parte da ordem franciscana, onde assumiu o compromisso com os pobres e os desvalidos. Sempre disposta a ajudar os menos favorecidos, grande parte de sua poesia foi dirigida às pessoas que a sociedade costuma não enxergar ou desprezar. Prostitutas, agricultores, presidiários, idosos, menores abandonados constituíam-se matéria para os seus textos e pessoas para as quais direcionava ações benevolentes. Inclusive, Cora ajudou na construção de um asilo para idosos em Penápolis.

Também fixou moradia em São Paulo capital, com o intuito de acompanhar os filhos que precisavam estudar em escolas melhores. Apenas após a morte de Cantídio e o crescimento de suas crias, Cora se viu livre para realizar alguns desejos que precisaram ficar adormecidos enquanto esteve casada e se ocupava da criação e da educação das crianças.

Ser mãe foi uma de suas grandes realizações. Cora valorizava a função materna e escreveu um poema onde aconselhou às mães cuidarem de seus filhos em vez de mandá-los para uma creche, lugar que considerava frio e impessoal. Ela criou cinco filhos e conseguiu oferecer a eles bons caminhos, como fruto da dedicação e do esforço a eles direcionados.

O espírito bandeirante de Cora Coralina novamente infundiu-lhe ânimo para se mudar mais uma vez de cidade. O destino foi Andradina, também no estado de São Paulo. Mudou-se para lá quando o lugar estava em plena construção. Para se sustentar, abriu um comércio de tecidos e se empenhou em mover os demais colegas do ramo, todos homens, no sentido de fundarem uma associação dos comerciantes.

Cora fez muitas amizades em Andradina, mandava os seus textos para os jornais, no entanto ainda não havia publicado nenhum livro. Comunicava-se com parentes da Cidade de Goiás, por meio de cartas. Quando retornou à terra natal, primeiramente para tratar de questões de herança, após a morte de sua mãe, e depois, para morar na cidade de forma definitiva, quase não conhecia mais ninguém e ninguém a conhecia.

Após quarenta e cinco anos distante da Cidade de Goiás, Cora voltou sozinha vestida de cabelos brancos, em busca de suas raízes. Recomeçaria uma nova vida na Casa Velha da Ponte. Para isso, precisava desenvolver alguma atividade que lhe desse sustento, pois ainda que escrever animasse o seu espírito, disso não resultava nenhuma renda que lhe pudesse fazer descansar sem maiores preocupações. Além do mais, desejava adquirir para si a casa onde nascera e, para isso, precisava se empenhar e juntar o dinheiro para comprar os quinhões pertencentes aos demais herdeiros.

Assim, entregou-se com muito entusiasmo à feitura de seus doces cristalizados, que ficaram conhecidos muito além dos contornos de Goiás, chegando até mesmo à apreciação do Papa, no Vaticano. Entre doces e poemas, Cora levava uma vida simples, mas digna.

Em seus versos, ela deixou registrado a concretude de sua vida cotidiana, que se fez por meio da remoção de pedras e da plantação de flores. Espalhou suas sementes nos lugares em que passou, empenhou-se na realização de boas obras. Fez poemas, doces e amizades.

Desejosa de publicar um livro, dirigiu-se a São Paulo e, pessoalmente, bateu em portas de muitas editoras, as quais agiam com descaso ou negava-lhe suas investidas, tempos depois de deixá-la à espera. Apenas aos setenta e seis anos de idade, conseguiu publicar o seu primeiro livro Poemas dos Becos de Goiás e estórias mais.

Cora se aproveitava das ocasiões em que os clientes iam à Casa Velha da Ponte comprar doces e oferecia-lhes também os seus livros. Em vida, publicou apenas três. No entanto, quase nenhum reconhecimento foi dado a suas obras. Na Cidade de Goiás, a atenção que recebia provinha dos mais jovens. Por ter sido uma mulher com pensamentos à frente do seu tempo e ter tido a coragem de expor os problemas da cidade, foi incompreendida pelos mais velhos. Ela também não fingia gostar deles, e falava em alto tom que acreditava mesmo era na juventude que a abraçou tão carinhosamente.

Ela, no entanto, não era dada a reclamações ou queixas de qualquer ordem. Seguia sua vida em meio às dificuldades, aproveitando cada uma delas como uma oportunidade de aprendizado. O otimismo e a esperança eram as suas armas. Acreditava que o melhor estava por vir.

Cora não se considerava velha, não queixava dores nem amarguras. Sua boca se abria apenas para dar bons conselhos e pronunciar palavras de alegria, fé e entusiasmo. Diante dos percalços que lhe surgiam, lutava e vencia-os com a sua grande força que mal cabia em sua aparente fragilidade. Seu tom de voz era alto e firme como quem sabe que tem o poder de alcançar lonjuras.

O reconhecimento de Cora Coralina somente ocorreu depois que Carlos Drummond de Andrade, ao tomar conhecimento dos poemas da musa goiana, mandou-lhe uma carta e publicou um texto onde demonstrou o seu apreço pela produção da escritora. Carlos ficou tão encantado com a força dos versos da menina feia da ponte da Lapa, que chegou a afirmar ser Cora Coralina a pessoa mais importante de Goiás, coração do Brasil.

A partir daí, Cora passou a ser condecorada em vários cantos do país. Recebeu prêmios, convites, visitas de famosos e aclamações oriundas de toda parte. Próximo ao fim de sua vida, ocupou-se de muitos eventos literários, os quais comparecia a todos utilizando-se do respaldo de uma muleta, objeto sobre o qual também dedicou um poema.

Cora escreveu que o importante na vida não é o ponto de chegada, mas a caminhada. Que devemos remover as pedras do caminho, plantar flores e espalhar boas sementes por onde quer que passamos. Cora também afirmou que é preciso recomeçar, lutar e jamais desistir. Renunciar os pensamentos negativos, ser otimista, tocar o coração das pessoas, aprender a viver.

Seu triunfo, embora tardio, não foi menos sentido e aproveitado. Cora viveu noventa e cinco anos de forma muito intensa e dedicava-se com amor e disposição a tudo aquilo que se propunha fazer. Para ela, o trabalho era uma das coisas mais importantes da vida, porque dá dignidade às pessoas. Trabalhou duro, criou seus filhos, escreveu seus versos e deixou grandes lições decorrentes de sua vida e obra.

Perguntada se valera a pena viver muito, respondeu que sim. Se não tivesse percorrido todos esses anos, não teria visto concretizar a certeza que tinha dentro de si de que era uma escritora singular, única, inimitável, inconfundível e que tinha muito a dizer e se fazer ouvir.

Cora não era uma Ana como as muitas outras da Cidade de Goiás. Ela era a Aninha, que a despeito da cara empapuçada, das pernas moles, de ser chamada de inzoneira e tantos outros pejorativos, não se esquivou de assumir a grandeza de ser Cora Coralina, a grande mulher, escritora, doceira e poeta.

Cora proferiu, em vida, o desejo de ser única. E mesmo após a sua morte, conseguiu manter a sua personalidade preservada. Se indagarem por aí sobre a existência de alguma Ana, provavelmente não haverá individualização possível. Mas se perguntarem por Cora Coralina, ninguém há de duvidar que se trata de uma das poetas de maior renome, pertencente à literatura goiana e brasileira.

Suportai-vos uns aos outros

Quando ouço alguém dizer que não gosta de uma determinada pessoa, a primeira coisa que procuro saber junto a esse alguém é o motivo que o faz não gostar dessa pessoa, pois, a meu ver, é óbvio que há de existir uma razão justa, grave e convincente que justifique o desagrado. Então, pergunto-lhe: o que fulano fez de mal para você? Geralmente, a resposta é vaga e imprecisa. E, quando muito, acompanhada de algo do tipo: Ah! Não vou com a cara.

Causa-me espanto e perplexidade a descoberta de que possa haver entre os humanos antipatias gratuitas, desprovidas de um acontecimento sério, capaz de macular e prejudicar o caráter das relações. Além do mais, ao sondar-me interiormente em busca de um nome que figure na minha lista dos não gostáveis, encontro-a vazia, sem um registro sequer que aponte pelo menos um João ou uma Maria dos inúmeros e popularmente conhecidos que existem por aí.

Isso significa que gosto de todas as pessoas que me são apresentadas? Pois bem, isso tão somente quer dizer que tenho apreço por aquelas com as quais mantenho algum tipo de relação ou amizade, por outro lado, nada tenho a externar contra as pessoas que não possuo afinidade ou contato. Quanto a manifestar desapreço por alguém que jamais tenha me causado algum mal, a mim parece que agir de tal forma em nada condiz com aquilo no qual acredito.

Conceber a existência de um ser responsável por criar todas as coisas que há no mundo, um ser supremo cuja onipotência incide sobre tudo e cuja onipresença perpassa a infinidade das coisas que está dentro e fora de nós, leva-nos a concluir que, se nos autointitulamos pertencentes a essa divindade, sobre a qual nos referimos muitas vezes como sendo os seus filhos, isso implica reconhecer que ela também está presente em tudo o mais, inclusive naquele contra o qual desferimos ódio ou desprezo.

Ao realizarmos uma avaliação de nós mesmos é comum nos concedermos uma nota muito além do que outros nos atribuiriam. Somos míopes para enxergar os nossos próprios defeitos, mas usamos uma lupa de última geração quando se trata de medir os demais. Dessa forma, costumamos explicar nosso menosprezo por alguém utilizando-nos de justificativas que, embora rasas, apontam que o motivo pelo qual não gostamos de uma pessoa provém de algo que emana dela própria, de modo que a impede de ser aceita ou amada. Jamais diríamos, nem sob tortura, que, se desprezamos alguém que nada de mal nos fez, isso se deve à dificuldade que temos de aceitar tudo aquilo que não representa para nós um espelho.

No entanto, ao olharmos em volta, é mais fácil nos depararmos com diferenças do que com igualdades. Se é verdade que somos constituídos fisicamente da mesma matéria frágil e decadente, e que um só espírito perpassa todos nós, tanto essa matéria quanto esse espírito se manifesta diferente em cada pessoa, de maneira que, se não aceitarmos a realidade a qual consiste em admitir que ninguém é igual a ninguém, passaremos nossas vidas a ignorar todos aqueles que parecem atentar contra nós pelo simples fato de respirar e existir de modo diverso do nosso.

É inconcebível afirmarmos que amamos um Deus, que a tudo criou, ao mesmo tempo em que nos voltamos contra um ser objeto de sua criação. Experimente dizer a um pai ou a uma mãe que não gosta de um de seus filhos. Valho-me desse exemplo para tentar ilustrar a forma como imagino que Deus recebe a notícia de nossos desafetos, quanto mais os infundados.

Nesse momento, imagino ser impensável vislumbrar um mundo onde todos se abracem e se amem sem impor condições. A própria natureza humana, inclinada para os conflitos, ainda não se mostra apta para dar um passo tão grande e, apesar de soprar constantemente a chama da esperança para que ela nunca morra, não consigo vislumbrar o dia em que alcançaremos patamar tão elevado. No entanto, nada impede que nos entreguemos a uma constante reflexão sobre a máxima suportai-vos uns aos outros, pois se, por um lado, a nós parece existir pessoas insuportáveis, é verdade que nós também podemos parecer insuportáveis aos outros.

O amor que rejeito

Quem, em sã consciência, pode dizer não ao amor? Esse tão falado e cantado sentimento, sob as mais diversas formas, parece ser uma das coisas que mais buscamos em toda a nossa vida. Após o acalento e a proteção com que somos envolvidos pelos braços maternos tão logo chegamos ao mundo, passamos por toda a existência a desejar uma espécie de aceitação, acolhimento e cuidado semelhantes aqueles que nos foram devotados nos primeiros anos de vida.

Crianças, somos envoltos a muita atenção e zelo, até que a adolescência chega com a sua fremente necessidade de individualização e, não raro, nos distanciamos dos pais e demais adultos, numa tentativa de entendermos a nós mesmos e o mundo que nos cerca, criando nossas próprias amizades e entrando em contato com as pessoas que mais sentimos pensar e se comportar do modo mais parecido conosco. Nesse momento, há uma ruptura não só de ordem emocional em relação aos pais, mas também física. Muitas vezes, nem mesmo permitimos aqueles beijos e abraços que amávamos dar e receber ao tempo em que éramos infantes.

No entanto, se por um lado nos afastamos ou recusamos de nossos pais as atenções e os mimos de outrora, buscamos que outras pessoas nos ofereçam algo similar. E se não recebemos esses cuidados de nossos progenitores durante a infância, passamos a vida a procura de algo que preencha essa lacuna imposta. Tendo recebido ou não o amor durante os primeiros anos de vida, partimos à sua busca. E se não o encontramos, nos valemos de outras coisas com as quais tentamos persuadir o nosso desejo de sermos amados.

Em seu livro, O trauma do nascimento, Otto Rank afirma que todos os nossos esforços durante a vida se voltam para recriar a situação de proteção, segurança e amparo que experimentamos quando estamos no útero materno. O trauma do nascimento representa o desamparo em que nos vemos e que é materializado com a primeira das rupturas em relação às nossas mães. Após o corte do cordão umbilical, não somos mais uma só carne. Assim, o autor insinua que, ao nos relacionarmos com outras pessoas, estamos sempre em busca do paraíso do útero, o qual fomos expulsos sem escolha ou consentimento, e mais, sem termos cometido qualquer ato pecaminoso ou desobediente pelo qual poderíamos ser punidos.

Por vontade deliberada ou não, o fato incontestável é que nascemos, e a partir daí passamos a sentir todo o afeto que nos é direcionado. Há quem diga, inclusive, que o bebê consegue sentir as emoções maternas quando ele ainda está no ventre. Portanto, em sendo verdade, ele receberia os estímulos que já o fariam sentir-se amado ou rejeitado antes mesmo de nascer.

Se o amor é o que todos nós desesperadamente perseguimos ao longo da vida, cabe pois a pergunta que não quer calar: O que é esse tal de amor? Amor é mesmo esse fogo que arde sem se ver como poetizou Camões? Amor é chama que não dura por toda a vida conforme os dizeres de Vinícius de Moraes? É a possessão com que Bentinho foi capaz de acusar a amada? É o ciúme que levou Otelo a aniquilar sua esposa? É a prisão com que muitos cerceiam a liberdade do outro ser, sob a justificativa de amá-lo? É retaliação e desejo de transformar alguém na ideia que temos de como o outro deveria ser?

Afinal de contas, o que é o amor? É um sentimento que nutrimos? Ou é aquilo que fazemos em prol de alguém? Ou somos impulsionados a fazer em virtude do sentir? Sentimento e ação? Ou a ação seria tão somente a materialização do sentimento? Substantivo? Verbo? Não sei bem ao certo. A única coisa que realmente sei é que algumas das variadas formas como ele se apresenta ou é utilizado para justificar a atitude de uma pessoa com relação à outra, não me agrada nem um pouco.

Para mim, não é amor aquilo que cerceia, prende, impõe, ameaça. Não é amor o que agride, ofende, fere, machuca e destrói. Não é o que repreende, exige, censura e procura virar a pessoa pelo avesso a fim de transformá-la numa indefinição de si mesma. Amor não é algo que anula, antes realça. Não é algo que humilha, mas eleva. Não é intolerância e acusação, posto que se fundamenta melhor na compreensão. Não se esconde, mas revela. Ele não se baseia numa lógica matemática, nem em práticas de escambo. Esses tipos de amor, não só os recuso, como fujo deles – e reitero, antes peço desculpa pela expressão, fujo deles como o diabo foge da cruz.

Clarice Lispector disse: Porque eu fazia do amor um cálculo matemático errado – pensava que, somando as compreensões, eu amava. Não sabia que, somando as incompreensões é que se ama verdadeiramente. Porque eu, só por ter tido carinho, pensei que amar é fácil. Para a escritora, o amor é a soma das incompreensões e, por isso, amar é tão difícil.

Charles Baudelaire foi mais longe: todo amor é prostituição e exige adoração e sacrifício. Assim, ele também reconhece a dificuldade que é amar.

E amar torna-se mais árduo se levarmos em conta o que está escrito em Coríntios, cuja definição de amor faz dele um sentimento, a meu ver, mais autêntico e, por isso mesmo, menos concebível diante da nossa imperfectibilidade:

O amor é sofredor; é benigno; o amor não é invejoso; o amor não trata com leviandade, não se ensoberbece. Não se porta com indecência, não busca os seus interesses, não se irrita, não suspeita mal; não folga com a injustiça, mas folga com a verdade; tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta.

É tão difícil alcançar a concretude do significado da palavra amor que acabamos, muitas vezes, por conceituá-lo levando-se em conta tudo aquilo que ele não é. No entanto, é justamente essa abstração, marcada pela falta de contornos possíveis para defini-lo, que nos faz buscá-lo continuadamente, sem nunca sentirmos que, de fato, ele está preso em nossas mãos.

Daí ser o amor o nosso eterno anseio. E se é verdade que o buscamos desde o momento em que fomos expulsos do Jardim do Éden, ou melhor, do ventre materno, certo é que, apesar de todos os nossos esforços, não mais voltaremos a esse lugar.

Tem certeza que ter um filho te torna melhor para o mundo?

Creio que há diversas formas pelas quais podemos nos aperfeiçoar enquanto pessoas e, por consequência, tornar melhor e mais suportável esse mundo em que habitamos. E, creio também, que esse empenho não precisa estar vinculado necessariamente à concepção de um filho sobre o qual muitos justificam que sua existência os tenha tornado melhores. Quando ouço alguém afirmar tal coisa, pergunto-me: melhores para quem? E, não raro, a resposta aparece sem que, para isso, eu tenha que muito pensar: melhores para si mesmos ou para as próprias crias. Para mais ninguém.

Você não está sendo muito impiedosa ao afirmar-se nesses termos? – pergunta-me uma voz. Porém, ao observar os quatro cantos, tudo me leva a crer que não. Cabe, pois, a mim, explicar.

Dos homens, não costumo escutar declarações no sentido de que, ao terem um filho, eles se tornaram pessoas dotadas de características que não as de outrora. Eles não se autodeclaram mais bonzinhos do que antes. O mesmo não se pode observar com relação às colocações femininas, quando as mulheres se põem a listar todas as transformações porque passaram ao se tornarem, voluntária ou involuntariamente, mães. Elas, creio que de maneira totalmente inconsciente, não percebem que suas declarações são carregadas de egoísmo que, embora marcado por muito afeto, o qual costumam intitular de amor, é voltado apenas e tão somente para duas pessoas: diretamente, para seus filhos. Indiretamente, para elas mesmas.

Deixo-lhes claro que não me restam dúvidas sobre a intensidade do amor materno. Creio ser o maior dos sentimentos que podemos passivamente experimentar na qualidade de filhos, salvo em casos excepcionais de mães que não os amam ou não manifestam seu amor por motivos que, muitas vezes, escapam ao nosso conhecimento.

Volto a dizer-lhes: meu questionamento nunca se ateve à força com que uma mulher ama a sua cria, mas quanto à abrangência desse amor, o qual não ultrapassa os limites do ser que ela própria gerou. O amor de mãe é o mais restritivo de todos, porque a obriga a limitar o seu campo de cuidado, proteção e dedicação. Ela realmente se coloca em segundo lugar para dar atenção ao ser que acaba de nascer e que precisa dela mais do que de qualquer outra pessoa. Ela é capaz de loucuras, de se doar, de cometer crimes, de enfrentar muitos obstáculos e dificuldades, mas tudo em nome de outra vida que é meramente uma extensão de sua própria vida. Essa afirmação pode ser confirmada por um trecho de Montaigne: Nunca vi um pai, por corcunda ou tinhoso que fosse o filho, deixá-lo por seu. Não, entretanto, por estar cego pela afeição e não se aperceber do defeito, mas tão somente porque é seu.” Amamos, pois, o filho, tão somente e obviamente por ser nosso.

A mim, parece um tanto quanto óbvio quando escuto uma mãe dizer que é capaz de tudo por seu filho. Eu penso: mas é algo bem evidente. Causaria espanto ou admiração caso ela dissesse que seria capaz de tudo por alguém que não se alimentou de sua própria placenta. Quando diz isso, ela apenas confirma que está inteiramente voltada para o seu próprio centro, por intermédio de um outro ser. Que seja!

Ouço mulheres dizerem que, após serem mães, deixaram de julgar outras mulheres, pois, ao exercerem a tarefa de educar uma criança, perceberam o quão difícil é estabelecer limites ou fazer com que ela obedeça. Somente a partir daí, elas balbuciam aquela tão famosa frase: Filho não vem com manual de instrução. Isso serve para se justificarem, pois as normas de educação que elas tinham nas cabeças, com as quais ensinavam as outras mães, não serviram nem mesmo para criarem os próprios filhos.

Disso resulta a pergunta: precisa ter filho para saber que cada pessoa é diferente e exige tratamento e abordagens diversas que orientem e moldem o seu comportamento? Não basta o mandamento “não julgueis”, que, entre outras coisas, quer nos mostrar a necessidade de não apontarmos o dedo para o outro, tendo em vista que a nossa natureza humana similar pode nos fazer cair na mesma armadilha em que o nosso semelhante foi capturado? Não basta a observação de nós mesmos para verificarmos que cometemos muitos atos, os quais censuramos quando executados por outrem? Repito: não é preciso conceber um filho para pensarmos no quanto somos malignos quando usamos nossa liberdade para acusar. Mas a impressão que tenho é que as mães só param de julgar outras por saberem que elas correm um sério risco de agir do mesmo modo que recriminam. Sendo assim, é melhor fechar a boca mesmo.

Há ainda as mães que ousam ir mais longe ao afirmarem que, quando tiveram filhos, passaram a não dar importância a coisas pequenas, sem nunca explicarem ao certo o real significado dessa expressão ou o que ela comporta. No meu entendimento, as tais coisas pequenas são todas aquelas que não estão de algum modo relacionadas a seus filhos. Tudo o mais se torna ínfimo em volta dessa mulher que se encontra estonteante e presa a seu menino na manjedoura, mas jamais tendo a intenção de entregá-lo a quem quer que seja por amor à humanidade. Cada um que pague pelos seus pecados.

Muitas mulheres continuam a afirmar que se tornaram melhores e mais empáticas com o advento da maternidade, e se isso realmente acontecesse, eu seria a primeira, no auge de minha fertilidade, a me oferecer para cumprir esse papel capaz de fazer de alguém um ser por demais imaculado. Mas não é o que observo. Sou rodeada de pessoas o suficiente para perceber que os afetos são um tanto complexos e mexem com as emoções de modo que não nos tornamos tão bonzinhos quando somos tocados por esse tal de amor. Se por um lado queremos proteger um ser sobre o qual nossos sentimentos se destinam, por outro, atacamos e agredimos qualquer pessoa que o ameace ou o ofenda.

A mulher com o seu bebê no colo, não sai da maternidade disposta a perdoar os seus inimigos, a amar aqueles que mais a irritam, a ser mais condescendente com as fraquezas alheias, a sorrir para os que lhe desagradam. Ela não pensa em doar-se aos pobres, alimentar os famintos, abrigar os desvalidos, visitar as demais crianças no orfanato, cuidar dos velhinhos e mover moinhos e redemoinhos para fazer desse mundo um mundo mais justo e mais igual.

Algumas mulheres que resolveram ter uma participação mais ativa na sociedade, inclusive, abriram mão de ser mães, pois sabiam quão restritivas e indisponíveis se tornariam para doar tempo e vida a causas e pessoas, tendo que cuidar dos próprios filhos. Eles precisam de suas mães e elas querem se dar a eles tanto quanto podem e, mesmo quando doam mais que podem, ainda sentem-se culpadas por todas as coisas que os afligem. A mãe carrega por toda a vida sentimentos de culpa que dão a ela aquele ar preocupado, o qual me faz tão logo perceber se tratar de uma mãe.

Lucinha Araújo conta que só fundou a Sociedade Viva Cazuza, destinada a cuidar de crianças com AIDS, após perder o seu único filho. Mesmo que essa instituição se justificasse apenas pelo fato de o ter perdido em virtude dessa doença, ela poderia, estando ele vivo, ter se voltado para outras caridades. No entanto, estava tão mergulhada no amor, na proteção e no cuidado direcionados a ele que jamais teria pensado em se doar com tanto afinco a outras pessoas. Enquanto Cazuza existia, era só quem ela conseguia avistar. Quando ele morreu, essa mãe estendeu o alcance de sua visão, ainda que em prol de eternizar a lembrança do filho cantor.

Nada tenho contra o livre direito de uma mulher gerar tantos filhos quantos queira, mas a altivez com que muitas insinuam que se tornaram melhores pelos motivos que expus nunca me convenceram, pois não condiz com a realidade. E como eu gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo, como bem diz Fernando Pessoa, não poderia deixar de realizar essas considerações que creio importante anotar.

E se um dia eu me tornar uma mãe tão cheia de presunção e incapaz de julgar-me com os mesmos parâmetros com os quais julgo outras, que eu me lembre de escrever um texto confessional, onde eu tenha a humildade e a coragem de me retratar.

Apresento-lhes uma grande mulher

Se apresento-lhes alguém sobre quem digo se tratar de uma grande mulher, preciso antes de mais nada esclarecer o que para mim significa ser grande. Ao ler a biografia de Simone de Beauvoir e pesquisar mais informações a respeito de sua vida e de sua obra, saltou-me aos olhos algumas percepções que me fez admirá-la como mulher e filósofa, a despeito de outras coisas, as quais provam que, por maior que seja uma pessoa, ela está sujeita a enganos, erros e equívocos, como todos nós. No entanto, nada disso diminui a sua importância, principalmente por reconhecê-la como alguém que teve a audácia e a coragem de tocar em assuntos delicados, sobre os quais muitos homens e mulheres se calavam.

Simone se interessou pelos livros desde a infância e, tanto ela como a irmã Hélène, receberam o incentivo de seus pais para estudarem. No entanto, tempos depois, eles se manifestaram contrariamente quando Simone revelou o seu desejo de estudar Filosofia. Com relação a isso, ela simplesmente os ignorou. Não tocou mais no assunto com eles, mas estudou, prestou o exame de Filosofia, conseguiu a aprovação dentre os primeiros colocados e se dedicou ao estudo daquilo que quis.

Ainda menina, ela já se interessava por questões filosóficas e chegou até mesmo a confrontar o seu pai numa discussão a respeito do que se entendia por amor. Para ela, não interessava o amor tal qual as pessoas o pintavam ou como afirmavam vivê-lo. O amor parecia muito mais uma prisão, na qual as pessoas se submetiam a obrigações e deixavam de lado os seus interesses, desejos e a própria vida.

Ela teve a oportunidade de perceber isso bem de perto, ao observar a relação de seus pais, e compreendeu nesse momento, ainda que de forma embrionária, que o casamento se mostrava mais danoso e prejudicial às mulheres que aos homens. Durante toda a sua vida, ela não quis se casar nem ter filhos. Dedicou-se inteiramente à filosofia, ao amor na sua forma livre e a causas que tinham por objetivo libertar as mulheres de prisões familiares, sociais e econômicas. Um de seus questionamentos era: até que ponto posso me dar ao outro sem provocar danos e anular partes de mim mesma?

Quando escreveu Uma morte muito suave, obra em que narra a morte de sua mãe, Simone revela que um dos arrependimentos de Françoise ao fim de sua vida foi ter se dedicado muito aos outros em detrimento de suas próprias vontades e anseios. Diferente da mãe, a filha viveu comprometida consigo e se manteve fiel aquilo em que acreditava, apesar de ter que confrontar não só os familiares, mas também a sociedade hipócrita e conservadora da época.

Aos vinte e um anos de idade, Simone conheceu aquele com quem manteria um relacionamento incomum para o resto de sua vida. Trata-se de Jean-Paul Sartre, à época, igualmente estudante de Filosofia. A ligação entre os dois revela uma história de amor, em moldes não tradicionais, cumplicidade e, sobretudo, lealdade. Apesar de terem se relacionado intimamente por um período, o sexo não era de fato o que os unia. Simone chegou a revelar que Sartre era animado e empolgado em muitos momentos e situações, menos na cama.

Na verdade, eles parecem ter sido muito mais companheiros e amigos intelectuais do que qualquer outra coisa. Tanto Simone quanto Sartre eram livres para se dedicarem a outras pessoas, que poderiam ser homens ou mulheres. Ela manteve relações com algumas de suas alunas, o que lhe rendeu acusações por parte dos pais das estudantes e de representantes das escolas. Numa dessas instituições, Simone foi demitida. As mulheres com as quais ela se relacionava eram apresentadas a Sartre, que também mantinha com elas uma espécie de intimidade. Uma delas acusou Simone de prepará-las para entregá-las nas mãos dele como alguém que amacia uma carne para ficar mais fácil na hora em que o outro for degustar.

Sartre propôs a Simone um pacto de relacionamento aberto: entre os dois haveria um amor permanente essencial, onde eles seriam fiéis entre si, no entanto poderiam ter outros casos. No final, eles sempre se reencontravam. Num desses relacionamentos contingentes, Simone percebeu que estavam causando danos a outras pessoas e isso começou a agitá-la. O seu pacto com Sartre sempre se preservara. E quanto aos outros? Esse pensamento a inquietou por um tempo, a ponto de fazê-la pensar sobre a influência que exercemos na vida das pessoas com as quais nos relacionamos. Até que ponto nossa liberdade atinge e reflete na liberdade alheia. Daí a sua famosa frase: Querer-se livre é também querer livre os outros.

Simone se engajou na luta para que as mulheres pudessem ser mais livres. Não é que acreditava numa única maneira de viver e se oferecia como modelo para as demais. Enfim, não desejava que vivessem como ela mesma decidiu viver e se comportar, no entanto sabia que muitas delas encontravam-se subjugadas numa sociedade cujo sistema, em todos os setores, relegava à mulher um papel secundário. Dessa percepção surgiu o seu mais conhecido e polêmico livro intitulado O segundo sexo.

Ela afirmou que desconhecia os maiores problemas que afetavam as mulheres, uma vez que os ambientes por onde andava não lhe davam mostras do que ocorria nos porões das demais casas. Mas quando publicou O segundo sexo, no qual apontava o papel inferior exercido pela mulher na sociedade, passou a receber cartas onde mulheres relatavam as situações que enfrentavam por estarem inseridas em lugares e relações que as hostilizavam e as submetiam.

Sua mais célebre frase retirada dessa obra é: Não se nasce mulher, torna-se mulher. Isso em nada significa que Simone não reconhecia a diferença biológica entre os sexos ou a importância que a mulher tem para a continuação da espécie, na qualidade de mãe. O que ela afirmava é que muitos dos comportamentos e funções atribuídas às mulheres ou delas exigidas, principalmente no ambiente doméstico e com relação a questões de feminilidade, não passavam de algo que fora imposto para afastá-las da participação mais ativa no mundo em que viviam. Longe de dizer que as atividades domésticas não são importantes, mas elas raramente são valorizadas e não geram valor econômico que poderiam dar às mulheres algum tipo de independência financeira.

Se uma mulher deixa de trabalhar para cuidar da casa e dos filhos, em caso de os seus maridos as abandonarem, elas não teriam uma renda que pudesse sustentá-las e se veriam desamparadas. Ou, caso elas não quisessem mais viver com esses homens – por motivos que não nos interessam nem cabe a nós opinar, não poderiam exercer livremente sua escolha por estarem economicamente presas a eles. Assim, cabe a pergunta: qual a diferença entre uma mulher que disponibiliza o seu corpo como meio de obter dinheiro e aquela que continua com um homem tão somente porque dele depende financeiramente para viver?

Além de defender a participação das mulheres na atividade produtiva, como forma de facilitar o exercício da independência para realizar as suas escolhas, Simone também se manifestava no sentido de conceder a elas a possibilidade de serem sexualmente livres. A mulher não deveria ser vista apenas como um objeto de satisfação e prazer masculinos, mas a ela deveria ser permitido comunicar ao parceiro seus desejos e vontades sem que houvesse nisso qualquer tipo de julgamento ou pudor. A relação entre homem e mulher deveria ser de reciprocidade e não de submissão ou autoridade, uma vez que ambos são sujeitos e não meros objetos a serem moldados à custa de tirania e opressão.

Em suas palestras, Simone falava também sobre o uso de contraceptivos e o aborto. Na concepção dela, os anticoncepcionais deveriam ser permitidos e comercializados a todas as mulheres, independente de serem ou não casadas, e o aborto deveria ser legalizado como forma de impedir que tivessem filhos indesejados ou tentassem abortá-los em condições precárias e desprovidas de segurança. Defendia a ideia de um planejamento familiar, pois imaginava que seria muito difícil para uma mulher engravidar por acaso, uma vez que isso a afastaria de suas possibilidades fora do circuito da casa ou lar.

As ideias de Simone foram incompreendidas não só pelos homens. Algumas mulheres se identificavam com os apelos e as propostas de mudanças que ela sugeria, no entanto, outras a acusavam e faziam questão de dizerem que estavam muito bem no papel de esposas, donas de casa e mães. Frustrada, histérica, insatisfeita, egoísta e vadia foram algumas das adjetivações que ela recebeu por expressar as suas convicções numa sociedade que, embora padeça de um mal, prefere fingir que ele não existe ou não tem interesse em modificá-lo.

Simone não se dirigia às mulheres que estavam satisfeitas e contentes em suas posições, muito menos se colocava contra o homem, o casamento e a maternidade. Mas ela tinha acompanhado de perto, por meio da história de sua mãe, a dura experiência de alguém que não vive a própria vida por tê-la entregue totalmente aos outros.

Quando seus pais se viram economicamente arruinados, ela percebeu o quanto a crise financeira abalou o sentimento que talvez um dia existiu entre eles, o quanto o seu pai passou a trair e submeter Françoise devido ao enfraquecimento da relação e ao fato de que para ela não existia saída. Talvez Sartre, com a sua exagerada crença na liberdade individual, dissesse que a mãe de Simone era livre para permanecer ou não naquela situação. Ao que Simone responderia como de outras vezes: que tipo de liberdade pode exercer uma mulher trancada num harém?

Ela teve a oportunidade de acompanhar o sofrimento da mãe que, por depender de um homem, e por ter que cuidar das filhas, anulou-se por completo, arrependeu-se e confidenciou isso apenas no seu leito de morte. Quando o pai de Simone faleceu, Françoise nem mesmo quis permanecer na casa onde moraram para não ter que lidar com as más lembranças do período em que, mal-humorado, ele contaminava todo o ambiente. Só após a morte desse homem, ela conseguiu se dedicar por um tempo ao estudo de coisas que gostava, mas já não tinha o mesmo vigor de outrora.

Apesar de muitas vezes ser criticada por usar a própria vida e experiência para falar de um modo geral, Simone não se rendeu nem se deteve frente aos comentários maldosos e, de certa forma, ela conseguiu fazer com que sua voz e seu inconformismo encontrasse eco naquelas pessoas que poderiam pensar, ver e sentir semelhante a ela, mas que não se manifestavam por falta de condições, medo ou resignação. Nem todas as ideias de Simone se aplicam à atualidade, tendo em vista que a situação das mulheres se modificou bastante nos últimos tempos, mas não há dúvidas de que ela foi uma das pessoas que mais contribuiu para que isso acontecesse.

Muitas obras que abordam os problemas enfrentados pelas mulheres surgiram a partir de O segundo sexo. O livro serviu de base e modelo para que outras pessoas se manifestassem e vários movimentos feministas usavam as ideias de Simone para reforçar suas lutas, queixas e pedidos.

Ela escapou de viver à maneira de sua mãe e de muitas outras mulheres, mas não foi sem custo ou sofrimento. Nenhum caminho nos isenta de dores, mas é melhor sofrê-las cientes de que estamos atravessando o percurso que nós mesmos escolhemos do que sofrermos por ter que atravessar os desertos que nos são impostos.

Não era somente a subjugação das mulheres que a incomodava. A segunda guerra a inquietou. Como os franceses podiam presenciar a crueldade e a matança sem nada fazer para impedi-las? Como poderiam continuar sujeitando e destruindo os argelinos por meio de uma inescrupulosa política de dominação colonizadora? Como um país conhecido pela sua cultura e pelos seus pensadores admitia tamanha destruição humana? Simone sentiu vergonha de ser francesa.

Pode-se dizer que essa mulher de vida amorosa, filosófica e literária intensas, viveu por si mesma, mas nunca deixou de lado a sua preocupação com os demais. Amou e foi amada, desprezou e foi desprezada, viveu alegrias, dores e paixões intensas e cometeu equívocos simplesmente porque ousava viver. Mas ao final, deixou um legado que beneficiou gerações futuras e que jamais será esquecido.

Simone sofreu na pele os efeitos do papel secundário das mulheres que ela mesma denunciou durante sua vida. Seu nome sempre esteve atrelado ao de Sartre. Acusaram-na de se utilizar das ideias dele para compor suas obras. Julgavam que ela não era original, que sua produção não tinha densidade e substância e que ela se mantinha apenas por ser um apêndice do grande filósofo. Ela não negava que, de fato, Sartre é que era o filósofo. Terá sido a própria Simone quem se colocou em segundo lugar em virtude do amor e da admiração que sentia por ele? Ou ela realmente não tinha consciência de sua dimensão como pensadora? As duas hipóteses são possíveis, pois quem ama nem sempre está preocupado com o primeiro lugar no pódio e, quem é grande, nem sempre sabe de sua grandeza e, quando sabe, é acometido por momentos de dúvida e insegurança.

A morte de Sartre a dilacerou. A notícia de que ela poderia ficar perto do seu corpo por algumas horas a desconcertou. Como aquele homem que fora tanto para ela agora era somente um corpo? Simone adormeceu por algumas horas junto à frieza material de Sartre, que outrora fora incendiado por tantas coisas que o animava. A exemplo do momento em que perdera a mãe, ela se pôs a escrever sobre o fim desse homem num livro que intitulou A cerimônia do Adeus.

Escrever era a maneira que Simone possuía de expressar e amenizar a sua dor. Enquanto outros rezavam e pediam força a um ser superior nos momentos áridos e difíceis, ela apenas escrevia. Que mulher insensível! – diziam alguns. Que mulher egoísta! – pensavam outros. Enquanto isso, Simone não largava a pena, pois ela precisava se curar para continuar a viver sem o seu amigo, companheiro intelectual e amor “essencial”.

Simone e Sartre fizeram um pacto, no qual se comprometeram a nunca se abandonarem, mas a morte não se importa com os nossos planos, contratos e promessas. Ela vem e desfaz todas as coisas e ilusões.

Seis anos após a morte dele, Simone partiu para o seu encontro ou para o nada. Também com relação ao último ato, restou a ela o segundo lugar. E nesse momento, ela não contava com o seu amigo intelectual para adormecer por algumas horas junto ao seu corpo frio. Nesse dia, não havia ninguém que pudesse fazer para ela uma emocionante e dilacerante cerimônia do adeus.

Lá na praia…e outros casos, de Luís Antônio Violin

Lá na praia… e  outros casos foi escrito pelo pai de um colega de trabalho que, embora eu não tenha convívio diário, sempre me chamou atenção pela educação, discrição e reserva com que se apresenta. Luís, mesmo nome do pai, aparenta possuir essas adjetivações que me faz admirar alguém, ainda que de longe. Quando nos encontramos nos corredores da empresa, trocamos algumas palavras por cordialidade e coleguismo, sem adentrarmos em questões pessoais que dê alcance do que se passa na vida de um ou do outro.

Entretanto, por meio das  mídias sociais, acabamos sendo conhecendo alguns eventos vivenciados pelos nossos “amigos das redes”. Assim aconteceu. Esse colega postou fotos do lançamento do livro do seu pai no instagram e eu fiquei extremamente empolgada com a ideia de ler um livro de alguém próximo (e olha que nem é tão próximo assim). Mas tudo bem. Não conheço o autor, mas conheço o filho do autor e isso é suficiente para aguçar esse encontro com o livro. E nem me pergunte por que. Há coisas que não sei explicar. Só sinto. Então, finalmente aconteceu o meu encontro com a obra.

O escritor diz que o livro nasceu da necessidade que ele tinha de completar o adágio popular que diz: uma pessoa realizada é a que teve um filho, plantou uma árvore e escreveu um livro. Como já havia plantado árvore e contava com três filhos, faltava apenas o livro.

No entanto, tive a impressão de que mesmo se ele não conseguisse essas três graças não seria um irrealizado, tendo em vista a forte presença de Deus em sua vida, que ele não cansa de mencionar. Fiquei desolada ao pensar que, quanto a mim, falta-me tudo. Pelo ditado, sou uma total irrealizada, sem árvore, sem filhos, sem livros. Valha-me Deus!

Quanto a ele, já não lhe falta mais nada.

O livro é esse a respeito do qual falo. E que livro! Cheio de sentimentos, sutilezas e simplicidade. Emociona, toca e desperta para a família, as coisas simples da vida, a generosidade, a espiritualidade, a compreensão, o altruísmo, a conquista, a gratidão, o aprendizado. É muito rico e belo. 

A primeira parte é composta daquilo que o escritor chama de casos e ele a inicia narrando uma viagem de férias que fez ao Rio de Janeiro em companhia dos netos.

Dentro desse homem, habitam  o pai e o avô. O pai crítico é aquele que cria seus três filhos, com colocações incisivas e com a rigidez e a autoridade necessárias aos genitores para transferirem valores e educação aos filhos. Por outro lado, o avô é aquele que guarda uma criança interior, muitas vezes sufocada pelos deveres do mundo adulto, mas que, na presença dos netos, não se contém, deixando-se vencer pela alegria, disposição e brincadeiras deles.

Nesse passeio, esse avô deixa-se contagiar pela animação e pelo entusiasmo dos netos e, apesar das dificuldades físicas advindas do tempo, como uma dor aqui, outra ali, consegue acompanhá-los, ultrapassa seus limites e vai ao encontro desse imenso amor.

As crianças têm muito a ensinar a esse avô e ele sabe disso. Elas são simples em seus gostos, criativas, inocentes, verdadeiras e contribuem para a compreensão da vida e do mundo. Com os netos, a imaginação desse avô rola solta.

Num dia de praia em companhia dos pequenos, o avô fita o mar e reflete: é forte, porém flexível; é humilde e perseverante. Eu penso que é assim que devemos ser. Esse avô que observa a natureza e enriquece com os processos que dela capta, é o mesmo que olha os netos com satisfação e alegria e diz: até coisas bem simples deixam de ser o que são para serem coisas da imaginação e criatividade das crianças. Por isso, elas não precisam de carros caros e grandes brinquedos. Sim, vô. Também nós adultos não precisamos de brinquedos grandes e caros. Precisamos desse seu olhar de criança para ver o mundo simples, belo, rico e disponível que está diante de nós.

Num dia de buscar um dos netos no colégio, quantas lembranças passam na cabeça desse avô. Seus tempos de menino, suas fantasias de criança, suas dificuldades para chegar à escola, onde era necessário caminhar oito quilômetros todos os dias. O imaginado fantasma da estrada, o carro de boi que encontrava no trajeto, pesado, lento e choroso, tal qual as pessoas pesadas e chorosas. Tudo era devagar, mas intensamente vivido. Após as lembranças, o avô pensa na correria desenfreada dos tempos modernos: Correm tanto que o corpo vai com a carga e a alma fica para trás.

Sim, vô. Precisamos resgatar nossas almas que já vagam como penadas.

O ninho vazio e Passarinho tem sentimento? são casos em que o escritor descreve as suas observações da vivência animalesca dos passarinhos que é tão próxima da vida humana. Um passarinho que aproveita o fato de um ninho estar vazio e come ou choca os ovos do outro. Um passarinho que fica ao lado de outro no leito de sua morte, triste, como que velando o corpo. E assim, o autor nos mostra como a natureza guarda mistérios que encantam. E nós não a observamos devido a nossa correria desenfreada ou falta de interesse. Preferimos voltar nossas atenções às construções humanas, alheios à verdade de que a natureza está acessível para todos nós. E como ela ensina! Gratuitamente, ela ensina.

Também há pessoas que nos dão algumas lições. Aquela mulher sem braços que o escritor encontra na igreja e desvia toda a sua atenção da missa para observá-la. Sem braços sim, mas com vontade de viver. Ela transcende suas dificuldades com a ajuda do marido e do filho que a acompanha. Ali existe cuidado, zelo e amor. O que não faz com as mãos, por não tê-las, faz com os pés. Até a aliança está no dedo esquerdo do pé. E como essa família lhe aparenta alegre mesmo com suas limitações. Limitações que não os impedem do amor. Há outro filho em sua barriga. Não há braços, mas há coração, vontade de viver. Há Deus. E os que ali estão assistem a missa na certeza de que o ser humano com Deus pode superar todas as dificuldades da vida. Amém!

No decurso da leitura, comento com um conhecido: olha que legal esse livro do pai de um colega de trabalho. Ele disse que escreveu esse livro para completar o ditado que diz que alguém só é realizado depois de plantar uma árvore, ter um filho e escrever um livro.

Esse conhecido responde: “acho que está faltando algo aí. Resgatar vidas. Imagine conseguir salvar alguém. Acho que ele não é tão realizado assim.” Em seguida, contou-me sobre um filme que assistiu em que o protagonista da trama impede alguém de pular de uma ponte, na tentativa de suicídio.

Respondi: Ah, mas existem outros meios de salvar vidas, como por exemplo, tratar bem o outro, consolá-lo, falar palavras de entusiasmo e tantas outros…

Ele estava irredutível: “Mas o bom mesmo é livrar alguém da beira da morte.”

Nem quis vencer a discussão. Voltei para o livro.

Coincidências ou não, eis que começo a ler o caso O que você faria? e o autor conta que, na noite do réveillon de 2016, ao voltar para casa depois de sair da residência da filha, avistou um homem de cócoras numa mureta preparando-se para pular. Apesar de ser tarde da noite e dos riscos que corria naquele lugar ermo, resolveu parar e tentar salvar aquele homem que estava à beira da morte, dizendo-lhe: Acalme-se e desça pra gente conversar um pouco. Posso ajudar você. Assim, ele conseguira evitar o pior.

Ele salvara a vida de alguém. Rapidamente, senti necessidade de noticiar o que havia lido àquele conhecido que não considerou o autor realizado no momento em que lhe falei a respeito do livro. Eu disse: “olha fulano, por incrível que pareça, o escritor salvou alguém da morte tal qual a cena do filme que você me contou”. Para provar-lhe que não estava inventando mostrei a ele o trecho do livro. Depois disso, admitiu: É. Ele realmente é um homem realizado.

Quanto a mim, cheguei à seguinte conclusão: ainda não salvei nem a mim mesma. Sem árvores, sem filhos, sem livros e sem salvação. Ai de mim! Só a misericórdia de Deus!

Luís Antônio Violin também narra sua vinda para Brasília. Morava em Brodowski – SP e veio à Capital com um amigo prestar concurso para professor de português. Relembra as dificuldades que enfrentou ao percorrer esse trajeto que pareceu muito mais longo pelas más condições da viagem. Veio de carona e com a cara e a coragem, guiado pela esperança de uma vida melhor. Passou em primeiro lugar no processo seletivo e aqui fincou morada, conheceu seu amor, mãe de seus filhos, avó de seus netos.

Casou-se com Maria Helena, com quem viveu por 35 anos e é por ele descrita como uma mulher de luz, de fé e de alma, de palavras suaves e de pensamentos claros e luminosos. Enfrentaram juntos as dificuldades inciais de uma vida a dois, com amor, alegria e leveza. Ele diz: A vida nos foi dada para ser vivida com leveza, e um não pode ser um peso para o outro.

Os dois separaram-se fisicamente porque, segundo ele, Deus a levou ao seu encontro. Entretanto, faz uma linda homenagem à amada dizendo-lhe que ela está sempre presente e que ele é grato pela oportunidade de ter convivido ao seu lado. A sua morte não matou o amor, o qual será guardado eternamente em seu coração.

Gostei muito do que o escritor fala sobre Brasília, por isso quero reproduzir, fielmente, fazendo de suas palavras as minhas e de seus sentimentos os meus:

Brasília. Atualmente a vejo mais madura, com belas curvas sensuais de uma das mais bonitas e modernas obras de arquitetura e urbanismo do mundo. A mim sempre se descortinam lindas vistas, iluminadas por um Sol e uma Lua inigualáveis, que aprendi a apreciar. Aqui, você tem muitas e boas opções de vida social e espiritual, que podem ser vividas intensamente. Basta se dispor. Fazem bem ao corpo e à alma. E o meu “horizonte de vida”, que um dia se estendeu até a minha cidade natal, atualmente está perfeitamente conformado ao horizonte desta terra, que, muito além, une o Planalto Central ao lindo céu de Brasília. Foi assim que, nesta terra, criei raízes e posso dizer que a experiência de vir a Brasília se transformou em vir para Brasília. Vim para ficar. Amo esta cidade, que adotei para viver e morrer feliz.

Assim também me sinto em relação a Brasília. Sou muito grata a tudo que aprendi nessa cidade, ao que me transformei e me transformo todos os dias. Aqui aprendi o real significado da vida; consegui o trabalho que me sustenta e me dá condições de ajudar outros. Renasci e renasço todos os dias. Vivo um dia de cada vez, curtindo as belezas que ela me oferece, aproveitando cada cantinho lindo que me faz pensar e repousar. Eu vivo tão imersa nesse lugar que não gosto de sair daqui nem a passeio. Brasília sou eu. Eu sou Brasília. Solitárias, porém unidas. Amo essa cidade. Eu a escolhi. Eu quis viver aqui. E aqui quero morrer.

A segunda parte do livro é composta de três homenagens que o escritor faz ao pai, à mãe e à esposa Leninha.

Penso que os poemas ou trechos colocados antes do início de cada texto para representar o que ele sente por cada uma dessas pessoas diz tudo.

Ao pai:

O meu pai é o melhor do mundo
porque ele fez o mundo
Não este mundo
Mas o meu mundo

À mãe:

Por que Deus permite
que as mães vão-se embora?
Mãe não tem limite,
é tempo sem hora,
luz que não apaga
quando sopra o vento
e chuva desaba,
veludo escondido
na pele enrugada,
água pura, ar puro,
puro pensamento.
Morrer acontece
com o que é breve e passa sem
deixar vestígio.
Mãe, na sua graça,
é eternidade.
Por que Deus se lembra
– mistério profundo-
de tirá-la um dia?
Fosse eu Rei do Mundo,
baixava uma lei:
Mãe não morre nunca,
mãe ficará para sempre
junto de seu filho
e ele, velho embora,
será pequenino
feito grão de milho.

                                             Carlos Drummond de Andrade

À Leninha

Eu nasci pra você.
Você nasceu pra mim.
Eu entrei na sua vida.
Você entrou na minha.
Eu não quis sair da sua vida.
Você também não.
Mas sem querer você saiu.
E eu fiquei pra trás.
Que coisa mais insensata!

Só tenho a agradecer ao Luís Pai e ao Luís Filho por esse livro ter chegado em minhas mãos, reavivando tantos sentimentos guardados. Considero-o como um convite para me abrir às coisas mais simples da vida, à natureza, a Deus e ao outro.

Lendo-o, pensava: agora está explicado porque o meu colega de trabalho é tão educado, discreto e reservado. Como dizia minha avó paterna: ele não roubou, herdou.

Luís Pai conseguiu contar a sua história com requinte, elegância e beleza, qualidades possuídas por pessoas que Clarice Lispector descreve como pessoas de alma já formada.

Bem, minha alma ainda é prematura, recém-nascida, pelejando para chegar lá e receber o diploma de formação, porém com a certeza de que subiu alguns degraus depois dessa prazerosa leitura.

O que resta dizer?

Apenas obrigada!