Eu passarinho!

Um pensamento ocupou-me durante alguns dias após ler um parágrafo de um texto que eu mesma escrevi. Parece-me que também escrevo para esconder meus segredos, enganar minhas dores e vencê-las a ponto de lhes dizer: vocês não me dominarão. Recuso-me a padecer de meus males. Luto contra todos. Que desaforo render-se a eles!

Escrever me organiza, ainda que o caos arrombe novamente a porta . Enquanto houver vida há de se transformar caos em cosmos, buscar forças sabe-se lá em quê. Cada um é que sabe.

Um livro pode ser a tentativa de se refazer, de eternizar acontecimentos e sensações, mas também o desejo de ultrapassá-los para que algo novo possa surgir na vida e na arte.

“O sentir mais belo” brotou da necessidade de me libertar das prisões cujas correntes eu mesma me impus e, impiedosamente, apertava-as. Dezoito contos, aparentemente desconexos, que, lidos na ordem disposta, formam um todo interligado e único. Um sentimento profundo e subterrâneo percorre o livro, um fio invisível que liga seus componentes à maneira de um colar de pérolas.

As histórias são protagonizadas por uma personagem em diversas fases da vida. Menina, adolescente ou mulher descobre que ser amada não basta. Quer ser adorada, reverenciada, e entende que ao homem, submetido à precariedade de sua condição, não foi dada a possibilidade de um sentimento dessa magnitude. Cai na mesma ambição da poeta Florbela Espanca em que apenas a ideia do amor de um Deus a faz dormir tranquila.

O título carrega o adjetivo “belo”, não no sentido de bonito ou harmônico, mas querendo significar algo verdadeiro, de alguém que, em momento algum, pretende se enganar a respeito do que sente, ainda que seja dor.

A capa do livro não é menos desprovida de sentido. Um esboço de rosto de mulher com sobrancelhas, olho, nariz, boca e queixo. Não há cabeça? É que ela é “um coração batendo no mundo”; coração que morre um pouco a cada dia, porque sente tudo com muita intensidade. Um casal olha o rosto da mulher mergulhada em si própria, mas há quem diga que eles estão a contemplar pássaros no céu azul. O céu que a invade ao fim da narrativa.

Talvez, num primeiro momento, poucos vejam os pássaros. O rosto da mulher é tão mais óbvio e chamativo. As aves, apenas simbólicas, disfarçadas de sobrancelhas e olho, representativas da liberdade a que a personagem se lançará depois de se convencer que nada pode subjugá-la, pois é amada por um Deus.

Ao estar com o livro em mão, meu sobrinho de apenas dois anos, Otto, cujo nome carrega a imponência que percebo em sua postura, nada viu além do oculto. Ao mirar a capa, disse num tom firme como quem profere sentença: “passarinho”. A mãe, sem nada entender e, preferindo perder a cunhada do que a piada, aproveitou para brincar: “Sua tia está igual passarinho mesmo, Otto… livre, leve e solta”.

O episódio restou provado num vídeo em que Otto revela o que poucos veem: “Todos estes que aí estão atravancando o meu caminho, eles passarão… Eu passarinho!”

“Digo a verdade: Ninguém pode ver o Reino de Deus, se não nascer de novo”. Não, Nicodemos. Não será preciso retornar ao útero materno. Nem seria possível. Veja o que está por trás dessa frase, o oculto que a permeia. Renascer é morrer para as ideias preconcebidas e ver as coisas com o mesmo olhar com que as crianças veem.

Diante da capa de “O sentir mais belo”, se não conseguires ver uma mulher que deseja a liberdade dos passarinhos é porque vos é necessário olhar de novo.

A construção do ser em Clarice

Em “Água Viva”, Clarice diz: “Criar de si próprio um ser é grave. Estou me criando. E andar na escuridão completa à procura de nós mesmos é o que fazemos. Dói. Mas é dor de parto: nasce uma coisa que é. É-se.”

Toda a obra de Clarice concentra-se na busca do ser, em atingir o “é da coisa” que consiste numa espécie de núcleo ou cerne que há em nós e que nos dá o animus de vida. Assim, na tentativa de se aproximar de nosso centro vivo, básico, primitivo e originário, Clarice busca a construção do ser que, na sua Literatura, passa primeiro por uma desconstrução para que seja reconstruído. A construção dá-se num movimento de fora para dentro, até chegar ao “caroço”, “semente viva” e, para tanto, é necessário o despojamento total do eu construído.

Desse modo é que seus personagens se veem diante de acontecimentos cotidianos e rotineiros que os fazem pensar o tipo de vida que levam, muitas vezes, provocando o desmoronamento de tudo aquilo que até então constituía o alicerce sobre o qual se ancoraram por anos.

Entretanto, nem sempre, estes personagens possuem a coragem ou as condições de tentarem vida nova, pois tal atitude demandaria uma mudança profunda em crenças e ações, a ponto de passarem a ser uns desconhecidos tanto para eles mesmos como para os outros. Assim é que, mesmo ao perceberem a mentira na qual se instalaram, porém sem forças ou disposição a fim de lutarem contra as várias pernas falsamente criadas, os personagens retornam às suas vidas e tentam esquecer o que viram para não passarem pela reconstrução.

Em “A cidade sitiada”, Lucrécia mora com a mãe no subúrbio de S. Geraldo. As duas, apesar de habitarem o mesmo espaço, mal se falam e, mesmo quando a mãe, viúva, tenta enveredar por intimidades sobre si mesma, Lucrécia sempre encontra um jeito de fugir das conversas. Vai para a sala de visitas que nunca recebe visitas e fica a observar os objetos, quase a se comunicar com eles como se ela própria fosse apenas um objeto a ser olhado. Flerta alguns moços, mas se casa com Mateus, homem bem mais velho, e que representa a possibilidade de ir embora de S. Geraldo, além de lhe oferecer o conforto e a comodidade econômica que ambiciona. S. Geraldo está em pleno desenvolvimento e progresso com suas indústrias, lixos e esgotos, a cidade está em construção e seus habitantes também vão se formando, não assentados na busca do ser, mas do ter e do fazer que dão toda uma aparência de evolução do homem.

O tema da construção do ser é retomado em seu quarto romance “A maçã no escuro”, cujo protagonista é Martin, engenheiro, não por acaso, que foge de São Paulo, crente de que cometera um crime contra a esposa com quem tem um filho. Sozinho, começa a experimentar a falta de sentido da vida, mas pelo menos diante da possibilidade de se ver “livre do incômodo de ser compreendido.” No silêncio que se faz no seu interior começa a sentir a própria presença e a libertar-se para ser ele mesmo. “Então as coisas passaram a se reorganizar a partir dele próprio”.

Martin é um homem que quer ser herói, reconstruir o mundo, mas percebe que há enorme pretensão no seu desejo, pois antes é preciso começar por si próprio. Para tanto, ele comete um crime, que representa a destruição do homem anterior, e entrega-se à fuga, ao silêncio e ao vazio, longe da prévia ordem e de todos que pertenciam à antiga vida. Martin percebe que ao homem só é possível ser herói de si mesmo. Herói de sua própria reconstrução.

A paixão segundo G.H. é todo voltado para a despersonalização e desconstrução da personagem, preconceituosa e mesquinha, cuja aparência de ser se apoia na posição social, nos bens que possui, numa “profissão” que exerce de forma amadora e na ideia que os outros fazem a respeito dela. G.H. só percebe a mentira em que vive quando se contrasta com o vazio e a claridade do quarto da empregada que ela pretendia limpar por imaginar imundo. Seu “eu” é demolido ao constatar que de pouco se precisa para ser e viver. “A mim, como a todo o mundo, me fora dado tudo, mais eu quisera mais”.

No entanto, Clarice revela o despojamento total do ser por intermédio de Macabéa, personagem de seu último romance “A hora da estrela”. Sozinha no mundo, pobre, tão desprovida de linguagem que é quase muda, Macabéa representa a nudez final. Ela é apenas a “semente viva”, seu viver resume quase no respirar. Macabéa é o caroço, é a desconstrução até chegar aos ossos, é a estrela que brilha porque representa o ser nu e cru, livre de máscaras, de coisas e de nomenclaturas que enfeitam.

De todos os personagens dos romances de Clarice, Macabéa é a única que morre, talvez para demonstrar que a morte nos iguala, momento em que nos despimos de absolutamente tudo aquilo que construímos à custa de tempo que é vida, mas que não nos priva da morte. Ela, que fulmina a todos. Morre-se num instante. Mas o grande problema é que a gente se esquece.

CORAÇÃO PURO

Chovera durante toda a tarde. Em casa, atenta ao barulho dos pingos d’água caírem fortes no chão, a árvore molhada defronte à janela, um livro nas mãos, o dia frio, o coração ardente. Como tudo estava bom!

Quando a chuva deu uma trégua, a tarde morria. A noite convidava a sentir o seu perfume de flores e de terra molhada. O frescor após horas de lágrimas torrenciais. Saí a caminhar tranquilamente enquanto ouvia a suave melodia que me cantava a vida e o amor. Leve como pluma. Havia gozado o mundo num só instante. Flutuava.

De repente, um pensamento a rondar. Desavenças e indiferenças que nada tinham a ver com o que sinto dentro de mim. Não queria sair do estado de levitação em que me encontrava, então pensei que apenas as intenções e o que se passa no meu íntimo é que de fato importam. Que tenho a ver com tortos olhares? De fora para dentro, ninguém pode dizer quem sou. “Tenho um bom coração. Deus pode sondá-lo neste mesmo instante que não hei de temer” – pensei ao tempo em que recuperava a leveza anterior.

Como por milagre, deparei-me com uma criança que caminhava em sentido contrário. A menina sorriu-me um sorriso gratuito e, após dar alguns passos, virou-se e correu em minha direção abandonando a mãe que estava ao seu lado. Devolvi o sorriso à pureza enquanto andava.

A mãe correu para segurar a menina que avançara alguns metros; mas a criança se soltava e, novamente, ia em minha direção a fim de me seguir, totalmente entregue e confiante a quem nunca antes vira. A mãe teve que pegá-la no colo ao perceber que, se permitisse, a filha a deixaria e me seguiria para onde eu fosse.

Sorri para a mulher e disse-lhe que as crianças costumam agir assim comigo. Ela respondeu: “É que você tem um coração bom.”

E não havia passado um minuto de quando desejei que Deus me sondasse. “Deixai vir a mim as criancinhas.” Quase não acreditei na verdade de que uma criança veio até mim. Mas ela veio e me sorriu. Eu nem preciso me dar ao trabalho de provar a ninguém um coração puro. Criança sente.

A PIOR DAS TENTAÇÕES

“Por isso vos digo: Não andeis cuidadosos quanto à vossa vida, pelo que haveis de comer ou pelo que haveis de beber; nem quanto ao vosso corpo, pelo que haveis de vestir. Não é a vida mais que o mantimento, e o corpo mais do que o vestuário? Olhai para as aves do céu, que nem semeiam, nem segam, nem ajuntam em celeiros; e vosso Pai celestial as alimenta. Não tendes vós muito mais valor do que elas? E qual de vós poderá, com todos os seus cuidados, acrescentar um côvado à sua estatura? E, quanto ao vestuário, por que andais solícitos? Olhai para os lírios do campo, como eles crescem; não trabalham nem fiam; E eu vos digo que nem Salomão, em toda a sua glória, se vestiu como qualquer deles. Pois, se Deus veste assim a erva do campo, que hoje existe, e amanhã é lançada ao forno, não vos vestirá muito mais a vós, homens de pouca fé? Não andeis, pois, inquietos, dizendo: Que comeremos, ou que beberemos, ou como que nos vestiremos? Porque todas estas coisas os gentios procuram. Decerto vosso Pai celestial bem sabe que necessitais de todas estas coisas; Mas, buscai primeiro o reino de Deus, e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas. Não vos inquieteis, pois, pelo dia de amanhã, porque o dia de amanhã cuidará de si mesmo. Basta a cada dia o seu mal.”

“Quando lhe haviam dado para ler a “Imitação de Cristo”, com um ardor de burra ela lera sem entender mas, que Deus a perdoasse, ela sentira que quem imitasse Cristo estaria perdido – perdido na luz, mas perigosamente perdido. Cristo era a pior tentação.”

Se Laura escapou ao fascínio de imitar Cristo, por imaginar que copiá-lo representaria a perdição de uma pessoa, não se pode dizer o mesmo sobre a tentação de imitar uma rosa, a qual cedera a ponto de ser internada sob o argumento de que “não estava bem”.

Após alguns dias de internação, Laura volta para casa sem, no entanto, esquecer a recomendação médica de que ela tomasse um copo de leite entre as refeições para evitar a ansiedade ocasionada pela fome e, principalmente: “Não se esforce por fingir que a senhora está bem, porque a senhora está bem”.

Mas para estar “bem”, Laura deveria ocupar-se, sem pausas, o que fazia com certa destreza ao passar as roupas do marido, organizar metodicamente as atividades domésticas, ordenar a casa e ficar à espera de Armando com o fim de atendê-lo em suas necessidades. Vestida discretamente de marrom, “ela castanha como obscuramente achava que uma esposa devia ser”, passava o dia cuidando de tudo, sempre cansada, exausta, sonolenta, vivendo a “verdadeira vida” ao lado de um homem que nunca pretendeu se casar com uma bailarina, mas com uma mulher larga, lenta e de pernas grossas, de quem poderia se esquecer por horas já que ela não representava qualquer perigo à sua virilidade.

Para tanto, Laura não parava um instante sequer, “as pessoas na Terra se cansavam e envelheciam” e assim devia ser, “ela, que nunca ambicionara senão ser a mulher de um homem” vivia para agradá-lo; ele, que fingia escutá-la em suas conversas cansativas, preferia mesmo que a esposa fosse pequena, chatinha, boa diligente, “uma senhora distinta”, “mulher sua”.

Armando retornava do trabalho às pressas, ofegante, temeroso de encontrar Laura calma e serena, entregue a si mesma. Tudo que mais desejava era olhá-la e deparar-se com um sorriso que passou a ser símbolo de sanidade da mulher à espera do homem. Porque não a suportaria com aqueles sintomas dos quais ela já havia se curado. “Não mais aquela falta de fadiga. Não mais aquele ponto vazio e acordado e horrivelmente maravilhoso dentro de si. Não mais aquela terrível independência. Não mais a facilidade monstruosa e simples de não dormir – nem de dia nem de noite – que na sua discrição a fizera subitamente super-humana em relação a um marido cansado e perplexo.”

A normalidade seria apenas o cansaço, a ocupação sem tréguas, a falta de tempo, o rosto decaído, a busca de uma finalidade para cada ação, a falência diária, a obediência cega e muda. Laura cuidava para ser “normal” como os demais, de modo a não escandalizar aos outros nem ao marido de quem sentia tanta piedade que cuidava de não ultrapassá-lo. “Ele que a recebera de um pai e de um padre, e que não sabia o que fazer com essa moça da Tijuca que inesperadamente, como um barco tranquilo se empluma nas águas, se tornara super-humana”.

Era preciso igualar-se aos outros, entregar-se à vida comum, fugir das extravagâncias para não ser novamente mandada àquele lugar dos que não estão bem. “E, como para todo mundo, cada dia a fatigava; como todo o mundo, humana e perecível. Não mais aquela perfeição, não mais aquela juventude. Não mais aquela coisa que um dia se alastrara clara, como um câncer, a sua alma.”

“Olhai os lírios do campo”, “olhai para as aves do céu”. “Não andeis cuidadosos quanto à vossa vida”, “não vos inquieteis”. Se Laura fugiu ao chamado de Cristo, “a pior tentação”, quando se percebeu estava diante do apelo mudo de rosas perfeitas, belas e tranquilas. As rosas plenas em suas vestes de ser. Majestosas a não mais poder.

Era preciso se desfazer delas, pois também eram tentadoras. “Aquela beleza extrema incomodava. Incomodava? Era um risco.” Pensou em dá-las à amiga Carlota. Evitar olhá-las e deixar-se seduzir. Olhai, olhai, diz Cristo. E olhar é pura loucura do corpo. Laura resistia. Até quando? “Olhou-as com enlevo, pensativa, profunda”. E antes que a empregada levasse as rosas para Carlota, Laura se deixara tentar pela perfeição.

Não mais fatigada, cansada e sonolenta. Livre de preocupações e ansiedades, “eu me deixo ser”. As rosas abriram-lhe a claridade. Laura estava fresca, luminosa, calma e suave. Serena, sem pressa, altiva na sua solidão. Perfeita e desabrochada como uma rosa.

“Voltou, Armando. Voltou” – disse Laura ao marido.

Era a perfeição. “Sede vós perfeitos, como é perfeito vosso Pai celestial” – ah Cristo!

Armando fingiu não entender. “Ele sabia que ela fizera o possível para não ser luminosa e inalcançável. Com timidez e respeito, ele a olhava. Com timidez e respeito, ele a olhava. Envelhecido, cansado, curioso”.

Laura, alerta, tranquila, com “a serenidade do vaga-lume que tem luz”. Ao imitar a rosa, ao sê-la, ela cedera à pior das tentações. Mulher.

EM NOME DO OVO

Na entrevista dada à TV Cultura, ao ser questionada sobre se se considera uma escritora popular, Clarice Lispector é incisiva: “Não. Me chamam até de hermética. Como é que posso ser popular sendo hermética?” O entrevistador quer saber a que ela atribui essa adjetivação; responde: “Eu me compreendo, de modo que não sou hermética para mim.” Mas logo em seguida faz uma objeção e declara que há um conto que escreveu e que ela própria não o compreende muito bem, “é um mistério para mim”. Este texto se chama “O ovo e a galinha” e, talvez, por atribuir-lhe caráter misterioso, Clarice o escolhe para lê-lo no primeiro Congresso de Bruxaria, em Bogotá, ocorrido em 1975.

Mas ao contrário de Clarice Lispector, sem qualquer pretensão de impor meu entendimento a quem quer que seja, declaro que entendo “O ovo e a galinha” muito bem. Objeto de inúmeras, incansáveis e inesgotáveis leituras, “O ovo e a galinha” não permanece de todo misterioso e indecifrável para mim. O que há de invisível e oculto nele não é sobre o que se fala, mas a origem ou causa a respeito do que se fala. De onde viemos, para onde vamos, o que somos são as grandes perguntas sem respostas que permeiam a obra de Clarice, mas a falta de respostas não a impediu de perscrutar o mistério, mesmo ciente de que jamais conseguiria revelá-lo; sequer tocá-lo.

A galinha é personagem que se faz presente nos textos de Clarice como figura representativa da mulher, da mãe, a “depositária do ovo”, aquela cujo destino foi previamente traçado e impresso no próprio corpo que é todo configurado e moldado para receber, abrigar o filho e alimentá-lo, “nascida que fora para a maternidade”. A mulher é mero instrumento utilizado “por quem?” para perpetuar a espécie. “Por isso a galinha é o disfarce do ovo. Para que o ovo atravesse os tempos a galinha existe. Mãe é para isso.”

Segundo a autora “há um trabalho, digamos cósmico, a ser feito”, cuja mulher foi diretamente escolhida para ser peça fundamental. Nem mesmo Deus, em toda sua onipotência, trouxe a luz ao mundo sem utilizar-se de um corpo de mulher. Marias, mulheres, todas eleitas.

Para Clarice “o destino de uma mulher é ser mulher” e ela não teme dizer que esse destino é a maternidade, no entanto, diz simbolicamente, porque há verdades que não são para todos os ouvidos. “Chamar de branco o que é branco pode destruir a humanidade.” E aqueles que ousaram dizer certas coisas foram punidos com a morte. “A lei geral para continuarmos vivos: pode-se dizer “um rosto bonito”, mas quem disser “rosto” morre; por ter esgotado o assunto.” O assunto esgota-se quando se diz: “O destino de uma mulher é ser mulher.” Ao contrário do que pensou Simone de Beauvoir, mulher nasce mulher e as que não nascem, mas sentem-se, querem tornar-se.

Clarice ousa afirmar que as mulheres não servem a si próprias, mas a esse destino que chega a ser mais importante que elas mesmas, que as ultrapassam, de modo que suas vidas não interessam. “A galinha é sempre a tragédia mais moderna. Está sempre inutilmente a par. E continua sendo redesenhada. Ainda não se achou a forma mais adequada para uma galinha.” Ainda que se dediquem a outras funções, tudo é feito para que não esqueçam a função-maior. Inclusive, a proteção e as vantagens que se dão à galinha são apenas “as condições ideais para o ovo”. Mas elas acham que é tudo em nome da mãe. Daí que devem manter-se sempre distraídas, míopes, tontas, desocupadas e fúteis. A cabeça de uma galinha é tão pequena se comparado ao seu corpo; elas são tão nervosas, ciscam pra lá e pra cá, “cacarejam o dia inteiro”… Porque galinha não foi feita para pensar sob pena de desistir de sacrificar sua vida.

“O ovo é o grande sacrifício da galinha. O ovo é a cruz que a galinha carrega na vida. O ovo é o sonho inatingível da galinha. A galinha ama o ovo. Ela não sabe que existe o ovo. Se soubesse que tem em si mesma um ovo, ela se salvaria? Se soubesse que tem em si mesma o ovo, perderia o estado de galinha. Ser galinha é a sobrevivência da galinha. Sobreviver é a salvação. Pois parece que viver leva à morte. Então o que a galinha faz é estar permanentemente sobrevivendo. Sobreviver chama-se manter luta contra a vida que é mortal. Ser uma galinha é isso. A galinha tem o ar constrangido.”

Ser mãe é sacrificar-se em prol do ovo, com prazeres e dores, sob a justificativa de amor grande, incondicional, sem considerar que amar implica lutos e perdas e que o amor não é dado em benefício da agente, mas daquilo que ela abriga com o fim de privá-lo do sofrimento da galinha de ser.

“Há os que se voluntariam para o amor, pensando que o amor enriquecerá a vida pessoal. É o contrário: amor é finalmente a pobreza. Amor é não ter. Inclusive amor é a desilusão do que se pensava que era amor. E não é prêmio, por isso não envaidece, é uma condição concedida exclusivamente para aqueles que, sem ele, corromperiam o ovo com a dor pessoal.”

Mas há aquelas que não querem sacrificar a própria vida, nem por amor, as que não sabem perder a si mesmas, doar-se, entregar-se; portanto, lutam contra o destino. São as que se sentem preciosas. “A que pensou que o prazer lhe era um dom, sem perceber que era para que ela se distraísse totalmente enquanto o ovo se faria.”

Ocorre que para a mulher que já viu o filho ter vida própria é que passa a ser sacrifício; “Nasce a mãe, nasce a culpa”. “Nem meu espelho reflete mais um rosto que seja meu.” Nessa culpa, muitas se afundam, choram, adoecem, suicidam, sentem-se incompreendidas e cansadas. “Amo meu filho, mas odeio a maternidade” – a frase que muitas não conseguem mais calar, como quem diz: “Odeio meu destino, mas não consigo fugir dele”.

Feixe de lucidez

Não raro, Clarice Lispector retrata em seus contos a vida da dona de casa comum, dedicada ao marido, às exigências dos filhos e ao ambiente doméstico, que, em algum momento, diante da observação de um acontecimento corriqueiro ou mesmo de algo natural e aparentemente incólume como a visão de uma rosa, revê toda a vida de modo a fazê-la pensar se realmente a vive da forma que melhor corresponda aos próprios anseios íntimos, à maneira que mais lhe apraz ou deixa-se levar cegamente por convenções, ideias e imposições alheias.

Algumas dessas mulheres, num feixe de lucidez, até conseguem sonhar abandonando-se ao desejo de escapar da situação na qual se instalara, como aquela do conto “A fuga”, que decide partir e deixar o marido, programa a viagem de navio que a afastará da prisão onde se encontra, no entanto retorna cansada ao lar e deita-se na cama onde enxuga as lágrimas e silencia. Ela se lembra que nem ao menos possui dinheiro para realizar a viagem, além do mais, o costume e o hábito paralisantes rondam-lhe os pensamentos: “Doze anos pesam como quilos de chumbo e os dias se fecham em torno do corpo da gente e apertam cada vez mais. Volto para casa.”

Também a portuguesa do conto “Devaneio e embriaguez duma rapariga” encontra-se angustiada e triste com a própria vida. Certa vez, diante da ausência do marido e dos filhos, decide aproveitar o silêncio da casa para ficar um dia inteiro dentro do quarto entregue a si mesma. Vai até o espelho, olha os seios refletidos, entoa um canto de liberdade, mas no momento em que se lembra de sua condição de mulher fecha-se subitamente dura, colérica e feroz. Dorme algumas horas, acorda quando o homem chega, mas volta ao sono. Ele que se sirva das sobras do almoço e sequer ouse tocá-la. “Ai que não me maces! não me venhas a rondar como um galo velho.” Ela amava, mas não este com quem dormia todas as noites e que a fizera transformar-se numa “folha seca”.

“Estava previamente a amar o homem que um dia ela ia amar. Quem sabe lá, isso às vezes aconteceria, e sem culpas nem danos para nenhum dos dois.”

Houve um dia em que saiu com o marido para encontrarem-se com um negociante. Bebeu vinho, ficou tão eloquente que admirava a própria fala, embebia-se de si mesma; ardor, gargalhadas, desejo, brilho e malícia frente a outro tão mais interessante, rico e fino. Sensibilizou-se ao ver um quadro. Bem que poderia se tornar artista. “Ninguém lhe tiraria cá das ideias que nascera para outras cousas. Ela sempre fora pelas obras d’arte.”

Voltam para casa e, sentada no leito comum, vê-se diante da realidade. Sentia-se muito maior do que de costume, o vinho a alargara e a tornara luminosa, mas para se adequar ao ambiente concreto, feito de carne e sangue, precisava reduzir de tamanho, não se abandonar em sonhos. Lembra-se de quando uma mosca pousou-lhe na pele excitando-a muito mais que o toque do marido. “… que não me venhas a maçar com carinhos.” Abre os olhos, tudo igual, familiar. A falta de sentido, o “corpo anestesiado”, ela conformada, resignada, desiludida, triste.

Mas a promessa do dia seguinte encheu-a de força, pois representava a fuga de seus devaneios. Retiraria toda a sujeira da casa que havia negligenciado um dia inteiro, removeria a imundície daquele lugar já que não se permitiria limpar as poeiras de dentro dela. Nesta noite, era a “cadela” no cio a contemplar a lua alta. Mas na manhã seguinte, voltaria a ser a esposa, a mãe e a dona de casa que tudo ordena para que ela mesma não saia dos trilhos.

Dias e dias

Chovia lá fora e em seus olhos. Espiou pela janela e sentiu o dia sombrio, triste, pesaroso como para igualar-se à tempestade que a desconcertava naquela manhã. E era sábado, meu Deus! Bem podia estar alegre.

A casa vazia, o silêncio interrompido pela chuva. A respiração ofegante. Sentou-se na cama, apoiou os cotovelos nos joelhos e com as duas mãos tapou o rosto devastado. Levantou-se, fitou a imagem refletida no espelho. Envelhecera, as feições davam mostras de cansaço, curvara o corpo como quem carrega mais que o próprio peso nas costas. Os anos transformaram tanto suas certezas que mal sabia de onde tirara a coragem que a fez decidir. E a força, a firmeza com que sentenciou: “Agora é a hora”.

Ergueu-se num rompante, endireitou os ombros, levantou o rosto, pisou firme no chão. Não sabia por onde começar a arrumar suas coisas ou seria melhor desistir e recuar? Mas o pensamento de voltar atrás não mais lhe ocupava. Passara muito tempo meditando, juntando os motivos e catando os pedaços de sua alma destroçada a fim de libertar-se do desconforto que há tempos tomara-lhe o ser.

Se tanto relutara era para ser fiel a si mesma até o último instante. Enquanto o amor e o desejo lhe dominavam havia porque lutar e continuar. Uma força a permitia levantar a cada manhã sob promessa de recomeço. Mas tudo se repetia a ponto de lhe vir o pensamento de que se aqueles momentos se eternizassem viveria atormentada. Falava e falava, mas padecia de socorro. Alguém a escutava, mas só tinha por resposta o esboço de um sorriso enquanto virava as costas.

Os pensamentos desordenados tentavam lhe tomar e, como para fazê-la desistir, só lhe vinham aqueles raros instantes em que se percebia sorrindo em fugaz alegria. Afastava-os de imediato, pois bem sabe que quem padece no deserto se excita com as poucas gotas de água que surgem e é capaz de esquecer os muitos dias de plena secura. Não se deixaria enganar nem sucumbiria ao medo de dar um passo rumo ao novo. Mas o amor tentava travar-lhe as pernas para fazê-la mais tempo prisioneira. Ah! Como se amar só bastasse – pensou.

O gosto do sal intensificava na boca enquanto descia as escadas, os olhos encharcados nas ruas da cidade molhada em direção a ninguém, a garganta cheia de ar; no peito, o grito de dor contido. Ainda poderia regressar ao lugar de costume, ao ar conhecido da casa em que passara dias e noites sedenta. Esperar um pouco mais, não precipitar em impulsos, pensar demoradamente. Mas o clamor da vida a rebentar-lhe as veias do corpo todo. Como sufocar anseios íntimos em nome de tanta incerteza? Avidez de moça não queda muda ante o tempo que tudo quer devorar.

Uma estrada se faria com o avançar dos passos. Um destino de mulher sozinha, à margem. Porque na solidão a luz resplandece sem que faíscas queimem a ninguém. No espaço vazio move-se livremente distante do perigo de perturbar os que dormem.

Os olhos hão de secar como ocorria na época de menina em que depois de brincar um bom tempo com os pés descalços nas enxurradas, de uma hora para outra, era obrigada a sair correndo, pois o sol esquentara demais as pedras onde pisava. Também porque no fundo de si sabe que as estrelas nunca perdem o brilho depois de chover dias e dias.

É com essa sua sabedoria de cega que passeia pela vida, ora fechando, outras vezes abrindo caminhos.

Desejo de amor

O espanto provinha da sabedoria de quem sente; ainda que quisesse não poderia voltar atrás, pois o desejo conduzira naturalmente os passos. Desejo de amor.

Outros foram os tempos em que experimentava o gosto bom de ter. De quando saía às cegas ao encontro daquilo que nem precisava procurar porque sempre achava. Mas tanto havia se passado sem que ninguém lhe desse as mãos suspensas no ar porque ela tudo dispensava. Parecia querer viver no deserto para provar a própria força e resistência. Como se tivesse que ir até o fundo de um poço sem fundo e, mais tarde, ressurgisse gloriosa.

Glória não há que se compare ao prazer de querer e ter; ou talvez de ter e, mesmo assim, não querer. Mas por que não querer o que se quer? Que coisa é essa tão maior que amedronta a ponto de deixar de viver mesmo diante da certeza do ultimato que sobrevirá?

A vida chamando, o amor gritando. “Fale mais baixo” – diz. “Se puder, cale-se”. Perdera o jeito. Mas vai desajeitada enquanto arruma o vestido e acerta o passo. Não há outro modo senão ir e ir vendo e provando o que vem vindo no caminho. O encontro ao que não se evita.

Essa mulher nada sabe. É tão burrinha que acredita nas ideias formadas pelos outros que também de nada sabem. Ela achava que as coisas deveriam ocorrer devagar e nunca lhe passara pela cabeça que em poucos minutos uma avalanche pode tomar conta de tudo. E descobriu que não era tão sabida para ficar todo o tempo de queixo e peito erguidos. Precisava ser mais humilde para reconhecer que há chama em tudo o que vive.

Sem querer assustar, chega de mansinho, ajusta o tom de voz, tateia… tudo em nome da delicadeza dos sentimentos. Como se o amor também não exigisse mãos fortes. Parece até uma iniciada.

Um homem disse-lhe, com culpa nos olhos: “Não quero deixá-la em pedaços”. E nem lhe vinha a lembrança de que algum dia fora inteira.

Ela só precisa sentir e saber que basta a alguém estar vivo para que haja fogo.

Fatal destino

Tantas vezes aquele acontecimento lhe vinha à cabeça, invadia sem prévio aviso. Como flashes de instantes, sorrateiramente penetrava por entre frestas não fechadas pelo tempo que nem sempre dá conta de tudo. Quando menos esperava aí mesmo é que surgia com a força estranha do oculto. Uma vaga lembrança perdida que chegava a se perguntar se de fato ocorrera aquilo que pensava ter existido.

O homem aproximava-se, sem pedir licença, e ela calava, atenta, sentindo, deixando… Ele voltava, devagarinho. Permitia, não alardeava, muito menos confessava.

Em algum ponto as visitas deixaram de acontecer. Eram tão silenciosos aqueles momentos, desprovidos de resquícios, que ela mesma duvidava de que alguém estivera ali. Preferia acreditar que não passava de imaginação e evitava pensar no sofrimento de uma vaga ideia. Sentia-se culpada. Ela, tão menina, uma criança, por que obrigavam-na a coisas de adulto? Ora, talvez já tivesse nascido um pouco velha.

Certo dia, numa fila de supermercado, um homem a interpelou: “Menina, você sabe do seu poder?” Ela sabia, mas relutava. Também não queria nada que a diferenciasse das outras em troca de ter que suportar carga tão pesada. Não pedira para nascer, muito menos exigira graças ou benevolências. Para quê? A troco de ter que lidar com os extremos dos sexos? Porque o que nela fazia com que homens se aproximassem desde muito cedo era o mesmo que distanciava as mulheres desde muito cedo. Amada e odiada, venerada e antipatizada por motivo comum.

A amizade lhe era escassa, quase impossível de acontecer. Se, de um lado, recebia desprezo e indiferença das filhas de Eva, cujas comparações deságuam em ciúmes e desavenças, do outro, ficava de sobreaviso a aguardar o momento em que os pretensos amigos lhe revelariam as reais intenções. Era sozinha por imposição de um destino que não escolhera.

Com um desses amigos ousara mais, pois sabia que o desejo dele não recaía em mulheres. Imaginou que estava diante de um sentimento que poderia durar toda a vida, pois isento de expectativas escusas vindas da outra parte. Por um longo tempo saíam para almoçar, tantas risadas e cumplicidade que era bonito vê-los juntos. Algumas pessoas estavam tão acostumadas com os dois que, ao deparar-se com um, já perguntavam pelo outro. Ela contava-lhe sobre encontros e namoros. Ele mantinha suas reais preferências em segredo. Sabendo, ela nem lhe indagava a respeito e mantinha a discrição como uma das chaves do relacionamento.

Num dia em que voltavam sorridentes de um evento, em plena luz do dia, ele desviou o caminho e parou o carro debaixo de uma árvore. Ela, sem entender, imaginou que o veículo apresentava algum problema. “O que aconteceu?” – questionou-lhe. Ele não titubeou: “É que não aguento mais de vontade de lhe dar um beijo.”

Surpresa, atônita, tomada por um misto de desilusão e tristeza, disse-lhe: “Pensei que podíamos ser apenas amigos. Vamos já sair daqui.”

Não quis encará-la outra vez. Nunca mais se viram. Mais tarde, tomou conhecimento de que ele estava casado com outro homem. Quanto a ela, sem amigos ou amigas. Sozinha por fatal destino.

FIM

É que não seria apenas por um ato que as coisas morreriam lá dentro. Existia o processo a ser respeitado para que, chegado ao fim, não houvessem resquícios de sentimentos não diluídos. Também não poderia afastar-se de vez a julgar por algo isolado, esporádico, movido pela fraqueza de quem, por não ter do que acusar, ataca. Perdoava. E perdoar lhe era fácil, pois não é das que se vingam. Mas esquecer não é mero ato de vontade. Como acessar a memória com uma borracha e apagar fatos e fotos que se sobrepõem e somam uns aos outros?

Com a paciência dos que amam, aguentava um pouco e mais um pouco. Mas entregava-se cada vez menos, porque vagarosamente, a cada palavra, pensada na sobriedade e proferida na conveniência de um momento justificável, algo se quebrava lá no fundo. E o que temia era que o cristal se despedaçasse todo e sangrasse a alma. Porque tudo acontecia dentro, mesmo que não desse mostras de um fim que se fazia.

“Não diga! Não diga!” Dizia para desafiá-la ou porque só dizendo para despejar a raiva contida no peito grande e vazio. Raiva da própria vida e dos que não souberam fazê-lo amar. Aqueles para quem até os afetos só se materializam na ferocidade.

Com a paciência dos que amam, procurava compreender. Além do mais, a esperança… “As coisas vão mudar”. Não mudavam. E dentro tudo se modificando… Os fios tecidos com mãos fortes para que não corresse o risco de ceder de novo e sempre.