Por quê?

Eu perguntei ao homem:

– Por que as palavras namorado/namorada contêm AMOR, por que amante, além de comum de dois gêneros, a dizer, tanto faz se homem ou mulher, os amantes sempre amam, e até mesmo a expressão “amigo”, do latim amicus, tem no radical “amar”, ao passo que os pares marido/mulher e esposo/esposa não comportam o amor?

Ele, casado, respondeu-me:

-Você sabe bem por quê.

-Sim. Eu sei.

E nunca mais tocamos no assunto.

Ser gente

Parece-me que estou vivendo num mundo à parte ou, como ironizaram, num universo paralelo. A certeza de que a maioria das pessoas são infelizes choca-me. Nada parece bastar aos que seguem a cartilha-padrão de “como viver”. Então tudo que se consegue não sacia a sede das almas que andam rolando perdidas por aí. O rio deságua no mar e ele nunca se enche. Tudo é pouco para quem não sabe o que fazer de si. E quanto menos se sabe maior é a necessidade de encontrar um outro que constitua o lugar de onde tirar a força que não se tem. E todos descem ladeira abaixo.

Dizer-se feliz soa como ofensa. O riso no rosto alheio é uma acusação aos que se alimentam e continuam com fome. De quê, meu Deus? E a resposta é Deus.

Ser feliz é pão de sal com manteiga e café. É tudo tão simples que as pessoas perderam a mão, o juízo e o jeito de ser gente.

FIM

Antes que pudesse saber de mim, eu o vi. E tão logo o quis com a força do que seria irremediavelmente um fato consumado. Por vias incertas e inexplicáveis estávamos diante um do outro numa fria manhã de junho. Um corpo tremulando por dentro frente a olhos acesos e luminosos de confessado desejo.

Você que seria um improvável a tocar-me se não fossem as palavras que usava com manifesta intenção oculta. Eu, a me achar esperta demais para cair na tentação da vontade, quando dei por mim estava suspirando pelos cantos da casa.

O amor selado por um beijo em cada um dos olhos que, fechados, faziam-me sentir o ímpeto com que viria os muitos mais.

E tudo estava muito bom que já não se pressentisse o anunciado fim. Acabou como começou. Num átimo de segundo as coisas são e deixam de ser.

Um convite

Era companhando minha avó que, menina, eu percorria e desbravava os principais cantos da pequena e interiorana Coribe. Açougues, mercados, farmácias, festas juninas com seus leilões e forrós animadíssimos, praças, casas de amigos e de clientes da venda que minha avó mantinha, residências de familiares, a primeira viagem a Goiânia e as missas aos domingos.

Ela me levava para todos os lugares que frequentava, de modo que só nos separamos por motivo de força maior, quando, aos quinze anos de idade, recebi a mais triste notícia da minha vida – a de que o seu coração não resistira a um infarto.

Amava estar em sua presença, porque queria a proteção que ela me direcionava, sob o argumento de que eu não desfrutava da presença paterna. Na verdade, era, com muito orgulho, a neta preferida de minha avó. Ao afirmar isso não intenciono ferir quem quer que seja, nenhum dos outros netos. Todos sabiam de sua predileção mais que explicada e justificada. Se eles não recebiam dela o que eu recebia é porque a eles fora concedida a sorte de não ter a lacuna e o vazio que eu tinha na alma e que ela, inocentemente, pretendeu tapar. Cada pessoa tem algo que o outro não tem, de modo que cada um tem de lidar com as próprias faltas.

Além do amparo dos meus avós maternos e da minha mãe havia algo intenso dentro de mim e que também me sustentava fortemente. Desde muito criança, muito mesmo, a crença em Deus esteve tão enraizada no meu ser que parecia fazer parte da constituição de todas as minhas células. Eu rezava todas as noites antes de dormir e conversava com Ele diante de minhas apreensões, necessidades e desejos. E, como num passe de mágica, Ele me respondia, presenteava e, quando não, me consolava.

Nunca concebi a inexistência de Deus, nunca a dúvida permeou os meus pensamentos, e isso nem se deve a uma relação pessoal de pede-ganha, a partir da qual poderia culminar uma confiança cega. A crença não brotava necessariamente dessa intimidade que estabeleci com o divino logo na infância, e que perdura. É que em meus pensamentos e sentimentos o mundo e as coisas eram muito bem ordenados e perfeitos para terem vindo do nada. Tinha porque tinha de haver algo muito maior e superior de onde se originaria tudo e todos. Uma força onipotente, onipresente e onisciente.

No catecismo, essas ideias se fortaleciam com o estudo bíblico. E nas missas que frequentava aos domingos com minha avó também era tomada pela fé, reforçada pela escuta do Verbo que sutilmente penetrava.

Mais tarde, morando em Bom Jesus da Lapa, cidade conhecida como a “capital baiana da fé”, em virtude da Gruta do Bom Jesus, pude conviver com uma tia paterna, católica das mais praticantes que conheço.

Ela não me perguntava se eu gostaria de acompanhá-la nos eventos da igreja, apenas anunciava: “Amanhã, às 7, iremos à missa de Santa Luzia.”, “Quarta, às 19, iremos à procissão de Bom Jesus dos Navegantes.”, “Já comprei nossas camisetas do Sagrado Coração de Jesus.”, “Tal dia terá a festa do santo tal.”, e todas as missas, procissões e festas de tantos quantos santos existem, lá estávamos. Eu ia de muito bom grado.

Sempre gostei de frequentar a igreja católica, embora entenda e respeite aqueles que optam por não seguir religiões. A fé, o amor e a caridade podem ser exercidos a qualquer hora e em todos os lugares.

Talvez a memória afetiva que liga a igreja à minha avó e as experiências decorrentes da presença em eventos católicos contribuam bastante para que continue me dirigindo ao templo.

Nunca enxerguei a instituição com maus olhos, mesmo diante do conhecimento de seu passado de mortes, violências e perseguições.

Os homens costumam se organizar em associações com a aparente intenção de alcançar ideais nobres, e acabam tropeçando e se debatendo uns contra os outros devido à própria ignorância. Mas da mesma forma que há, em todas as localidades, pessoas dispostas a guerrear, há aquelas que se empenham por empreender uma espécie de paz que, se não é a esperada, pelo menos representa um avanço.

Onde há humanos, há conflitos, desentendimentos e interesses escusos. Graças a Deus, a igreja católica vive fase melhor que de outrora. Não podemos pagar a dívida passada, mas a partir de agora podemos deixar de ser perdulários. Afinal, foi Jesus quem nos aconselhou nascer de novo, não repetir a história de sofrimentos e de dores. Enfim, seguir em frente e evitar cometer os mesmos erros.

À medida que escrevo, as memórias imperam. Certo domingo, já em Brasília, ligo a televisão e me deparo com a missa de devoção ao Sagrado Coração de Jesus. Automaticamente, lembro-me do tempo em que caminhava em procissão pelas ruas de Bom Jesus da Lapa, na companhia de minha tia, em comemoração à solenidade.

Numa dessas ocasiões, ela me presenteou com o que seria o coração de Jesus, em veludo, que eu colocara na carteira e, mais tarde, perdera. Em decorrência dessa lembrança, prometi-me comprar, no dia seguinte, uma imagem do Sagrado Coração de Jesus, com a fé de que, ao expô-la em minha casa, as doze promessas feitas a Santa Margarida Maria de Alacoque se cumpririam em minha vida.

As reproduções não são por si objetos de adoração. É óbvio que não se está clamando em nome de um pedaço de madeira ou outro material de que são feitas. Vejo-as como algo que nos remete e nos traz à lembrança quem se quer sentir por perto. É como quando temos saudade de alguém que amamos e olhamos sua fotografia a fim de reavivar aquela presença em nós.

Então, na manhã de segunda-feira, me dirigi ao trabalho. Provavelmente já esquecera que teria de ir comprar a imagem, conforme concebido durante a emoção do dia anterior; mas eis que decido dar uma volta pelo térreo da empresa e, para a minha surpresa, vejo que está acontecendo uma exposição de imagens católicas. Mais surpreendente ainda foi avistar uma linda e única figura do Sagrado Coração de Jesus, que me fez aproximar boquiaberta e incrédula: “É para vender, moça?”

Era.

Comprei.

Não seria coincidência. Como deixar de acreditar que o pensamento do dia anterior de adquirir a imagem não tivesse ligação com aquela exposição? Em treze anos de ofício foi a única vez que vi algo do tipo nas dependências da empresa. A partir daí, passei a me autointitular devota do Sagrado Coração de Jesus e sempre o mantenho exposto em minha casa.

Anos transcorreram entre o que acabo de contar e a mais recente experiência igualmente digna de nota. Ao assistir uma conversa entre um cientista e uma filósofa, Tereza D’Ávila é citada pela riqueza do que produziu a partir de sua experiência mística. A menção à santa faz que me lembre de ter um livro escrito por ela, mas que permanecia intocável desde o momento em que o adquiri.

Paro de ver ao programa a fim de procurá-lo, e o que encontro de imediato é o “Diário de Santa Faustina”, que começo a ler na mesma hora. Deparo-me com a história de que Jesus apareceu-lhe e a pediu que pintasse um quadro Dele emanando, por meio do coração, uma luz branca e outra vermelha, que representariam respectivamente a água e o sangue. Abaixo da imagem deveria estar escrito “Jesus, eu confio em Vós”. Segundo Santa Faustina, Jesus também lhe dissera para memorarem a Misericórdia divina, por meio de uma festa que deveria ocorrer no primeiro domingo após o domingo de Páscoa.

Do momento em que comecei a ler o “Diário de Santa Faustina”, que caiu em minhas mãos por “mera coincidência”, estava há dois dias do domingo seguinte ao da Páscoa. Pensei: “Mas isto é um chamado de Jesus para mim. Preciso ir a essa festa.”

No dia 24 de abril de 2022, às 15 horas, lá estava na Catedral Militar Rainha da Paz para adorá-Lo e honrar-Lhe o convite.

Contei o episódio a um amigo ateu ou agnóstico (ele ainda não se decidiu), que me interpelou: “Mas que provas você tem de que foi Jesus quem lhe direcionou a mensagem?”

Pois é. Fé não se prova. Sentimentos não se explicam. Apenas caminho ao encontro daquilo em que acredito, sem dúvidas ou questionamentos.

Para mim, eu estava na catedral diante de Jesus Misericordioso por acreditar que Ele mesmo houvera me levado até ali. Ao fim da solenidade, fui consagrada à misericórdia divina num absoluto ato de fé.

A palavra misericórdia origina-se do latim: miseratio, derivado de miserere, que significa “compaixão” e cordis, derivado de “cor”, “coração”.

A fé não é racional, nem cartesiana ou matemática. Fé é agir de acordo com o que o coração dita e impele.

Portanto, não posso dar provas de certezas íntimas, das coisas que brotam do cuore. Posso apenas contar minhas experiências e continuar acreditando na presença de Jesus em minha vida sem que, para isso, precise tocar suas chagas com as próprias mãos.

Escuta!

A frase que apareceu diante dos meus olhos: A psicanálise se ocupa do sujeito que a ciência deixa de lado. Não havia informações sobre o autor. Li mais uma vez em voz alta. Soou-me bonito!, não pela sonoridade do dito, mas pelo significado que dele ecoa.

No entanto, neste ponto específico, preciso defender a ciência. Fazer o que se chama mea culpa em seu nome. A medicina bem que tentou se ocupar do sujeito que, mais tarde, passou às mãos da Psicanálise, contudo viu-se impotente diante de casos complexos cuja falta de diagnóstico clínico, físico, orgânico ou biológico deixava os cientistas atordoados, de braços atados e de queixos caídos.

A ciência não os deixou de lado por livre e espontânea vontade, mas após admitir, a despeito de ferir o próprio orgulho, que não tinha meios suficientes e seguros para desvendá-los. As pacientes histéricas abalaram as estruturas do pensamento médico-científico racional e positivista de fins do século XIX, pois não havia causa aparente para os sintomas que apresentavam.

À maneira de um texto em que Clarice Lispector diz: Assim, repito, quando tivermos feito de tudo para conseguir um amor, e falhado, resta-nos um só caminho…o de mais nada fazer, parece que aos cientistas só restava cruzar os braços e nada mais fazer diante de doenças nervosas funcionais que não tinham causa biológica identificada.

Mas há os que não desistem do amor, mesmo após inúmeras tentativas fracassadas. E há os que não desistem das descobertas, ainda que muitos obstáculos se interponham no caminho ou quando o assunto a ser desvendado intrigue e desanime a maioria.

O médico neurologista Sigmund Freud parecia imbuído da certeza de que algo oculto poderia ser revelado, se fosse capaz de persistir; parte para a França a fim de presenciar as aulas em que Charcot tratava pacientes histéricas, por meio da hipnose, no Hospital da Salpêtrière.

O método hipnótico as levava a acessar conteúdos traumáticos do inconsciente e, por intermédio de sugestão do médico, os efeitos dos sintomas eram amenizados, de forma que as doentes apresentavam sinais de melhora. Entretanto, os sintomas retornavam. Uma vez que a hipnose conduzia as pacientes à inconsciência, ao saírem do transe as memórias patógenas fugiam à consciência, e voltavam ao porão.

Ao retornar da França para Viena e se unir com Joseph Breuer, Freud teve acesso ao método catártico, em que a paciente expunha os fatos traumáticos após acessar a memória e descarregar os conteúdos nela registrados por meio da fala consciente. Havia o estabelecimento de relação entre o médico e a pessoa submetida a tratamento, de modo que aquele utilizava-se da sugestionabilidade para influenciá-la e direcioná-la.

Freud percebeu a importância da escuta atenta e livre de julgamentos, de escutar o paciente pacientemente, e, ao criar a Psicanálise, estabeleceu como regra fundamental a associação livre para o analisando e a atenção flutuante para o psicanalista.

Freud chegou à conclusão que a causa da histeria eram os conflitos psíquicos, frutos de repressões porque passavam as pacientes e que as levavam ao adoecimento. Elas precisavam se expressar livremente, por meio da fala, sem objeções, censuras ou julgamentos. E o psicanalista deveria ouvi-las atentamente, sem interrupções e eximindo-se de priorizar um ou outro ponto específico da fala.

É sabido que a histeria acometia muito mais mulheres que homens, a ponto de, antes de diagnosticada sua causa psicológica, ser tachada como doença do aparelho reprodutor feminino. A própria etimologia da palavra é derivada do grego hystera, que significa útero. Acreditava-se que a patologia se instalava nos corpos de mulheres que não mantinham relações sexuais, de forma que o útero se deslocava pelo corpo produzindo os sintomas.

Se a histeria tem por causa a existência de conflitos psíquicos decorrentes de repressões, não é difícil compreender porque as mulheres foram as mais atingidas, uma vez que sempre tiveram de lidar com inúmeras obrigações e proibições que as mantinham presas, insatisfeitas e silenciadas. Elas precisavam exteriorizar o que as oprimiam, expulsar conteúdos doentios, dar o grito de desabafo. E, o que era mais importante, necessitava de quem as escutasse com o corpo todo e a alma inteira.

Entre os sintomas físicos manifestados pelas pacientes histéricas destacavam a paralisia, a cegueira e as crises nervosas. “Os paralíticos começaram a andar, os cegos passaram a enxergar e os endemoniados tiveram os seus demônios expelidos.”

Como não lembrar a samaritana, a mulher que sangrava há doze anos, a adúltera e o paralítico que não se dirigia às águas sagradas de um poço por não ter quem o carregasse? Não estariam também essas pessoas cheias de “ideias parasitas não conscientes no espírito do sujeito” de que falou Nasio? E Jesus as curava por meio do poder da escuta paciente, do não julgamento e da desconsideração de um passado de culpas e remorsos.

Quão intenso deveria ser o conflito psíquico vivido pela samaritana que já estava com o sexto homem numa época em que as mulheres não podiam se dar a essas liberdades! Diante de Jesus, ela se mostra: “Não tenho marido”. A verdade revelada frente a quem oferece-lhe água viva capaz de limpar toda a lama e jogar para longe os rejeitos de um passado acusador.

“Quem dentre vós não tiver pecado, atire a primeira pedra.” Jesus, muito antes de Freud, chamando a atenção para não julgar quem quer seja.

Que sabemos do outro, de suas vivências, de suas dores e de seus traumas? Quem sabe os demônios que cada um carrega dentro de si?, a exemplo da batalha interior experimentada por Paulo, que diz: Porque não faço o bem que eu quero, mas o mal que não quero, esse faço.

Creio que a psicanálise conquistará cada vez mais espaço à medida que compreendermos a importância de praticar ensinamentos tão antigos e essenciais, como os legados por Cristo, e que auxiliem pessoas a lidar com seus parasitas inconscientes. Para isso, precisamos abandonar as pedras, afastar dos lábios os julgamentos e acionar ouvidos do coração que permaneçam atentos para que a escuta seja paciente, verdadeira e transformadora.

Dilúvio

Quão surpreendente a descoberta de que há um mar dentro de mim! As lágrimas não param de descer durante dias a ponto de pensar onde ficam armazenadas, pois em meu pequeno corpo não há espaço para tanto. É o dilúvio, intuí. E sabe-se lá Deus quanto tempo levará até que possa dizer num brado: terra à vista.

A vida inteira

Abri as cortinas, o ar gelado invadiu a sala e o meu corpo, a chuva caía fina. Quatro e meia da manhã, o dia ainda escuro, silencioso como todos os domingos. Preparei o café ao tempo em que me vinham lembranças da época em que, neste mesmo horário, era despertada pelo meu avô para estudar durante a semana de provas. Ele fazia o melhor café do mundo, forte, adoçado na medida certa, cujo sabor nunca mais provei. Levava a xícara até mim: de mão para mão.

Mas nessa manhã sou eu mesma quem providencia a bebida quente que me aquece nas primeiras horas. E pensar no meu avô acalenta este coração que nada mais espera se não vier de graça como meus avós tudo me davam sem esperar algo em troca. Nem mesmo o amor que me direcionavam exigia retorno, crentes de que assim devia ser para preencher as faltas. O que me salvou e me calejou. Cresci numa redoma avoenga de amor e de proteção, e isso explica o resto. Mas eles se foram sem nunca imaginar que alguém quebraria essa barreira e me acertaria em cheio. Nada é tão seguro quanto se pensa. Um único ato e pouco resta.

Enquanto tomava o café lia apaixonadamente um livro que já me fizera companhia por horas no dia anterior. Às 5:30, um som alerta para o recebimento de mensagem via celular. Pauso a leitura para checá-la: “Acordei de um sonho. Lembrei-me de você.” Dois minutos após: “Na verdade, só me lembro de você.”

Apaguei.

É um pretendente que não desiste há pelo menos cinco anos. Nem sei se essa palavra “pretendente” ainda é usada para remeter àquele que deseja, quer ou almeja algo. Neste caso, eu. Soou-me tão fora de moda que até pareço viver noutros tempos. Tempos em que ser desejada por alguém me ouriçava toda. Ainda mais por um homem jovem, alto, bonito e forte como ele.

Não estou morta, se querem saber. Apenas cansada. E egoísta também, se preferirem nomear dessa forma. Dei-me tanto e inteiramente que chegou o dia de eu ser só de mim. Impacienta-me todo esse rodeio que um homem faz há séculos, a despeito de minha intuição e inteligência, para depois enunciar a grande e surpreendente proposta que conheço de cor. Ai que preguiça!

Deixei o emissor da mensagem sem resposta. Assim permanecerá até a hora em que Deus quiser.

Além do mais, estou lhe fazendo um grande favor, pois à medida que não me toca, mais desejo tem dentro de si. E o que é melhor, mais sonhos.

“A vida só é ruim para quem não sabe esperar” – disseram-me certa vez e, mesmo assim, avanço.

Quanto ao sonhador, que aguarde! Para quem esperou cinco anos não faz mal que espere a vida inteira.

A partida dos homens

Meu convidado de hoje para aquele café deliciosamente autoimposto de depois do almoço foi ninguém menos que o filósofo Friedrish Nietzsche. Até o momento nosso contato fora meramente esporádico, por intermédio de algumas páginas de “Além do bem e do mal” e pela leitura e releitura de “Schopenhauer como educador”, uma casual e grata surpresa saltada das prateleiras da Livraria Cultura num de meus passeios por entre os livros.

Encontramo-nos na Livraria Sebinho. Ele chegou “Humano, demasiado humano” para não perceber o êxtase com que comecei a devorar-lhe a capa. Sua escrita, de extrema elegância, sedutora e atraente me capturou nas linhas iniciais.

Aquele que proclamou: “Não sou um homem, sou uma dinamite”, disse-o bem. Explosão!

Senti-me o ser de “espírito-livre” que, em não existindo de fato, Nietzsche criou hipoteticamente para fazê-lo seu amigo. Aquele com quem podemos conversar e rir, nos momentos em que queremos conversar e rir, mas também podemos mandá-lo para o outro lado do planeta quando não estamos a fim de papo nem de nada. Tudo bem que fosse assim! O espírito-livre compreenderia.

A leitura estava tão instigante que até aceitei o oferta do garçom, mesmo diante da ameaça ao meu primeiro dia de dieta: “A senhorita aceita um brigadeiro?” Saborear um doce enquanto lia era a promessa do mais perfeito gozo corpo-espírito. Juntos numa só comunhão. Aceitei o gozo.

E como se mudamente eu pedisse para que aquela plenitude fosse logo embora antes que morresse de satisfação e de felicidade, eis que meu desejo foi atendido e o silêncio que me rondava gravemente interrompido.

Duas mulheres se sentaram na mesa ao lado. Uma delas não falava, gritava. Enquanto se exaltava e contava pormenores de sua vida em alto tom, eu mexia e revirava na cadeira, a encarava um pouco como quem diz “menos”, levantava o livro até a altura dos ombros na tentativa de que “se mancasse” e falasse mais baixo. Tudo em vão. Ela parecia pensar: “Agora mesmo é que vou berrar”.

Preferi não continuar o confronto mudo que iniciei e me pus a escutar a conversa. Contava para a amiga que havia se casado há um ano com outra mulher, mas que não se sentia aceita, amada, acolhida. Que a esposa não lhe dava atenção e preferia sair na companhia da irmã enquanto ela ficava de escanteio. Então, a sua criança interior esperneava. Ela contara à terapeuta e chegaram a conclusão de que fora uma menina carente em decorrência do desvio da atenção dos pais quando nasciam os irmãos. E reclamava de pessoas que não a escutavam, não lhe atendiam, não davam ouvido aos seus apelos. Estava visivelmente em desespero de causa. E falava tanto e mal de outras pessoas que, se fosse eu a esposa, o casamento teria durado apenas um dia.

Olhei para o seu prato, que estava muito cheio, e pensei: Essa prosa vai demorar é muito ainda. Saí e fui à procura de outro lugar mais tranquilo para continuar a conversa com Nietzsche.

Fui à Livraria Cotidiano e, mal havia lido duas páginas, chegaram quatro homens muito bem trajados e de semblantes alegres e serenos. Cumprimentaram-me, sentaram-se na mesa ao lado e, ao perceberem que eu estava lendo, não falavam, sussurravam.

Dessa vez, eu mesma quis ter o prazer de escutá-los. Tive de me esforçar, pois além de fingir que continuava lendo, falavam muito baixo. Nietzsche que me esperasse até mais tarde.

Eles discutiam negócios e brincavam uns com outros. Depois trouxeram para o centro da mesa uma pessoa que não estava presente. Diziam: ele é muito competente, sério, inteligente. O outro: o cara é confiável, já trabalhei com ele. Muito comprometido, tem postura. Ele é bom. De repente, sobre uma colega de trabalho: faça tudo que ela disser, pois além de competente… E deram risada. Eu entendi. Faça tudo conforme ela disser, sem medo, repetia outro.

Que conversa gostosa e bem humorada! Em momento algum reclamação, desespero, maledicência, crítica. Saíram de lá com a mesma serenidade com que entraram.

Não sei por que me ocorreu agora lembrar-me de uma entrevista em que Elke Maravilha diz que vivia numa casa com muitas mulheres, mas não gostava daquele ambiente onde ouvia muitas fofocas, indiretas e maldades de umas contra as outras. Então, pediu ao pai que a levasse para as pescarias que ele fazia com os amigos. Adorava estar entre os homens, pois os considerava brincalhões, leais entre si e mais verdadeiros.

Após a partida dos homens, fiquei encostada no sofá. Pensativa. Comecei a folhear o livro, aleatoriamente. Deparo-me com uma página em que salta aos olhos o título “Mulheres no ódio”, cujo início li: “No estado de ódio, as mulheres são mais perigosas que os homens…”. Fechei rapidamente o objeto.

Quem sabe um dia convide o filósofo para mais um café! Por enquanto, quero ficar entre aqueles que são humanos, demasiadamente humanos.

Meu destino

Talvez seja muito cedo para esboçar algumas linhas sobre algo que passou recentemente a ser objeto de meu interesse. Refiro-me à Psicanálise, procedimento investigativo de processos mentais derivados do inconsciente, método de tratamento de neuroses e área de conhecimento científico, que foi concebida pelo neurologista Sigmund Freud em decorrência de sua prática clínica com pacientes acometidas pela histeria.

Pode ser pretensão de minha parte enveredar, neste momento, por um assunto que demanda estudo abrangente e profundo, mas ousada que sou, quero arriscar.

Certa vez, um amigo me afirmou que a literatura antecipa possíveis avanços da ciência e de outros ramos do conhecimento. No momento, não compreendi muito bem, mas a informação ficou armazenada em algum lugar dentro de mim.

Sempre tive curiosidade bastante aguçada, sede faustiana pelo conhecimento e ímpeto ardoroso por descobertas. Desde criança, os livros me despertam, os acontecimentos cotidianos demandam minha atenção e as conversas das pessoas me interessam. Fui e sou atenta a tudo. Uma menina viva e disposta a penetrar nas profundezas das coisas.

É provável que a literatura de Clarice Lispector tenha me seduzido desde o primeiro contato por se dispor a cercar e a rondar o escondido da existência, aquilo que não vemos, mas nem por isso deixa de ser real. O invisível, o oculto, a entrelinha, o enigma, o que não é dito no dito. Tudo funciona como isca para capturar os sequiosos de mistério. Há algo na vida que escapa a todos os conceitos e saberes. Algo que ri de nossa razão insuficiente, que brinca e zomba de nós quando pensamos ter o controle.

Antes de adentrar precisamente na Psicanálise, aventurei-me nas Neurociências, que se dispõe ao estudo do funcionamento do cérebro, suas funções cognitivas como memória, atenção, aprendizagem; as emoções, os sentimentos e os comportamentos humanos.

As Neurociências se aprimoraram com o desenvolvimento da tecnologia, em especial a partir dos exames de neuroimagens, que possibilitaram verificar, em tempo real, quais regiões do cérebro são ativadas em determinados estados experienciados por uma pessoa, como medo, raiva, alegria, tristeza, entre outros.

Além do mais, procurou afastar o dualismo corpo-alma, principalmente ao constatar que a lesão de determinadas áreas cerebrais afetam e comprometem certas funções corporais, cognitivas e sensoriais. Assim, parte da premissa de que é o corpo quem produz a consciência. Portanto, Descartes estaria redondamente enganado ao supor que seríamos uma espécie de máquina animada por uma alma. Para as Neurociências, a máquina é animada por si mesma, por seus próprios processos neurais.

Ocorre que, saber qual região do cérebro é ativada quando, por exemplo, estamos com medo, não explica de onde vem a consciência do medo. Não se pode afirmar em que lugar do cérebro ela mora ou o que a produz. Os cientistas não descobriram a origem da consciência que nos faz saber onde estamos e o que se passa dentro e ao redor de nós. Eis o que escapa às Neurociências. E eu não posso deixar de lembrar Shakespeare: “Há muito mais coisas entre o céu e a terra do que pode imaginar vossa vã filosofia.”

E como se não bastasse a procura inócua, movida por um implacável desejo de busca, deságuo no mar da subjetividade de um saber que sobrevive mais de perguntas que de respostas, e que mergulha num universo de incertezas, onde o resultado de dois mais dois dependerá do sujeito que “fizer a conta”.

A Psicanálise está submetida às flutuações da subjetividade. E a subjetividade foge às certezas, além de suprimir todos os espaços em que se pretenda instalar verdades.

Cada sujeito é único, irrepetível, individual, física e psiquicamente. Sua constituição envolve questões genéticas, ambientais, fisiológicas, orgânicas, espirituais, culturais e tantas outras que até soa ingênuo a tentativa de aplicar a mesma fórmula indistintamente para todos, ou mesmo dois.

A Psicanálise surgiu da tentativa de compreender algo que escapava à ciência, no momento em que os médicos se quedaram mudos e impotentes diante de um território em que seus conhecimentos eram por demais insuficientes para entender e dominar certas manifestações. Como explicar a incidência de doenças nervosas em pessoas cujo aparelho físico estava em condições perfeitas de operação? E como explicar que pessoas conseguiam minimizar e eliminar os efeitos dos sintomas da histeria ao dar vazão ou voz, por meio da fala, aos episódios e eventos traumáticos vivenciados?

Freud percebeu a importância da escuta para a cura das pacientes, não uma escuta qualquer, mas aquela que se dá com o corpo todo, livre de restrições, interrupções, censuras e julgamentos. Assim, as regras básicas para que determinado método seja considerado psicanalítico é o que ele denominou de “associação livre”, aplicável ao paciente; e “atenção flutuante”, ao psicanalista.

O analisando iniciará o tratamento com a plena liberdade de começar sua fala por onde preferir, aleatoriamente, sem qualquer sugestão do analista, que deve escutar tudo sem se prender ou priorizar um fato ou outro. O psicanalista deve partir do pressuposto de que o paciente sabe muito mais a respeito de si próprio do que aquele para quem ele fala. É preciso deixar que o inconsciente emerja com toda a sua força; é necessário permitir que a cobra rastejante das cavernas submersas percorra a superfície para que seja capturada, ainda que ela novamente fuja ou escape, pois morrer, ela nunca morre.

Não pude deixar de pensar que se a escuta atenta e livre de interrupções e julgamentos é uma das chaves para que o paciente se sinta um pouco aliviado, nós somos péssimos “psicanalistas” uns dos outros. Raras vezes conseguimos escutar verdadeiramente alguém sem intromissões, quebras ou ensaios de respostas, ao tempo em que o outro fala, baseadas no juízo que fazemos de como o falante deveria agir e que parte tão somente de como pensamos que agiríamos, pois nem sempre há proximidade entre o que conjecturamos e praticamos.

A falácia mais descabida que conheço, tão descabida que está na boca de todo mundo, é a tal da empatia. Impossível se colocar no lugar de outro sujeito. Trata-se de um exercício impraticável que foi elevado a princípio máximo, ocupante do topo das paradas, justamente pelo seu caráter inalcançável. Para, hipoteticamente, nos colocarmos no lugar de alguém teríamos que vestir suas roupagens antes mesmo do início de seu tempo. Empreender um esforço hercúleo de tentar imaginar suas condições desde antes do nascimento até o momento do desejado exercício da empatia. É simples lidar com o irresolúvel. Basta respeitar o fato de o outro ser outro. Só ele pode dar respostas a si mesmo, talvez a única grande coisa que podemos fazer é ajudá-lo a enveredar por seus territórios.

Freud sugere que o analista diga ao paciente: “Antes que eu possa lhe dizer algo, tenho que saber muita coisa sobre você; conte-me o que sabe a respeito de si próprio.”

Ou seja, para afirmarmos algo sobre uma pessoa seria necessário, como dizia minha avó, comer um saco de sal com ela. Claro que estou sendo hiperbólica, mas devemos admitir que tudo que não fazemos é conhecer um pouco da história de vida de alguém para emitirmos nossas opiniões a seu respeito. Ninguém escuta ninguém. As pessoas são canceladas e excluídas por um única opinião, uma imagem, um acontecimento isolado, uma ideia divergente e outras ocorrências ínfimas a que nos apegamos e nos damos o direito de julgar o todo, eliminando-as ou atirando nelas a indiferença, a fixidez e a crueza de que somos destinatários e algozes.

Cá estou mergulhada no universo psicanalítico a que fui conduzida pela insaciável sede de que sou feita da cabeça aos pés e que tão bem sintetizou a poeta mineira Adélia Prado: “Para o desejo do meu coração, o mar é uma gota”.

Rendo-me à busca de algo que está além e aquém de mim com o ardor de uma criança a descobrir o mundo. Meu destino é a procura incessante, permanente, infinita. Não necessito de âncora que, a pretexto de me oferecer segurança, ousa me prender como fazem aqueles cuja fome voraz encarcera os que dizem amar.

Meu destino é não ter destino. É querer saber tudo, mesmo sabendo que absolutamente tudo nos estreita e nos escapa.

Amantes

Fitaram-se: quatro olhos se acenderam brilhantes; bocas sorriram. À distância mesmo tocaram-se levemente com as pontas dos dedos. Uma possibilidade de amor lhe esquentava. Abria-se mais e mais, porque era com muita doçura que o homem pedia. Dava-se sem medo. O corpo queria o prazer de um novo toque que, de longe, se fazia sentir.

Quando, em outros tempos, preparava-se para receber aquele que não aparecia nem se explicava, esperava-o crente de que a espera é natural de quem ama. Até descobrir que amor é quando a pessoa chega minutos antes.

Com meia hora de antecedência lá estava o amante. Sorridente, dizia-lhe que a aguardava há um bom tempo. E ela se sentia amada porque se forçava a confundir desejo com amor. Nunca sabia muito bem o significado das palavras, a dimensão ou o alcance delas e, por inocência ou esperteza, deixava-se levar como quem é tomada de fé.

Punha-se a esperá-la por alguns minutos. Tirava a aliança e colocava-a no bolso antes que a amante chegasse. Não pretendia ocultar-lhe sua condição. Cada um sabia em relação ao outro que havia em casa quem os esperavam. Era um gesto de pura delicadeza e cuidado para evitar que, quando estivessem juntos, olhasse o objeto que a faria lembrar da outra, ainda que a marca no dedo não deixasse escapar a ninguém a evidência de uma longa história. Ela notava. Nada dizia para não se obrigar a fazer o mesmo. Não lhe incomodava que ele visse em sua mão a prova de que outro também a possuía. Quem sabe isso o faria desejá-la até mais.

Abraçavam-se cheios de saudade. Enquanto sussurravam um ao outro, as mãos entrelaçadas ou a dela acariciando-lhes os mágicos dedos; os olhares fixos um no outro, mergulhados no desejo intensificado à medida que não se entregavam por inteiro.

A mulher cheia de si, mal sabia que ele adiava o momento apenas para segurá-la com mais força. Era desejo o que fingia acreditar ser coisa mais profunda apenas para se dar o luxo de imaginar-se duplamente amada.

Seduzir era o que o fazia se sentir cada vez mais vivo e alimentava seu vigor diante de si mesmo. Dizia o que ela necessitava ouvir, mandava-lhe flores e presentes, parecia adivinhar-lhe os pensamentos quando fazia soar em seus ouvidos uma música que traduzia o que ela sentia.

Suspiravam e o ar entrava pleno em seus pulmões. Era a vida alimentando e revitalizando todas as células do corpo. Seja lá o que fosse, seria com a indestrutível força do que ambos queriam. Algo de que eles não ousaram fugir.